Confissões Adolescentes
9 Entre cadernos e livros
Notas iniciais
Mônica acordou animada no sábado, e sim, isso de despertar feliz era uma grande novidade em sua vida, e se devia ao fato de a garota estar tendo as melhores conversas durante a noite e madrugada. A relação com Do Contra não tinha como caminhar melhor, eles ainda não haviam ficado, mas a questão de conversarem bastante, estava fazendo com que se conhecessem e gostassem cada vez mais de estarem perto um do outro.
A morena tomou um longo banho, vestiu-se e correu para o café. Marcara às nove horas com os amigos, Cascão e Magali, por isso não queria fazê-los esperar quando chegassem.
Maga foi pontual, afinal, morava ao lado de sua casa. Chegou cheia de livros, revistas e portando um notebook, além de papeis e canetas. Cas atrasou-se um pouco, mas foi o suficiente para as duas meninas darem o pontapé inicial no trabalho para o qual Magali procurara a vizinha.
— Maga, agora que já te expliquei como pode usar os dados, é só passar pro arquivo. – Mônica concluiu com um sorriso. – Cas, agora é com a gente. Qual a matéria que tá tendo mais dificuldade?
— Olha só, tem matemática, mais a parte de geometria analítica, sabe? Ah, biologia, área de botânica. Também tem química, física... Super preciso entender história e geografia. Talvez cê possa quebrar um galho em português e corrigir a redação que o professor passou. Acho que é só isso.
Mônica olhava com a boca aberta para o garoto, seria cômico se não fosse trágico. Como ela poderia ajudá-lo com tantas coisas? Se fosse outra pessoa acabaria achando que era impossível, mas a menina não era do tipo que desistia fácil, principalmente quando precisava ajudar um amigo.
— Cas, eu não vou mentir pra você... Vai ser bem complicado te ajudar nisso tudo se a gente estudar só aos sábados. Cara, você vai ter que se esforçar, estudar em casa, não sei... Precisa fazer mais. – Ela disse-lhe passando as mãos nos cabelos.
— E-eu sei, Mônica. Já tinha noção que daria nisso, pelo menos procurei ajuda cedo dessa vez, né? – Ele perguntou corando.
— Sim, Cas, e agora a gente vai poder contribuir melhor e esse ano vou te ver formado. – Magali intrometeu-se na conversa com um sorriso.
As meninas fizeram tudo que estava em seus alcances para ajudar o sujinho aquele dia, só pararam quando Dona Luíza veio avisar que o almoço estava na mesa, eles se quer haviam percebido que as horas passaram-se tão depressa.
Arrumaram a sala, tirando os papéis e livros do chão para poderem almoçar com calma e depois relaxar, quem sabe, assistindo um filme. A mãe de Mônica serviu aos três uma comida deliciosa e de sobremesa um bolo de chocolate que Magali, mesmo estando numa dieta, não conseguiu recusar.
Uma hora mais tarde os amigos estavam jogados pela sala, as meninas deitadas no sofá e o Cas no chão, encostado nas pernas de Magali, recebia um cafuné e achava que não teria coisa melhor do aquilo no mundo. Um alerta de ligação tirou-os do transe pós-barriga cheia, Mônica encontrou seu celular tocando em baixo de um dos travesseiros, quando viu o nome no visor sentiu umas borboletas no estômago.
— Gente, é o DC. – Anunciou. – Vou atender ele bem rapidinho e já já tô de volta. – Dizendo isso ela saiu, deixando as visitas ali.
— Sabe, Cas... Eu não gosto muito dessa história. Mesmo que a gente tenha deixado de se falar por um bom tempo, ainda vejo a Mônica como minha amiga, não queria que ela sofresse. – Magali falou num tom bem baixo, só para o garoto ouvir.
— Ué, tem um motivo pra isso? Por acaso você tá afim do DC, Maga? – Cascão perguntou quase gritando, e a menina teve uma síncope pedindo para que ele se acalmasse.
– Tá louco? Fala baixo! – Repreendeu-o a garota. – Digo isso em relação a outras coisas... Por exemplo, você já viu o DC levando um relacionamento a sério com alguém?
— Nunquinha! Ele sempre foge quando percebe que vai se apaixonar, meio louco, se você quer saber. – Cascão respondeu balançando a cabeça em discordância ao jeito diferente do amigo.
— Isso mesmo. E o que acontece se a Mônica se apaixonar? Ela vai sofrer, Cas! – Magali perguntou e o respondeu ao mesmo tempo, visivelmente preocupada.
— Ainda tem a Carmen, né? Acho que todo mundo já sacou a dela menos a Mô. – Ele observou.
— Pelo menos ela não faz o tipo diferente— ela frisou a palavra – do Do Contra. Mas com certeza ainda pode magoar a melhor amiga se insistir nisso.
Cascão ficou calado, não sabia o porquê da Magali estar tão tensa, afinal, a vizinha tinha acabado de retornar a sua vida, tendo passado um longo tempo fora. Mas pensando bem, Maga era meiga e a melhor amiga que alguém poderia encontrar, se ela importava-se com quem não conhecia, imagina com pessoas que faziam parte da sua vida! Além disso, ao que parecia, Mônica também não ficava atrás, só ela para querer ajudá-lo a resolver tantos problemas escolares; até os professores de reforço estavam querendo cobrar fortunas, já a garota aceitara fazer tudo em nome de uma amizade que nem consolidada estava ainda.
— Sabe, Cas... São duas pessoas que ainda não cresceram de verdade na turma. – Magali voltou a falar, mas parecia que era mais para si mesma.
— Duas? – Ele estranhou.
— Sim... Mas é no sentido de ainda fazerem o mesmo de quando éramos crianças, entende? O Do Contra com essa mania de contrariar até mesmo o incontrariável! E o... – Ela mordeu os lábios antes que falasse muito, era o melhor amigo dele que estava em sua frente.
— Eu sei de quem vai falar, e discordo. – Cascão respondeu de forma fria, não gostaria que a menina entrasse nesse assunto.
— Desculpa, eu sei que ele é seu amigo! Mas depois de tudo o que aconteceu... Ele deveria ter mudado. – Falou envergonhada.
— Acredite, ele mudou. O que faz agora é por causa do que aconteceu lá atrás. Ele cresceu, mas ainda não superou, por isso acha melhor ser assim. E isso não diz respeito a nenhum de nós. – Respondeu pondo um fim a conversa.
Magali suspirou pensativa, não deveria ter iniciado essa discussão, realmente era algo que não dizia respeito a mais ninguém. O clima ficou pesado depois de tudo, e ela sentia-se na obrigação de concertar as coisas entre os dois.
— Ei. – Ela chamou-o puxando o queixo do menino delicadamente para cima, para que ele olhasse em seus olhos. – Desculpa, eu não deveria ter falado assim...
— Tudo bem. – Cas respondeu saindo do chão e sentando-se ao lado dela no sofá. – Eu sei que vocês dois também são amigos... É só que sou eu que jogo videogame até tarde e durmo por lá às vezes, então sou eu que o vejo acordar no meio da noite assustado, ou chorando... É que ninguém entende.
— Depois de todos esses anos? – Magali perguntou mais arrependida ainda de ter ido até ali.
— Você nem pode imaginar... – Cascão concluiu pensativo.
A menina sentia vontade de puxá-lo para um abraço, conhecia a história sobre a qual ele estava se referindo, só não sabia o quanto aquele passado ainda se fazia presente na vida de seu outro amigo, parou para pensar melhor e percebeu que aquilo realmente não era uma coisa fácil de superar, nem para ele e nem para os que o viam sofrer com a culpa, como Cascão. Acabou fazendo o que queria, puxou o sujinho e deu-lhe um abraço.
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