Confissão.
1 Capítulo único.
Notas iniciais
Não. Isso não podia estar acontecendo. Não com ela.
Quantos meses fazia? Muitos e ela ainda se recusava a acreditar.
Yashiro Nene apenas sabia que seu tipo ideal seria um garoto de feições magníficas, polido, gentil e amoroso, ele a convidaria para um encontro e lhe daria belas rosas vermelhas simbolizando seu amor. Yugi Amane não era de jeito nenhum seu tipo, ele era baixo, seu cabelo agitado em todas as direções, a irritava com piadas pervertidas e constantemente comentava sobre seus tornozelos, além de ser um grande nerd espacial, definitivamente o oposto da idealização príncipesca que ela criou.
E ainda assim fazia seu coração palpitar forte todas as vezes contrariando suas afirmações, talvez sempre palpitou de um jeito diferente e ela ocultou essa sensação com medo da verdade que agora se rebelava contra ela.
Sim, talvez ela o achasse fofo quando seu cabelo castanho estava sendo beijado pela luz dourada do entardecer, a bela cor âmbar de seus olhos se iluminando quando começava a lhe contar sobre o espaço e de como a lua era magnífica em sua amplitude. Suas mãos de alguma forma sempre se juntavam no meio do caminho de volta para casa num movimento natural, nem ele parecia perceber quando isso acontecia já que Amane era um tanto quanto tátil com ela, abraçando-a e acariciando seu cabelo sempre que tinha oportunidade.
Mas... Isso não era paixão, não é? Ela não estava apaixonada pelo melhor amigo. Não. Não estava. Era apenas afeto não-romântico. Ela gostava do Minamoto-senpai, ele era legal e bastante gracioso. Totalmente o tipo dela. Amane era apenas seu amigo, não importava essa pontada forte em seu coração todas as vezes em que se tocavam...
— Nene-chan?
A voz aveludada de Aoi a tirou de seus devaneios, a amiga a encarava com feições de preocupação.
— Uhm?
— O que houve? Você está encarando a parede já faz um bom tempo.
— Eu só... Estava pensando.
— Oh, seria uma nova paixão? — perguntou sorrindo.
— Na verdade, estava pensando no Amane-kun. — respondeu, sentindo o rosto corar em seguida quando um sorriso insinuoso apareceu nos lábios da garota de cabelos roxos — N-Não desse jeito, Aoi-chan. Ele não é o meu tipo.
— Tudo bem, tudo bem. — a garota lhe deu leves tapinhas na cabeça. — Mas Nene-chan não gosta de Yugi-Kun nem um pouquinho? Você pode confiar em mim.
Aoi lhe arrancou a verdade sem muito esforço, sua meiguice e doçura transmitia confiança o suficiente para que Nene contasse sobre o que a estava preocupando. Aoi Não parecia estar surpresa com o fato da amiga dizer que ela estava gostando de Amane. Só não entendia o porquê de tanta negação vindo da amiga.
— Eu não posso dizer para ele que eu gosto dele, Aoi-chan.
— Por quê?
— Porque vou estragar nossa amizade. Amane-Kun não gosta de mim desse jeito, ele só me vê como uma amiga. — ela bufou se irritando — Além do mais ele apenas me provoca falando dos meus tornozelos.
— oh, pobrezinha. Nene-chan, acho que seria melhor você se confessar, assim tiraria sua dúvida.
Confessar seus sentimentos?
Houve uma comoção do lado de fora e alguém invadiu a sala de aula se dirigindo rapidamente para perto das garotas. Com a respiração rápida e bochechas coradas, mostrando que ele havia corrido bastante, Amane sorriu para as duas.
— Bom dia. — saudou colocando sua bolsa em sua carteira loga atrás de Nene.
— Yugi-kun se atrasou hoje? — indagou Aoi.
— Bem, tive um problema com Tsukasa, ele não queria se levantar. — Deu de ombros desviando seu olhar de Aoi e parando na outra garota que o encarava fixamente — Yashiro-San, você está bem?
Ela disse que tudo estava bem.
Tudo estaria bem. Logo, logo ela pararia de sentir isso pelo amigo. Decidiu que não estragaria sua amizade de anos por causa de sentimentos, eles ficariam bem. Até fingiu que não se importou quando ele brincava com uma de suas longas mechas de cabelo durante a aula.
O dia passou estupidamente e insuportavelmente de vagar.
A Nene evitou ficar muito perto do garoto de cabelos agitados o dia inteiro, e foi uma das tarefas mais difíceis que teve que realizar, quanto mais mantinha distância mais ele continuava a se aproximar. Quando não aguentou mais apenas fugiu, ele gritou seu nome mas ela precisava ficar sozinha, seria fácil organizar seus sentimentos se ele não ficasse tão perto.
E ele não gostou do afastamento. Não mesmo.
Amane bufou pela milésima vez, resmungando algo para si mesmo. Ele parecia bastante perturbado, olhando em volta esperando que alguém surgisse mas o garoto continuaria frustrado tendo mais uma onda de resmungos. O sentimento de infelicidade persistia, ele se perguntou se havia feito algo que irritou Nene ao ponto de ela sequer querer olhar para o rosto dele, não se lembrava de particularmente nada tão sério.
No intervalo, antes que ele pudesse falar algo, ela simplesmente correu para fora da sala dizendo que se encontraria com Mitsuba e Kou, mas quando indagou os dois garotos em um dos corredores eles alegaram que não a viram, Kou até se voluntáriou para procurá-la mas Amane o dispensou.
O pior passou pela mente adolescente dele. Nene estava escondendo um namorado, e o mero pensamento dela estar com algum garoto hormonal o deixava irritado. Queria saber se suas suspeitas eram reais mas ela se afastava com um sorriso forçado todas as vezes em que se aproximava e o deixava mais frustrado ainda com esse comportamento.
Os clubes começariam suas atividades em breve, Amane tentou parar de morrer por dentro e acompanhou o irmão mais novo para deixá-lo na sala do clube do rádio onde o mesmo fazia parte, o deixaria para em seguida ir a sala de astronomia. Ele não estava com humor para nada, mesmo que amasse seu clube o ânimo era quase inexistente naquele momento.
— hum... — Tusukasa olhou para o irmão o lendo facilmente — Amane não está feliz.
Ele olhou para o lado encarando Tusukasa. Ele era a única pessoa que sabia de sua enorme queda pela amiga, ou pelo menos era o que pensava já que todos seus amigos já sabiam que ele gostava dela, estava na cara que eles se gostavam mas estavam ocupados demais com medo para admitir abertamente.
Tusukasa achava Hilário como eles dançavam e não chegavam em lugar nenhum. Era algo tão simples mas os dois complicavam tanto.
— Yashiro-San anda me evitando. — murmurou melancolicamente.
— Você poderia casar com a Nene-chan, não é? Assim ela não o evitaria. — Exclamou o gêmeo mais novo fazendo com que Amane parasse de caminhar estupefato.
— Eh?
—Eh? Você não quer?
O calor no rosto de Amane aumentou. Ele queria sim casar com a garota que gostava, mas eles tinham apenas dezesseis anos e ele sequer confessou para ela. Bem, ele gostava de flertar mas sempre estava sendo rejeitado com a típica alegação de que ele não era o tipo dela.
Ele estava preste a responder quando o outro garoto sorriu mostrando suas presas e o interronpendo abruptamente com agitação descontrolada quando uma ideia surgiu.
— Aaaaaaah! Já sei!
— Uhm?
— Você pode sequestrar Nene-chan. Sequestre-a e se case com ela, eu poderia arranjar uma casa no meio do nada para vocês e assim ficariam felizes para sempre. Ela não iria te ignorar.
Amane suspirou. Não muito surpreso com a ideia absurda do irmão, ele tendia a ter essas soluções inconvenientes e cabia a Amane corrigi-lo, seria terrível se o irmão cometesse uma ação crimosa igual a essa sugestão.
— Tusukasa, não é assim que se trata alguém que você gosta. Você não deve fazer isso com ninguém.
— Por quê ?
— Porque é contra a lei. — explicou e o irmão piscou duas vezes ainda com um sorriso no rosto — Por favor, nunca faça isso de verdade ok?
— Eu estava brincando. — deu ombros e começou a correr quando avistou uma garota de cabelos verdes.
Tentar conversar com Nene seria o ideal e era isso que iria fazer.
...
A jovem orgulhosamente contemplou o jardim. Estava limpo, as teimosas ervas daninha foram arrancadas e plantas e flores foram plantadas. Era um belo jardim, o clube de jardinagem estava fazendo um belo trabalho.
Suspirando feliz com a sensação da brisa ao atingir sua pele e agitar seus cabelos, Nene sorriu, quase se esquecendo da confusão dentro de si.
Ela não gostava tanto de jardinagem como deveria, não era segredo para ninguém que apenas entrou no clube para tentar ser mais feminina, todas as garotas fofas gostavam de jardinagem não é? Ela queria ser considerada uma bela garota fofa e delicada, mas esse não era seu forte. Plantar flores não funcionou e ela se sentiu mais à vontade com seus legumes e verduras que cresciam vigorosamente.
— Até amanhã Yashiro-San!
Ela acenou para a garota que deixava o local juntando-se às outras que acenaram mais uma vez antes de irem embora.
Hoje ela seria a encarregada de guardar os matérias e regar as plantas antes de ir. Normalmente era o dever de duas pessoas do clube mas ela aceitou cumprir o serviço sozinha já que a outra encarregada não estava se sentindo muito bem.
O leve som da água se encontrando com as folhas e a terra era agradável, ela cantarolou uma música qualquer quando terminava seu dever. Já estava tarde e o sol lançava seus raios dourados banhando o local transformando-o num cenário airoso.
Seria um cenário perfeito para a mocinha encontrar seu príncipe e então os dois amantes iriam fugir dos grandes males que os prendiam, igual no último mangá shoujo que ela leu.
Talvez devesse maneirar no romance, já estava a imaginar coisas.
Rindo para si Nene se afastou do canteiro guardando em seu devido lugar o regador rosa com decoração de corações. Desatou a fita que prendia o cabelo em rabo de cavalo e pegou sua bolsa verificando se não havia esquecido nada. Houve uma sensação de estar sendo observada e ela levantou o rosto apenas para arregalar os olhos estupefata encarando o garoto à sua frente.
— A-AMANE-KUN??!
Ele cantarolou em resposta. Mãos no bolso da calça e um intenso olhar direcionada a ela. Ele sorriu suavizando sua expressão inclinando-se levemente.
— Yashiro-San se assustou?
— Não esperava que você estivesse por aqui. — ela sorriu sem jeito e olhou em volta — Onde está Tsukasa-Kun?
— Ele foi para casa cedo, eu disse que te esperaria. Você sabe... Está tarde e algum sequestrador de rabanete poderia se aproveitar.
Lá estava ele agindo como um idiota novamente.
— Amane-kun você é o pior. — tentou o acertar mas ele desviou rindo a todo instante.
Até parecia que tudo estava normal novamente. Amane estava aliviado.
Nene resmungou algo sobre ele ser um idiota ou algo assim e parou de tentar acertá-lo.
Então, num momento de impulsivildade, ele a puxou para um abraço antes que ela se afastasse novamente. Sentiu falta daquele calor irradiante o envolver, ele não queria soltá-la, iria se desculpar por... seja lá o que tivesse feito, só queria que ela parasse de correr e evitá-lo.
O aperto carinhoso a derreteu e fez com que seu corpo estancasse no lugar, incapaz de empurrá-lo, incapaz de reagir. Os dedos acariciando seu cabelo lentamente, seu corpo precionado contra ela , tão perto... O aroma agradável do perfume que ele usava era magnífico.
Seu coração batia rápido, borboletas agitadas e bochechas corando. Ela estava quase iperventilando.
— Amane-kun?
— Não... Não se afaste. — murmurou a apertando mais — Yashiro-San... Não gosta mais de mim?
Claro que ela gostava dele, até demais. Muito na verdade. Ela até poderia dizer que o amava, mesmo ele não sendo o tipo dela.
— Eh?
Amane congelou.
Se surgisse um buraco que a puxasse para debaixo da terra nesse exato momento Nene ficaria mais do que grata, assim ela fugiria do constrangimento que estava proporcionando. Ela acabou de dizer que o amava em voz alta, EM VOZ ALTA, porque ela estava se sabotando desse jeito?
— Você disse que... — Ele se afastou. Bochechas coradas e uma expressão de atordoamento no rosto.
— Por favor! Por favor não me odeie. — ela o agrrou e começou a sacudi-lo — Eu prometo que não vou mais pensar em algo assim! Não me odeie, Amane-kun! — lágrimas começaram a brotar e o desespero tomar conta rapidamente.
Ele foi sacudido mais algumas vezes até segurar os pulsos de Nene.
— Me desculpe. — Ela disse mais uma vez.
Ele desviou o olhar, de repente as flores ao lado pareciam mais interessantes .
Suas mãos estavam suando e... talvez estivesse tremendo um pouco também mas, hey, a bagunça vermelha em seu rosto era bem pior. Nene havia dito que gostava dele e isso foi inesperado, quase se beliscou para ter certeza de estar acordado.
Ela estava fazendo uma confusão e se ele continuasse com cara de bobo com olhos arregalados não iria ajudar.
Respirou fundo.
— Mas... eutambémgostodevocê. — Falou tão rápido que fez a garota franzir o cenho em confusão.
— Hã? — fungou.
— Eu gosto de você também. Sempre gostei. — tomou coragem e a encarou soltando os pulsos dela.
— O quê?
— Eu não estava brincando quando dizia que gostava de você. Você sempre me rejeita.
— Porque pensei que estava brincando comigo! Sempre me provocando! — se defendeu com o coração gritando em seu peito.
— Você é fácil de provocar! — ele retrucou em sua estúpida defesa.
Silêncio.
Ela tremeu por um momento. Sussurrava coisas incompreensíveis. E ele voltara a observar as flores coloridas incapaz de parar o crescente constrangimento em seu peito se espalhando por todo seu ser.
— Tsk... Somos idiotas, não é? — Amane riu tentando quebrar o silêncio infernal.
— Sim. — murmurou — Em pensar que poderíamos ter nos beijado antes. — ela disse e riu quando ele piscou algumas vezes com o comentário audacioso.
— Uhm?
Ela se aproximou o olhando com seus grandes olhos da cor de groselhas brilhantes.
— Você pode... Se quiser.
— Posso?
Ela balançou a cabeça positivamente.
Ele nervosamente se inclinou lhe dando um leve beijo nos lábios. Um toque tímido e tão rápido que não durou dois segundos.
Não satisfeita Nene o puxou de volta coincidindo seus lábios mais uma vez, beijando-o corretamente. Um beijo doce e amoroso. A inexperiência de ambos não foi um empecilho, Nene até podia escutar os fogos de artifícios explodindo, era desse jeito que pensou se sentir no seu tão esperado primeiro beijo. O tímido encontro de línguas, suas bocas se encaixando perfeitamente num movimento fluido. O doce gosto viciante dele a deixava ansiosa por mais. Amane a puxou para mais perto agarrando sua cintura com firmeza um leve suspiro de alegria veio dos lábios dela agarrando-se ao uniforme dele.
Suas testas se pressionaram logo após interromperem o beijo para respirar, arfantes e corados, uma bagunça total.
— Eu te amo yashiro, por favor saia comigo. — Amane cantarolou sem perceber que suas palavras saíram mais fácil do que imaginara.
— Oh. — ela afastou o rosto percebendo pela primeira vez que os raios de luz se foram à muito tempo. — Está tarde.
— Sim. — ele resmungou descontente com o afastamento. Mas ela estava certa, já era tarde e seria um problema para ambos se demorassem mais.
Após um suspiro de contentamento ele disse:
— Vou levá-la para sua casa...
Entrelaçando as mãos os dois começaram a sair da área de jardinagem. Caminharam pelos corredores apreciando o fácil clima agradável entre os eles até Amane abruptamente parar ganhando um olhar questionador de Nene.
— Você é minha namorada agora, não é? — Perguntou de repente após lhe ocorrer que não havia feito a pergunta antes.
Nene sorriu amorosamente.
Sim. Ela era.
Ele sorriu contente. Aquele sorriso fofo que derretia o coração de Nene.
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