Conflicted - um recomeço

3 Análise de um profiler


Dezenove de janeiro. Um novo dia começa e eu estou sentada na minha mesa na UAC, brincando com o lápis enquanto vasculho no meu computador qualquer arquivo do FBI que me ajude na minha tese de final de curso. As horas simplesmente não passavam, isso deveria ser pelo fato de que eu não queria estar ali.

Torci os lábios e observei a pilha de arquivos do dia anterior em cima da minha mesa. Dei uma olhada em volta e todos da equipe estavam em suas mesas, com exceção de Hotchner que estava em sua sala e Penelope. Então, notei que o Doutor estava olhando novamente para mim.

Ao invés de desviar o olhar, continuei encarando-o fixamente. O que ele estava querendo comigo?

Até que me dei conta de que ele era um profiler e eu realmente tinha medo da análise que ele poderia fazer sobre mim e desviei o olhar para minha mesa.

Passados cinco minutos disso, percebi que alguém parou ao lado da minha mesa.

— Você não quer estar aqui. — disse Spencer com os duas mãos nos bolsos da calça.

— Como assim? — indaguei, não compreendendo o comentário.

— Suas pernas estão se mexendo incessantemente como se estivesse ansiosa para ir embora; você fica olhando em volta como se estivesse procurando por alguma coisa e nunca encontra; fica brincando com o lápis como se isso fizesse o tempo andar mais rápido e, é claro, ainda não interagiu com ninguém da equipe por vontade de própria. — ele falou tudo tão rapidamente que quase não consegui acompanhar.

— Ãn... Na verdade... — pausei, analisando se eu deveria ou não contar a verdade — Minha opção de estágio foi a Clínica Saint Paul, mas como todas as vagas foram preenchidas, fui designada para cá.

— A Clínica Saint Paul foi fundado em 1978 por cientistas revolucionários que acreditavam no tratamento intensivo de distúrbios psicológicos através de medicamentos e mudança do ambiente que eles viviam. Depois de um incêndio em 1988, grande parte dos estudos foram perdidos e eles tiver... — ele parou de falar instantaneamente e continuou: — Você cursa psicologia em Richmond, certo?

Acho que entendi porquê ele é chamado de “Doutor”...

Ignorei tudo o que ele falou sobre o levantamento histórico da clínica e respondi:

— Sim, estou no último ano... E tentando procurar algumas informações nesse banco dados que me ajudem na minha tese.

— E qual seria ela? — ele parecia interessado.

— Eu estou levantando uma tese de que serial killers são criados por fatores biológicos, mais do que fatores externos e de que eles podem sim ser curados e não apenas tratados. — falei com convicção, pois eu sei que minha tese gera uma certa rejeição quando a exponho pela primeira vez.

Reid torceu os lábios e fez “hm”. Lá vem a crítica...

— É um ponto de vista interessante. Você já leu A Biologia do Mal de Thomas Quick?

Fiquei abismada com a resposta dele, definitivamente não era o que eu estava acostumada a ouvir. Juro que percebi que meus olhos brilhavam olhando para ele, encantada.

— Eu não li porque não tive tempo e é uma leitura extremamente difícil então...

— Entendo... — ele deu de ombros — Então, Alexis, eu queria te pedir para montar um resumo dos três últimos serial killers que matavam apenas mulheres e esfaqueavam os seus rostos, você vai encontra-los no sistema do FBI com essas informações. A equipe precisa do perfil completo desses três que já foram presos para verificar alguma semelhança com um caso arquivado que, talvez, possa ser desarquivado.

— Sim, claro, eu vou começar agora. — falei, mas sem desviar os olhos dos dele.

Nos olhamos fixamente por alguns segundos. Eu não sou profiler, mas tenho quase certeza que ele via em mim muito mais do que uma nova estagiária. Será que ele encontrou alguém para dividir seus conhecimentos sobre... tudo?

— Reid, vamos almoçar? O resto da equipe está te esperando. — interrompeu JJ

— Vamos.

— Alexis, tudo bem por aqui? Se precisar de ajuda, pode contar com a gente, ok? — disse ela num tom simpático.

— Eu estou bem, obrigada, Agente Jareau. — respondi com um sorriso.

— Pode me chamar de JJ. — ela se virou para Spencer — Vamos?

E os dois saíram para encontrar o resto da equipe que estava em frente ao elevador.

Eu virei para a tela do computador e comecei a fazer minha pesquisa para entregar o relatório ao Doutor ainda hoje. Não sei porquê, mas senti a necessidade de impressionar aquele homem. Talvez porque ele foi o único que escutou minha tese e me encorajou. Não sei explicar direito.

Decidi parar de devanear e ir ao trabalho!

Uma e meia da tarde todos da equipe tinham retornado do almoço. Eles ficaram um tempo reunidos, conversando, aguardei até que todos tivessem se acomodado em seus lugares para entregar o relatório que o Dr. Spencer Reid havia me pedido.

Levantei da cadeira segurando o relatório de três páginas e me dirigi até ele que não percebeu minha presença. Ele estava entretido com um livro... mas o curioso é que ele virava as páginas em questão de segundos e aquilo me intrigou.

— O que você está fazendo? — perguntei, confusa.

Ele assustou-se, devia estar envolvido na leitura... Eu acho.

— Eu estava lendo. — ele respondeu isso como se sanasse a minha dúvida até notar que minha expressão permanecia confusa e explicou: — Eu consigo ler uma página em 2,5 segundos. Sou um prodígio.

— Ah... Isso explica muita coisa. — falei como se estivesse falando um pensamento em voz alta — Enfim, eu vim trazer o relatório que você pediu. — entreguei as três páginas para ele.

Reid fez uma cara de surpresa e pegou o relatório. Folheou por alguns segundos e disse:

— Você fez tudo isso na hora do almoço?

— Sim... Então, eu acho que você está me devendo um almoço. — brinquei.

— Isso ficou muito bom e você fez em apenas uma hora e meia!

— Não é tão difícil. — fui modesta — É só você os pontos que convergem e unir com os dados do sistema nacional e adicionar as observações que a UAC fez e então... — parei de falar bruscamente — Mas você com certeza não quer saber com eu fiz, o que importa é o relatório. — me senti envergonhada. Eu estava tagarelando com um agente do FBI que eu conheci há dois dias.

— Fico imaginando o que você não seria capaz de fazer se realmente quisesse estar aqui. — Spencer interrompeu meus pensamentos e fiquei surpresa com esse comentário.

Não falei nada, apenas fiquei ali parada, olhando-o fixamente, tentando entender o que era aquela conexão que eu parecia ter com ele.

Eu queria organizar as palavras em minha mente para não falar besteira. O máximo que consegui foi:

— Bem, as coisas podem mudar, não é mesmo? E se tem algo que nós dois sabemos pelo o que estudamos é que o ser humano é mutável.

O QUÊ?! Meu deus, que abobrinha é essa que eu acabei de falar! “O ser humano é mutável”. Nossa, parabéns, Alexis, se ele não te achava uma retardada, acabou de achar.

Aonde estão as armas dos agentes quando eu mais precisava de uma para me matar?

Spencer apenas assentiu com a cabeça e eu rapidamente me virei em direção à minha mesa, só queria desaparecer da frente dele.

E como se não fosse ridículo o suficiente a asneira que falei, ao me virar, eu derrubei o porta-canetas do Agente Carter e todas as canetas se espalharam no chão.

— Ai meu deus, me desculpe!

Me abaixei tentando pegar algumas canetas enquanto ele fazia o mesmo.

Estava indo tudo muito bem para meu gosto, é claro que meu nervosismo e ansiedade entrariam no caminho mais cedo ou mais tarde...

Mas não importa. Spencer Reid elogiou o meu relatório. Isso já fazia o dia valer a pena.