Nessa mesma noite, tive pesadelos.

Estou vestida com um vestido amarelo bem simples. Olho para minhas mãos e vejo que elas não estão pintadas com meu esmalte rosa habitual, e sim com um tom nude que não contrasta com a minha pele. Olho para frente e vejo um pequeno e antigo espelho preso à parede. Meu rosto está com uma leve maquiagem, sombra clara e um blush rosado, mas ainda assim bem mais do que eu costumo usar. Toco em meus cabelos e vejo que eles estão amarrados em um grande rabo de cavalo. Mas por que raios estou dessa maneira?

Então eu esqueço-me um pouco dessa pergunta e várias outras surgem: onde estou? Que casa é essa? Por que tudo ao meu redor parece tão velho?

Resolvo sair daquela casa. Pelo pouco que eu consigo me situar, provavelmente estou na sala de estar. O sofá parece ser confortável, apesar de empoeirado. Ando lentamente pelo chão de madeira, rangendo em algumas das tábuas. Estou usando sapatilhas. Eu nunca uso sapatilhas. A porta tem uma elegante maçaneta de ouro (não sei se maciço, mas pelo menos banhado em ouro). Giro-a lentamente e puxo a porta.

Porém, bem no gramado da casa, vejo Jaden deitado no chão. Sangrando muito.

E com uma faca cravejada bem no meio do seu peito.

— Alice...

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Acordo gritando, e Elliot está me encarando pálido.

— Ei, ei... — Ele me abraça forte. — Calma... Não fica assim.

Meu corpo inteiro está tremendo. De todos os pesadelos que tive, este foi com certeza o mais vívido e o mais mórbido. Sinto as lágrimas descerem por minhas bochechas e molharem o ombro dele, que acaricia meus cabelos enquanto sussurra uma pergunta. Elliot quer saber o que aconteceu.

— Outro pesadelo, Elliot. — Choramingo, agarrando-me com todas as minhas forças à sua camiseta. — Eu vi Jaden morto no chão. Quer dizer, quase morto. Ensanguentado. Com a faca ainda no peito. Ele chamou pela Alice antes de eu acordar.

Meu namorado me abraça mais forte. Eu queria muito esquecer o que eu sonhei, mas sei que vai ser muito difícil. As mãos dele acariciam minhas costas.

— Olha pra mim. — Ele pede mas eu não obedeço. Estou tão assustada... — Por favor, Vanessa, olhe para mim.

Levanto meus olhos para encará-lo, e encontro um olhar de ternura e carinho em minha direção. Sorrio para ele, mas sei que isso não o convenceu de que eu estou bem. Ele suspira lentamente e me encara.

— Você quer falar sobre o que viu?

Faço que não com a cabeça, mas noto que ele realmente quer saber o que aconteceu. Talvez ele ache que o que vi poderá nos ajudar mais tarde, ou talvez ele só queira que eu me acostume com as imagens para que, quem sabe, eu consiga voltar a dormir ainda hoje. Decido que vou falar de qualquer maneira.

Explico tudo para ele, até mesmo a conversa que tive com Jaden antes de dormir. Enquanto falava, sentia aquela mesma sensação de calor que Jaden usa para me confortar. Ele está tentando me acalmar. Oh, isso é o que eu precisava... É quase como um analgésico isso que ele faz. Eu acabo deitando minha cabeça no colo de Elliot, e ele faz cafuné em mim.

— Provavelmente a conversa que você teve com ele te fez ficar muito assustada, italianinha. — Ele continua mexendo meu cabelo. — Mas isso foi a muito tempo atrás, e sem falar que você não viveu isso. Não estava lá naquele momento trágico. Você tem que descansar agora. Tenta não pensar nisso, tudo bem?

— Como eu não vou pensar nisso? — Sento-me normalmente na cama. — Foi tão horrível...

Até então, Elliot parecia estar muito preocupado, mas um pequeno sorriso no canto de sua boca me deixou curiosa.

— Talvez se concentrando em... — Ele me puxa pela cintura e me faz sentar em seu colo. — ...Outra coisa mais interessante.

Deus, eu não consigo resistir a ele. Suspiro enquanto ele beija meu pescoço, e sinto aquele perfume delicioso de cabelo recém-lavado. Ele não podia ser tão lindo e charmoso assim... É uma arma letal que faz com que eu ceda por qualquer motivo. Ele lentamente me deita na cama, me beija profundamente e de repente para.

— O que foi? — Pergunto, já um pouco desapontada com a interrupção.

— A gente vai ter que acordar cedo. Melhor não fazermos nada essa noite. — Ele beija minha têmpora. — Vamos descansar. Tente sonhar comigo.

Eu rio e ele puxa o edredom até me cobrir e logo depois entra debaixo das cobertas também. Elliot me abraça forte.

— Boa noite. — Ele sorri. — E lembre-se de que eu adoro você.

Não pude evitar de sorrir.

— Eu também adoro você. Muito mesmo. — Lentamente fecho os olhos.

E, quando ele acha que já adormeci, ele sussurra.

— Eu te amo, Vanessa. — Ouço-o sussurrar. — Eu te amo.

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Acordo me sentindo a pessoa mais feliz do universo. Não tive nenhum pesadelo, mas principalmente estou feliz pelo que ele me falou. Quer dizer, pelo que ele achou que disse somente para si mesmo. Eu não sei bem o por que de tanta felicidade. Não é a primeira vez que alguém fala isso pra mim, e todas as vezes anteriores eu respondia com um "sério? Pena que não é recíproco" e saía andando normalmente.

Mas, pasme, eu não quero fazer isso. Na realidade, o que eu quero fazer é falar a mesma coisa para ele. Sendo franca, acho que eu nunca disse um "eu te amo" para ninguém.

— Bom dia, Vanessa... — Ele se espreguiça e boceja. — Quinze para as seis. Dá tempo, não dá?

Nem respondo, abraço-o e encho seu rosto de beijos. Não dou nem tempo para ele me segurar também, porque eu o solto rapidamente. Elliot parece embasbacado com minha ação, mas isso não o impede de me puxar de novo para perto dele.

— O que é isso? — Ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. — Acordou bem disposta, não?

— Eu te amo. — Sussurro, totalmente envergonhada. — Eu te amo, Elliot.

Até que enfim, Vany. Jaden sussurra. Eu realmente não via a hora de você confessar isso para você mesma. E para ele também.

— É sério? — Ele fica me encarando e eu sinto felicidade irradiando por seu olhar. — Eu...

— Não fala nada. — Eu coloco meu dedo indicador em cima de seus lábios. — Se não eu fico muito envergonhada. Anda, vamos nos arrumar.

Ele continua olhando para mim, vestindo sua calça e eu faço o mesmo. Ele parece estar um pouco confuso, além de extremamente feliz, de acordo com seu enorme sorriso

— Você não vai nem perguntar se eu te amo também? — Ele pergunta.

— Mas eu já sei a resposta. — Viro-me para ele. — Você me disse a resposta ontem à noite.

O rosto dele ficou vermelho como uma pimenta. Elliot encarou o chão, voltou a olhar para mim e sorriu.

— Pensei que você estivesse dormindo. — Elliot confessa, vestindo sua camisa. — Eu preferiria que eu houvesse dito isso de uma maneira mais especial do que foi.

— Mais especial? — Fecho os últimos botões da sua camisa. — Eu não sou disso. Só por você ter dito, eu já fico feliz. Anda, vamos nos ajeitar.

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— Acho que aquele é o ônibus, não é? — Elliot olha para as passagens. — É sim. Ônibus número 827.

— Então é melhor entrarmos. — Digo para ele e arrasto minha mala para o ônibus.

O motorista desce do ônibus e nos ajuda a colocar as malas no bagageiro. Não há muitos passageiros para Garsdale, acho somente uns vinte, e contando com nós dois. Subimos no ônibus e sentamos lado a lado.

— Estamos cada vez mais perto. — Ele beija minha bochecha. — Estou feliz por você. Por estarmos chegando cada vez mais perto de solucionar tudo isso.

— Eu também. — Suspiro, e o motorista liga o motor. — Eu também estou feliz.

Notas finais
Reviews?