Congelante
1 Prólogo
Notas iniciais
A energia que fluía por seus braços era gélida. Ela vinha quando as emoções se acumulavam em seu peito e se espalhava desajeitadamente por seu corpo, mas sempre se concentrava mais nas mãos.
Era uma agonia para Ezriel. As crianças a sua volta ainda especulavam sobre que tipo de poderes desenvolveriam na puberdade enquanto mal conseguia conter as correntes geladas que seu corpo pequeno emanava como uma aura ou uma barreira.
Estava sempre sozinho. Seus pais diziam que as crianças um dia se acostumariam à ele e que ele próprio aprenderia a suprimir o poder o suficiente para viver como os outros, mas ele sabia que era mentira. Até os adultos o olhavam com receio, como se pudesse matá-los por acidente ao cumprimentá-los na fila do supermercado.
Tentou uma vez mais estender os braços para tocar o corrimão das escadas de casa e assim que sua palma chegou a cinco centímetros da barra de madeira, uma fina camada de gelo começou a cobrir a superfície.
Amargurado, seu rosto se deformou em uma careta de choro e gotículas congeladas minúsculas escorreram como neve caindo dos céus por seu rosto. Correu escadaria acima e se trancou no quarto, sem ligar muito para a trilha de pegadas de gelo que havia deixado. Seus pais já haviam forrado o chão todo com plástico, de qualquer jeito, para que o chão não ficasse molhado toda vez que vagasse pela casa.
Queria muito que alguma das crianças da vizinhança também tivesse já desenvolvido poderes. De preferência alguém com poderes de fogo. Poderiam ficar um perto do outro, sem que a presença de um prejudicasse o outro.
Era isso que mais desejava. Rezava toda noite para as entidades de fogo que lhe concedessem um amigo incendiário, mas parecia nunca ter suas preces atendidas.
Se aproximou lentamente da janela e criou um batente de gelo para poder se apoiar e observar pelo vidro sem congelá-lo. Ainda podia ver algumas das crianças correndo pelas ruas, montadas em bicicletas ou subindo nas árvores próximas do jardim de sua casa. Até mesmo seu irmão mais velho estava do lado de fora, tentando conquistar a atenção de uma garota um ano mais velha com seus conhecimentos indispensáveis sobre as plantas que os vizinhos cultivavam em seus jardins.
Queria fazer parte de tudo aquilo, mas entre ficar quieto no quarto observando a vida do lado de fora e se aventurar no lado de fora só para ser rechaçado, preferia a primeira opção.
Suspirou e acabou por formar um ponto de condensação no vidro da janela, que ainda estava quente do sol de verão. Decidiu que era hora de treinar mais um pouco a supressão de seu poder e deu uma última olhada para a rua.
Tinha um menino olhando na direção de sua janela.
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