Confissões de Ano Novo.
1 Capítulo 1 - Único.
Quando me dei conta que já havia amanhecido, senti que nada no mundo iria me tirar daquele conforto inimaginável. Certamente eu estava sonhando, mas mesmo que tivesse essa certeza o fato de ter a pessoa que amo em meus braços, seja verdadeira ou não já me era um luxo grande demais para abrir os olhos e deixar pra lá. Em meu sonho, eu estava deitada em meu quarto, tendo o meu corpo e o de mais alguém, banhados pela luz do sol. Até mesmo senti o cheiro de seu cabelo rosando em meu nariz, ou o soar de sua respiração na minha orelha; mas infelizmente, eram tudo parte de minha fértil – e carente – imaginação.
“Filha, acorda já tá na hora do almoço!!” minha mãe gritou do andar de baixo, despertando-me para realidade, dessa vez sem ninguém ao meu lado. Suspirei e esfreguei o rosto no travesseiro, sentido que queria chorar. Eu não queria ter esses sonhos, mas eles vinham para mim sem meu consentimento e da forma mais doce e maravilhosa possível, assim destroçando meu coração quando acordo.
Estou apaixonada por uma pessoa, e essa paixão é inteiramente não correspondida. Existem também alguns fatores que causam o impedimento desse amor fluir de ambas as partes, 1) Somos ambas mulheres; 2) Somos primas; 3) Acho que ela nem mesmo se lembra de mim.
Levantei da cama com a depressão grudada nas costas, pois hoje algo que eu vinha repudiando a tempos iria acontecer. Era véspera de reveillon, e isso só podia significar um coisa, eu ira vê-la, e não só ela, mas seu namorado também, aquele mesmo cara que foi meu amigo meses atrás e que sabia de minha paixão e usufruindo disso se aproximou da única pessoa que eu não queria que ele se aproximasse. Resultado? Eles estão juntos hoje e eu sozinha sonhando com uma pessoa que nunca vou ter.
“Bom dia mãe, bom dia pai...” cumprimentei, sem um pingo de alegria na voz. Já minha mãe, uma mulher caseira e rica de alegria sorria como nunca. Hoje era o dia que ela arrumava a casa e preparava tudo para os tão aguardados convidados, e eu... Bem, eu me trancava no quarto o quanto podia até que ela começasse a gritar para que me arrumasse. Já meu pai, um cara que eu puxei desde a personalidade até o caráter se mantem calmo mesmo quando ela lhe da bronca ou grita ordens para o como ele deve agir perto dos parentes. Preciso dizer que, dos dois, eu prefiro muito mais o meu pai. Ele nunca esta bravo, mas também nunca está totalmente calmo, e isso faz com que suas ações sejam sempre firas e calculadas, de certa forma acho que é por isso que ele se da tão bem com mamãe. Ela é como o fogo que não se apaga mais e ele é o gelo totalmente inquebrável. Junte os dois e assim nasce eu, a pedra.
“Dormiu bem?” papai pergunta dando uma pausa em sua leitura matinal do jornal. Eu concordo, mastigando uma torrada.
“Sim, mas tive vários sonhos estranhos...” contei e ele deu um gole lento no café.
“Sua mãe me contou que você anda tendo muitos pesadelos anoite.” Disse e mamãe concordou com a cabeça, servindo-o de mais café.
“Dessa vez não foram pesadelos, não inteiramente...” deixei o assunto morrer, não querendo mais falar sobre aquilo.
“Ana, você sabia que sua prima vem aqui hoje?” minha mãe pergunta, sorrindo amavelmente, pois sei que as duas sempre se deram muito bem. Eu concordo, não olhando-a nos olhos para não ser flagrada fazendo caretas de tristeza.
“Eu sei, ela sempre vem...” digo com amargura, lembrando-me da ultima vez a vi. Um ano atrás, também era ano novo e ela me rejeitou totalmente quando disse meus sentimentos pela primeira vez.
“Coitada, eu estava tão ansiosa para saber como andava o relacionamento dela com o Flavio, mas soube hoje mesmo que eles terminaram...” contou cheia de pesar. Cuspi o suco dentro do copo e a olhei com surpresa.
“Eles o que?!” senti o coração bater com força no peito de tão feliz que fiquei com a notícia.
“Que nojo Ana, não cuspa seu suco assim!” exclamou a engomadinha, mas ignorando repeti a pergunta, ela suspirou e respondeu sem paciência. “Sim, sim eles terminaram a um tempo já, a mãe dela que me contou. Disse que foi a própria Julia que terminou com ele, e o coitado foi falar com a mãe dela em prantos de tão triste...”
Ela disse mais algumas coisas, mas eu não estava escutando. Então significa que Julia terminou com o Flavio?! Isso era uma grande surpresa, jamais pensei que ela fosse capaz de fazer isso, afinal dizia estar tão apaixonada por ele que era capaz de se casar e ter filhos com o tal. Agora que não mais estavam juntos percebi que não seria mais assim tão ruim encontra-la.
Minha mãe quase caiu pra trás quando eu me ofereci para ajuda-la nos preparativos de bom grado, e depois aceitei sem pestanejar usar o vestido que ela escolheu para mim. Não contei, é claro, que o motivo para tanta alegria era a tal prima que ela pensava estar morrendo de tristeza por passar a virada do ano sem ninguém. Eu não permitiria, sabia bem disso. Talvez fosse só um plano idiota de minha parte, mas não me importava. Mesmo depois de um ano eu ainda não havia a esquecido, e se seu término com Flavio não era destino, então nada mais podia ser.
Usufruindo do fato de que eu não mais estava tentando fugir ou contraria-la, minha mãe ficou bastante feliz em me enfeitar como uma boneca. Quando me olhei no espelho percebi pela primeira vez que ela tinha o dom de deixar qualquer um bonito o suficiente para aparecer em uma passarela. O vestido que ela escolheu era branco como o costume, ele caia bem no meio das minhas cochas com uma saia reandada que marcava minha cintura me deixando com o busto mais a mostra no decote coração, que deixava meus seios sensualmente a mostra, além de uma fita branca bem simples em volta. Meu cabelo preto foi preso em um rabo alto cheio de cachos, deixando apenas a franja lisa cair em um lado do rosto, e alguns fios encaracolados do lado. Nada de uma maquiagem muito forte, ela apenas passou um batom rosa na minha boca e um pouco de blush para dar cor as bochechas. Sinceramente, eu não me reconheci na hora, mas com certeza estava tão bonita que podia fazer qualquer um prestar atenção em mim.
“Eu sabia que você ia ficar bonita, não subestime o poder de estilista da sua mãe!” ela sorriu fazendo um carinho no meu rosto, orgulhosa de sua obra prima.
“Obrigada, ficou muito bonito...” agradeci, dando-lhe um beijo na bochecha.
Logo minha casa inteira estava cheia de pessoas vestidas de branco com salgados de todos os tipos nas mãos. Infelizmente, não achei Julia em lugar algum, mesmo a procurando por todo canto. Cansada de ficar procurando em meio a toda aquela gente peguei uma taça de espumante sem álcool e bebi, com medo que ela não fosse aparecer.
“Posso dizer que nunca imaginei te encontrar tão bonita assim!” falou um garoto ao meu lado despertando minha atenção. O reconheci como o filho do chefe do meu pai, Eric. Eu e ele somos amigos de infância de longa data, mas infelizmente fazia um bom tempo que eu não o via por que o tal tinha viajado para Itália ano passado para estudar em uma universidade de lá. Me joguei em seus braços assim que o vi, não me contendo afinal ele era como um irmão mais velho para mim.
“Eric! Há tanto tempo que não te vejo, você está um gato!” exclamei, e ele estava mesmo. Impressionante como uma pessoa pode mudar para melhor em apenas um ano. Ele estava muito mais alto, a pele bronzeada e os cabelos que antes eram sempre bem curtos estavam maiores, caindo em ondas pelos ombros. Devo dizer que senti muitos olhares femininos e invejosos direcionados a mim quando o abracei daquele jeito.
“Você também! Estava quase dando em cima de você quando me dei conta de quem era, que susto você me causou garota!” brincou me fazendo rir. Eric deve ser o único cara que sabe da minha preferencia sexual, e eu devo ser a única também, a saber, que ele é bi.
“Como foi na Itália? E aquele seu romance maluco com um professor?” interroguei, me lembrando de uma ligação afobada que ele me fez no meio da noite dizendo que tinha ficado com o professor e que estava super arrependido, para então, três dias mais tarde admitir que amava o cara.
“Ai, nem te conto, eu juro que aquele homem é minha alma gêmea, nunca fiquei tão feliz com uma pessoa mais do que fico com ele...” admitiu com um sorriso amável e sonhador. Senti uma pontada no meu coração, provavelmente sentindo ciúmes de seu amor. Eu queria o melhor para Eric, sempre quis, mas era difícil só sentir felicidade por alguém que esta tão feliz com seu parceiro sendo que você esta sofrendo com o seu amor destroçado. Mesmo assim sorri com sinceridade e dei mais um abraço apertado nele, o parabenizando.
“Agora só falta eu dar um jeito na minha vida para nos dois ficarmos felizes desse jeito...” falei com uma pitada de tristeza. Eric sempre foi gentil comigo, ele sabia de meu caso de amor platônico por Julia e sempre me apoiou em tudo, dando-me forças para continuar a sorrir mesmo tão triste.
“Amiga, se te serve de consolo, eu sei o porquê da Julia ter terminado com o namorado...” começou, e o encarei surpresa pela afirmação. “Tá eu devia ter te contado antes, mas eu preferi fazer isso cara a cara, por que pode ser um assunto bem serio...”
“Me conta logo Eric, eu tenho que saber!” insisti e ele concordou.
“Julia me ligou um tempo atrás, ela disse que não podia mais ficar com o Flavio por que não amava ele, na verdade ela disse que nunca o amou só ficou com ele por pena e... Por mais uma coisa...” ele parecia receoso em me contar, mas o belisquei irritada querendo saber logo o que ela tinha dito. “Quando você se declarou pra ela, foi muito de surpresa ,sabe. Acho que ela não estava pronta para aceitar que também gostava de você, afinal você sabe bem como a família dela é conservadora. Por isso ela ficou com o Flavio, para esquecer você e fazer com que você desistisse dela, mas ela não gostava dele, então precisou fingir por todo esse tempo achando que um dia conseguiria abandonar os sentimentos que ela sentia por você e pudesse sentir algo por ele. Mas quando o Flavio a pediu em casamento foi tudo por água abaixo, ela percebeu que nunca conseguiria amar ele... Por isso eles terminaram. Olha, eu pensei muito se devia ou não te contar isso, mas acho que foi o certo a se fazer. Vocês duas tem que ficar juntas e eu sei que você não desistiu dela ainda...!”
Quando ele me contou tudo isso senti que meu peito inchar como um balão. Era como se todo meu amor por ela, que antes estava encoberto por uma cortina de tristeza tivesse renascido de novo, ainda maior que antes. Me lembrei de seu sorriso; do modo como ela sempre me olhava com aqueles olhos verdes e brilhantes; das covinhas em suas bochechas quando ela ria; de nossa infância quando brincávamos de marido e mulher, e quando nos beijamos na adolescência por que ambas nunca tínhamos beijado ninguém; Quando tudo isso surgiu, eu lembrei da promessa que fizemos também no ano novo, alguns segundos antes da virada, quando ela disse que jamais iriamos nos separar...
“Eric você sabe onde ela esta agora?” perguntei sentindo a adrenalina passando por todo o meu corpo ao ver no relógio que faltavam apenas dez minutos para a virada.
“Ela esta no parquinho, a mãe dela a deixou lá por que ela se recusou a entrar, se você for agora acho que ainda da tempo!” disse, e lembrei na hora do parquinho em que brincávamos quando pequenas. Eu sabia bem onde ela estava, e senti meu peito bater bem mais rápido ao imagina-la naquele lugar.
“Obrigada Eric! Eu amo você!” estalei um beijo em sua bochecha e ele riu.
“Também te amo amiga, agora vai atrás da sua mulher antes que o ano acabe!” mandou e eu não hesitei em obedecer.
Ignorei os gritinhos histéricos da minha mãe ordenando que eu voltasse, ou as exclamações espantadas das pessoas que eu acabava esbarrando. Minha mente estava em um único lugar, e meus pés me levaram até lá.
Anos atrás, quando eu tinha dez anos e ela treze fomos para aquele parquinho ver os fogos de artificio por que nos duas não gostávamos da multidão de adultos que ficavam na minha casa. Ao chegar lá, Julia e eu subimos no trepa-trepa muito alto e colorido, onde nos sentamos bem no topo, exatamente na hora em que os fogos começaram. Nós ficamos maravilhadas com todas aquelas cores, e demos as mãos sorrindo uma para outra.
“Nunca vamos nos separar não é?” eu perguntei, fazendo-a soltar uma risadinha fofa.
“Claro, nos vamos ficar juntar pra sempre!” foi o que ela respondeu.
“Promete?” mostrei o dedo mindinho, pronta para firmar aquela promessa.
“Prometo” entrelaçamos nossos dedos, naquela pequena jura infantil que acabou se perdendo no tempo...
Quando cheguei ao parque, ofegante e com o cabelo solto e arruinado, a única coisa que pensei na hora foi na promessa que fizemos nove anos atrás. E novamente, lá estávamos nos, naquele mesmo parquinho, comigo olhando para Julia sentada imersa em pensamentos encima do grande trapa-trepa.
“Ju... Julia!” chamei, ofegante por ter corrido todo o percurso até ali. Julia sentada lá em cima me olhou espantada com seus lindos olhos verde claros, os quais faziam tantos anos que eu não via e mesmo assim tinham o poder de me hipnotizar totalmente.
“Ana, o que você tá fazendo aqui?!” perguntou assustada.
“Vim ver os fogos...” menti. “Posso subir?” perguntei, deixando-a meio hesitante, mas por fim concordando, abrindo espaço para que eu subisse. Assim o fiz e me sentei a seu lado, ficando ambas olhando para qualquer ponto no chão, com os rostos incrivelmente corados.
“Fa-Faz bastante tempo não é...?” comentou, quebrando o silêncio.
“Poe bastante nisso...” sorri sem graça, e o silencio reinou novamente. “ Como você está? Soube que terminou com o Flavio.” não era exatamente isso que eu queria perguntar, mas foi a única coisa que me veio em mente na hora.
“Ah, você soube...” disse com a voz meio nervosa, enrolando continuamente os dedos na bainha do vestido rosa claro. “Eu estou bem, por que não estaria?”
“Bem, talvez por que ele era o amor da sua vida e vocês tenham sido feitos um pro outro!” falei com ironia, me lembrando das mesmas palavras que ela usou no dia que me deu um fora.
“Vai jogar isso na minha cara agora? Obrigado pela preocupação, mas eu estou perfeitamente bem, não preciso do seu consolo...” irritou-se, passando os braços na cintura de forma teimosa. Na hora me arrependi do que tinha dito, lembrando-me que não tinha ido lá para jogar minhas frustrações na cara dela.
“Desculpa... Eu... É que...” eu não sabia exatamente o que falar, estava tão nervosa quanto ela. Depois do fora que recebi como poderia me confessar novamente? Mesmo que Eric tenha me contado todas aquelas coisas, Julia tinha feito sua escolha quando me abandonou. Talvez ela realmente não quisesse estar comigo, e eu estivesse apenas me iludindo atoa. Mas mesmo assim... Era certo deixar as coisas como estavam? Era certo dar as costas para ela, depois de tudo aquilo? Para então continuar sonhando com o futuro que poderíamos ter juntas, mas que foi destruído por nossa teimosia?
“Ana, o que aconteceu com a gente?” ela perguntou de repente, me fazendo olha-la vendo que ela também me olhava, com os olhos marejados quase em lagrimas e o rosto tão triste que me deu um aperto no coração. “Nos éramos tão próximas, e de repente tudo simplesmente... Sumiu. Eu senti sua falta sabe, mais do que eu queria sentir.” Admitiu com o rosto vermelho como um tomate. Meu coração falhou uma batida, e me dei conta do que estava prestes a fazer, mas não me impedi, pois sabia que se não o fizesse talvez nunca mais tivesse essa oportunidade.
“Eu também senti sua falta, muito, demais!” abracei-a com força e senti suas lágrimas caindo no meu ombro, e ela entrelaçou os braços na minha cintura retribuindo e aproximando ainda mais nossos corpos um do outro.
“Ana, eu acho que não posso mais ficar longe de você. Por mais que eu tentasse, nada adiantava. Fiquei com o Flavio por pura pena, quebrei o coração dele e decepcionei minha família, tudo por tentar me afastar dos sentimentos que eu sabia sentir... E-eu...Eu acho que eu... R ealmente g-go-gosto de você!” afastou-se de mim para me olhar com determinação, me espantado de inicio. Senti meu rosto ficar tão quente que poderia explodir.
“Ah, e você só foi perceber isso agora?” questionei fingindo-me decepcionada e pousando a cabeça em seu ombro, sentindo o cheiro doce que ela exalava.
“Desculpe se sou meio lerda pra esse tipo de coisa tá...!” disse fazendo um biquinho manhoso e incrivelmente fofo. Sorrindo colei nossas testas, vendo-a ficar ainda mais corada.
“Boba, é isso que eu mais amo em você!”
Colei nossos lábios em um beijo que eu esperei o ano todo para sentir, totalmente necessitado e apaixonado, um beijo que mostrava o quando precisávamos uma da outra, bem na hora em que o primeiro fogo explodiu no céu. Não nos separamos mesmo assim, abraçando uma a outra no mesmo lugar em que fizemos a promessa de nunca mais nos separamos, sobre o brilho dos fogos de artificio.
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