Conjuradores do Esquecimento
1 Prólogo
Sasuke não conseguia se mexer.
Não sentia nada além da dormência em cada músculo. Ele chegou a pensar que não existiam algumas partes do seu corpo por não se mover, era como se não nenhum membro de fato existisse. Sasuke tremeria se conseguisse sentir alguma coisa.
Um motim de neve caiu de algum lugar acima e se esparramou pelo chão, o garoto de fios escuros reconheceu o barulho característico que a nave fazia ao atingir uma superfície, afinal seu hobby favorito era observar a massa branca cair quando o inverno chegava e vê-la derreter quando ele ia embora.
Em algum momento, conforme despertava, Sasuke se deu conta de que também não conseguia ouvir direito, os sons eram abafados e mal identificavam os barulhos do ambiente. Por um momento ele tinha esquecido de onde estava, porque nada indicava o lugar exato, então tentou lembrar. Forçou a memória enquanto afastava a sensação angustiante de ser incapaz de se mover.
A vaga lembrança do dia anterior voltava em flashes preguiçoso na sua mente, como quando se acordava de um sonho e tentava lembrá-lo no final do dia. Mas ele se sentia cansado demais para forçar a memória além daquilo, sentia-se tão pesado que poderia afundar, por isso as lembranças se dissolviam e ele não fazia esforço algum para recuperá-las.
Homens fardados com as típicas roupas pretas e brasões costurados no peito, não eram mais do que borrões que apareciam e desapareciam. Sasuke não lembrava dos rostos, eram muitos, somente a farda escura que havia se acostumado a ver pela janela do seu quarto aparecia nitidamente.
Essas imagens ondulavam com a lembrança das crianças do orfanato correndo desesperadas para se esconder quando a tempestade de gelo chegou. Eles tinham sido levados para um campo aberto, sem proteção alguma. Sasuke conseguiu lembrar disso, da sensação de ser abandonado no início da nevasca.
Algo caiu novamente. Mais um motim de neve se esparramando no chão.
— Chefe, tem alguns ali.
O som era abafado e distante. A voz de uma pessoa.
— Sobreviventes? — Outra voz respondeu, mas esta estava mais distante do que a anterior. Ambas não pareciam grossas, mas Sasuke não saberia dizer com certeza se eram finas, pois elas pareciam ser um eco de vozes reais de tão distantes que soavam.
Por um momento ele quis abrir os olhos, erguer o pescoço para ver quem era e mover o corpo na direção de quem quer que fosse. Mas se lembrou que não conseguia movimentar o corpo e isso o fez respirar mais forte, como se esse fosse o único gesto que pudesse fazer no momento.
O seu peito doeu.
Sasuke parou de forçar a respiração.
O farfalhar de folhas sendo abertas para passagem de corpos soava próximo, o som de botas amassando a neve e pisando em gravetos chegava na mesma intensidade. Os sons abafados, começavam a despertar seus ouvidos e ele conseguiu sentir que pessoas se aproximavam.
Havia conversas e cliques ocos e frases saindo do que parecia uma estação ruim de rádio. Em um instante lento demais, Sasuke ficou consciente de que os passos pararam e as conversas se tornaram nítidas demais para os ouvidos, ainda dormentes, abafarem.
— Esquadrão 7, avance pela floresta, pode haver mais lá dentro — disse uma voz grave. Passadas firmes começaram agredir o chão enquanto palavras, que mais pareciam comandos, rechearam o ar. — Kabuto, verifique se eles estão vivos, precisamos voltar para a cede e limpar o local antes da cidade acordar.
— Certo, chefe.
A primeira coisa que Sasuke sentiu foi a presença de algo pairando à frente. A segunda foi o toque de dedos grossos empurrando a manga da sua blusa para cima. Mas foi a terceira que acordou seu corpo e o fez recuar.
O contato de algo gelado contra o pulso começou a retirar qualquer dormência que havia o acompanhado pelo tempo até então. A mão segurava firmemente a sua enquanto um objeto frio pressionava a pele, um murmúrio confuso escapou da pessoa que o segurava e, por impulso e medo, ele se afastou de quem quer que fosse.
— Ele se mexeu — sussurrou alguém em um tom surpreso. — Um sobrevivente, isso nunca tinha acontecido.
A mão o largou em um sobressalto e o contato com a coisa gelada se quebrou.
— Por Judas! — A pessoa gritou.
O movimento sobre a neve e o farfalhar da roupa indicavam que ela estava se movendo, indo para o lado. Sasuke se encolheu.
— O que houve? — Uma voz grave bradou.
— Chefe, temos três sobreviventes aqui.
Silêncio.
O clique oco soou mais uma vez e comandos começaram a ser dados. Havia muitos murmúrios e ele não conseguia distinguir uma coisa da outra.
Os passos rígidos pareciam vir de todas as direções e se aglomeravam próximos demais, o que só fez Sasuke permanecer encolhido e de olhos fechados. Naquele momento, ele sentiu que poderia abrir os olhos se quisesse, mas não tinha coragem o suficiente para fazê-lo.
— Peguem os garotos, eles precisam de agasalhos.
A voz grave era de um homem.
— E quanto ao resto, chefe? — questionou alguém.
— Mais algum sobrevivente?
Silêncio.
— Não.
— Então se desfaçam do restante dos corpos e levem esses três para o carro.
— As chaves e os relógios? — Era outra voz, mais fina e feminina, Sasuke notou. — Vamos deixar nas mãos dessas crianças ou...
— Recolham o material. Isso não é mais o nosso trabalho.
Não houve mais perguntas.
Algumas passadas duras começaram a se afastar enquanto outras, em menor escala, se aproximaram com cautela. Sasuke sentiu mais uma vez a presença de alguém ao seu redor, porém antes que conseguisse afastar o corpo, duas mãos o rodearam e o puxaram para frente.
A sua bochecha descansou em algo liso conforme o seu corpo era ajustado no colo da pessoa, ele sentiu quando ela se levantou e ouviu mais sons de passos e conversas naquele lugar. O rosto se deslocou para o ombro daquele que lhe carregava, o cheiro amadeirado despertou o seu nariz que ardia à medida que exalava o odor.
A pessoa começou a andar e ele a abrir os olhos.
A dormência tinha ido embora. O cansaço não. Por isso só conseguiu cerrar os cílios enquanto era carregado por um estranho. A cabeça de Sasuke estava despertando e a luz do que parecia um amanhecer machucou sua visão, aos poucos as coisas iam tomando forma, se movendo, aparecendo e sumindo rápido conforme eles avançavam.
Uma das primeiras coisas que Sasuke percebeu quando os olhos se acostumaram com a luz, foi o campo aberto repleto de homens e mulheres fardados com os uniformes pretos e coletes. Todos iguais àqueles que trouxeram ele e as crianças do orfanato até ali.
Enquanto mais passos eram dados pela pessoa que o carregava nos braços, seus olhos deslizavam sorrateiros pelos pontos irregulares na neve espessa, motins distantes de cores escuras manchavam o branco, e isso não teria lhe incomodado se não tivesse entendido que aqueles pontos eram os corpos das crianças que viviam com ele.
Seus olhos se concentraram num homem ruivo abaixado em frente a um amontoado cinza, Sasuke não viu o seu rosto ou escutou a sua voz por não estar com a atenção concentrada no homem, mas sim na criança que ele retirava do chão e jogava por cima do ombro. As mãos penderam para baixo junto com o cabelo longo de uma menina
Em algum lugar da memória Sasuke lembrou vagamente do seu rosto, mas isso parecia uma lembrança distante, por isso não teve certeza se estava lembrando da garota certa.
A memória começou a se dissipar e o homem ruivo a se distanciar. Sasuke franziu o cenho e piscou lentamente, sentiu os olhos pesados e os fechou. Ainda se sentia cansado, fadigado, com a sensação de que poderia afundar em qualquer lugar que o colocassem.
— Quantos anos você acha que essas crianças têm? — Alguém ao lado perguntou.
— As idades são variadas, 10, 13, 9... Alguns eram jovens demais para estarem aqui. — A pessoa que o carregava respondeu. Era uma mulher. — Esses três tiveram sorte de sobreviver à nevasca, o menor principalmente.
— Eles sobreviveram ao Prostor — repreendeu um homem com timbre forte. — Não deve ter sido uma questão de sorte.
Silêncio.
— Não, não mesmo.
Sasuke não gostou da conversa. Na verdade não havia gostado da pausa na resposta da mulher. Aquilo deixou um gosto amargo na sua boca, mas antes que conseguisse pensar mais a respeito, sentiu o cansaço mais pesado puxando-o para baixo, então ele não pensou no diálogo, não tentou lembrar do rosto da órfã ou do campo aberto recheado de corpos, apenas caiu na escuridão. Afundou nela como se fosse a cama quente de uma casa que ele nunca teve.
††††
ANOS DEPOIS
— Ah cara, como você pode pensar isso de mim? Eu não toquei nas suas coisas, Gaara, você deve ter colocado o rádio em outro lugar.
— Não, eu não coloquei.
Naruto sorria largo e Gaara estava com os braços cruzados encarando-o seriamente. Sasuke preferiu o silêncio a entrar na discussão dos dois, ele apenas observava com uma expressão divertida enquanto imaginava até quando eles levariam aquele assunto adiante sem colocá-lo no meio.
Ele riu soprado antes de desviar o olhar.
A sala de reuniões exibia uma mesa de vidro longa com várias cadeiras vazias até chegar àquela no centro, a cadeira de Tobirama Senju, o dono da companhia. O olhar de Sasuke evitava a figura de fios brancos e olhos espertos, que parecia apenas ouvir a discussão dos dois rapazes, esperando o término para começar a reunião.
Nas grandiosas janelas que mostravam o topo dos prédios de Toská, havia alguns vasos de flores solitários que tentavam humanizar a sala de vidro. Câmeras presas em suportes nos cantos das paredes filmavam a sala, e suas imagens eram refletidas nas telas presas na parede atrás da cadeira de Tobirama.
Lugares de dentro e fora da companhia apareciam nos visores, pessoas em preto e branco ganhavam espaço junto a carros, casas e salas da empresa. A troca de imagens era brusca, em cortes secos que poderiam deixar qualquer um confuso se não estivesse acostumado com a visão.
Sasuke já estava habituado com aquele ambiente, mas mesmo assim soltou o ar pesaroso por não gostar de como as imagens apareciam.
Ele lançou um olhar de relance para as paredes vítreas que separavam a sala do corredor, homens e mulheres transitavam por ele com seus rostos sérios e aparelhos de escuta em um dos ouvidos. Aquele dispositivo era a forma de comunicação mais rápida da companhia Moroz, as mensagens da rede circulavam em todos os setores para qualquer um que apertasse o botão azul na lateral.
Uma palma ressoou pelo espaço atraindo a atenção de todos.
— Vocês podem discutir isso depois — disse o homem de fios brancos. Gaara, Naruto e Sasuke ajeitaram a postura. — Interrompi o descanso de vocês para algo mais urgente, estamos com alguns casos de pessoas que precisam ser apagadas e não podemos retardar o serviço.
— Em qual região? — Sasuke perguntou, retirando as mãos dos bolsos do sobretudo preto. — Porque podemos nos separar por área.
Tobirama maneou a cabeça em concordância antes de esticar o braço para três pastas brancas ao seu lado. O gesto era um pedido silencioso para que os três rapazes fossem até ele para pegá-las.
Naruto foi o primeiro a começar a andar, desviando das cadeiras à frente e seguindo até o dono da companhia pelo lado da janela. Seus passos foram seguidos por Gaara que o acompanhava a uma curta distância. Sasuke seguiu pelo lado oposto, caminhando no ritmo dos outros enquanto mantinha a mente concentrada no próximo trabalho.
Ele ainda se sentia cansado, fazia pouco tempo em que estava de volta à Moroz, mal tinha alcançado o seu quarto quando o aparelho de escuta apitou em seu ouvido com uma mensagem geral.
“Venham para a sala de reuniões”, foi o que Tobirama havia dito. Apesar da convocação ter sido feita pela rede, todos na empresa sabiam que ela era direcionada somente para três funcionários.
— Vocês precisam terminar de apagá-las até amanhã à noite — falou o homem entregando uma pasta para cada um. — Todas as informações que precisam estão aí, a Equipe 8 teve o cuidado de organizar os lugares para que ficássemos próximos uns dos outros.
Sasuke abriu a sua pasta e a primeira ficha apareceu com a foto e as informações que precisaria para quando saísse da companhia. Ele sentiu vontade de enrugar o nariz em desaprovação, porque o primeiro lugar que teria que ir ficava muito longe da empresa.
Alguma parte dele ainda tinha esperança de perder um tempo deitado na cama.
— O fluxo de movimentação da casa está aqui?
Sasuke ergueu o olhar para Gaara ao ouvir a pergunta, ela soava concentrada conforme o ruivo analisava as folhas que havia recebido.
— Eles já conferiram isso para não ocorrer nenhum imprevisto, vocês irão encontrar a informação no verso de cada ficha.
Gaara assentiu em silêncio.
— Zona Leste — murmurou Naruto. — Ótimo, um bairro sem metrô, vou demorar mais tempo para voltar.
— Não é como se você vivesse andando em um — disse Gaara com a expressão séria. — Aproveite o tempo para lembrar onde colocou meu rádio.
O mais novo do trio lançou lhe um olhar estreito, porém Gaara fingiu não notar quando fez uma reverência a Tobirama e deu as costas a um Naruto incrédulo.
— Gaara ganhou meu apoio dessa vez — disse Sasuke divertido, olhando para Naruto que estava boquiaberto.
Com um sorriso pequeno, o homem de cabelos pretos curvou o corpo para frente antes de dar às costas para Tobirama. Seus passos faziam barulho contra o piso e logo entraram no ritmo do caminhar de Gaara, os resmungos de Naruto puderam ser ouvidos por alguns instantes, antes de seus passos se direcionarem para a saída também.
Quando Sasuke alcançou o final da extensa mesa, seus olhos se encontraram com os de Gaara e ele percebeu um divertimento contido na expressão do rapaz de fios vermelho. Alguns segundos mais tarde, Naruto chegou até eles, lançando um de seus braços pelo pescoço de Gaara e fazendo este último soltar ar.
Sasuke sorriu com a imagem, porque ele gostava de como as coisas eram entre os dois, às vezes sentia o seu cansaço ir embora ao vê-los interagindo, porque isso o fazia pensar que eles eram toskanianos comuns, sem nada de especial que precisavam esconder.
— Ao serviço novamente mosqueteiros — disse Naruto com sarcasmo. — Quem precisa de um descanso quando se tem um trabalho desses.
Uma batida na mesa interrompeu sua ironia.
— Atenção rapazes. — A voz de Tobirama reverberou pela sala.
Os três jovens voltaram o olhar para ele.
Os cotovelos de Tobirama estavam sobre a mesa e as mãos serviam de apoio para o queixo, os seus olhos deslizavam pelos rostos de cada um com um orgulho que ele não fazia questão de esconder.
Nunca um tom de felicidade ou algo indiferente tomava sua expressão, Sasuke tentou lembrar de algum momento, antes de sair para a cidade, se tinha visto Tobirama com um olhar diferente daquele, mas nada veio à mente. Era como se não existisse nada para lembrar.
— Não se esqueçam de quem são e o motivo de estarem aqui — disse o homem com a voz séria. — Vocês são Conjuradores e o dever de vocês é conceder o esquecimento.
— Sim, senhor. — Todos responderam antes de sair.
Sasuke sentiu um gosto amargo na boca quando saiu da sala, porque não gostava de ser lembrado do seu trabalho, era como se Tobirama pensasse que eles iriam esquecer do motivo de estarem na Moroz. Mas isso nunca iria acontecer, porque cada pessoa da companhia deixava claro nas suas expressões o que ele, Gaara e Naruto eram.
Três meninos salvos pelo Tempo.
Três homens que não deveriam estar vivos.
Três Conjuradores que poderiam apagá-los se assim quisessem.
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