Conflicted - um recomeço
27 Meus demônios
Notas iniciais

UMA SEMANA DEPOIS
Uma semana depois da nossa traumática experiência, as coisas acabaram entrando nos eixos. Não sei como consegui ludibriar Hotch na entrevista cognitiva, mas ele não percebeu que o motivo da minha agitação era Maeve e se percebeu, não falou nada. Spencer e eu continuamos juntos, vivendo dia após dia, trabalhando lado a lado na UAC — menos quando ele tinha que viajar para resolver algum caso — e reconstruindo nossa história com memórias mais felizes do que as anteriores. É, eu poderia dizer que estávamos indo bem e pela primeira vez a paz reinou em nosso relacionamento.... Ah sim, tirando o fato de que minha mãe permanecia irritada com Reid, porque, na cabeça materna protetora, ele era o responsável por meu infortúnio recente. E continuava insistindo na mudança para Nova Iorque, dizendo como eu amaria ter o Central Park ao meu alcance todos os dias... Oh céus, que chatice!
Mas, vamos ao tempo presente: era uma noite de domingo e eu estava numa pilha de nervos, pois a apresentação da minha tese seria no dia seguinte. Eu estava no apartamento de Spencer treinando a exposição do meu trabalho enquanto ele assistia sentado em seu sofá vestindo apenas sua boxer e um roupão por cima aberto.
— Nesse diapasão, a parte do lobo frontal é responsável pelas em... — eu falava segurando uma folha, mas fui severamente interrompida.
— O tempo acabou! — anunciou Spencer apertando o cronometro que ele estava usando.
— Mas que droga! — joguei as duas mãos para cima e deixe-as cair em minhas coxas, sentando no sofá ao seu lado em seguida — Vou tirar um zero desse jeito! Não consigo manter minha apresentação no tempo limite!
— Você tem que relaxar um pouco, meu amor. — ele colocou as mãos entre meu pescoço e ombros e começou a massagear, dando um leve beijo no meu ombro esquerdo.
— Vamos dar uma pausa? — pedi, encarando-o com olhos suplicantes.
Ele concordou levemente com a cabeça e disse, sugestivamente:
— Mas o que será poderíamos fazer para passar o tempo?
Reid começou a deslizar sua mão pela minha coxa e a apertou.
— Hm... Eu tenho algumas ideias. — respondi no mesmo tom.
Ele, então, se inclinou em minha direção para me beijar, mas eu me afastei, colocando a mão na frente do seu rosto, dizendo:
— Não, não assim! Eu tenho uma ideia. — meu rosto se irradiou e eu levantei rápido do sofá, saltitando até minha bolsa.
Spencer me acompanhou com os olhos com o cenho franzido, tentando entender o que eu queria fazer. Tirei da minha bolsa uma venda preta e escondi atrás de mim para que ele não visse.
Caminhei na ponta do pé em passos lentos até ele, que me secava da cabeça aos pés. Quando eu cheguei à sua frente, revelei a venda com entusiasmo e ele fechou a expressão.
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, fui colocando-a em seus olhos, até que ele informou:
— Alexis, eu não gosto muito de vendas e...
Amarrei-a na sua cabeça e fiz um “shiu” — pedindo silêncio—, aproximando meus lábios dos dele e murmurando:
— Não se preocupe, eu farei a venda nos olhos ser divertida de novo.
O rosto de Reid se acendeu num sorriso incrível, mas, em questão de segundos, ele ficou sombrio.
Num gesto raivoso, ele arrancou a venda e, muito sério, perguntou:
— De onde você tirou essa frase?
— Da minha cabeça? — respondi, confusa — Reid, o que foi?
Ele levantou do sofá e colocou a mão no quadril, parecendo desnorteado. Seu olhar baixo vagava até que parou no livro pousado na mesa de centro: A Narrativa de John Smith.
— Você leu as cartas de Maeve, não leu? — ele estava inexplicavelmente bravo e aquela frase era mais uma afirmação do que uma pergunta.
— Não, eu não li... — menti, unindo as sobrancelhas — Eu não far...
— Não minta para mim, Alexis! — ele me interrompeu, alterando o tom de voz — Sempre foi uma péssima mentirosa! E eu tenho memória fotográfica, sei muito bem que essas são as palavras exatas de Maeve na carta.
Maldita memória fotográfica, argh! Tudo bem que foi estupidez minha ter reproduzido as mesmas palavras de Maeve... Mas aquilo estava tão impregnado em meu subconsciente que nem me dei conta na hora de falar.
Fiquei irritada com toda aquela história e, ouvir Reid tão mexido com a situação me deixou inquieta, então confessei:
— Sim, eu li. Fui mexer no livro e o envelope caiu, não foi proposital, mas... Eu li sim. — meu tom era firme e eu não demonstrei vergonha por ter bisbilhotado. Assumi minha responsabilidade.
— Como pôde, Alexis?! Era a minha privacidade e de Maeve! — ele esbravejou, aproximando-se de mim com os olhos ardendo em fúria.
— Eu não sei! — agora eu gritava, também me aproximando, como se quiséssemos medir forças — Eu vi as cartas ali e fiquei curiosa para saber como era o relacionamento de vocês e... não sei explicar... — eu passava os dedos nos meus cabelos, olhando para baixo, perdida — Acho que fiquei com ciúmes.
— Ciúmes?! — ele ficou mais alterado com minha explicação e agora eu já sentia seu hálito quente pela nossa aproximação — Não acredito que Susan conseguiu te manipular dessa maneira!
— Ela não me manipulou! — vociferei — E depois teve o sonho e... — parei de falar instantaneamente quando notei minha confissão estúpida. Deus, por que eu não calava a boca de uma vez? Só estava piorando as coisas!
— Que sonho, Alexis? — demorou um segundo para ele fazer a ligação — O pesadelo que teve com Susan? O que isso tem a ver com Maeve?
Engoli em seco, me odiando profundamente por aquele descuido e decidi esclarecer:
— Na verdade... Meu pesadelo foi com Maeve. Sonhei que nós estávamos casados, mas... Eu estava no corpo de Maeve. Não era eu por fora. — senti um frio na barriga recordando o sonho terrível.
— Ah então mentiu sobre isso também? E eu, idiota como sempre, achando que você estava com EPT! — ele riu de si mesmo e ficou mais alterado do que estava anteriormente — Você fazendo terapia com Hotch esse tempo todo... mentindo para ele também! Meu deus, não acredito que além do que Susan nos fez passar, ela também vai conseguir nos destruir...
— Nos fez passar? Você quer dizer me faz passar, Reid! Eu estava sendo espancada enquanto você recebia um ótimo sexo oral! — as palavras saíram tão rápido que praticamente as vomitei num tom alto eivado de fúria.
Reid deu um riso cínico.
— Só pode estar brincando... Acha mesmo que eu gostei daquilo?
— Com certeza foi melhor do que apanhar! Ah claro e como pude esquecer... E muito melhor do que ficar sendo chamada de substituta da sua ex!
Agora eu tinha retornado o assunto para Maeve.
— Ela está morta, Alexis! Morta! — ele gritou com dor e raiva na voz.
— E é exatamente esse o problema! — respondi no mesmo tom, olhando-o fixamente — Você nunca a conheceu de verdade, não sabe dos defeitos dela, como seria a vida com ela... Maeve é essa garota perfeita em sua mente e eu não consigo competir com isso. De certa forma, você nunca irá supera-la, porque... — eu engoli em seco, porque as próximas palavras iriam me doer — porque ela nunca te deixou, Reid. Nem você a deixou. Ela foi tirada de você.
Spencer ficou imóvel diante da minha revelação e sua feição ficou inexpressiva.
Eu fiquei próxima de seu rosto e, com a voz trêmula, tomei coragem e perguntei:
— Diga-me, Reid: se Maeve estivesse viva, nós teríamos ficado juntos?
Por mais que eu temesse com toda a minha vida a resposta daquela pergunta, de modo heroico, continuei o encarando para estar com meus olhos nos dele quando ele me respondesse.
Ele respirou fundo e respondeu:
— Não quero mentir para você... Então, a minha resposta é: eu não sei, Alexis. Queria te dar certeza que nós aconteceríamos, mas não sei.
Meus olhos ficaram úmidos, inundados por lágrimas que ainda não caíram, mas eram visíveis. Dei dois passos para trás, ainda o encarando e, com a voz relutante de choro falei:
— Essa resposta já diz o suficiente. Obrigada pela sua honestidade, Doutor.
Ele abaixou o olhar, impossibilitado de me encarar. Eu peguei minha bolsa e me dirigi em passos decididos à porta.
Quando coloquei a mão na maçaneta para ir embora, me virei para anunciar a última coisa:
— E caso não tenha ficado óbvio, nós acabamos.
Aquelas palavras saíram como cacos de vidro cortando toda a minha garganta. Nunca pensei que uma frase pudesse doer tanto: nós acabamos.
Reid ficou perplexo e me assistiu sair do apartamento. O que eu havia feito?
Encostei a cabeça na parede do lado de fora, as lágrimas já desciam dos meus olhos traçando um caminho por minha bochecha e meu nariz estava fungando. Tive esperança que ele viria atrás de mim, mas não o fez. No meio das lágrimas que desciam silenciosas, escutei um barulho forte do apartamento de Spencer como se ele tivesse atirado alguma coisa contra a parede, mas não era nada de vidro, pois não escutei o estilhaçar do vidro. Poderia ser um livro.
In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah
I was lost, I was lost
Crossed lines I shouldn't have crossed
I was lost, oh yeah
Desci as escadas do prédio tão rápido que eu não me surpreenderia se tivesse caído. Eu queria desesperadamente sair dali.
Atingindo o lado de fora do prédio com o rosto inchado de choro, dei uma última olhada para a janela de Reid e percebi uma silhueta preta encarando o lado de fora: era ele. Mas ele estava distante e seu apartamento estava escuro para que eu pudesse identificar sua expressão.
Senti mais uma lágrima escorrer de meus olhos e chamei um táxi, sabendo que, talvez, aquela seria a última oportunidade que eu estaria naquele prédio.
I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I waited for it
If you go, if you go
Then leave me down here on my own
Then I'll wait for you, yeah
Depois de uma corrida de táxi de aproxidamadamente vinte minutos, cheguei ao meu prédio. Paguei a corrida e saí do táxi que arrancou prontamente. Como se meu dia já não estivesse ruim o suficiente, Sean me esperava em frente a porta de entrada do condominio segurando um pequeno buquê de flores vermelhas.
Girei os olhos e bufei:
— Isso não pode estar acontecendo...
— Alexis, oi! — ele estava estranhamente sem jeito.
Me aproximei para tentar entrar no prédio, mas ele estava obstruindo o caminho:
— O que você quer, Sean?
— Quero saber como você está, soube de tudo o que aconteceu e...
Antes que ele pudesse continuar, eu o interrompi:
— Uma semana depois? Sério mesmo? — debochei.
— Bem, sua mãe disse que você estava muito irritada comigo pelo o que descobriu sobre Lila e bem... — ele colocou a mão atrás da nuca, parecendo envergonhado — Achei melhor esperar para falar contigo. Eu trouxe flores.
Ele estendeu o buquê para que eu pegasse. Com expressão fechada, peguei as flores, olhei-as por uns segundos, dizendo:
— Você não entende nada, não é mesmo? Não dou a mínima pela sua traição com Lila, eu estou apaixonada por outra pessoa agora! — eu senti que a confissão de que eu amava outro doeu em seu âmago e continuei: — Mas o que eu nunca vou perdoar é eu não saber esse tempo todo quem você realmente era.
Dei passos lentos até ficar parada ao seu lado e Sean estava estático pelo poder da minha demonstração de desprezo.
— Você poderia ter me contado. — eu empurrei as flores contra seu peito e ele as segurou prontamente — Preciso dormir, tive um dia cheio.
Entrando no condomínio, tranquei a porta e minhas lágrimas voltaram a escorrer. Céus, por que tudo tinha que acontecer ao mesmo tempo como numa tsunami?
Bom, aquele definitivamente foi o dia de falar todas as verdades para os homens da minha vida. Mas eu não podia mais me preocupar com isso, eu tinha a apresentação da minha tese no dia seguinte e precisava urgentemente começar a encher minha cabeça com células, teorias e argumentos de defesa do meu trabalho.
Onze horas da manhã daquela segunda-feira, eu estava parada em frente de toda a banca no auditório da faculdade, esperando o início das perguntas sobre a apresentação do meu trabalho. Apenas alguns alunos estavam ali para assistir e a única conhecida era minha mãe, fazendo com que o enorme auditório estivesse quase totalmente vazio.
Eu vestia uma camisa branca social e por cima, um terninho preto, uma saia um pouco acima do joelho justa e preta também, um sapato social com um salto delicado. Meu cabelo estava liso e uma pequena parte da frente estava presa para trás, num moicano delicado; logo atrás de mim havia os slides da minha exposição que estava sendo mostrados por um projetor.
Os quatro membros da banca de avaliação — quatro professores renomados da faculdade — estavam prontos para iniciar seus questionamentos e eu estava nervosa, minhas mãos entrelaçadas uma na outra e eu não parava de aperta-las.
— Então, Srta. Parker — começou o Professor Smith olhando por seu óculos de grau e fazendo anotação na versão impressa do meu trabalho — Gostei bastante da sua tese, é nítido que voce fez uma pesquisa e leitura apronfundada... Até mesmo usou A Biologia do Mal, uma obra de grande peso na área da psicologia... Realmente estou impressionado, parabéns!
Eu sorri com o comentário positivo dele e murmurei um “obrigada” com os lábios.
A próxima a falar era a Professora James:
— Faço das palavras do Professor Smith as minhas... — ela folheou o meu trabalho e continuou: — Mas o que mais me chamou a atenção foi a paixão que você colocou no seu trabalho. A parte dedicatória ficou um pouco diferente... Você fez uma dedicatória interessante. Gostaria de falar algumas palavras sobre ela?
O assistente que estava passando os slides durante minha explanação da tese, voltou ao slide da dedicatória que mostrava apenas o nome das pessoas que dediquei, mas, no trabalho escrito, estava completo. No slide, aparecia o seguinte: Ao meu falecido pai; À minha mãe; Ao meu irmão; À equipe da UAC – FBI; e, finalmente, ao Doutor Spencer Reid.
Olhei para o slide, passando o olho por toda a dedicatória e parei no último nome: Doutor Spencer Reid. Era tão duro me lembrar que algumas horas atrás nós terminamos. Aquela tese foi o começo de tudo, tive um flashback de quando Reid me entregou o resumo do livro e, naquele momento, nossa história já estava começando e eu não tinha a mínima ideia. Quanta coisa passamos, quantos beijos demos... Quantas vezes nos entregamos um ao outro! O estágio na UAC me trouxe mais do que eu imaginava: me trouxe amor. Eu sempre achei que era apaixonada por Sean, que nós nos casaríamos, mas depois que conheci Reid eu soube que nunca senti nem perto disso por Sean. Eu não deveria estar tendo aqueles pensamentos, afinal, na noite anterior eu tinha acabado tudo entre nós e... Spencer não me procurou. Nenhuma vez. Nenhuma ligação. Nada. E ele sabia melhor do que ninguém que hoja era minha apresentação.
Fiquei encarando o slide por mais tempo do que o aceitável e, diante do meu silêncio, a Professora James anunciou:
— Se não quiser falar, não tem problema... Sua nota não será prejudicada.
Acordei do meu transe e falei:
— Não, tudo bem. Posso falar a respeito, claro. Bem, a dedicatória dos meus pais é indispensável pelo amor incondicional que sempre me deram, especialmente meu pai antes de falecer; já o meu irmão, ele sempre demonstrou tendências sociopatas e atualmente está encarcerado, mas nada muda o fato que eu escolhi a área da psicologia para salva-lo; a equipe da UAC foi a que eu fiz o estágio obrigatório e a experiência foi enriquecedora, foi ótimo ver a teoria psicológica dos perfis criminosos aplicada na prática; e quanto o último nome — engoli em seco antes de pronuncia-lo — Doutor Spencer Reid, ele foi meu colega no estágio, um homem jovem, porém que possui uma inteligência incomparável e me ajudou diretamente a construir uma tese sólida, além de ter me apoiado o tempo todo. — e também é o amor da minha vida que fui obrigada a abandonar por causa de uma ex namorada morta, pensei.
— Ótimo, estou satisfeita com sua resposta, Srta. Parker! — a Professora disse, fazendo uma anotação em meu trabalho — Muito bonita sua atitude de agradecer expressamente todas as pessoas que te ajudaram, isso é muito importante. Passo a palavra ao Professor Anderson.
— Lá vamos nós, Srta. Parker. — o Sr. Anderson era o mais velho da banca com seus 55 anos — Você poderia dizer que o seu estágio na Unidade de Análise Comportamental mudou sua forma de ver a psicologia criminal?
— Não. — respondi prontamente e todos da banca me olharam, surpresos. Eu continuei: — Mudou muito mais do que isso. Mudou minha vida. Eu... Nunca mais serei a mesma depois desse estágio.
Claro que minha resposta era ambígua, mas nenhum professor poderia saber já que nenhum, de fato, sabia o que aconteceu no meu estágio e do meu envolvimento com o Dr. Reid.
— Muito bom! Esse é objetivo do estágio: fazer o aluno pensar no plano prático. Também estou satisfeito com a resposta. Obrigada, Srta. Parker. — o Sr. Anderson fez anotações em meu trabalho também.
Agora, só faltava o Professor Miller para fazer algum questionamento se tivesse, e eu teria minha nota final:
— Também estou bastante curioso sobre o seu estágio no FBI.
Mas que droga! Ninguém iria me perguntar sobre os métodos alternativos de tratamento da psicopatologia que abordei na tese? Não aguentava mais falar desse estágio...
— Srta. Parker, no seu tempo de estágio, você pôde notar se a aplicação da psicologia para encontrar criminosos pela UAC é eficaz?
— Totalmente. — respondi sem hesitar — A equipe da UAC é muito séria e competente, inclusive já salvaram minha vida uma vez baseada num perfil. Tenho completa confiança no trabalho que eles exercem. — resolvi ocultar que eles também erraram o perfil uma vez e me colocaram em perigo, igualmente.
— Entendo. Estamos prontos para deliberar. — ele fez uma pausa dramática, acredito que proposital.
Após poucos minutos de liberação, a banca anunciou minha nota que foi nove e meio. Respirei aliviada, afinal, eu passei por uma tempestade na noite passada e conseguir tirar nota alta apesar de todo o estresse é uma grande conquista.
Expus um sorriso radiante de pura felicidade e realização e vi na plateia que minha mãe fez o mesmo, parecendo orgulhosa de sua pequena menina de vinte e quatro anos.
— Intervalo de quinze minutos e vamos para a próxima apresentação. — anunciou o Professor Smith, guardando minha tese.
Eu desci do palanque que me encontrava para falar com minha mãe que me esperava com os braços abertos.
Apertei passo para chegar mais rápido até ela e nossos braços se encontraram, fechando-se num abraço amoroso e de orgulho entre mãe e filha.
— Ah minha querida, como estou orgulhosa de você! Conseguiu realizar um ótimo trabalho! — ela parou de me abraçar para me olhar — E sobreviveu a tudo! Você é uma verdadeira vencedora, Alexis!
— Obrigada, mãe. Eu não teria conseguido nada sem você. — eu sorri de volta, tomada pela alegria das boas notícias.
Olhei por cima do ombro e vi quem eu não esperaria ver naquele momento: o nome na minha dedicatória, vindo em minha direção sempre com as mãos nos bolsos da calça com a pasta atravessada e o cabelo bagunçado.
Minha mãe estava tão animada com o resultado do meu trabalho que resolveu não fazer uma cena ali.
Andei até ele, diminuindo a distância e quando estávamos perto o suficiente, falei, sem jeito:
— Dr. Spencer Reid, você aqui?
— É, eu tentei vir mais cedo, mas não consegui sair da UAC. — ele colocou a mão na nuca, parecendo envergonhado — Não vi sua apresentação inteira.
Nós dois estávamos sem jeito, não sabíamos como agir depois da briga e, agora que estávamos separados.
— Mas onde você estava no auditório? Não consegui te enxergar lá de cima.
— Sou bom em não ser notado. E você estava concentrada na banca...
— Então, de que parte em diante você viu a exposição do trabalho? — eu queria desesperadamente cortar o clima estranho e continuar a conversa.
— Cheguei apenas na parte das perguntas da banca, infelizmente. — ele parecia verdadeiramente triste por ter perdido a apresentação inteira.
— Ah, então viu a parte da dedicatória, né? — fiquei encabulada e senti minhas bochechas se avermelhando.
— Vi. E estou lisonjeado, para falar a verdade. — ele sorriu, envergonhado — Eu não esperava.
— Não teria como não coloca-lo na dedicatória... — eu falei como se fosse continuar a frase, mas não consegui. Reid sabia muito bem os motivos de eu ter o seu nome no trabalho e, agora, por termos terminado, seria constragendor trazer as razões em voz alta.
O silêncio pairou por uns segundos e ficamos nos olhando sem saber o que dizer ou fazer. Não tem nada mais estranho do que ter que pensar em suas palavras e movimentos interagindo com alguém que você estava disposta a fazer sexo mais uma vez na noite anterior. Era uma mudança drástica de comportamento e nós dois ainda estávamos nos adaptando.
— Você quer carona para o turno da tarde na UAC? — ele ofereceu. Me senti numa viagem no tempo para o dia que ele me ajudou a montar um perfil tarde da noite para Strauss.
— Hoje eu não irei. Estou dispensada o dia inteiro pela apresentação da tese. — expliquei.
— Ah claro, entendi... — ele estava estranhamente desconfortável.
— E tem mais uma coisa sobre o estágio que eu queria te contar.
Ele ficou quieto com o cenho franzido esperando que eu prosseguisse:
— Falei com o Sr. Hayes, o diretor da faculdade, e ele me concedeu a transferência do estágio na UAC para uma clínica em Nova Iorque, por tudo que passei com meu irmão e Susan, disse que era um trauma e tanto e que eu não precisaria continuar na UAC se me incomodava... Então, ele disse que, se eu quisesse, ele validaria o tempo de estágio que fiz aqui e continuaria em outra instituição.
— Não vai mais trabalhar na UAC? — Reid estava espantado — Então, vai para Nova Iorque? — ele falou tão rapidamente que quase não consegui acompanhar.
— É uma hipótese, mas como falei, o diretor apenas me deu a opção de transferir o estágio, posso ficar o resto do ano na UAC, se eu quiser. E sobre Nova Iorque... — eu molhei os lábios, fechando-os em uma linha em seguida — Minha mãe fica insistindo nisso, mas não decidi nada ainda.
— Alexis, se for por causa do que houve noite pass...
Reid foi severamente interrompido por minha mãe.
— Filha, vamos almoçar no Ritcher’s para comemorar? — ela me abraçou de lado com o sorriso ainda brilhante.
Percebendo a presença de Spencer, ela o olhou, mas agora, sem depreza-lo, apenas sem emoção alguma e disse:
— Dr. Reid, certo? Bem, gostaria de me desculpar pelo outro dia, eu estava bastante alterada... — meu rosto se iluminou com a atitude dela, mas, para minha infelicidade, ela continuou: — Mas não mudei de opinião. Quero você longe da minha filha. — ela me apertou mais contra seu corpo como se estava me protegendo.
— Não se preocupe, Sra. Parker. A sua filha deixou claro que a única coisa que irá existir entre nós daqui para frente será a distância. Tenham um bom dia. — respondeu com rancor na voz.
Ele deu as costas e nem ao menos deixou eu consertar as coisas, eu odiava isso. Minha mãe me puxou e começou a me parabenizar mais uma vez pela tese, mas eu não conseguia escutar nada do que ela dizia, pois minha mente estava em outro lugar... ou melhor, outra pessoa.
Por que eu deveria estar me sentindo mal se era a segunda vez em dois dias que Spencer abria mão de nós dois? Ele não me procurou nem ontem e hoje quando apareceu à minha tese, terminou a conversa com essa frase de que só teríamos distância daqui para frente. O que ele esperava? Que eu me humilhasse? Lutasse sozinha por nós?
Era nítido que ele temia que eu fosse embora de verdade, mas ser frio comigo não seria a melhor maneira de me manter ali.
Segui num almoço com Margareth que não parava de falar sobre as vantagens de ir para Nova Iorque.
Será que minha mãe não tinha o mínimo de sensibilidade para perceber que aquela história de mudança só estava me fazendo infeliz?
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