Conflito

1 Capítulo Único


Talvez ele pudesse lhe fazer uma surpresa, mas o que poderia ser ?

Flores ? Chocolate ? Uma joia talvez..

Queria tanto que ela soubesse o que ele sentia … ele pensava em palavras, mas elas não eram suas amigas mais próximas. Não costumava se dar bem com elas.

Talvez um poema …

Se seus olhos, dentro dos meus, pudessem traduzir os mais lindos sonhos,

Se sua boca, dentro da minha, pudesse revelar as mais doces palavras ….”

Talvez não fosse tão convincente, talvez ela achasse um exagero bobo de um velho lobo avançando sobre a ovelha, para ganhar algumas horas de conforto !

Tinha que ser alguma coisa que tocasse seu coração, que ela simplesmente o encarasse e sentisse que ele iria até o fim do mundo, apenas para colher a flor exata que nascia nas encostas de um despenhadeiro. Aquela que ela talvez achasse que não haveria mais formosa.

E ela a acariciasse, tocasse suas pétalas aveludadas e sentisse através dela o quanto seu mundo era nulo sem ela.

…........

A casa ainda estava vazia, nada de sua presença. Por que demorava tanto ?

Será que ela não entendia que não conseguia mais ficar sozinho, que tudo que fazia nada valia, sem ela.

Tentou uma chamada !

_Sara ?

Sem resposta.

Ele tentou seu celular, mas também não houve resposta.

Olhos no teto.

Seu coração apertado começou a confabular com sua mente. Eles brigaram, ninguém venceu.

Não existe razão para as coisas do coração. Alguém dissera, e merecia um Nobel por tal exaltação.

Ele suspirou. Oh Deus, sentia tanta falta dela.

Decididos a simplificar suas vidas, ela aceitara passar mais tempo com ele.

Visitas esporádicas em seu apartamento apenas para pequenos afazeres e obrigações.

Dormir e acordar. Juntos.

Agora eram um casal, com deveres e obrigações, a divisão da cama e do espaço para escovas de dentes.

Óperas perfeitas.

“O pente e a escova”

“O perfume e a água de banho”

“A loção e o creme”

Mas o segredo persistia, o mundo deles era somente deles. Não havia troca de experiências, nem tampouco conversas paralelas sobre o que vestir para encontrá- lo, ou o que dizer para que ela perdoasse sobre qualquer que fosse o conflito.

Não podiam ter melhores amigos, eles tinham que se bastar.

E eles haviam discutido, alguma coisa sobre “tempo”.

Há dias ele estava distante, parecia fora de sua órbita. O cansaço havia lhe tolhido a capacidade de sentir, de querer, de agradar e até de demonstrar.

Precisava viver sem dar satisfações, sem ter os olhos questionadores quando chegava em casa atrasado. Sem cenas de ciúme por causa de Sofia, ou Heather, ou qualquer que fosse a mulher que se aproximasse dele. Precisava de espaço, como estivera acostumado uma vida inteira.

Necessitava de tempo para ordenar seus pensamentos, talvez pudesse elevar a sua alma para aceitar as mudanças que acometera sua vida.

E ela partira, resolvida a aceitar a proposta de um antigo professor sobre a “Maratona das universidades sobre o poder da física na atualidade”

Ela estava às voltas com temas complexos e equações milenares que ainda valiam boas horas de discussão.

Ela se tornara entre os alunos, uma referência bibliográfica.. Era ela adorada.

Conquistara muitos admiradores.

E ele sabia de tudo isso, não por ela, que nunca o atendia, mas pelas conversas de bastidores.

Greg era seu informante secreto. Tão secreto que nem mesmo ele sabia de sua função.

Ele havia se tornado seu mais fiel seguidor, nomeara mentalmente seu braço direito, grudara nele feito um parasita. Greg era o elo que ligava a mulher de sua vida a ele.

“A Sara parece cada dia mais linda …. A universidade é um mundo de possibilidades … A Sara tem tantos admiradores que cheguei a ficar com ciume …. Ela é adorada como uma deusa …. Qualquer porta se abre a ela …. A Sara ...”

Tudo e mais algumas coisas ele ouvira de sua própria boca. Greg fora até ela, em uma de suas folgas. E ele teve ímpetos de também fazê – lo. Mas teve medo da rejeição. Estavam em tempo de espera.

E ele morria em cada palavra, um pedacinho. Seu corpo estava tomado por hematomas da surra que a vida estava lhe dando. Mas ele merecia. Havia feito isso a ela. Por que ele gostava de magoá – la ? Inferno !

Tolo.

Inútil

Insensível.

“Você não me liga e eu não te ligo. Se é de tempo que você precisa, você o terá”

Essas foram as suas últimas palavras, que ele sustentou no alto de sua ignorância e de seu egoísmo.

Seu peito estufado durou apenas o espaço de uma noite e um amanhecer.

Depois ela se instalou dentro dele, agarrando suas intenções e esmagando qualquer possibilidade de paz.

Precisava tanto dela quanto da necessidade de respirar !

“Maldito seja você, homem de pedra !”

Ele usara sua pedra para atirar em si próprio. E acertou em cheio, o ferindo profundamente.

Os olhos no teto.

Assim que ouviu o barulho da porta, em um salto ficou de pé, esperando.

Ela entrou, depois fechou a porta e olhou para ele.

Sem rodeios, sem surpresas, ela simplesmente tinha que fazer, o mais rápido possível.

_Olá Grissom !

_Oi Sara … onde está a sua bagagem ? — Sua voz era suave, uma carícia. Ele caminhou até ela.

_No carro, vou pegar o resto das minhas coisas e ...

_Onde você vai ?

_Talvez você precise de um pouco mais de tempo.

_Talvez não !

_Não ? Então o que decidiu ? Eu preciso saber para retomar a minha vida e …

Ela estava tentando se sentir forte, madura e decidida. Mas estava tão assustada quanto uma criança presa em um quarto escuro, temendo monstros no armário.

_Você não vai a lugar algum. — Ele avançou mais um pouco, numa distância perigosa de apenas alguns centímetros.

Ela brincou com os seus olhos jogando- os nos cantos.

_Não vou ? Estou apenas facilitando as coisas para você !

_Eu não quero que facilite as coisas para mim. Eu quero que complique tudo, o tempo todo, que me cobre cada vez que eu chegar tarde, que me ligue só para ter certeza que estou bem, que brigue comigo toda vez que uma mulher se aproximar de mim … eu te amo, desde sempre, e foi preciso exatas sete oras para descobrir. Sou um tolo, por renegar a verdade. Eu não sei viver sem você !

Os olhos molhados procuraram os dela, não estavam mais frios e nem tampouco sem o brilho que estava acostumado a ver. Agora eles tinham voltado a vida.

_Me perdoa … não vá !

Os braços dela esticados ao longo de seu corpo elegante, viajou para seu pescoço.

_Você disse que precisava de tem …..

_Shiii, apenas diga o que eu preciso ouvir !

_Eu te amo Gilbert, sempre te amei …

Eram beijos de saudades, de desespero, de urgência e ânsia de estar sempre, por uma vida toda ao lado dela.

FIM

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