Confissões
1 As Recordações de Tanaka
Notas iniciais
Capítulo 1
As Recordações de Tanaka
– Podemos começar então. Conte-me tudo o que puder se lembrar, sim?
– Terá que ser mais específico meu senhor, a memória de um mordomo guarda mais segredos do que um diário. Terá que me dizer o que quer que eu lembre.
– Muito bem. Quando conheceu a família Phantomhive?
– Há muitos anos. Fui contratado ainda jovem para trabalhar na mansão Phantomhive e cuidei do jovem Vincent desde criança. Quando este se tornou o senhor da casa, continuei a seu lado e de sua amada Rachel. Os ajudando e os protegendo. Mas naquela terrível noite, eu, um velho e simples mordomo, não fui capaz de proteger nem a mansão, nem minha senhora, nem meu senhor, nem seu pequeno herdeiro. Confesso que me senti culpado, mas o menino Ciel nunca me culpou.
– O senhor fala do incêndio na mansão. Naquela noite não foram só o conde e a condessa Phantomhive que morreram, muitos empregados da casa morreram também, como o senhor sobreviveu?
– Sim, sim. Aquele foi um dia tão feliz – os olhos do velho pareciam se perder no passado e lacrimejavam ao continuar. – Parecia ser o dia mais perfeito do ano. Todos estavam muito felizes porque era o aniversário do pequeno amo Ciel. Mas a escuridão nos alcançou tarde da noite, todos já dormiam na casa, até mesmo os empregados. Quando nos demos conta, o fogo já consumia a casa inteira. Foi quando escutei um grito, e o pânico se espalhou. Eu e mais dois vigias, que tentavam apagar o fogo, corremos para o interior da mansão, encontramos Beth, uma antiga faxineira, que gritava desesperada, ela estava encurralada pelo fogo perto da porta que dava acesso a sala de visitas. Tentamos acalmá-la, pois ela gesticulava muito e dizia coisa com coisa em meio ao choro. Para meu horror, logo percebi a razão de seu desespero... n-na ...na sala de visitas...as chamas já consumiam completamente os corpos do senhor Vincent e da senhora Rachel. Alguma coisa estava errada, pois eles deveriam estar no quarto. A única coisa que consegui pensar na hora foi no menino Ciel. Corri para o seu quarto, mas este estava vazio. Beth, os vigias e eu gritávamos o seu nome enquanto tentávamos inutilmente conter o fogo. Encontramos Sebastian já morto no corredor perto dos quartos de hospedes.
– Sebastian? – perguntei confuso.
– Sim, o cachorro que pertencia ao senhor Vincent e ao pequeno Ciel.
– Oh, perdão, continue.
– Achamos que Ciel estivesse lá, mas toda a casa começou a ruir. Fui atingindo por algumas vigas de madeira que caíram sobre Beth e eu. Um dos empregados me arrastou para fora. Infelizmente eu desmaiei. Quando acordei, já estava no hospital, e por lá fiquei um bom tempo até me recuperar novamente. Logo descobri que do incêndio, apenas eu, um vigia, uma lavadeira e dois tratadores de cavalos haviam escapado. Pobre Beth. Nunca tinha visto fogo tão destruidor como aquele. Como a policia não encontrou provas nem suspeitos, o incêndio foi considerado acidente. Os três Phantomhive e mais onze empregados foram dados como mortos, bem, não haviam sobrado corpos para enterrar. A senhora Angelina fez questão de cuidar de tudo, disse que eles mereciam um enterro decente mesmo assim.
– Acha que Madame Red poderia ter algum interes...
– Oh, não! – Ele me interrompeu subitamente. – Nunca mais volte a sugerir isso. Jamais existiu alguém no mundo que amasse mais aqueles três do que a Senhora Angelina. Ela mesma já tinha sofrido a dor da perda, os Phantomhive eram tudo pra ela.
– Não imagina quem poderia ter feito isso. Ou por quê?
– Infelizmente, não. Mas, embora sendo uma família muito querida pela sociedade londrina, inimigos não faltavam, uma vez que a família carregava o fardo que tinha que carregar.
– O Cão de Guarda da Rainha.
– Sim.
– Quando conheceu Sebastian Michaelis?
– No mesmo dia em que reencontrei o jovem Ciel. Quando o vi no Hospital Royal, a procura da tia, meu coração se encheu de alegria. Pois até então, acreditava que ele também havia morrido. A surpresa em seus olhos me fez perceber que ele também pensou o mesmo a meu respeito. O abracei cuidadosamente, temeroso de que, se o apertasse muito, ele se desfizesse, provando ser uma ilusão criada pela já gasta mente de um velho cansado. A última vez que o tinha visto, ele era uma criança alegre, amável e extremamente doce. Não era nem gordo nem magro, mas seus lábios vermelhos e suas bochechas coradas provavam que gozava de boa saúde. Era uma criança cheia de vida. O orgulho dos pais. O maior tesouro da tia. Alma tão inocente não merecia ter presenciado o que presenciou. Mas o menino que encontrei ali era muito magro, sua pele era sem cor, seus olhos perdidos. Trajava uma roupa puída e carregava vários ferimentos e hematomas pelo corpo. Parecia mais o filho de um mendigo do que o filho de um conde.
– O que houve com ele, por onde tinha andado?
– Ninguém nunca soube realmente. Tudo o que Ciel nos contou foi que ladrões tinham sido responsáveis pelo incêndio, que o haviam sequestrado, mas que ele conseguira fugir. Ficou perdido por um tempo, mas Sebastian o encontrou e o ajudou a voltar para casa. Nunca questionei sua história. E que direitos tem um empregado de questionar seu patrão?
– Acha que ele podia estar escondendo algo?
– Se o fez, tinha razões para isso. Pois Ciel nunca mais foi o mesmo. O incêndio levou uma criança, e Sebastian nos devolveu um adulto. Quantos meninos, aos onze anos, são capazes de assumir os negócios da família e administrá-los com a perspicácia de um experiente e malicioso negociante?
– O que sabe sobre o senhor Michaelis? Eu não consegui encontrar nenhum registro sobre ele. Sabe dizer se ele veio de outra cidade ou país?
O velho senhor Tanaka curvou os lábios em um pequeno sorriso e continuou:
– Creio eu que talvez nunca encontre. Não sei se esse é realmente o nome de Sebastian-san.
– E porque diz isso?
– Imagine o senhor o meu espanto quando o pequeno Ciel me apresentou o seu novo mordomo e salvador. Ora, a semelhança daquele rapaz com o amo Vincent era incrível! E Ciel me diz que ele se chama Sebastian, veja só, Sebastian era o estimado cão do Ciel, presente de seu pai... Tinha que ver como o pequeno Ciel ficou contente quando conheceu o Sebastian.
– O mordomo?
– Não, o cachorro. Mas o Sebastian parecia gostar muito de Ciel também.
– O cachorro?
– Não, o mordomo.
Cocei a cabeça coma ponta do lápis, aquela confusão de nomes estava me enlouquecendo.
– M-mas.. .senhor Tanaka vamos nos concentrar no Sebastian, tudo bem?
– Sebastian cão ou Sebastian mordomo?
– O Michaelis, Sebastian Michaelis! O senhor dizia que suspeitou do senhor Michaelis quando o conheceu e.... Continue.
– Ho, ho, sim, sim. Estranhei aquele rapaz e a incompleta história de Ciel sobre como o encontrara, mas o que importava era que o pequeno Ciel estava vivo e aquele homem o salvara. Tudo o que pedi a ele, após entregar-lhe o relógio que os mordomos da família Phantomhive possuem, foi que protegesse o menino. Alguns meses depois, recebi um convite do novo Conde Phantomhive, para voltar a morar na mansão. Senti-me imensamente honrado em ser chamado de volta, eu já era um velho, e estava ferido, poder servir ao Conde Phantomhive mais uma vez me deu forças para continuar vivo. Fiquei extremamente surpreso e assombrado ao regressar aqui, pois a mansão estava exatamente como era antes do incêndio, nos mínimos detalhes, às vezes me perguntava se Sebastian-san não era uma espécie de mago. Pouco tempo depois, Sebastian-san contratou três novos funcionários para ajudar no serviço de casa e proteger a mansão.
– Apenas cinco empregados para cuidar de toda esta casa?
– E arriscaria dizer que quatro de nós eram desnecessários.
Eu iria questionar sua afirmação, mas ele continuou.
– Logo percebi que o novo objetivo do menino Ciel era descobrir quem fora o responsável pela morte de seus pais.
– Então, o jovem conde pode mesmo ter estado por trás da tragédia Vanderbilt? Vingança talvez? Isto é, se os Vanderbilt tiveram realmente alguma culpa na morte dos pais dele.
– Eu diria que o menino Ciel nunca seria capaz de algo assim.
– Talvez não o “menino Ciel”. Mas e o conde Ciel Phantomhive?
– Como eu disse, Ciel nunca mais foi o mesmo.
– Voltando a Sebastian... o mordomo, como era a relação dele com Ciel, alguma vez deu indícios de que não gostasse de seu mestre?
– Pelo contrário, jamais vi um servo tão dedicado a seu mestre. Sebastian-san atendia a qualquer ordem do jovem Ciel sem contestar. Zelando pelo seu bem estar, cuidando de sua saúde, sempre procurando agradá-lo em tudo o que fazia. Sebastian-san estava sempre ao lado do menino Ciel. Do amanhecer ao entardecer.
– Então, o senhor Michaelis era o único que tinha total acesso ao jovem conde?
– É o dever de um mordomo.
– Acha que Sebastian poderia ter matado Ciel?
– Sebastian-san jamais machucaria o menino Ciel. Que razão ele teria para fazer algo assim?
– Isso, senhor Tanaka, é o que eu pretendo descobrir.
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Encerrei o interrogatório com o senhor Tanaka. O dispensei e pedi que ele mandasse o próximo entrar. De fato, este caso parece mais complicado do que pensei que fosse. Comecei esta investigação para resolver o caso da tragédia Vanderbilt, em que uma família inteira foi assassinada de forma brutal.
Achei que resolveria este caso facilmente quando encontrei o principal suspeito, o conde Ciel Phantomhive, só tinha que prová-lo culpado. Mas eis que numa reviravolta do destino, o jovem conde é encontrado morto em sua própria casa pouco tempo depois. A hora da morte terminou por inocentar o jovem conde, uma vez que era humanamente impossível que ele tenha estado na residência Vanderbilt cometendo atrocidades e cinco minutos depois estar em sua mansão, morto. O culpado vira vítima. Como um rapaz de dezessete anos morre do nada?
Para provar a culpa ou a inocência do conde, tenho que descobrir como e porque ele morreu. No entanto, me parece que esta mansão esconde mais mistérios do que eu posso imaginar. Quem realmente foi Ciel Phantomhive? Como alguém tão jovem poderia ter feito o que fez? Por alguma razão, tenho a ligeira impressão de que aquele mordomo de olhos castanhos rubros lá fora esconde alguma coisa. Se ele não for de fato o responsável pela morte do conde, alguma outra coisa ele esconde. Afinal, como o velho Tanaka dissera, “a memória de um mordomo guarda mais segredos do que um diário”.
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