Notas iniciais
Boa leitura!

Continuamente reflito sobre o Amor, o verdadeiro e não essa banalidade que convencionamos chamar de "amor". Seria isso uma Falácia do Escocês de Verdade (para os menos íntimos é aquela que diz respeito da exclusão do grupo)? Não. Acredito que nesse caso é uma distinção válida, porque amar não é simplesmente balbuciar com voz melosa "eu te amo" ou então trocar carícias com outra pessoa. Definitivamente, o meu ideal de Amor não é esse.

Devaneios, conjecturas e hipóteses, enfim, tenho muitos achismos, mas nenhuma teoria sólida que consegue compreender de maneira racional o fenômeno e depois predizer resultados empíricos baseando-me em modelos teóricos. Escrevo profissionalmente sobre o tema, contudo, por ironia da vida, eu nunca amei, não compreendo esse sentimento e constantemente contesto sua existência.

Devo ser cínico.

Não, definitivamente sou cínico! Sou tão hipócrita nesse quesito quanto Fernando Pessoa que dizia: " O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente".

Pois é, eu não acredito que este sentimento que descrevo realmente exista, mas fico feliz que essa mentira me traga louros. Sou um sacerdote sem fé iludindo meus fiéis, dou a eles as doces mentiras que suas mentes clamam em ouvir para que seus espíritos tenham paz, tudo isso em troca de algumas moedas.

Merda! Sinto-me péssimo. Porém, não consigo me culpar por completo, pois vez ou outra me pego caindo em minhas próprias mentiras; às vezes eu tenho esperanças que ainda encontrarei a matéria prima de meu trabalho, que aquele alguém especial está por aí em algum lugar esperando por mim e que muito em breve Afrodite será benevolente e me ungirá com sua graça.

Enfim, essas ladainhas são tão confortáveis que eu não vou me castigar por contá-las. Não sei se todos pensam dessa forma, mas ao menos eu preciso de uma muleta para seguir em frente. Sou fraco, por isso preciso idealizar situações e almejar que meu encontro com aquela pessoa especial está perfeitamente sincronizado, assim como os adeptos dessas religiões da Nova-Era precisam acreditar que nosso universo possuiu um ajuste fino.

Muito provavelmente esse meu anseio não será atendido, mas ainda tenho esperanças.

Eu gostaria muito de algum dia ter a chance de experimentar esse sentimento sublime e não essa mediocridade que convencionamos de chamar de "amor". Eu quero aquela intensidade descrita por Camões como fogo que arde sem se ver e...

Esqueci o resto!

Que bela bosta de escritor que eu sou! Além de hipócrita sou tão burro que não consigo citar corretamente meus heróis.

—Sr. Uzumaki, por favor, venha comigo. Estaremos no ar em cinco minutos.

Nossa, essa assistente da produção é linda. Esses olhos verdes azulados me lembram daquelas grandidierites que vi lá em Madagascar ano passado e seus fios louros me fazem sentir saudade daquele pôr do Sol. Já sei em quem devo basear a minha próxima personagem.

—Com licença senhor. — Disse a jovem enquanto posicionava a lapela em meu paletó. —Pronto, agora, por favor, espere o chamado da senhorita Tayuya para sua entrevista.

—Obrigado.

Já faz um bom tempo desde a minha última entrevista, então estou um pouco nervoso. Ok. Jiraya, relaxe, respire fundo e vamos nessa. Talvez o Kakashi esteja certo e essa não seja uma má ideia para divulgar o meu novo livro.

***

—Eu já quero começar a entrevista com uma questão que sempre me deixou megacuriosa: de onde você retira inspiração para escrever livros tão magníficos? Quero dizer, eles são românticos, mas ao mesmo tempo as personagens e os seus dilemas são tão reais que parecem que realmente existiram.

Excelente! Essa mulher provavelmente não leu nenhum dos meus livros e só está repetindo o que Ibizu Morino, outro imbecil, publicou em sua crítica para o jornal.

Meus livros não refletem de forma alguma a realidade, eles a idealizam para tornar mesmo que em poucas páginas o Amor algo verdadeiro.

Contraditório o fato de eu mentir para criar algo verdadeiro a partir de mentiras? Não, claro que não. Eu fantasio, porque somente dessa forma seria possível existir esse nobre sentimento do qual nunca tive a oportunidade de me deleitar.

Melhor responder agora, porque essa mula já está me encarando com estranheza.

—Tayuya, honestamente...

—Por favor, me chame de Tay. —Ela me disse sorrindo, enquanto ajeitava seu cabelo.

Juro que tentei resistir, mas tenho quase certeza que devo ter revirado os olhos com essa idiotice.

—Então, continuando; honestamente eu não sei ao certo. Porém, se fosse para fazer uma suposição pueril, acho que isso se deva a minha musa...

—Mas até onde eu saiba Jiraya Uzumaki está solteiríssimo! Quem é essa misteriosa mulher que faz... —E essas foram as últimas sentenças esgoeladas nas quais prestei atenção.

Puta merda, fui interrompido novamente! Odeio que façam isso! Será que o cu dessa desgraça tem inveja de sua boca? É tanta merda falada que eu não consigo acreditar.

Porra! Eu só pedi duas coisas ao Kakashi: a primeira era para que não me perguntassem ou fizessem qualquer referência ao caso Lolita; e a segunda era para que eu não fosse interrompido com mais perguntas enquanto ainda respondesse uma.

"Vai ser tranquilo, Tay é uma pessoa encantadora." — ele me disse antes de eu vir para cá.

É amiguinho, parece que alguém vai ficar sem emprego depois dessa entrevista. Espero que você consiga agenciar outro infeliz, porque eu já me cansei.

—... então, o que me diz? —Ela me perguntou com fervor.

—Perdão, será que você poderia repetir essa última parte?

—Qual o nome dessa sua musa?! —Tayuya indagou com um grito ardido.

Que mulher mal-educada! Juro que esta é a última vez que eu me deixo levar para alguma entrevista.

Depois as pessoas estranham o fato de eu me tornar uma pessoa reclusa.

—Veja, não é uma pessoa em si. É uma ideia. Eu sou cativo da ideia de amar alguém; amar tão intensamente que poderia abnegar todos os...

—E existe alguém que lhe desperte esse sentimento atualmente?

Não acredito que ela não vai me deixar responder uma pergunta sequer sem me interromper! Toda hora isso: pergunta, respo..., pergunta! Essa acéfala me questiona sobre algo e depois empata a minha resposta.

—Não.

—Então, será que eu poderia ser a Julieta para o seu Romeu? —Ela me perguntou com a voz dengosa. —Se bem que no nosso caso, por causa da diferença de idades, seria melhor dizer: posso ser a Lola para o seu Humbert? Ora, não precisa ficar vermelho, eu não mordo. A não ser que você goste. —Ela conclui me lançando uma piscadela enquanto sorria.

Não! Nem que um cometa cai na minha cabeça neste exato instante.

Essa maluca é no máximo dez anos mais nova do que eu! Como assim, eu ser o seu Humbert?!

Porra, Kakashi! Eu só tinha lhe pedido duas coisas, DUAS! E você falhou em conseguir ambas.

—Tay, eu não sei como dizer isso. Eu sei que você é uma mulher incrível, mas você não faz o meu tipo.

—Por que não?!

Bitch, please. (Piranha, por favor.)

—Qual seria o seu tipo então?

Definitivamente não seria uma besta igual a você.

Ok, agora eu tenho várias opções de resposta, todavia, tenho certeza que elas terminarão essencialmente de duas formas: ou eu continuo aqui, porque fui um mentiroso gentil e vou ter que passar mais tempo nessa entrevista tortuosa com esta mula; ou então, eu posso ser honesto e ir embora.

Seria tão bom se eu ainda tivesse o desprendimento social de falar a verdade sem me importar com as consequências. Infelizmente, já não sou tão sincero como antes. A última vez que fui sincero a mídia ficou torrando o meu saco durante várias semanas, só porque eu falei que gostaria de viver uma história de amor impossível como a de Humbert Humbert. Admito que esse não foi o melhor exemplo que eu poderia dar, haja visto que eu não sou um maníaco obcecado por uma garotinha pré-púbere; pobre senhorita Haze. Eu quis expressar uma relação cheia de complicações e que não há de se concretizar. Talvez tivesse sido melhor citar o mito de Orfeu.

O último comentário dessa velha que ainda se acha uma ninfeta me fez chegar ao seguinte pensamento: a vida é que nem Tetris, nossos acertos desaparecem, mas nossos erros são levados adiante e se acumulam com o intuito de nos foder até o último dia de nossas vidas.

Vamos lá, Jiraya, sejamos legais dessa vez.

—Porque você é de verdade e eu sou um velho romântico, não no sentido usual da palavra, mas no sentido da escola literária. O amor só é perfeito no campo das ideias, quando ele é transportado para a realidade...

—Meio fresco esse seu comentário, não? Será que não é um mecanismo de defesa de sua psique homossexual tentando...

***

—Porra, Jiraya! Que merda deu em você hoje? Por que você soltou os cachorros em cima da Tay? —Kakashi estava gritando dentro do carro.

—Motorista, você poderia parar aqui mesmo por favor? — Perguntei enquanto abria a porta.

—Aonde você vai Jiraya? —Kakashi perguntou enquanto me via ir embora.

—Pau no seu cu! Vou pra longe, porque minha cota para aturar babaquices já estourou por hoje. Aliás, obrigado pelo seu excelente trabalho. Só lhe pedi duas coisas simples e veja só o que eu consegui.

Puta que me pariu, eu preciso de uma boa tequila imediatamente!

Notas finais
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