Confissões no Salão Comunal
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem, que se divirtam, e o mais legal de tudo, me digam o que acharam. Conto com a participação de cada leitor.
Um grande beijo para todos, tudo de bom e boa leitura o/
Hermione fuzilou Rony com o olhar e tentou agarrar seu pergaminho pela terceira vez. Ele sorriu, achando muito divertido fazê-la de boba, e afastou o papel, apenas erguendo os braços, fora do alcance dela. Do trio, Rony era, de longe, o mais alto e robusto. Seus braços e suas pernas eram longos, e seu tórax sólido como um saco de batatas. Ela novamente lhe aplicou um murro no peito, ação que o fez sorrir mais debochadamente.
― Ora, Hermione! Você tem de parar de ser egoísta e ajudar seus amigos quando eles necessitam. Esse é o sentido da amizade.
― Eu ajudaria de bom grado, se você realmente precisasse. ― ela vociferou.
― Mas eu preciso sim. Já não disse que vou tomar bomba em Transfiguração, se não entregar minha redação até amanhã?
― E isso, definitivamente, é um problema apenas seu, já que passou a noite de ontem inteirinha jogando snap explosivo no salão comunal, ao invés de cuidar das suas obrigações ― e içou-se para frente, querendo fisgar sua redação das mãos dele.
Rony se esticou para trás, calmamente.
― Por que você não copia do Harry, seu cabeça oca! ― ela exclamou cheia de frustração.
― Porque as redações do Harry são medíocres comparadas a sua.
Harry, alheio as picuinhas dos dois, mas incomodado por ter o nome citado duas vezes, ergueu a cabeça da sua lição e sondou a que deveria ser a décima briga da semana entre os amigos:
― Como conseguem aguentar, hein? Qual é o problema com vocês?
― Hermione é o problema. Que mal há em emprestar a redação para eu me inspirar e terminar a minha?
― E que mal há em deixar o dever em dia, para variar um pouco? ― ela gritou.
Os colegas de turma olharam curiosos para o tumulto que acontecia na mesa do trio. O professor Flitwick só não chamou atenção, porque havia precisado sair por um minuto da classe.
Mais irada do que nunca, Hermione se lançou para cima de Rony e, desta vez, quase alcançou sua redação “Os perigos de transformistas que viram plantas”. Quase, porque no último segundo, o ruivo percebeu seu bote e inclinou a cadeira para trás. Os pés do móvel não aguentaram seu peso e a cadeira tombou para o chão, fazendo-o cair de costas. Hermione, que estava praticamente pendurada nele um segundo antes, caiu junto.
A classe explodiu em risos ao vê-los esmagados um contra o outro no chão. Não havia dignidade nenhuma naquela pose, e a jovem bruxa ficou muito encabulada, não se lembrava há quanto tempo seu corpo não ficava tão próximo ao de Rony. Também não se lembrava de encarar os olhos azuis do amigo tão de perto. Ele a mirava num misto de confusão e ansiedade. Ela ainda teve de se apoiar no tórax dele para levantar, o que causou mais rubor as suas bochechas.
― O que está havendo aqui? ― perguntou a vozinha desconfiada do professor Flitwick?
Hermione ajeitou o uniforme, o cabelo, e deslizou para a cadeira novamente.
― Desculpe, professor, eu estava me balançando na cadeira e me desequilibrei, então segurei em Hermione para não cair e a levei junto comigo para o chão. ― explicou Rony, que levantava a cadeira novamente e tinha as orelhas em chamas.
― Tenha mais cuidado na próxima vez, Weasley. ― o professor aceitou bem a desculpa enfarrapada e rumou para a lousa.
Enquanto Rony e Hermione se recompunham, Harry abafava o riso com as duas mãos na boca. E ele não era o único.
Pelo resto da aula, Hermione não ousou falar com Rony. Ele concordou com o silêncio tácito, e não lhe cobrou mais nem uma vez pelo exercício. Ainda assim, a garota deixou a redação à mostra na carteira, e o rapaz muito discretamente, rabiscava algo num segundo pergaminho, embaixo da lição principal da aula de Feitiços.
Após quarenta minutos a aula finalmente terminou, Hermione nunca desejando tanto o fim de um período e uma oportunidade de sair de perto do amigo.
A noite no salão comunal, a garota percebeu que Rony parecia muito empenhado com suas tarefas e eles falaram formalmente enquanto colocavam os deveres de Poções e Feitiços, em dia. A hora foi passando, os grifinórios desejando “boa noite” um para os outros e subindo para seus dormitórios, até que Rony acabou levantando, se despedindo dela com um aceno e acompanhando Harry para o quarto dos meninos.
Concentrada nos últimos parágrafos de seu dever de Aritmancia, ela nem percebeu Gina caminhar para mesa e se esgueirar para a cadeira mais próxima de Hermione.
― Mione, posso falar com você.
A bruxa ergueu os olhos do pergaminho e viu que a outra estava pressurosa. Gina era um ano mais nova que Hermione. Ainda não tinha de se preocupar com os N.O.M.S, pois estava no quarto ano, mas até onde sabia era aplicada e inteligente.
― Precisa de ajuda com algum dever, Gina?
― Hã? Ah, não. ― Gina negou, erguendo a mão como se espantasse um inseto voador do rosto ― Queria te perguntar outra coisa. É sobre meninos.
― Sobre meninos?
― É. Eu não tenho muitas garotas para conversar sobre isso. As meninas da minha turma são umas débeis e não existe alguém em Hogwarts mais sensata que você. Além do mais, você já foi ao baile com Vitor Krum, e deve realmente entender das coisas, afinal, ele é um jogador famoso.
― Eu não sei se poderia ajudar... ― disse hesitante.
― Estou ficando com Miguel Corner. ― a ruiva a interrompeu, empolgada.
― Miguel?
― Isso, ele é da Corvinal e joga no time de Quadribol. Ele ficou interessado em mim desde o ano passado, no Baile de Inverno, e no meio do ano veio falar comigo. Daí a coisa rolou e acho que estou gostando dele.
Era bastante informação em pouco tempo, e Hermione a absorveu com um grande silêncio. Gina interpretou como carta branca para continuar.
― Nos beijamos alguns dias antes de entrarmos de férias, agora as aulas começaram e ele meio que não saí do meu pé. Ele me manda bilhetes, quer se encontrar comigo toda a noite pelos corredores, e ficou dando sermão em mim, só porque estava rindo com Neville na mesa da Grifinória dia desses. Tô me sentindo sufocada! Não sei se termino com ele ou se todos os relacionamentos ficam esse porre uma hora, tenho que aceitar e tentar relevar.
― Você não anda meio nova para ficar a noite pelos corredores com esse garoto? ― Hermione acabou perguntando.
Gina fez uma careta.
― Eu tenho responsabilidades, Mione, não me decepcione agindo feito meus irmãos, pelo amor.
― Ok, desculpe. ― e se ajeitando na poltrona, disse ― Que conselho você espera, Gina, eu não sei. Não tenho tanta experiência assim nessas coisas, mesmo tendo ficado com Vitor.
― Ah! Então você ficou com Vitor? ― os olhos da Weasley brilharam de malícia.
― Fiquei. ― Hermione ruborizou de leve ― Foi só um beijo, nada mais. Meu primeiro beijo.
― Seu primeiro beijo? ― a quartanista deu pulinhos no assento ― Me conta tudo, Mi! Ele beija bem? Tem pegada? Sentiu um frio na barriga? Não teve vontade de repetir a dose? Ele quis?
― Assim eu fico atordoada!
Gina riu e se desculpou pelos questionamentos, mas ainda esperava suas respostas. Hermione apoiou a pena na mesa e encostou no espaldar, pensando.
― Foi só legal. Diferente e legal.
― Diferente e legal? Que resposta é essa? Você não gosta dele, não?
A essa pergunta a jovem bruxa já tinha sua resposta há tempos.
― Acho que mais como amigo do que qualquer outra coisa. Nosso beijo foi uma coisa bacana, me senti diferente, confesso, mas não foi nem perto do que eu imaginava. Quer dizer, nos livros, nas histórias de romance, esse parece ser um momento...
― Único. ― Gina completou ― Eu sei exatamente o que você sentiu, Mione. Para falar a verdade, é isso que vem acontecendo comigo e Miguel. Ele é mais entediante do que especial. ― e revirou os olhos.
― Então termine com ele.
― E se me arrepender?
― Porque haveria de se arrepender de terminar com quem não está gostando? Comigo foi assim. Eu dei um basta em Vitor, fui honesta com ele, disse que prefiro que sejamos amigos quando ele insistiu para eu ir vê-lo na Bulgária. Agora trocamos correspondência como dois bons amigos e eu não fico achando que fiz a coisa errada, ou que me arrependo amargamente.
Gina a ouviu com bastante atenção e por fim admitiu:
― É, acho que vou dar um basta em Miguel. Ele anda intragável porque estamos jogando nos times rivais da escola mesmo. Tenho a impressão de que não vou perder nada. ― suspirou dramaticamente, parecia que a paixão jamais alcançaria ela.
― Mas não fique assim, uma hora vai gostar de alguém e o momento vai ter frio na barriga, pernas bambas, rubores irritantes e toda a sorte de maluquices que a paixão faz com nosso corpo.
― Acho que você sabe que eu já sinto isso. ― Gina disse amargurada.
Hermione sabia do que ela queria dizer, sim.
― O mundo dá voltas, Gina, hoje ele está deslumbrado, mas amanhã quem sabe Harry não finalmente acorde para vida. Para você!
― Shhh, não fica falando o nome dele em voz alta. Eu quero é deixar isso passar, tem de haver um outro garoto legal por aí.
― Quem sabe... ― disse Hermione com o olhar bastante distante.
― E você, Mi?
― O que tem eu? ― ela voltou a ficar alerta.
― Ué, teve Krum, mas ele só deu a cara por aqui por um ano. Você nunca gostou de outro garoto de Hogwarts?
De repente, Hermione ficou violácea.
― Na-não. ― balbuciou, pegando a pena de novo e encarando com muita determinação o dever por terminar ― Eu estudo muito.
Gina estava a olhando, cheia de desconfiança. Então ajeitou sua poltrona para mais perto da outra e sussurrou:
― Eu sempre tive minhas suspeitas, mas vocês são tão diferentes, não pode ser possível. ― abafou um riso.
― O quê?
― Meu irmão.
Hermione se atrapalhou com o pergaminho, executou um gesto brusco de mão e o frasco de tinta, que mergulhava a ponta da pena, encharcou livros e papéis espalhados pela superfície.
― Ah não! ― exclamou horrorizada ao ver metade no seu trabalho perdido.
Sacou a varinha e começou a enxugar a tinta rapidamente, antes que secasse nas folhas. Gina, que era muito boa em feitiços, a ajudou. Minutos depois, as tarefas estavam salvas o suficiente para serem postas a limpo num pergaminho novo, e o único livro afetado não fazia parte dos empréstimos de biblioteca.
― Ei, eu não sabia que você gostava dele. Para mim não passava de impressão. ― objetou a ruiva, depois de elas sentarem nas poltronas outra vez.
― Do que você está falando, Gina? ― Hermione queria aprender a aparatar logo, para poder sumir dali. O rubor queria voltar as suas maças e a quartanista não aparentava estar disposta a parar de incomodá-la.
― Não vem não, tá na sua cara, Mione. Você gosta do meu irmão!
― Shhhhhhh!!! ― a bruxa olhou para trás, temerosa que algum menino aparecesse para escutar ― Não fale descabimentos, garota!
― Isso tá longe de ser descabimento. Então Rony é o garoto? Ele? Sério?
Hermione se impacientou:
― Qual é o seu problema? Melhor, qual o problema do Rony, além do óbvio, digo? ― O óbvio nada mais era do que seu desleixo, sua cabeça oca, sua falta de amor pelos estudos, sua personalidade estourada, e todo o resto.
― Ai! É até bonitinho, sabia? ― os olhos da menina brilharam de êxtase.
― Pare já de supor o que quer que esteja supondo.
― É tão diferente... É engraçado imaginar, pensando em Rony, claro.
― Dá pra você parar de falar o nome dele em voz alta? Da pra falar baixo. ― rosnou entre os dentes. Num gesto de impaciência, desistiu de estudar e bateu os livros com força.
― Foi mal, Mione, não precisa ficar brava. Eu nunca contarei nada, jamais. ― ela fez figas com os dedos das mãos ― Só acho que você deveria contar.
― Eu não vou contar nada.
E com essa simples frase, sem querer, se denunciou. Fechou os olhos apertados e se xingou internamente, instantes depois.
― Com essa frase encerramos os “ses”, afinal. ― Gina cantarolou, sapeca.
― Vencida pela insistência, parabéns. ― Hermione sacudiu os braços e afundou no estofado macio da poltrona. Se algum dia você contar, Gina, vai ser muito, muito impossível eu te perdoar.
― Não vou contar nada. A loucura de vocês dois está fora da minha alçada. Nem seria louca em me intrometer.
― Como assim? Que loucura?
― Nada, nadinha. ― a outra sorriu zombeteira, se levantando de fininho ― Boa noite, Mione. Seu segredo tá guardadinho.
― Boa noite? Volta aqui, de que loucura nossa você tá falando?
― Boa noiiiiteee. ― cantarolou Gina, subindo rápido para o dormitório das grifinórias do quarto ano.
Hermione pensou em segui-la, mas de repente achou que já tinha decifrado. Chegou a essa conclusão ao lembrar do modo como Rony a fitou, quando caiu sobre ele mais cedo, na aula de Feitiços.
Notas finais
Pensaram diferente? Como seria?
Vamos conversar! :D
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