Conforto

1 A vista pelo vidro


Notas iniciais
Coisas relevantes de saber antes de ler o capítulo (que não são spoilers): — os personagens estão um pouco mais velhos (eu imaginei uns vinte e poucos anos); — Capítulo narrado pelo ponto de vista do Izuku.

Eu olhava do vidro da minha nave e via algumas estrelas ao longe. Não sei muito bem a métrica para definir o quão “longe” elas realmente estavam.

Já imaginava que ser herói me colocaria em várias situações insanas, mas, cara... Era o espaço! É tão legal colocar um traje que eu somente via em filmes de ficção científica e sair para trabalhar. Estou em uma missão simples: preciso tirar lixo espacial de uma área para colocarem alguns satélites no lugar. E, para fazer isso, não exatamente eles precisam de muita força, mas sim de algo que dê um empurrão nas coisas em pleno vácuo e não seja afetado por isso. Não é um trabalho só meu; outros heróis vieram comigo. E, além do propósito de remover os entulhos, há outro objetivo por trás de tudo isso: o turismo espacial tem crescido bastante, e crimes são cometidos em qualquer lugar que tenha alguém com más intenções. Precisávamos treinar nossos corpos à uma gravidade mais baixa ou inexistente, além de aprendermos vantagens e limitações dos nossos poderes. Afinal, podemos desafiar algumas leis da física.

Ah, e eu também não vim por conta própria. Sou fã de astronomia e tudo o mais, mas ainda continuo sendo mais fã do All Might. Vim por causa do meu... Namorado.

Shouto. Demorei um tempo até eu conseguir chama-lo assim sem gaguejar.

Pode não parecer, mas ele é um grande fã de física. Quando estávamos na academia, sempre pensei que sua matéria favorita fosse japonês. Mas, conforme fui o conhecendo, ele acabava falando sobre buracos negros, nebulosas, anãs vermelhas e uma infinidade de termos que só conheci graças a ele. Ele só pôde estudar mais a fundo depois que foi morar nos dormitórios da U.A., já que Endeavor não estava ao redor o tempo todo para atrapalhar. Eu sempre o incentivei e tentei aprender junto com ele, e não vou mentir, é muito legal, mesmo que minha intenção principal no começo fosse só passar mais tempo com ele.

Eu virei a nave um pouco, e agora minha principal visão era uma esfera azul e verde: Terra. O lugar que chamo de lar. Olhando para o lado, vi algumas estruturas metálicas: icosaedros, cubos, cilindros... Chamar de lixão passaria a impressão errada. É mais para um depósito flutuante de carga inutilizada. O espaço não sofre com poluição, até onde eu sei. Continuei sentado na cadeira de co-piloto, vagando em alguns pensamentos.

Eu estava longe, bem longe de casa. O mais longe que já estive.

Ouvi a porta da cabine abrir. Bom, só tinha mais alguém naquela nave, e era Shouto. Ele se impulsionou pelas paredes e se segurou na cadeira ao meu lado (ei, lembre-se, é normal ver gente voando na gravidade zero daqui). Passou o cinto ao redor de si e olhou para mim, sorrindo.

— Refletindo?

— Sim... Não imaginei que uma viagem como essa podia mexer tanto com a minha cabeça.

— Nem eu imaginei que você fosse mexer tanto com a minha... — brincou. Eu sorri de volta. Também demorei um pouco a me acostumar com isso, assim como ele levou seu tempo para falar essas coisas. — E isso não quer dizer que foi algo ruim.

— Imagino que não. Da minha parte, também não foi. — Assenti. — Mas, me diga... O que você está achando de estar no espaço?

Ele olhou para frente. Uma peça que parecia uma molécula de água de metal passou em frente ao visor e continuou sua trajetória.

— Acho confuso. — Fez uma breve pausa. Fitei-o e segurei sua mão, e ele prosseguiu. — Sabe aquela sensação de quando você vai para o campo e só vê o verde no horizonte, e sente aquela quietude? É mais ou menos isso. Porém, aqui é... Bem mais vasto. Bem mais vazio e, literalmente, sem som lá de fora. Parece que estamos em um lugar que envelheceu por tanto tempo que só sobrou os fósseis, e somos as bactérias que lutam para sobreviver e serem analisadas algum dia. Mas também parece muitas outras coisas ao mesmo tempo. A melhor forma que encontrei de descrever esse sentimento estranho até agora foi assim: confuso. Até demais.

Shouto falava muito quando estávamos sozinhos. E passou a fazer isso ainda mais quando se deu conta de que eu realmente queria ouvir ele falar.

Fiquei imaginando em quantas coisas ele já devia ter pensado. Ele ficou aéreo durante a viagem inteira, e ainda continua assim parte do tempo. Depois que desconectamos essa nave do Centro Espacial Experimental de Heróis (tínhamos que treinar a pilotagem, tipo, de verdade!), ele passa ainda mais tempo olhando as coisas ao seu redor, fazendo anotações no seu caderno e pesquisando algumas coisas na internet. Eu não ia cortar o barato dele, então só fazia companhia ou matava tempo vendo alguma coisa aleatória. Tínhamos algum tempo até os outros heróis chegarem no Centro e fazerem o treinamento, então podíamos ficar aqui, zanzando na nave.

— E você, Deku? Como se sente?

Respirei fundo.

— Bom, o que eu mais penso é no quão longe de casa eu realmente estou. Mas não é desconfortável, já que você está aqui pra me fazer companhia. Se eu trouxesse algumas coisas do meu quarto pra cá e...

— Você quer dizer todos os seus itens de colecionador do All Might?

— Sim, isso mesmo! — Concordei, digamos, com um misto de orgulho e vergonha. — E se você trouxesse sua decoração japonesa pra cá, dava pra chamar isso de casa também. Ao mesmo tempo, também penso em quanta coisa que eu pensava ser impossível se tornando possível. Meu poder, meus amigos, a gente junto, e agora... Sair da Terra. — Estendi meu braço para frente, vendo uma das minhas cicatrizes se equiparar ao tamanho de um país, e abri minha mão. — Não sei se isso quer dizer que o que vejo é pequeno ou grande. Acho que também é bem confuso pra mim.

— Entendo.

Shouto soltou o cinto com sua mão livre, e eu o puxei para a minha cadeira. Ele é maior que eu, mas era só ele se ajeitar um pouco que dava para sentar no meu colo com conforto. O abracei e ele escorou a cabeça no meu ombro. Não deixei de afagar seus cabelos. Ainda olhando para o lado de fora, soltou um suspiro.

— É muita informação ao mesmo tempo para processar. Acho que precisamos nos desligar disso, só um pouquinho.

— Concordo...

Virei-me para ele e ele se virou para mim. Esse jeito que ele me olha quando quer me beijar... Eu realmente preciso disso agora. Mesmo que não precisasse, definitivamente não seria ruim.

Ele colocou a mão no meu rosto. Tão quente... Se aproximou de mim e nos beijamos. Naquele momento, toda a confusão que havia em minha mente foi embora. Ele soltou nossas mãos e acariciou os cabelos da minha nuca enquanto isso. Suave. Solene. Minha vontade era de sempre puxá-lo para mais perto, mesmo que não houvesse distância entre nós.

Shouto terminou o beijo com um selinho. Escorou em meu ombro novamente e apoiei minha cabeça por cima da dele.

— Descanse, tá bom? — ele disse, quase sussurrando. Provavelmente já teria fechado os olhos.

— Sim. Você também.

Vendo os últimos resquícios de azul e verde, também fechei os olhos e me acomodei.

Notas finais
Críticas são muito mais do que bem vindas. Eu realmente não me sinto confiante em descrever algo em um diálogo porque sinto que coloco ladaínha demais, mas quando evito isso, sinto que descrevi de menos. Sim, é possível ver estrelas no espaço. Geralmente elas não aparecem nas fotos que a gente vê que o pessoal tira, mas é que elas são muito pequenas pra aparecer. Sabe aquela lua maravilhosa que você vê, mas quando tira foto, sai um lixo? Pois é! É tipo isso. Eu não sou lá a major em física, então não tenho certeza da distância exata que a nave tinha que estar da Terra pra colocar um satélite. Depois vou dar uma pesquisada, e qualquer coisa, mudo algo no capítulo (na parte que o Deku compara a cicatriz do braço dele com o tamanho de um país, mesmo que eu não tenha especificado qual). Talvez seja coisa da minha cabeça também, sei lá Espero que tenham gostado
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.