Conivência

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Colocando isso aqui antes que o bom senso me impeça. Primeiro Mystrade e faz uns cinco meses que não escrevo. Paciência é uma virtud e, então, por favor, tenham-na comigo ♥

- Gregory – Chamou baixo, a voz rouca, como o habitual, como deveria ser a tal hora da madrugada. Por que ainda não conseguira pegar no sono? Por que, de forma tão súbita, a sonolência o abandonara?

- Uh...? – O outro resmungou, a cabeça apoiado em seu peito, notavelmente deixando-se levar pela letargia. Realmente queria prosseguir com esse tipo de assunto?

- Só queria saber se já estava dormindo. – O Detetive Inspetor se arrumou na cama e sentou-se de pernas cruzadas, afastando-se da superfície que arrumara para apoiar a cabeça, fazendo o outro grunhir baixo, em forma de reclamação. – O que foi?

- Isso parece obvio para você. Porque os Holmes,pessoas colocadas no mundo para me incomodar, tornar minhas noites longas e exaustivas, arruinar qualquer indicio que pudesse existir da minha paz de espírito e me fazer parecer uma pessoa realmente inferior, sempre sabem. Porque, quando eu achei que estava livre do Sherlock, ou ao menos mais tranqüilo, por conta do John, me aparece você. Concluímos com isso que você sabia que eu estava acordado, então, vamos, diga, Myc.

- Meu nome é Mycroft e se eu me interessasse por qualquer abreviação o avisaria. – Reclamou. O grisalho bufou, sem estar realmente irritado.

Mycroft suspirou, abandonando também a posição que escolhera para descansar. O corpo,admitiu a si mesmo sem sequer pensar sobre. Porque desde que deitara na noite tépida da estação clara não conseguira desligar seus pensamentos por nem meio segundo.Questões triviais e completamente mundanas não paravam de martelar em sua cabeça. Tanto que quase as deixou escapar pelos lábios, tendo simplesmente sussurrado baixo o nome do amante. Caminhou desapressado pelo, notavelmente amplo, quarto escuro, até Gregory fazer a gentileza de acender o abajur. Aproximou-se da janela aberta com movimentos calmos e apoiou a mão sobre o peitoril da mesma, sentindo uma brisa abafada soprar seu rosto. Molhou os lábios e prosseguiu com o assunto que sequer deveria ter cogitado iniciar. Lestrade, permaneceu sentado na cama atrás de si, observava suas costas com as feições relaxadas, praticamente encantado com o que via, sem levar quaisquer fatores tão a sério.

- E se tudo acabar?

- Perdão...?

- E se... Tudo acabar, Gregory?

- Depende. – Uniu as sobrancelhas, mexendo-se para frente e para trás, inquieto como uma criança. – Ao que se refere o seu “tudo”?

- Nós. – Ponderou, recuperando o ar que faltava em seus pulmões. – E se tudo acabar? Entre nós. E se tudo acabar entre nós, Inspetor?

- Greg.

- Gregory.

- Droga, Mycroft. – O Detetive inspetor jogou o corpo para trás, esparramando-se na cama, respirando fundo. – É nisso que você pensa quando não dorme?

- Eu geralmente penso em coisas mais importantes. – Foi sincero, reconhecendo em voz alta, dando as costas para a janela. O outro revirou os olhos.

- E o que te levou a pensar nisso essa madrugada em particular e perturbar meu sono? – Mycroft negou com a cabeça, alegando que também não sabia seus reais motivos.

- Tudo termina, Gregory. Estações terminam. Flores murcham. Estrelas desaparecem. Pessoas morrem. Impérios caem. Nada é eterno. Nunca foi e nunca será. Por que nossa relação seria?

O silencio foi, aos poucos, tomando conta do ambiente. Mal se ouvia a respiração de qualquer um dos dois que fosse. Lestrade não entendia. O que levara Mycroft pensar esse tipo de coisa? Claro, sua cabeça era um labirinto. Genialmente um labirinto, mas era. Nunca chegaria a entende-lo por completo. Mal o fazia com o pouco que podia. Mas simplesmente não compreendia. Haviam passado o dia juntos. A primeira folga do Holmes mais velho em muitos meses. Haviam terminado gratificante o dia com um jantar agradável, teatro e o com Mycroft tocando o Prelude in C Major, de Bach, para ele, no piano, com ambos dançando uma valsa desajeitada, por sua parte, pois os movimentos do homem que segurava sua mão eram precisos, delicados e elegantes, em seguida. Então haviam feito amor, o termo doce que preferia usar, enquanto o parceiro fingia uma ânsia de vomito toda vez que o escutava. Havia sido bom. Ótimo, corrigiu. O melhor. Assim como todos os momentos que passavam juntos. Eram sempre os melhores, não importava por mais breves que fossem. Podiam não ser perfeitos, com Mycroft no maldito celular o tempo todo, e ele próprio recebendo incansáveis e intermináveis chamadas do trabalho. Mas eram sempre os melhores. Justamente como o homem que escolhera amar. E, ah (!), não havia sido fácil. Então por que isso agora? O que o levava pensar que tudo terminaria em algum momento? Ele não poderia simplesmente ser como qualquer pessoa apaixonada, como o próprio Gregory, que acha que tudo vai ser eterno? Bonito e feliz, ou quase tão bonito e feliz para sempre? Ah, claro que não. Ele era Mycroft Holmes, afinal.

- Bem, — O Detetive Inspetor voltou a sentar na cama, encarando o outro que parecia perdido em seus próprios pensamentos. – E se eu morresse amanhã?

- Como disse, meu caro?

- E se eu morresse amanhã? Digo, eu sei, você sabe.... Todos sabem. Nossas escolhas exigem sacrifícios, Myc. E tanto o lugar que você ocupa como a profissão que eu escolhi... Sabe, estamos expostos a qualquer e todo tipo de coisa. Enfim... E se eu morresse amanhã?

- Você acha que eu permitiria que você morresse? – Ele pareceu, no mínimo, ofendido com a suposição. – E essa não foi a questão inicial, Gregory.

- Vamos chegar lá. E não me importa o que você é. É uma teoria, coloque a culpa no destino. Você pode ser “O Governo”, Mycroft, mas não é Deus. E se, qualquer coisa acontecesse, e eu morresse amanhã?

O homem de gelo suspirou fundo e passou a mão pelo rosto. Seu mundo desabaria se Lestrade partisse. Sabia disso, era fato. Uma conjuntura irrevogável. Mas não se permitiria um maior tempo de luto, jamais. Qualquer emoção a mais e até de lágrimas duvidava. Não podia, simplesmente não podia deixar-se levar pelas emoções. “All lives end, all hearts are broken. Caring is not an advantage”. As coisas não eram tão simples na pratica. Não a partir de quando se aprende a praticar. E sabia que entre ele e o irmão sempre fora o mais sensível, embora nunca tivesse admitido. Agora que encontrara seu porto, um jeito de controlar as emoções de forma segura, continuar sendo uma pessoa fria, embora pudesse deixar os sentimentos fluírem às vezes com uma única pessoa, o que seria dele se ela partisse? Se essa pessoa o abandonasse em súbito nada? Seu luto duraria pouco tempo,era fato externo. Mal choraria, se chegasse a chorar. Se alguém perguntasse, diria estar bem.E “estaria”. Seguiria com o trabalho, seguiria com a vida. É isso, não é? Seguiria. Deu de ombros, negando novamente com a cabeça antes de prontificar a sentença:

- Eu seguiria com a vida, Gregory. – O inspetor assentiu e, com um gesto da mão direita, pediu para que se aproximasse.

- É isso que fazemos quando as coisas terminam, não é?- Mycroft sentou na borda da cama e Lestrade se aproximou, arrumando-se ao seu lado. – Se eu morrer, se terminarmos... A vida vai seguir, não é? – O político assentiu e escondeu o rosto na curva do pescoço do amante.

- Então... Se tudo acabar a vida vai seguir. – Repetiu em voz alta, tentando aceitar as informações que eram tão bem oferecidas. A resposta era obvia. Ele sabia. Se negara a admitir. Mas sabia. Simplesmente recusava-se a dizer em voz alta. Ele sabia que tudo tinha um fim. Assim como é obvio que dores doem. Que rosas tem espinhos. Que o sol vai aparecer pela manhã.

- Já que, para você, tudo tem que ter um fim...

- Não sou eu, Gregory...

- Eu sei que não. – Respondeu compreensivo. Novamente o silencio foi o único que falou. Até Mycroft, novamente, levantar uma questão com a voz baixa e rouca:

- Mas você não vai morrer amanhã, certo, Greg...?

Os olhos de Lestrade encheram-se de água contra sua vontade. Ver Mycroft sensível assim era comovente em demasia. Senti-lo sensível assim. Todos são tomados com uma duvida infantil vez ou outra, sabia. E aquela pergunta, com toda sua inocência, significava, em seus mais sinceros tons “Não vamos terminar, não é, inspetor?”. Levou sua mão aos cabelos do outro e, com ternura quase excessiva, os afagou de leve, como alguém que acalenta e acalma uma criança que teve um pesadelo, sorrindo bobo.

- Não, My, eu não vou morrer amanhã. Mas nós vamos trabalhar. – Ele indicou o confortável colchão com a cabeça. – E se formos dormir agora você, talvez, consiga dormir por umas seis horas, que foi o mínimo que você me prometeu. – O político assentiu, tomando os lábios do policial em um beijo casto. Acomodando-se junto ao policial na cama em seguida, voltando, quase instintivamente, À posição anterior. A noite seguiu serena, no eterno clima e cumplicidade, sem mais quaisquer duvidas mundanas que pudessem incomodar seu sono e as preocupações só voltaram a existir quando o sol já brilhava com intensidade, entrando pela janela aberta.

E certamente não foi problema adicionar à sua lista o fato de redobrar a segurança que mantinha em torno de Gregory, no novo dia que amanheceu. Apenas por precauções.

Notas finais
Ueee~
Eu não tive tempo (vontade) de editar ainda, então, quaisquer erros, estarei aqui para corrigi-los :3
Obrigado por ter lido até aqui o>
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!