Confissões doloridas
1 Não começando pelo começo.
Notas iniciais
Ele achava que tinha um propósito, um motivo nobre por trás de toda dor.
Ele buscava, como se precisasse disso pra respirar.
Ele era uma existência forjada de vários vazios.
Ele preenchia um e logo outro aparecia, não funcionava por muito tempo.
Mas ele era pequeno, nada forte, nunca corajoso.
Para ele era um desperdício estar vivo, ele queria tanto um motivo para lutar, saber que faria falta, mas não faria. Ele não foi o suficiente.
Ás vezes ele só queria que Deus o levasse rápido, toda a dor e o vazio.
Ele foi feito assim, Ele nunca erra, então porque?
Ele queria poder suportar, ele queria ser grande o bastante para abraçar o mundo.
Mas ele tinha tanto medo, dele mesmo, das pessoas, das coisas.
Seus olhos se enchiam de lágrimas rápido demais, como se tudo fosse só sofrimento.
Ele era sedento por carinho, tão carente, queria que alguém cuidasse dele, que mostrasse que ele não era um desperdício.
Ele sentia essa necessidade de cuidar, controlar tudo, mas ninguém cuidava dele.
Das dores, dos pensamentos, das vozes, da tristeza.
Ele gritou tanto por ajuda, que hoje não consegue mais pedir.
Esperando a dor passar, os pensamentos o consumirem, as vozes se calarem e a tristeza diminuir.
Se convencendo de que vai passar, mas ainda não passou e já faz tempo.
Ele foi feita pra obedecer, pra ser pisado. Ele já se acostumou.
Ele foge dos próprios sonhos, não quer decepcionar ninguém.
Ele finge um sorriso e diz que está bem.
Ele fala só o que os outros querem ouvir.
Mentiu tanto, que hoje nem sabe o que é, do que gosta, o que quer.
Todos estão felizes, então pra que estragar tudo?
Ele nem percebe que está se matando aos poucos.
Ele reza para que consiga levar isso por mais tempo.
Ele vê as pessoas contando dos seus sonhos.
Os olhos brilhando, tanta determinação, tanta certeza.
Ele não consegue se lembrar se algum dia foi assim.
Nada dele nunca importou, suas opiniões sempre erradas, suas dores sempre uma desculpa para chamar atenção, seus sonhos nunca ouvidos, sempre foi invisível.
Ele podia deitar e nunca mais levantar que ninguém se importaria, nem ele mesmo.
Ele estava tão cansado, dava trabalho não se importar.
Porque ele se importava demais.
Ele podia não ter força, coragem, determinação, amor próprio, mas ele tinha esperança.
Isso o mantinha vivo, ele odiava isso.
As coisas nunca mudavam e ele sofria.
Ele detestava a própria voz.
Ele nunca gostou do seu corpo, parecia uma aberração, não era certo, não combinava com ele.
Evitava se olhar no espelho, ele não se reconhecia.
Todas as roupas no armário pareciam de outra pessoa, seu quarto, sua vida não pareciam ser dele.
Pareciam ser de uma estranha.
E a estranha tinha tomado seu lugar.
Nada nele era mais ele.
E ele nem mais sabia, se ele era ela ou se ela era ele.
Fale com o autor