Connected Spirits

23 A poucos passos do final


Assim que falo isso, o quadro volta para sua posição original.

Eu... Desculpe-me. Ouço Jaden soluçar. Desculpem-me pela bagunça.

— Jaden? — Chamo-o. — Você está bem?

Não fala nada comigo, Vany. Eu só estou... Ele faz uma pausa. Só estou confuso. Não precisam sair dessa casa por minha causa.

Eu não falo nada. Descobrir que a pessoa que achava que era sua amada numa vida passada na verdade era seu assassino não deve ser muito fácil, principalmente pra ele. Não sei por que, mas acho que ele meio que transferiu o amor que sentia por Alice pra ela. E depois que a verdade veio à tona, ficar transtornado era a reação mais normal que Jaden poderia ter, não é?

Essa ira que Jaden sentiu... Não foi a primeira vez. Quando eu era menor, disse que nunca o ajudaria a nada. Ele ficou tão furioso comigo que saiu destruindo todos os vasos de porcelana da casa (eram muitos). E quem foi que assumiu a culpa depois, quando os pais voltaram pra casa? Bingo, eu.

Confesso, eu tive medo. Tanto quando era menor como agora. Por um milésimo de segundo eu me sinto desamparada, mas então Elliot me abraça e todas as lembranças ruins da infância somem.

— Fica calma. — Ele beija minha testa. — Ele não estava com raiva de você. Ele não vai machucar a gente.

— Eu sei. — Sorrio, mas estou preocupada. — Mas Anna e principalmente Suzanne estão em perigo. Ele tem motivos de sobra pra querer matá-las.

Eu não farei isso. Jaden mais uma vez fala. Por mais raiva que eu tenha, não farei isso, nem com vocês, nem com elas.

— Você promete, Jaden? — Indago.

Prometo.

Suspiro aliviada, voltando-me para Elliot. Seus olhos castanhos quase pretos me encaram num misto de curiosidade e preocupação, e perceber isso me traz uma profunda sensação de felicidade. Às vezes quando me sinto perdida e confusa, a única coisa que eu preciso para voltar ao normal é de um olhar amigo. Um olhar de carinho e preocupação. Um olhar que eu nunca tive quando era criança, adolescente. É isso que me faz ter certeza do quanto eu amo, do quanto eu preciso desse homem.

E eu tenho todos os motivos para perdê-lo. Ele pode muito bem se cansar de mim. Pode também se apaixonar por outra, ou até mesmo... Sei lá. Tento reprimir esses pensamentos quando uma ideia surge em minha mente.

— Elliot... Deixa eu pintar você?

— Como assim? — Ele sorri, ainda mais confuso.

Seguro sua mão firmemente.

— Eu só quero eternizar você. — Ajeito seu cabelo. — Não quero te perder.

— Você nunca vai me perder. — Ele me encara, passando sua mão entre meus cachos. — Aliás, não acha isso muito "Titanesco" não?

Sorrio por causa do neologismo. Seria engraçado se eu o pintasse usando somente um colar.

— Eu sei, mas ainda assim... Deixa? — Sorrio para ele. — Acho que pintar vai me ajudar a relaxar depois disso que aconteceu.

Ele está contente.

— Deixo. — Ele suspira. — Mas por acaso você trouxe tinta, pincéis, uma tela em branco e um cavalete?

— Nunca viajo sem. — Vou até minha mala e abro o compartimento secreto dela. De lá tiro minhas mini tintas, mini pincéis, uma mini tela e um mini cavalete. Ele ri da cena e se senta ao lado da janela, na poltrona, antes mesmo de eu pedir.

— Agora você fica quieto, certo? — Sorrio. — Se não vai ficar parecido com alguma obra de Picasso.

Ele prende a risada e fica sério, olhando diretamente para mim. Lentamente deslizo o pincel menor e tracejo as bordas com a cor de preenchimento de cada objeto. Pintar exige paciência, algo que fui adquirindo com o tempo. Ora, tanto tempo sozinha em casa... Ou eu ia para as drogas (lícitas e ilícitas) ou para as artes. Escolhi as duas opções, mas a pintura me fez desistir da auto-destruição. Acho que para ser um artista você tem que, além de ter dom, ser solitário. Muitas pessoas só fazem as ideias ficarem bloqueadas. As pessoas só te impedem de criar, de ter ideias próprias. Eu tive a oportunidade de não ser incomodada enquanto eu pintava, e acho que é por isso que eu amo o que faço. Talvez também por ser a única coisa que sei fazer bem.

Após quarenta minutos eu já tenho um esboço do que será a tela. Mostro para Elliot.

— Mentira que eu sou tão bonito assim. — Ele arfa. Quarenta minutos na mesma posição não é para fracos.

— Tão modesto... — Brinco, sentando-me no seu colo. — Obrigada pelo elogio. Está um pouco ruim por que fiz com pressa, mas amanhã eu termino.

— E não está pronto? — Ele limpa minha bochecha, provavelmente suja de tinta azul. — Pra mim está perfeito.

— Mas o quadro não é pra você. É pra mim. — Confesso, e ele me agarra pela cintura. — Tem que ficar perfeito. Perfeito como você.

E então eu esqueço Jaden. Dele e de Anna, de Suzanne, de Alice, de carta... A única coisa que me importa é ter aqueles braços ao meu redor. Ter aqueles lábios encostados nos meus, ou em minha pele. Outra qualidade de Elliot: Ele me faz esquecer de tudo que está acontecendo de ruim ou preocupante no momento. As mãos dele me puxam para mais perto, os olhos dele não desviam nenhum momento dos meus. Minha respiração fica irregular quando sinto as mãos dele apalpando cada centímetro meu, e quando as mãos dele deslizam por debaixo da minha blusa e chegam ao fecho do sutiã, sei que ficarei entorpecida por mais um bom tempo.

E em meio as tintas e pincéis, ele me leva para cama.

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A janela do quarto está semiaberta, deixando o quarto frio o suficiente para arrepiar minha pele. Elliot acaricia meu braço de leve, e sua respiração estava pesada. Solto uma risadinha quando ele boceja.

— Por que você fica com sono depois de transar?

— Todo homem fica. — Ele dá de ombros.

— Mas você é diferente dos outros caras. — Apoio-me nos meus cotovelos. — Depois do serviço, você dorme feito uma pedra.

Ele faz um biquinho.

— Você já ficou com quantos caras pra saber que sou diferente? — Elliot se senta na cama, olhando para mim.

— Isso nao é importante. — Fico envergonhada.

— Vanessa...

Suspiro e puxo o lençol para cobrir meus seios, assim que me sento.

— Você é... deixe-me fazer as contas... — Começo a contar meus dedos de brincadeira, e meu namorado começa a rir. — Sério, você deve ser meu nono. Ou décimo. Você sabe que minha adolescência foi... Conturbada.

— Razoável, contando com isso. — Ele sorri. — Eu me destaco, pelo menos?

— Você viu o quanto eu tive que me controlar para não gritar alto demais e chamar a atenção de Anna e Suzanne? Você é muito bom. — Cubro minhas bochechas. — E eu sou a sua...?

— Quarta. — Ele logo se apronta em responder. — E você também se destaca.

Ele me agarra de novo e, com certeza nós iríamos ficar ocupados por mais um tempo, mas escuto um sussurro em meu ouvido.

Vany, Jaden me chama. Preciso falar com você.

— Espera, Elliot. Jaden quer falar comigo. — Afasto-o e ele para de beijar meu pescoço.

— Tem que ser agora? — Meu namorado parece chateado. — Por que que ele tem que roubar minha namorada logo agora?

Olho para ele com resistência, e Elliot logo entende a importância de falar com Jaden depois do que aconteceu hoje mais cedo. Ele diz que vai cochilar um pouco antes do jantar e aproveito para falar com o fantasma.

Ando em direção à sacada, e mesmo sem olhar para trás, sinto a presença dele atrás de mim. Assim que chego, sento-me na cadeira e ele fica de frente para mim.

— Eu não quero que vocês vão embora daqui por minha causa.

— Você ficou descontrolado. — Suspiro. — Me assustou muito. Eu até pensei que você poderia matar Anna e principalmente Suzanne.

— Eu não sou assassino. — Ele fala seriamente. — Jamais faria isso com ninguém, mesmo que merecesse muito; como essas duas.

Sorrio calidamente.

— Isso é bom de se ouvir. — Minha expressão, porém, logo muda para preocupação. — Mas sabemos que Suzanne não é Alice. O que faremos agora?

— Eu sei que ela está aqui na cidade. Em algum lugar... — Ele olha para a rua deserta abaixo de nós. — Devemos voltar a minha casa. Eu sinto que a resposta para nossa dúvida estará lá.

— Mas nós já fomos na sua casa. Não há nada de mais lá.

Ele sorri.

— Com minha casa, quero dizer a que eu vivi nos últimos meses de vida. — Ele começa a desaparecer mais uma vez. — A casa da minha mãe. É lá onde está a carta.

Suspiro, voltando para meu quarto logo em seguida, mas não tão rápido o suficiente para deixar de escutar um último comentário dele.

Você e Elliot são, definitivamente, o casal mais bonito que eu já vi. Ouço um suspiro. Mais bonitos que eu e Alice, para ser franco.

Notas finais
Reviews?