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8 O Encontro que Não Deu Muito Certo


Notas iniciais
Oi, oi pessoas. Voltamos com mais um capítulo! Esperamos que vocês gostem~~ Boa leitura.

YURI P.O.V

Eu nunca havia entrado de fato na Universidade Shinhwa, mas conhecia muito sobre o Grupo Shinhwa — o mínimo esperado da herdeira da segunda maior parte das ações da multinacional. E, apesar do pensamento me dar calafrios, assumir aquilo que meus pais tanto batalharam para conquistar os deixava extremamente orgulhosos.

Lembro-me de quando descobri que iríamos nos mudar para o Brasil – o país que visitaram em sua lua de mel. Mesmo carregando muitas responsabilidades nas costas, eles decidiram se mudar para ter mais tempo para cuidar da filha de 10 anos. E, por eu ser tão pequena na época, não me consultaram.

E eu não queria aquilo. Não queria de jeito nenhum.

Eles fizeram um acordo com o próprio Jung Shinhwa, presidente do Grupo Shinhwa — até tomei um susto quando descobri que eram próximos; parece que estudara com meu pai ou algo do tipo. Acordaram que eu herdaria as ações e tomaria conta delas quando sentisse que estava preparada. Claro que eles que escolheriam quando eu estava preparada, mas, como foi parte do acordo para eu voltar para a Coreia, não estava reclamando.

Lembro que, quando chegamos ao Brasil, fomos bem acolhidos pelas maiores elites da região. Festas de luxos, bebidas caras e ostentação; nada daquilo me agradou – nem naquela época nem agora. O que eu realmente queria era a vida de uma adolescente coreana normal — com trabalhos de meio-período e noites de karaokê. Não me entenda mal; eu era profundamente grata pelas facilidades que o dinheiro dos meus pais me proporcionava, mas se pudesse vivenciar a responsabilidade de trabalhar pelo meu próprio dinheiro, me sentiria mais independente. Por isso que, ao voltar para a Coreia, pretendia aproveitar a situação de ter um sobrenome comum e viver do jeito mais simples que conseguisse.

Isso se Jung Shinhwa não tivesse insistido para os meus pais me colocarem na USH.

Conhecendo um pouco da incrível cortesia da elite coreana, resolvi perguntar para Jinhee como eram as pessoas naquela universidade. Ela cresceu naquele ambiente, já que era herdeira da maior rede de hospitais sul-coreanos. Eu sabia como era; sempre os mesmos rostos, as mesmas conversas.

— Como assim? – ela perguntou.

— É que eu venho de uma faculdade particular, e a maior parte das pessoas de lá eram ridicularmente esnobes. Tipo, esnobes no nível de me excluírem das conversas por eu pegar ônibus.

— Ah – ela fez uma careta — É, bem, com certeza tem umas pessoas assim aqui.

Suspirei, já esperando por aquela resposta.

— Mas, olha – ela sorriu. – Tem muita gente legal, também. Aposto que se você procurar vai fazer amizade rápido.

Assenti, pesarosa quanto ao futuro. Se no Brasil – onde as pessoas eram culturalmente amigáveis e sociáveis — eu tinha dificuldade em fazer amizade, imagina na Coreia.

***

O primeiro pensamento que me veio à cabeça quando adentramos na universidade foi que a sua entrada era semelhante à de um museu; os portões assumiam uma aparência greco-romana, com colunas jônicas de cor branca. ‘’Universidade Shin Hwa” estava escrita em letra cursiva em uma placa vermelha enorme.

Tudo era bonito e cheio de detalhes. Havia prédios por todos os lados, identificados por faixas presas em colunas que ficavam próximas à porta; os edifícios eram alaranjados ou brancos, e vidraçarias absurdamente caprichosas decoravam suas extensões. Outra coisa que me chamou a atenção – despertando o meu lado fotógrafo – foi a natureza bem conservada, com um jardim exuberante ao redor da estrada pela qual Jinhee dirigia.

Quando ela estacionou o carro, uma música de Namjoon foi anunciada pelo locutor. Entreolhamos-nos, rindo.

— Acostume-se. Ele está sempre nas rádios daqui – ela sorriu.

— Sabe o que consegue ser mais estranho que isso? — apontei — Você ter que dirigir para sua unnie.

Ela riu.

— Unnie, eu prometo que em algum dia te ensinarei a dirigir em Seul — estendeu seu mindinho. — Você já sabe dirigir, não é?

Entrelacei nossos dedos.

— Sou uma boa motorista — garanti.

Ela destrancou a porta do carro, fazendo com que eu respirasse fundo.

— Tudo bem, estou nervosa — mordi os lábios.

Ela fechou a porta de volta e suspirou, paciente.

— Você costumava comer tudo o que via pela frente quando ficava nervosa – lembrou, sua voz gentil me dando um efeito calmante.

— Hoje em dia eu sinto meu estômago revirar — massageei as têmporas. — Falando nisso, acho que estou passando mal.

— ‘’Você é capaz de tudo se você se esforçar’’ – ela inclinou a cabeça – Você cantava isso todo dia, depois de ficar viciada naquele programa dos esquilos falantes. Lembro porque cantou para mim naquela vez no aniversário da Chanhee, que eu quis fazer um discurso para homenagea-la.

Um sentimento de nostalgia invadiu meu peito e um sorriso se formou em meus lábios.

— Vai dar tudo certo – ela fez ‘ok’ com o polegar.

— Obrigada, Jinheeah.

Suspirei fundo, ainda nervosa, e nós descemos do carro.

Jinhee vestia um vestido branco e um sobretudo azul pastel, acompanhados pelo seu inseparável salto alto — já que nunca gostou de se sentir baixa. Eu estava com uma saia escura e uma blusa branca, e usava também meu coturno preto pela primeira vez — Jinhee havia insistido, dizendo que era uma graça. Escolher as roupas para meu primeiro dia de aula havia tomado nossa manhã inteira, e eu estava grata pela ajuda.

— Unnie — Jinhee pegou seu celular na bolsa—, o prédio de medicina fica daquele lado, e o de fotografia segue nessa direção.

Mordi os lábios, com um mau pressentimento.

— Vamos nos separar, não é?

— O meu professor odeia atrasos e sempre chega mais cedo, então não vou poder acompanhar você até seu prédio — ela se desculpou, contorcendo os pés no chão. — Mas você pode pedir ajuda para algum estudante de Direito, já que o prédio deles fica ao lado do seu – ela franziu as sobrancelhas, checando as horas. – O prédio não fica muito longe e-

— Tudo bem, Jinhee-ah — a assegurei — Não se atrase, eu consigo cuidar de mim mesma.

Concordou com a cabeça e levantou os punhos no ar antes de se virar e correr na direção de seu prédio.

— Fighting!

— Fighting — acenei de volta.

Senti meu sorriso se desfazer a cada passo que dava, sem saber ao certo para onde deveria ir. As pessoas andavam em grupo como se fosse uma regra — olhavam-me dos pés à cabeça e eu sentia como se estivessem julgando cada detalhe em mim. Sem saber ao certo como reagir, segui em frente mexendo no celular como que alheia ao meu redor.

No Brasil seria totalmente diferente. A miscigenação dificultava saber se eu era, de fato, estrangeira — e as pessoas vinham me cumprimentar por causa da minha aparência frágil. Tecnicamente, eu sou o oposto do padrão de beleza latino; branca demais, magra demais e tímida demais. Apesar de não ser uma garota envergonhada quando morava em Seul, conviver em um ambiente totalmente inverso ao que estava acostumada me fez... não fraca, mas pesarosa. Depois de tanto tempo, havia esquecido como realmente expressar como estava me sentindo.

Meu pai se preocupou muito no começo, percebendo minha falta de adaptação. Certa vez escutei ele comentar com minha mãe sobre as probabilidades de eu estar em depressão, então preferi fingir que estava tudo bem.

Tinha dez anos quando me separaram de toda a cultura com a qual eu estava familiarizada, e, sem as minhas inseparáveis amigas de infância, fiquei totalmente sem rumo. Passei a ir para a psicóloga depois de dois meses no país novo – percebendo, então, que aquilo não era só uma viagem a passeio temporária e não tinha como voltar atrás.

Não queria que minhas dongsaengs sentissem pena por eu ter passado os anos em que estivemos separadas me ancorando em nossas memórias juntas durante a infância, portanto tratei de melhorar meu humor assim que reencontrei Namjoon no aeroporto, agindo como a antiga Yuri que eles conheciam.

Minha escolha de voltar para Seul não foi feita da maneira mais sábia — para ser franca, eu só queria fugir da minha realidade no Brasil (principalmente do meu ex-namorado e da minha ex-melhor amiga).

Respirei fundo, tirando as lembranças da minha mente.

Continuei a andar reto, como se soubesse para onde estava indo. Vários carros caros passavam na rua e pessoas vestindo roupas extravagantes caminhavam ao meu lado. Eu olhava atentamente para as identificações dos prédios, mas a ordem em que estavam dispostos não parecia ter um padrão. Administração, música, gastronomia; a sequência era totalmente aleatória.

— Você é nova aqui? – uma voz soou por trás de mim.

Olhei para trás e reconheci o garoto que falara comigo. Vestia um casaco jeans e uma camiseta branca, com seu cabelo coberto por um gorro azul; carregava uma mochila nas costas.

— Oh — seus olhos me reconheceram —, eu lembro de você. Yuri-ssi?!

Concordei e ele abriu um sorriso largo.

— Jungkook-ssi — cumprimentei —, que coincidência!

Ele continuou sorrindo e passou a mão por cima de sua touca, ainda sem acreditar.

— Que mundo pequeno.

Concordei.

— Procurando por seu prédio? — perguntou. — As pessoas daqui não costumam dar as boas vindas.

Antes que eu pudesse responder o quão aliviada estava por encontrar um rosto familiar (deviam ser os hormônios porque, literalmente, estava ao ponto de chorar), um garoto de cabelo preto chegou correndo até Jungkook, animado. Ele estava com um moletom esverdeado e uma calça jeans, que era rasgada na parte dos joelhos.

— Jungkook-hyung, você nem acredita no que a Lin me falou hoje – ele se interrompeu, olhando para mim. – Olá – sorriu, amigável.

— Jiminie, essa é a Yuri-ssi — Jungkook me apresentou. — É o primeiro dia de aula dela.

— Olá, Yuri-ssi — seu sorriso aumentou. — Que má sorte esbarrar com esse cara logo no primeiro dia de aula.

Jungkook revirou os olhos.

— Se ele tentar algo estranho, pode gritar — Jimin apontou para o amigo. — Eu te defendo no tribunal – piscou o olho.

Eu ri quando Jungkook deu um tapa na parte de trás da cabeça dele.

— Yah! O que você acha que está dizendo?

— Nunca se sabe. É a sua palavra contra a dela — Jimin estendeu a mão para mim. — Park Jimin, estudante de Direito.

Apertei sua mão.

— Lee Yuri, Fotografia.

— Ah — Jimin olhou para o hyung —, aquela garota da boate?

— Do que você está falando? – Jungkook olhou nervoso para mim.

Jimin sorriu animadamente

— Eu estava só brincando – se virou para mim. – Ele nem sai muito de casa, esse cara aqui. Os avós ficam pegando no pé dele, então só pode sair se for pra Igreja.

Jungkook olhou incrédulo para o amigo, antes de passar o braço pelo pescoço dele e apertar a cabeça de um Jimin risonho.

— Jimin costuma fazer piadas sem graça o tempo todo — disse, olhando para mim —, então não acredite no que ele diz.

Assenti, rindo daquela amizade.

— Vocês estão indo para o prédio de direito? — perguntei.

— Sim — Jimin se livrou do aperto e prendeu os braços de Jungkoon atrás do corpo. – Esse cara também é um advogad- Ai! – ele esfregou barriga aonde o mais velho havia o dado uma cotuvelada.

— Você cursa direito? — franzi as sobrancelhas. — Pensei que você fizesse fotografia.

— Fotografia é mais como um hobby para mim – Jungkook respondeu, hesitante.

Jimin olhou em seu relógio e fez menção para o seguirmos.

— Eu sugiro conversar e andar – sorriu. — Se vocês preferirem eu posso ir na frente para não ir segurando vela.

Jungkook deu um tapa na cabeça do amigo, que resmungou.

Jimin foi a alguns passos na nossa frente, de qualquer jeito.

— Pensei que estudasse fotografia. – falei.

— Meus pais querem que eu curse direito — explicou. — E é bem difícil dizer não pra eles.

— Eu entendo como é ter pais... insistentes – testei a palavra. – A minha maior vontade é fugir — confessei. — Mas, uma hora ou outra eles vão deixar você livre.

— Você diz isso porque não conhece a Sra. Jeon — Jimin virou a cabeça para trás. — Ela é assustadora. E provavelmente vai viver vinte anos a mais do que qualquer um de nós, já que ela só come frango com batata doce.

Jungkook riu.

— Oh, nesse caso — franzi a testa —, é melhor você fugir mesmo.

Jimin mostrou o dedão.

— Você deveria ouvir ela e ir morar na minha casa, hyung. Ela parece ser muito sábia.

Enquanto andávamos, algumas pessoas olhavam torto para nós três. Notei que Jimin parecia estar em alerta — como se algo ruim pudesse acontecer a qualquer momento. Jungkook também parecia tenso. Percebi que estavam agindo estranho somente depois de um garoto, que parecia ter 1.90m de altura, saiu de uma Mercedes que estava estacionada perto de onde passávamos. Ele parecia importante, vestindo um sobretudo marrom, com sua calça e camiseta pretas e um óculos-escuros no rosto. Percebi então que não era só para mim, a aluna nova, que as pessoas encaravam.

Jungkook acelerou seu passo, apontando para um prédio.

Quando li “Fotografia”, um sorriso aliviado surgiu em meus lábios.

— Você está em boas mãos, o curso de fotografia da Shinhwa é o melhor – sorriu, estendendo o polegar no ar.

— Muito obrigada, Jungkook-ssi — agradeci. — E foi um prazer conhecer você, Park Jimin. Se eu me encrencar, espero que me acompanhe até a delegacia.

Jimin fez uma mezura.

— O prazer foi meu.

— Espero que você se perca mais vezes para que eu possa te ajudar — Jungkook falou, divertido. — Cuidado para não tirar fotos de estranhos.

Eu dei uma risada, lembrando do incidente.

— Pode deixar.

— É melhor eu ir na frente, hyung — Jimin olhou ao redor, franzindo a testa. — Vejo vocês mais tarde.

Acenei para ele, ficando somente com Jungkook.

— Posso te levar para jantar em um restaurante depois da aula — ele olhou para o chão e colocou as mãos no bolso da calça, aparentemente distraído —, se você quiser.

— Tem certeza? — franzi as sobrancelhas. — Eu costumo comer bastante.

— Nesse caso — ele fez uma expressão pensativa —, eu poderia levar você para algum drive-thru.

Nós rimos.

— Você aceita? — ele perguntou de novo. — Não sobre o drive-thru, mas sobre jantarmos depois da aula.

Pensei sobre aquilo. Queria fazer amizades, mas não tinha certeza se estava pronta para o que Jungkook-ssi significaria. Não queria dispensá-lo, porém, uma vez que ele me trazia uma sensação de segurança.

— Isso me lembra que você está me devendo seu número — ele sorriu.

Sua voz estava confiante, mas seu físico demonstrava um pouco de nervosismo – escondendo as mãos, mordendo os lábios.

— Tem razão — afastei uma mecha do meu cabelo.

Jungkook sorriu, ainda aguardando a sua resposta.

— Sim, eu adoraria conhecer novos lugares — eu sorri.

O sinal bateu naquele momento, estridente.

— Até mais tarde, Jeon Jungkook – me despedi.

— Você lembra do meu nome completo? — ele pareceu surpreso.

— Não é esse? Jeon Jungkook?

— Eu mesmo – ele piscou o olho. – Assim eu posso me apaixonar. Boa aula, Lee Yuri.

Virei-me antes que ele pudesse ver minhas bochechas corarem.

O ambiente esvaziou-se rapidamente, ficando poucas pessoas do lado de fora. Olhei para o meu relógio, que marcava 9 horas — e minha aula só começaria às 10.

Decidi olhar os arredores, sem ir muito longe do meu prédio. Um jardim me chamou a atenção, por trás do edifício de Oceanografia – ao lado do meu. Apesar de parecer que ninguém ia ali há muito tempo, o lugar estava bem cuidado. Havia uma passagem de pedras que levava até quatro cadeiras, amareladas e distantes entre si, que cercavam uma pequena lareira apagada. Algumas almofadas esverdeadas estavam jogadas no chão, empoeiradas. Sentei em uma das cadeiras, secando a superfície úmida antes. Observei em volta as amendoeiras que ficavam por perto, deixando o lugar com uma aura serena. Sempre me senti confortável em ambientes silenciosos como aquele.

Sorri, pegando minha câmera. Mudei o foco do visor, virando-o frontalmente, e fiz uma careta fofa, fazendo um V com os dedos na frente do rosto. A brisa gélida jogou meu cabelo para trás.

Respirei fundo, sentindo o cheiro de terra molhada; aquele seria meu abrigo de todos os dias.

O sinal tocou novamente, lembrando-me da realidade. Voltei para a frente do prédio de fotografia, percebendo que não havia ninguém lá fora. Meu relógio marcava 10h15, e eu engoli seco percebendo que estava atrasada.

Enquanto continuava estática em frente ao edifício, percebi um garoto com cabelo castanho claro parar do meu lado. Ele usava um moletom cinza com gola alta, contrastando com sua pele clara. Ele tirou o óculos-escuro do rosto e sorriu para mim.

— Você faz fotografia? — perguntou.

Eu concordei, corada. Socorro, que cara bonito. Estava envergonhada por corar, mas ele era só... bonito demais. Parecia ter saído da televisão, como se fosse o personagem principal de um dos doramas que eu assistia quando criança.

— Estamos atrasados — disse, fazendo menção com a cabeça para irmos. — Meu nome é Kim Seokjin – se apresentou, com sua voz infinitamente doce.

— Eu me chamo Lee Yuri.

Ele me olhou com o canto do olho, e sua feição surpresa pareceu de certa forma nostálgica – talvez conhecesse alguém com aquele nome. Sorriu, e meu coração acelerou.

— Seu nome significa vidro – falou. — Você é sensível assim?

Tentei não transparecer minha confusão, mordendo os lábios tão forte que quase os fiz sangrar. Seokjin colocou seus óculos no rosto novamente, divertido.

— É melhor irmos — sorriu —, Lee Yuri.

Dentro do prédio, seguindo as placas para a sala número dez (era o que dizia o papel com o horário que Jinhee me dera), uma senhora loira de semblante ocidental nos recepcionou.

— Sr. Kim, a sua aula já começou — disse, com certa formalidade.

Ele concordou com a cabeça. A mulher se virou para mim.

— A senhorita deve ser a novata — olhou rapidamente a prancheta que segurava —: Lee Yuri.

Concordei, um pouco apreensiva.

— A senhorita está atrasada.

— Perdão, Sra. Coopler — Seokjin tirou os óculos escuros de seu rosto. — Ela estava comigo.

A mulher arqueou a sobrancelha.

— Nesse caso – seus olhos se alternaram entre Seokjin e eu —, está tudo bem – abaixou a prancheta. — Vocês dois estão na mesma sala. Estávamos esperando a sua chegada para iniciarmos a aula, Sr. Kim.

Ela fez menção para a acompanharmos.

— Eu imaginei – ele soltou um leve suspiro, que só percebi por estar andando ao seu lado. – Isso não irá se repetir.

— Claro, Sr. Kim.

— Por favor, não prejudique os outros alunos por minha causa – ele pediu. – Da próxima vez que eu me atrasar, inicie a aula sem mim.

— Claro, Sr. Kim.

Ele suspirou de novo, dessa vez mais alto. Parecia inconformado. Me perguntei porque ela estava sendo tão leviana conosco – mas bem, era apenas o primeiro dia de aula.

— Não se preocupe – ele me assegurou enquanto andávamos. – As pessoas daqui são gentis.

— Nossa, eu devo estar parecendo muito nervosa para você estar tentando me acalmar – soltei uma risada que mais pareceu uma tosse.

— Todo mundo fica nervoso — ele deu de ombros. — Lembro que passei a noite acordado antes do meu primeiro dia de aula.

— Sugiro que você não seja um calouro, então.

— Na verdade, sou e não sou — ele sorriu. — Eu me formei em artes no ano passado e resolvi cursar fotografia, agora.

Meus olhos se esbugalharam em surpresa.

— Você parece ser tão novo!

— Eu tenho 22 anos — ele sorriu, divertido. — Você deveria me chamar de oppa daqui em diante.

Senti minhas bochechas corarem.

— Seokjin-oppa?

— Eu prefiro Jin-oppa. Mas você pode me chamar como achar melhor.

A sala de aula tinha um ar limpo e organizado; os alunos estavam distribuídos em duplas, o piso era de lajotas brancas e as paredes tinham um papel de parede listrado. Na frente havia uma enorme lousa digital e a mesa do professor tinha um computador enorme – não entendia muito de marcas de eletrônicos, mas para mim aquela podia ser alguma máquina da NASA. As lampadas não estavam acesas, mas o ambiente era muito bem iluminado devido a uma parede de vidro – com vista para as amendoeiras do jardim que eu estava momentos antes.

O professor – um homem bem vestido de aparência jovem, apesar dos cabelos brancos – se levantou na hora que entramos, andando até nós animadamente.

— É um prazer finalmente conhecê-lo, Kim Seokjin – eles apertaram as mãos. – Sou um grande fã do seu pai, e é uma honra poder ser seu professor este ano.

Eu mesma fiquei muito surpresa e estranhei a ação, mas ele apenas concordou, sorrindo. Algo no seu jeito fez com que parecesse acostumado com aquele tipo de tratamento.

— Ali, guardamos assentos para você – apontou para uma carteira no meio da sala.

Seokjin assentiu e agradeceu.

— Você deve ser a aluna nova – o professor olhou para a prancheta –, Lee Yuri.

— Sim – concordei. – Desculpe pelo atraso.

— Nós ainda não havíamos começado a aula, não se preocupe. No entanto, nas próximas aulas, atrasos não serão tolerados.

Assenti com a cabeça.

— Espero que goste da universidade – ele sorriu. – Agora, pode se sentar. Daremos início à aula.

Olhei para a turma. Algumas pessoas olhavam curiosos para mim, mas a maioria encarava Kim Seokjin com olhos ávidos. Hm – talvez ele fosse alguém famoso. Eu não me surpreenderia, com aquela beleza. Ele fez sinal para que eu me sentasse ao seu lado, sorrindo, então andei em sua direção.

Fiquei parada por alguns instantes, pensando se deveria dar a volta na mesa ou passar por trás dele. Seokjin percebeu minha hesitação.

— Eu não mordo — piscou o olho.

É sério, eu precisava dar um jeito no meu fraco com belezas naturais porque meu coração martelava no peito como se eu estivesse tendo um ataque cardíaco.

— Seokjin-ssi, você gostaria de se apresentar? — o professor sugeriu.

Ele se levantou.

— Olá, eu sou Kim Seokjin.

Ele olhou para mim, e fez menção para que eu me levantasse também.

— Essa é minha amiga, Lee Yuri — apontou para mim. — Cuidem bem dela.

Meu rosto queimou. Em alguns momentos eu estaria suando.

Alguns segundos se passaram até que um murmurinho preenchesse a sala.

— Quem é ela? – alguém perguntou.

— De onde você a conhece, oppa?

— Você estão namorando?

— Se vocês quiserem falar com o Sr. Kim, —o professor interrompeu — deverá ser no final da aula. Vamos começar.

***

Quando o último professor encerrou sua aula, dando início ao intervalo, muitas pessoas da turma – e até de outras salas, percebi – correram para a nossa mesa. Sinceramente, eu queria fugir.

— Oppa, você está tão bonito... — uma garota de cabelo vermelho falou — Você vai almoçar com o resto do F4 hoje?

— Oppa, o Yoongi-oppa também veio? — outra disse. — Você pode entregar um presente que eu fiz para ele e para o Hoseok-oppa?

— Yoonri-ah, saia daqui. Você só quer saber dos outros F4 — a menina que estava em seu lado resmungou. — Jin-oppa, eu soube que você foi visitar a Rachel-unnie em Paris.

Jin suspirou.

— Eu e Rachel terminamos — um silêncio preencheu as garotas. — Eu cheguei de viagem na madrugada de hoje, então estou cansado e-

— Saiam daqui! Deixem o Jin-oppa descansar! — a garota de cabelo vermelho gritou.

Jin suspirou enquanto a menina afastava as outras, que pareciam genuinamente preocupadas com a saúde dele.

— Você vai lanchar no refeitório? — Jin olhou para mim.

Eu neguei com a cabeça.

— Vou esperar pelo próximo intervalo — respondi. – Uma amiga cursa Medicina e prometi que comeríamos juntas.

— Ah, sim. O pessoal de Medicina só tem um intervalo, não é?

— De onde você a conhece, oppa? — alguém gritou atrás de nós, mas eu não identifiquei a voz.

— Eu a conheci hoje, como o resto de vocês — ele respondeu. – Bem, — se virou de volta para mim — eu adoraria fazê-la companhia, mas tenho que me encontrar com um amigo. Foi um prazer revê-la, Lee Yuri.

Ele se despediu com um aceno e um sorriso – uma das meninas fingiu desmaiar, o que foi engraçado. Peguei uma maçã na mochila, pronta para revisar o assunto da aula anterior. Após alguns minutos, os sussurros das garotas foram tomando forma em meus ouvidos.

— Ela não é ninguém demais, eu a vi hoje com o menino do cartão.

— Se ela não é ninguém demais, por que o Jin-oppa estava com ela?

— Não se preocupem, o Jin-oppa nunca se interessaria por ela.

— Como você tem tanta certeza, Minah? Ele terminou com a Rachel.

— A Rachel-unnie era mil vezes mais bonita que ela.

— Ela não parece ser ninguém importante.

Eu revirei os olhos, me levantando para sair da sala. Com certeza Kim Seokjin deveria ser algum tipo de estrela – um artista, talvez? Ele era formado em artes, afinal.

— Vamos para o refeitório! Taehyung-oppa está com Jin-oppa — alguém gritou lá de dentro. — A fanbase do F4 acabou de atualizar uma foto deles.

***

— Então, é isso por hoje. Estão liberados – O Sr. Jun, professor de foto-criação, anunciou.

Antes que as garotas cercassem nossa mesa novamente, resolvi arrumar logo minhas coisas. Jin pareceu perceber minha pressa.

— Está fugindo de alguém?

Eu concordei com a cabeça.

— Dessas garotas. Elas me assustam.

Ele riu.

— Até amanhã, Yuri-ah.

Eu arquei a sobrancelha, surpresa com sua informalidade.

— Eu posso falar com você informalmente, não é?

— Ãh — eu fiz bico, pensativa. — Não costumo dar esse direito para qualquer pessoa — brinquei.

— Você é fofa — ele riu.

— Eu sei disso — eu sorri com um eye-smile. — Tudo bem, Jin-oppa.

Ele sorriu, contente.

Eu coloquei a bolsa em meu ombro.

— Até amanhã, Jin-oppa.

— Tchau, Yuri-ah. Tentarei distrair elas para você fugir — riu.

Ao sair do meu prédio, notei Jungkook sentado em um banco perto da porta. Assim que me viu, acenou.

— O que achou da aula? — perguntou, animado.

— Estou apaixonada pela universidade – sorri. – Os professores são maravilhosos. E a câmera do Sr. Jung é tão moderna que acho que dá para ver as crateras da Lua com ela.

Ele riu, fazendo menção para que eu o seguisse.

— Eu não sabia que terminávamos no mesmo horário — ele falou. – Pensei que seu curso tivesse menos aulas.

— Eu entro uma hora depois — expliquei.

Olhei em volta e vi como o lugar estava lotado.

— Todos costumam sair nesse horário?

Ele concordou.

— Eu acho que a turma de Medicina termina mais tarde, na verdade. E, normalmente, não costuma ficar assim tão cheio. É que tem um cara aqui meio famoso e tal — ele deu ombros, guiando-me até seu carro.

— Minha dongsaeng que faz Medicina disse que sua aula termina às 21h.

— Coitada.

Ele parou em frente ao seu carro.

— Você veio dirigindo?

Neguei com a cabeça.

— E como iria voltar para casa hoje?

— Táxi — respondi —, mas eu também poderia chamar alguém pra sair comigo, usando ele como carona. Obrigada por me poupar o trabalho.

Ele gargalhou.

Peguei meu celular na bolsa e mandei uma mensagem para Jinhee, pedindo para que ela não se preocupasse caso eu voltasse para casa depois dela.

— Onde está o Jiminie? — perguntei, ainda olhando para o celular.

— Ele — sua voz falhou, tossindo. — Ele preferiu sair mais cedo hoje.

Sua expressão parecia distante, então balançou a cabeça.

— O restaurante que vou levar você fica perto daqui. Espero que goste de lugares simples.

Eu sorri.

— Meu pré-requisito para restaurante é ter comida boa, o resto a gente resolve.

Jungkook ligou o som e uma música do Namjoon começou a tocar. Disfarcei minha surpresa; ele era fã do Rap Monster.

— Eu adoro essa música — comentou, cantando junto. — Ele é meu rapper favorito.

— Sua voz é bonita, Jungkook-ssi — me surpreendi.

— Eu poderia ser um idol, não é?! — ele sorriu, galanteador. — Sou bonito, alto e ainda tenho a voz bonita. As empresas brigariam por mim.

— E por que você não tenta?

Minha seriedade o deixou acanhado; ele falou como uma piada, mas eu realmente conseguia vê-lo como idol.

— Você já sabe. Meus pais nunca deixariam, e sou covarde demais para ir contra eles.

— Bem, foi corajoso o suficiente para chamar uma garota que só viu uma vez na vida para sair — mudei de assunto, fazendo ele me olhar curioso. — Você sabe que eu poderia ser uma psicopata ou uma assaltante, não é?

Ele sorriu.

— Você não é uma psicopata, nem uma assaltante.

Ele tirou seu carro do estacionamento, enquanto alternava sua atenção entre a rua e nossa conversa.

— Você é Lee Yuri, estudante de fotografia da Universidade Shinhwa. Uma garota que gosta de tirar fotos de desconhecidos e fica corada quando alguém a elogia — ele deu uma pausa. — Eu não vejo nenhum problema em chamar uma garota assim para sair.

Eu mordi meu lábio, corada.

— Essa é a segunda vez que nos encontramos e estamos indo para um encon—

— Encontro? — interrompeu-me. — Yuri-ssi, eu não me lembro de ter usado essa palavra. Eu sou um cara difícil — caçoou.

Eu ri.

— Estou vendo.

***

Mingles era um restaurante conhecido em Gangnam-gu — onde a Shinhwa é localizada. O estabelecimento tinha dois andares e sua frente era toda de vidro. Apesar de casual, o lugar não era nada simples; pelas janelas, eu conseguia ver os clientes desfrutando de pratos caprichosamente servidos, sorrindo uns para os outros como se estivessem em uma cena de filme.

Eu estava prestes a sair do carro, até que uma cena chamou minha atenção.

Em pleno estacionamento, um grupo de pessoas cercava um garoto, que cobria seu rosto enquanto era chutado.

Apesar de estar no chão, reconheci suas roupas.

— Jungkookssi... — vacilei — aquele é o Jimin?

Jungkook seguiu meus olhos e sua expressão mudou.

— Fique no carro.

Ele abriu a porta, fechando-a estrondosamente e correndo até o grupo.

Eu estava assustada. Uma parte de mim queria fazer alguma coisa para ajudar Park Jimin, o menino brincalhão que conhecera naquele mesmo dia; a outra parte tinha vergonha por não conseguir criar coragem para sair do carro.

Decidi não pensar muito no assunto e desci correndo, avançando até o grupo. Atrás dos garotos que estavam espancando Jimin – eram cinco, se revezando – estava um cara alto de cabelos castanhos bem vestido e com um pirulito entre os lábios. Ele olhava indiferente para a cena, dando um ar doentio para a sua beleza. Jungkook andou até ele.

— Taehyung-ssi. Por favor, ele não fez nada de errado.

O garoto olhou para Jungkook, surpreso.

— Jeon Jungkook.

— Saia daqui, otário – um cara falou, se virando para os dois.

Jungkook continuou encarando Taehyung.

— Por favor, ele é meu amigo.

Ele levantou a sobrancelha.

— Nós estamos dando uma lição nele – o outro cara respondeu.

— Ele está muito machucado! — Jungkook rebateu.

— Então você quer assumir o lugar dele?

— Pare de bater nele!

Segurei Jungkook pelo braço, o impedindo de partir para cima do cara.

Taehyung tirou seu pirulito da boca.

— Woobinah, eu só pedi para me acompanhar durante o jantar – ele falou. – Não pedi por este show. Já pode parar.

Os garotos – que pararam de bater no Jimin para ouvir a conversa – saíram de perto dele.

Taehyung jogou o pirulito no lixo que estava atrás dele.

— Desculpe por você ter visto isso, Jungkook — falou, limpando as mãos em um lenço que tirara do bolso da jaqueta. – Não sabia que vocês eram amigos.

Ele se virou, caminhando para o restaurante.

— Quando você vai aprender a parar de se meter? — O mais alto, Woobin, rosnou.

Jungkook respirou fundo, e eu apertei seu braço para ele não avançar no cara. O grupo seguiu Taehyung para dentro do restaurante.

Sem pensar duas vezes, fui até Jimin, ajudando-o a se levantar.

— Jungkook-ssi, chame a ambulância — minha voz estava trêmula. — Ele está muito ferido.

— Sem... Ambulâncias — o garoto gemeu.

— Jimin, cara – Jungkook o ergueu pelo braço. – Você está bem?

— Eu já estive melhor — ele tossiu.

— Pergunta idiota, desculpe. Vamos te levar para um hospital e–

— Não, hospital não.

— Jimin, você precisa de cuidados médicos.

Nós andávamos lentamente pelo estacionamento em direção ao carro de Junkook.

— Ah, droga – praguejou.

Jimin empurrou o amigo, caindo de joelhos no chão. Virei o olhar enquanto ele vomitava, suprimindo a necessidade de cobrir os ouvidos por causa do barulho.

— Por que ele não quer ver um médico? – sussurrei para Jungkook, que massageava as costas dele.

— Porque se ele acionar o plano de saúde a mãe dele vai descobrir – respondeu.

— A mãe dele vai descobrir de qualquer jeito pelos ematomas que isso vai deixar.

Jimin tossiu e eu dei alguns passos para trás, lutando contra a ansia de vômito.

— Minha amiga — falei, respirando pela boca —, a irmã dela é médica. Ela vai estar lá em casa hoje, sei que pode ajudar.

Jungkook assentiu, e então arquejou, segurando Jimin quando ele desmaiou – o impedindo de cair sobre o próprio vômito.

Peguei meu celular e mandei outra mensagem para Jinhee.

Yuri: Jinheeah, por favor peça para a Sunhee ir mais cedo para o apartamento, preciso da ajuda dela. É urgente.

Quando chegamos em casa, a porta estava destrancada. Não podia ser Jinhee – a menos que ela tivesse saído mais cedo da aula. Deixei que Jungkook carregasse Jimin enquanto eu acendia as luzes, correndo para a sala.

Levei um susto, percebendo uma mulher de cabelos castanhos claro sentada no sofá. Usava um vestido vinho de gola alta e tinha uma bolsa preta brilhante em seu colo. Pisquei os olhos algumas vezes, reconhecendo-a — aquela versão mais velha e mais alta de Jinhee.

— Lee Yuri? — ela parecia surpresa. — Está tudo bem?

— Sunhee-unnie — pedi, minha voz soando aflita. — Desculpe, mas por favor, me ajude.

Jungkook entrou na sala, carregando um Jimin desacordado. Sunhee se levantou do sofá rapidamente.

— Coloque ele no sofá — mandou, sua voz soando profissional como a de um médico de verdade – que ela realmente era. — O que aconteceu?

— Ele... — Jungkook se atrapalhou. – Ele caiu de uma escada.

Sunhee ficou em silencio, sentindo o pulso de Jimin.

— Aprenda, querido – levantou a camisa de Jimin, constatando o início de hematomas se formando. — Médicos sabem dizer quando o paciente levou uma queda – ela soava irritada. – E este garoto aqui levou uma surra – ela franziu o cenho, pensativa. – E ele é da Shinhwa, não é mesmo? Isso foi aquela porcaria do cartão vermelho?

Ficamos em silêncio. Eu não sabia o que deveria contar, e Jungkook parecia tão indeciso quanto eu. Sunhee, porém, parecia difícil de enganar.

— Só me responda uma coisa – ela olhou para mim enquanto passava as mãos pelo abdomen de Jimin (provavelmente procurando por alguma costela quebrada) —: a Jinhee está envolvida nisso? Ela se machucou?

— Não, ela não fez nada – respondi rápido.

— Não perguntei se ela fez algo, perguntei se fizeram algo com ela.

— Não, ela está bem.

— Então, pegue a caixa de primeiros socorros — mandou.

Eu corri até o banheiro, pegando a caixa branca do tamanho de uma gaiola de cachorro que ficava no armário debaixo da pia. Voltei para a sala e ajoelhei-me ao lado de Sunhee. Jungkook ainda estava de pé, sem saber ao certo o que fazer com as mãos.

— Vou precisar de algodão, higienizador antisséptico, pomada antibiótica, curativos e gaze — falou. — Eu sei que Jinhee tem tudo isso.

Eu mordi os lábios, olhando para o conteúdo da caixa. Era tudo da mesma cor e do mesmo formato; não ia achar aquilo tudo tão cedo. Comecei a remexer ali dentro.

Quando percebi que os nomes estavam organizados em ordem alfabética, já tinha tirado tudo do lugar. Até agora só encontrara gase e algodão.

— Preciso da pomada — Sunhee chamou.

— Tenho certeza de que sei onde está – remexi a caixa freneticamente, bagunçando mais.

— Unnie? O que está acontecendo?

Olhei para trás, para onde Jinhee estava. Ela avaliou a cena de olhos arregalados – eu e Sunhee ajoelhadas diante de um Jimin sem camisa desacordado no sofá, cheio de hematomas, e Jungkook desconfortável sentado na poltrona sem poder ajudar. Ela jogou sua bolsa no canto da sala e avançou na nossa direção.

— Pomada antibiótica, Jinhee-ah — choraminguei. — Eu não sei onde está.

— Está aí dentro – apontou, se ajoelhando ao meu lado para procurar na caixa.

— Preciso de higenizador antisséptico, Jinhee.

— Aqui – entregou os frascos para a irmã. – Quem fez isso? – perguntou para Jungkook.

— Ele tem um cartão vermelho – ele se aprumou na cadeira, procurando ser prestativo.

— E quem bateu nele?

— Woobin.

Ela assentiu.

Minha respiração começou a falhar.

— Sunhee, ele está muito machu–

— ‘Sunhee’? Eu não sou mais sua unnie?

— Ãh, é, eu esqueci – me atrapalhei — Desculpe, unnie. É que eu estou nervosa e no Brasil não tem essas formalidades e-

— Jungkook, pode ir pegar gelo, por favor? – ela me interrompeu

— A cozinha fica naquela porta ali – Jinhee apontou.

Ele se levantou rapidamente.

Jinhee respirou fundo.

— Sunhee-unnie, isso não é momento para se preocupar com formalidades.

— Ele apanhou, mas não vai morrer — ela revirou os olhos. — Posso me preocupar com formalidades.

— Eu posso ajudar em alguma cosa? — perguntei, me sentido inútil.

— Não – Sunhee fungou.

— Unnie, você poderia comprar o nosso jantar — Jinhee sugeriu. — Eu fico com a Sunhee-unnie cuidando do Jiminssi.

— Não dirija instável desse jeito; leve o Jungkook com você. Não quero ter que cuidar de outro acidente.

— Eu conheço um lugar com um ótimo Japche e fica aqui próximo – Jungkook falou — Eu posso ir com Yuri até lá.

— Okay. Mas tragam alguma sopa nutritiva para ele, — Sunhee falou — parece que ele vomitou.

***

Jungkook e eu fomos de carro, mas o restaurante era tão perto que mal passamos cinco minutos dirigindo. Constatei aliviada que não estava lotado – algumas famílias ocupavam as mesas —, e logo que entramos encontramos vaga.

Uma ajumma que usava um longo vestido florido veio em nossa direção.

— Jungkookie! — ela sorriu, terna. — Que bom ver você por aqui. Vejo que trouxe uma amiga.

Ele sorriu.

— Sim, essa é Lee Yuri. Hoje foi seu primeiro dia na Shinhwa.

A ajumma olhou para mim, surpresa.

— Prazer em conhecê-la, querida – ela apertou meu ombro carinhosamente – Você é tão bonita!

— Oh, obrigada, ajumma – sorri timidamente.

— Oh, me chame de Sra. Park — pediu. — Você conhece o meu filho? Park Jimin?

Olhei para Jungkook, que mantinha um sorriso nos lábios.

Eu concordei.

— Sim. Ele é muito educado.

— Espero que ele não tenha dado em cima de você — respondeu. — Você e o Jungkook formam um casal muito bonitinho.

— Sra. Park! – Jungkook arquejou.

— Tudo bem, vou parar de envergonhar você, Kookie. O que vocês vão pedir?

— Três Japche para viagem — Jungkook falou. — Ah, falando sobre Park Jimin...

— O que ele aprontou dessa vez?

— Ele vai... dormir na minha casa hoje — ele mordeu os lábios.

Jungkook era um péssimo mentiroso.

— Na sua casa, sei — ironizou. — Provavelmente ele deve estar na casa de uma daquelas namoradas que ele tem. Eu conheço meu filho.

Antes que Jungkook falasse outra coisa, um senhor gritou:

— Ajumma! Outra rodada, por favor!

A Sra. Park tomou um susto.

— Tenho que ir, os Japche ficarão prontos em alguns instantes.

Observei melhor o restaurante da Sra. Park. Era um lugar muito bonito, e o som das risadas perpassava a música ambiente que tocava. Além de ser um ambiente agradável, eu me senti bastante em casa.

Não consegui evitar me lembrar dos meus pais e de como eles iriam gostar daquele lugar.

— Terra chamando Lee Yuri — Jungkook estalou os dedos, rindo. — Você fica ainda mais bonita quando está concentrada.

Eu abaixei a cabeça, mordendo os lábios.

— Aposto que você vai corar daqui a alguns segundos.

Eu cobri meu rosto com a mão, mostrando língua.

Ele riu.

— Espero que você goste da comida daqui — disse —, meu tio costumava me trazer aqui todo fim de semana.

— Seu tio fotógrafo? Foi aqui que você conheceu Jimin?

Ele concordou, nostálgico.

— Ficamos ainda mais próximos quando ele começou a namorar minha melhor amiga.

Seu olhar mudou para um mais sério.

— Desculpe por meter você e suas amigas nisso.

— A culpa não foi sua, Jungkookssi — eu disse, inquieta no meu assento. — A culpa foi daquele Woobin. Por que eles fizeram aquilo?

Ele respirou fundo.

— É uma longa história.

— Nós ainda temos que esperar três Japche.

— Você já ouviu falar do F4?

Eu franzi o cenho, tentando me lembrar de onde eu conhecia esse nome.

—“Você vai almoçar com o resto do F4 hoje?”

—“Você só quer saber dos outros F4”

—“A fanbase do F4 acabou de atualizar uma foto deles”

— Eu já ouvi falar.

Jungkook olhou em volta. Sorriu para a Sra. Park, no balcão.

— São quatro garotos que são herdeiros de praticamente metade do PIB coreano — ele suspirou. — E responsáveis pelo que fizeram com o Jimin também.

— Tá, então eles são ricos. Por que fizeram aquilo com Jimin?

— Na verdade, não são eles que fazem, e sim os seus servos.

— Servos?

— Bem, todo mundo chama eles de servos. O principal é Woobin, que adora coordenar as punições do cartão vermelho. No final, eles só querem o reconhecimento do F4.

— Mas todos são ricos naquela universidade.

Jungkook encolheu os ombros.

— Tem bolsistas lá. Raros, mas tem. E o F4 não é só rico... eles são a elite dos ricos.

— Eu ainda não consigo entender o que Jimin tem haver com isso.

— O Jimin é bolsista — explicou. — E o F4 não gosta de bolsistas. Eles acham que a Shinhwa deve conter apenas a elite. Eles não gostam de ninguém que seja considerado ameaça, por isso criaram o cartão vermelho.

— Cartão vermelho? É uma ordem para espancar outras pessoas?

Ele concordou, seguindo a Sra. Park com o olhar.

— Como isso foi criado? — perguntei.

— Talvez você devesse perguntar para sua amiga, Choi Jinhee — ele me olhou com o canto do olho —, ela estava lá. Foi ela quem recebeu o primeiro cartão vermelho.

Eu arregalei os olhos, boquiaberta.

— O quê?! Por que?

— Existem muitos rumores, mas ninguém sabe o motivo real. Apenas ela e o F4 — explicou. — Eles costumavam ser próximos. Na verdade, ela sempre andava com eles como se fosse parte do grupo, mas aí recebeu um cartão. Foi um choque para todo mundo.

Jungkook se calou ao ver Sra. Park andando até nós, segurando três sacolas de plástico.

— Aqui está; três Japches — ela sorriu. — Com o desconto família fica 15.000 wons.

Quando fiz o movimento para tirar o dinheiro do meu bolso, Jungkook já tinha pago e pegado as sacolas.

— Ele é tão educado, um cavalheiro — A Sra. Park comentou, piscando para mim. — Se eu fosse você, agarrava logo.

Eu sorri.

Jungkook corou – o que eu achei muito fofo.

— Eu também amo você, Sra. Park — suspirou.

O caminho de volta foi calmo e silencioso. Jungkook parecia cansado e eu estava perdida em tantos pensamentos. Tentei imaginar Jinhee sendo espancada – mas a imagem não parecia real. Jinhee era tão pequena, tão delicada. Quem seria capaz de fazê-la algum mal?

Jinhee costumava ser sorridente, algo que parecia não ter mudado: mas seriam todos aqueles sorrisos reais?

Quando chegamos em casa, tudo parecia mais tranquilo. Jinhee estava sentada ao lado de Jimin, que segurava uma xícara. Ele vestia havia vestido sua camisa de volta, e os dois assistiam a algum programa na televisão.

— Jimin, como você está? – Jungkook se apressou para perto do amigo.

— Estou perfeito. Novo em folha – ele bebeu um gole da xícara. – Obrigado por me ajudar, hyung. Obrigada também, Yurissi.

— Onde está a Sunhee-unnie? — perguntei.

— Ela teve uma emergência, o hospital ligou para ela — Jinhee respondeu.

Ela se levantou, pegando as sacolas das mãos de Jungkook.

— Obrigada pela comida.

Jimin estava com o braço cheio de curativos, e fez uma careta quando Jungkook sentou ao seu lado.

— Eu falei para a sua mãe que você vai dormir na minha casa — Jungkook contou.

— Tudo bem – ele assentiu. – Obrigada de novo, hyung.

— Pare de me agradecer, eu já– Jungkook se atrapalhou, olhando para a xícara que Jimin segurava – Isso é chá com leite? Você pediu pra Jinheessi fazer para você?

As mãos de Jinhee que me passavam um prato de Japchae hesitaram no ar por um instante, mas logo ela se recompôs e me passou os talheres.

— Ela só... fez — Jimin murmurou.

Jungkook sorriu, e bagunçou o cabelo do amigo.

— Acho melhor irmos embora, então. Já está tarde.

— Na verdade — Jinhee chamou —, a Sunhee-unnie vai passar aqui amanhã de manhã para levar ele pra tirar raios-X, pro caso de haver alguma contusão.

— E eu já falei que não vou — Jimin bufou.

— Vocês conheceram a minha irmã. Se você não estiver aqui amanhã, ela vai te procurar na casa do Jungkook. E se você não estiver lá, vai ir te sequestrar na universidade.

Ele revirou os olhos, tomando um gole de seu chá.

— Não sei se isso é errado ou muito certo – comentei.

— Tenho meu livre arbítrio para escolher se quero ou não fazer-

— A escolha é sua – Jinhee o interrompeu. – É claro que não vou te obrigar a ficar aqui. Mas ela vai tirar seus raios-X nem que tenha que levar a máquina pra sua casa.

Ele cerrou os olhos, e suspirou.

— Não queria dar tanto trabalho para vocês – falou. – Mas eu também não quero me fazer de desfeito. Obrigado.

— Sair da rotina é bom de vez em quando – falei, tentando amenizar o clima.

— Você está em boas mãos, Jiminie — Jungkook olhou as horas. — Eu vou indo. É quase meia noite. Amanhã eu ligo para – ele franziu a testa. – Falando nisso, eu não tenho o seu número, Yurissi.

— Você tem o meu, pode ligar para mim – Jimin abriu um sorriso presunçoso.

Jungkook bufou e Jinhee abafou um riso atrás da mão.

Eu tirei meu celular do bolso e trocamos de números.

Jungkook sorriu.

— Poderíamos ter resolvido assim no final das contas — concluiu. — Obrigado, Lee Yuri.

— Por favor, não se beijem — Jimin murmurou.

***

Jimin falou que dormiria no sofá, para não bagunçar mais nada, e – embora Jinhee tivesse dito para deixá-lo dormir aonde quisesse –, eu disse para ele deixar de frescura e ir dormir no quarto de hóspedes.

Fui tomar banho, exausta, lá para uma da manhã. Jinhee também foi para o seu quarto, e Jimin ficou na sala, assistindo TV. Ele disse que estava enjoado e que não queria comer nada, então não insistimos (fiquei feliz que Jinhee não insistiu, se ele vomitasse de novo, meu jantar iria embora junto).

Mesmo deitada, as imagens dele apanhando daqueles garotos não saiam da minha cabeça. Tudo o que eu conseguia pensar era: — “o que eles foram capazes de fazer com Choi Jinhee?”.

Quando pesquisei sobre o F4 naquela noite, estava disposta a saber se Seokjin – o garoto gentil do curso de fotografia – fazia parte daquele grupo doentio.

Pesquisei F4 e a primeira noticia que apareceu era a mais recente:

DISPATCH: [#BOMBA] Jung Hoseok leva um tapa de uma mulher misteriosa na festa de Rap Monster”

Reconheci aquela imagem — mesmo nunca tendo a visto antes.

Fotos em sequencia de um garoto de blazer – ele com um sorriso no rosto, a minha mão na sua cara, o olhar dele surpreso depois do tapa – ao lado de uma garota de costas, com um vestido preto. Era fácil reconhecer o rosto do rapaz mesmo com a ausência de claridade.

E, uau, o vestido que a minha mãe me deu realmente fazia parecer que eu tinha alguma bunda.

Por que eu estava na matéria principal da Hallyu?

Joguei o nome Jung Hoseok no Google, me arrependendo.

Wikipedia.org.kr

Jung Hoseok (정호석) é o único herdeiro do grande empresário sul-coreano Jung Shinhwa, responsável pelo Grupo ShinHwa™, e Jung Seolhyun, diretora-chefe da revista de moda Vogue Korea. Conhecido também por ser líder do F4, grupo que forma com seus melhores amigos: Kim Seokjin, Min Yoongi (Suga) e Kim Taehyung.

Jung Hoseok foi eleito o Futuro Empresário da Geração pela revista Forbes em 2015.

WeLoveHoseok.kr

Curiosidades sobre Jung Hoseok:

— Sua cor favorita é verde

— Hoseok ficou em primeiro lugar no ranking da nação em quase todos os anos (ele é tão inteligente).

— Ele tem 177cm

— Ele é muito organizado

— Ele sabe falar mais de 9 idiomas (!!!!)

— Ele tem memória fotográfica — se ele ver você uma vez, ele vai se lembrar de você pra sempre!

Notas finais
Hoje é aniversário do nosso querido maknae, Jeon Jungkook! Que ele continue a ser por muitos anos o maknae esforçado, fofo, gentil e talentoso que sempre foi e que tanto amamos. #HappyJungkookDay! Esperamos que tenham gostado do capítulo! Bjs no core e até mais~~