Conflicted - um recomeço
19 Os laços de família

Alexis Parker POV
Abri meus olhos lentamente, um pouco zonza, e percebi que continuava na casa. Minha cabeça doía na parte de trás, devido à coronhada que recebi anteriormente. Eu estava sentada com os pulsos e tornozelos amarrados na cadeira com um fio de plástico branco, daqueles que você usa para lacrar embalagens.
Eu olhei em volta e percebi Brandon encostado no sofá coberto por um lençol branco, observando a arma que segurava em sua mão.
— Ah você finalmente acordou! Eu já estava ficando entediado aqui... — ele disse com sua voz aterrorizadora.
— Brandon... — eu falei com a voz falha — O que você está fazendo?
— O que estou fazendo? — ele começou a dar passos em minha direção — Não é óbvio? Eu vou matar você. — sua voz era calma como se ele estivesse falando a coisa mais normal do mundo.
Ele destravou a arma e apontou-a para mim
Eu fechei os olhos e abaixei a cabeça, começando a chorar.
— Pelo amor de deus! Eu sou a sua irmã! — eu suplicava, olhando em seus olhos verdes-esmeralda que estavam tomados por ódio.
— É, minha irmã que me internou numa clinica!— ele esbravejou — Você e a mamãe me internaram numa clínica e eu não estava sequer DOENTE! — ele gritava todas as palavras, possuído de raiva.
Eu chorava cada vez mais, as lágrimas escorriam e minhas bochechas estavam completamente molhadas.
— Não foi assim, Brandon! Você sabe disso!
Ele ignorou o que eu falei e se aproximou de mim. Abaixou-se para ficar no nível do meu rosto e olhou fixamente dentro dos meus olhos e os estreitou.
— Alexis, minha querida... — ele começou num tom ameaçador — Eu pareço doente para você?!
Tomei coragem, olhei de volta em seus olhos, parei de fungar, e respondi:
— Sim. Você está completamente doente, Brandon.
Quando ouviu minha resposta, ele foi invadido por uma fúria tão grande que deu um tapa forte em meu rosto, fazendo com que meu rosto se virasse para o lado. Não tive coragem de olhar para ele mais uma vez.
Percebendo, Brandon pegou no meu queixo com a mão esquerda enquanto segurava a arma com a mão direita.
Ele forçou minha cabeça para frente para que eu o olhasse e aproximou sua boca de mim, tanto que eu podia sentir seu hálito:
— Você é uma desgraçada! Passei a vida inteira sendo a sua sombra, o filho rejeitado pelos pais que tinham a princesinha deles... O único que me amava era o meu pai e ele morreu! — dizendo a última palavra, ele bruscamente soltou meu rosto e deu as costas para mim.
Lembrei-me, então, das garotas que eu havia visto na mesa de Reid.
— Aquelas garotas... você as matou... você as esfaqueou... — as palavras saíam perdidas entre meu choro e minhas fungadas.
Ele deu uma risada e olhou para mim, dando voltas em torno da minha cadeira.
— É, eu as matei... E sabe no que eu pensava enquanto eu enfiava a faca nas entranhas delas? — ele abaixou-se, aproximou a boca do meu ouvido e encostou a arma na minha cabeça: — EM VOCÊ!
Eu engoli a saliva arduamente e tentei controlar o choro para respondê-lo.
— Eu não acredito em você...
Brandon prontamente se afastou e ironizou:
— Não acredita em mim? Como assim, irmãzinha? Foi você — ele encostou mais uma vez a arma na minha cabeça — a primeira pessoa que soube que eu era um psicopata. Foi por isso que convenceu a mamãe a me internar...
Escutando aquelas palavras, eu senti muita raiva.
— Nós estávamos tentando te salvar, Brandon! Te salvar de quem você é! — gritei com todo o ar dos meus pulmões.
— Me salvar? Sua vagabunda! — dessa vez, o tapa foi com a arma e senti que um corte foi feito em meu rosto devido a forte pancada.
Não falei nada, tentando me recuperar da porrada que acabara de receber, fiquei com a cabeça baixa e ofegando.
Brandon colocou sua mão por trás do meu cabelo e puxou-o fortemente, forçando-me a levantar a cabeça e o encara-lo.
Ele olhou profundamente nos olhos e sussurrou de modo agressivo:
— O único motivo pelo qual você ainda está viva é porque não decidi qual a maneira mais torturante de mata-la. — ao dizer a ultima palavra, ele puxou mais o meu cabelo e encostou a arma embaixo do meu queixo.
Dessa vez, tomei a decisão de parar de chorar. Eu não estava triste, agora estava irritada com Brandon. Aquele filho da puta sempre foi um assassino e eu fui burra o suficiente para acreditar que a ciência poderia cura-lo.
Agora, eu estava sedenta de raiva por toda aquela situação.
— Cansei dessa palhaçada. — ele anunciou, tirando uma pequena tesoura do bolso de sua calça jeans surrada — Vamos dar uma volta por essa casa maravilhosa, reviver antigas lembranças... Vai ser divertido, irmãzinha! — ele deu leves tapinhas em minha bochecha esquerda e eu virei o rosto para me livrar de suas mãos.
Brandon pegou a tesoura e cortou os plásticos que prendiam meus pulsos e tornozelos que estavam vermelhos devido a pressão da atadura. Ele, prontamente, apontou a arma para minha testa e me segurou bruscamente pelo braço.
— Vamos dar uma voltinha.
Dr. Spencer Reid POV
Depois de algumas pesquisas, Garcia descobriu que Alexis nasceu em uma casa no subúrbio e mudou-se após a morte de seu pai.
Puxei da memória que Alexis contou que seu irmão mudou drasticamente quando seu pai faleceu então imaginei que era lá que Brandon se esconderia.
A equipe se dirigiu para lá vestindo coletes a prova de balas e a equipe da SWAT também. Cercamos a casa silenciosamente e eu já tinha tirado minha arma do quadril, pronta para usa-la se fosse necessário para salvar Alexis.
Morgan estava encostado na porta da casa, esperando o comando de Hotch para entrar.
Fui andando em direção a ele para invadir também, porém, Aaron me segurou pelo braço:
— Reid, acho melhor você não entrar. Deixe que eu e Morgan negociemos com o irmão se ele realmente estiver lá dentro com Alexis.
— O quê?! Claro que não! — respondi, indignado — Eu vou entrar, Hotch. É Alexis!
— Lembra-se do que aconteceu com Maeve? — ele fechou a expressão — Quer que aconteça de novo?
Eu me livrei da mão dele em meu braço e falei:
— O que quer dizer? Que não posso salvá-la?
Aaron alterou sua feição para “compreensivo” e ordenou:
— Vou deixar você entrar sob uma condição.
Ouvi a estratégia de Hotch e tive que executa-la, pois era a única maneira de — tentar — salvar Alexis.
Alexis Parker POV
Brandon segurava meu braço e, apontando a arma para minha cabeça, ia me carregando para dentro da casa.
Mas, de repente, ouvimos um estrondo e ele virou-se, segurando-me com seu braço em volta do meu pescoço e com a outra mão, apontando a arma para minha têmpora.
— FBI, largue a arma! — gritou Morgan, apontando uma arma para ele e Hotch fazia o mesmo. Apenas os dois entraram na casa, mas eu percebi que tinham mais agentes lá fora.
Brandon riu e me apertou:
— Por que eu faria isso? Vocês não sabem quanto tempo eu esperei para esse momento! — ele não parecia nem um pouco preocupado.
— Você acha que a sua mãe vai te amar mais se matar a filha dela? — Derek disse, mas ainda apontando a arma para ele.
— Ela não terá muita escolha, sabe? Afinal, eu virarei filho único! — Brandon se divertia com a situação e ria e eu ali, presa num mata-leão e com uma arma apontada na cabeça.
— Matar Alexis somente lembrará sua mãe do quanto ela é perfeita e você, um assassino. E não quer isso, certo?— indagou Aaron.
Brandon continuou me apertando e eu respirava com dificuldade por estar naquela situação.
— Você não tem ideia do que eu quero... — ele respondeu — Então, irmãzinha, últimas palavras?
Eu engoli com dificuldade, totalmente derrotada e aceitando o meu triste destino.
Com a voz trêmula e lágrimas no olhar, falei:
— Hotch... Não deixe Spencer ver isso. — terminando a frase, fechei os olhos para aceitar minha fortuna e partir.
Ouvi um barulho de arma sendo destrava e imaginei que fosse a de Brandon. Apertei mais olhos me preparando para o que viria a seguir.
Mas, como num milagre, escutei:
— Largue a arma agora. — Reid falou as palavras pausadamente, encostando seu revólver na cabeça do meu irmão por trás.
— O que faz você pensar que poderia atirar antes de eu mata-la? — Brandon o desafiou, sem mover um músculo, mas mantendo-me em seu poder.
— Você pode tentar mata-la, mas eu atirarei no mesmo segundo... Quer pagar para ver quem atira primeiro? E no ângulo que estou, eu não erraria a mira. — a voz de Reid transparecia ódio.
Brandon olhou para a sala, depois para mim e apertou mais o mata-leão em meu pescoço. Era isso. Era meu fim e Spencer assistiria a tudo de novo.
Em súbito, Brandon me soltou e eu caí no chão; logo em seguida, escutei o barulho de sua arma batendo no chão e vi Reid o algemando.
Morgan e Hotch levaram meu irmão algemado para fora e Reid abaixou-se para falar comigo, uma vez que eu estava sentada no chão, estarrecida com tudo o que tinha acontecido.
— Alexis... Você está bem? — ele segurou meu rosto entre duas mãos e seus olhos pareciam apreensivos.
Eu apenas assenti com a cabeça e o abracei fortemente. Ele fez o mesmo e acariciava minha cabeça, repetindo para mim “está tudo bem, você está a salvo agora”.
Ele me abraçou de lado, me levando para fora da casa e a imagem no lado de fora era cruel: diversos carros de polícia, uma ambulância, a equipe da SWAT e meu irmão algemado sendo conduzido para uma viatura.
Reid me levou até a ambulância para tratar daquele pequeno corte no meu rosto e verificar se meus sinais vitais estavam bons.
O paramédico colou um fino curativo branco em cima do pequeno corte e pediu para que eu seguisse a luz com meus olhos. Aparentemente, estava tudo bem comigo.
Spencer sentou-se ao meu lado na beirada detrás da ambulância, esperando que eu explicasse o que houve ali:
— Quando eu era pequena — comecei — ganhei uma cachorrinha yorkshire linda chamada Luna. Eu adorava ela, passava o dia inteiro brincando com ela. Eu a ganhei alguns meses após meu pai falecer. Num dia ensolarado de novembro, eu acordei e quando fui ao pátio, Luna estava afogada na nossa piscina e, perto da piscina, Brandon estava deitado numa espreguiçadeira tomando sol como se não pudesse ver a cachorra morta flutuando na água. Fiquei devastada e nunca mais consegui ter outro animal de estimação.
Reid me olhava com atenção, concentrado em tudo o que eu contava.
Logo, continuei meu relato:
— Depois, num Natal, eu ganhei da mamãe a casa dos sonhos da Barbie... Meu deus, aquela casa era realmente o sonho de qualquer menina na minha época! Tinha a altura de 51 cm e três andares... No dia seguinte, ao acordar, percebemos que havia muita fumaça vinda do quintal. Chegando lá, Brandon estava sentado a alguns centímetros da minha casinha, dando um sorriso ameaçador, enquanto a assistia queimar por inteiro. Eu chorei por dias e minha mãe não podia comprar outra, pois era muito cara! — meus olhos, nesse momento, já estavam cheios de lágrimas — Sem mencionar que ele vivia fazendo xixi na cama, muitas vezes tinha que ir dormir no meu quarto, porque a cama dele molhava e ele não queria acordar nossos pais no meio da noite.
Terminando de narrar, Reid entendeu porquê eu estava contando aquilo e concluiu:
— A tríade do homicida. Crueldade com animais, molhar a cama e causar incêndios.
— Exatamente. — eu pausei — Claro que na época eu era uma criança e não entendia o que isso significava, mas fui crescendo e encaixando uma coisa na outra. Por isso escolhi psicologia. Eu queria desesperadamente entender o meu irmão. — eu olhei para baixo demonstrando que estava frustrada por ter falhado.
— Por esse motivo que você queria fazer estágio na Clinica Saint Paul? Porque seu irmão estava lá?
— Mais do que isso: eu queria acompanhar o tratamento dele e cura-lo. Eu iria fazer do meu irmão minha tese. Eu tinha tanta esperança de que pudesse cura-lo... — escondi meu rosto entre minhas duas mãos e deixei as lágrimas caírem, afundada em profunda tristeza por ter fracassado no meu maior objetivo de vida.
— Alexis — ele colocou seu braço em volta de mim — por mais que eu apoie sua tese, nós dois sabemos que, atualmente, não há cura para psicopatologia. Não tinha nada que você pudesse fazer. — ele tentou me reconfortar.
— Eu e minha mãe o amamos demais para não ter esperança que ele pudesse ser curado... — insisti — Eu vim até aqui sozinha, porque não queria deixar que ele fosse preso! Mesmo depois de todas as garotas que ele matou! Queria interna-lo novamente...
— Por que você não me contou nada disso? — ele indagou.
— Como eu iria contar para um agente do FBI que eu tenho um irmão psicopata?! Não é um bom cartão de visitas...
— Mas eu sou mais do que um agente do FBI para você agora... Não sou?
— Agora sim... Por isso estou te contando agora. — eu o olhei.
Nós dois sorrimos um para o outro até que me lembrei de algo que me deixou intrigada:
— Spence, como você sabia que meu irmão não iria me matar?
— O perfil dele sugeria narcisismo. Seu irmão queria reconhecimento, principalmente por parte da sua mãe, e te matar era a única maneira que ele via de conseguir isso. Porém, quando eu o ameacei, ele viu que, mesmo que te matasse, não sairia vivo dali, logo, não teria o reconhecimento que tanto ansiava. O que importa para ele é ser reconhecido, mais do que matar você.
Ergui as duas sobrancelhas e assenti como a cabeça, demonstrando que eu entendi a lógica do Spencer.
— Vamos? — disse ele, levantando da ambulância e estendendo a mão para que eu o acompanhasse.
Não falei nada, apenas a segurei e o segui em direção ao carro do FBI.
Em súbito, parei de andar e puxei Reid:
— Spence, posso te pedir uma coisa?
Ele me olhou profundamente nos olhos e respondeu:
— Qualquer coisa.
— Fique lá em casa essa noite. Não quero ficar sozinha.
O Doutor apertou os lábios e mexeu positivamente a cabeça.
Eu sorri, na esperança que a presença dele me acalmasse durante a noite.
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