Confissão

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Esta história se passa depois do episódio S03E13 “Killer App”.

Cal Lightman havia confessado a sua filha seu amor por Gillian Foster. Sentado desajeitado na cadeira de seu escritório, quase deitado, pés afastados longe do corpo, mãos cruzadas no peito, observava sem enxergar um ponto fixo entre seus dedos. Na noite anterior, após pressão de Emily pela resposta, ele não viu saída se não contar. Ou admitir para mim mesmo. Não era a primeira vez que Emily sondara seu pai por informações a respeito de seus sentimentos pela sócia, mas desta vez ela fora direta. Não fizera apenas a declaração sair, mas também fazer com que Cal se desse conta do quão sério era seu sentimento, o que ela já havia percebido há algum tempo. Muito bem, Em’. Você realmente é filha de seu pai.

Na verdade, a palavra chave da situação foi amor. Termo forte. Ele já havia admitido que queria Gillian uns meses antes, ao ser confrontado por Dave, agente federal que esteve em um breve relacionamento com sua parceira. No entanto, escapou brilhantemente de sua própria confissão fingindo a seguir nunca ter acontecido. Dizia a si mesmo que o motivo seria por respeito aos sentimentos de Gillian, afinal ela tinha acabado de perder um namorado do qual havia gostado deveras, e ele não iria conturbá-la com isso— com ele. Mas no fundo ele sabia que era medo o impedindo de confrontar o que ele próprio sentia e, mais importante, medo de abalar profundamente a amizade que cultivava com ela. Antes apenas amizade do que nada.

Lightman foi tirado de seu devaneio segundos depois por Foster, que entrara em seu escritório sem qualquer anúncio ou cerimônia.

— Ah, você está aí – disse Gillian, com voz inocente e doce.

Cal ajeitou-se imediatamente em sua cadeira, como quem foi pego aprontando alguma coisa. Sentia-se dessa forma toda vez que Gillian aparecia quando estava pensando nela. Era como se ela soubesse o que se passava na cabeça dele. Quase podia ouvir as batidas de seu coração contra a caixa torácica.

— Oh, oi Gillian.

O primeiro detalhe que Gillian percebeu foi seu comportamento estranho ao vê-la. O segundo, ele não a chamar de querida.

— O que foi? – Perguntou ela imediatamente. Assim como ele tinha a habilidade de ler microexpressões, ela tinha de ler comportamentos. No que ele estava pensando? Ele claramente havia sido pego de surpresa envolto em seus pensamentos.

— Hein? O que foi o quê?

Gillian serrou os olhos, olhando-o com a cabeça levemente virada. Ele certamente não quer que eu saiba de algo. Lightman, reconhecendo seu olhar, tratou de sair da situação o mais rápido possível.

— Acabei de lembrar que... tenho coisas a fazer. Tchau – disse apressado, não dando chance para que ela protestasse.

Foster observou-o se retirar e não pode conter um pequeno sorriso de canto. O que não quer que eu saiba, hein?

***

Eu sou o melhor mentiroso que conheço, pensou Lightman ao sair de sua sala. Realmente queria acreditar nisso, mas sabia que suas habilidades apresentavam perdas perto de Foster. Não conseguia lê-la como os outros, bem como não conseguia mentir para ela como para os outros. E dessa forma, sabia que ela percebera sua tentativa falha de escapar da situação sem deixar suspeitas.

Nesses momentos, o melhor que podia fazer era simplesmente fugir. Caso contrário, Foster sempre conseguiria arrancar-lhe o que queria – a verdade. Ele não estava nem um pouco inclinado a ter uma conversa na qual acabaria por ter que contar o que sentia. Precisava mesmo fugir, embora Emily constantemente retornava as suas lembranças como que para lembra-lo de que não adiantaria. Gillian e Emily não o deixariam em paz. A primeira motivada pela curiosidade; a segunda pelo inocente desejo de ver seu pai feliz. Cal via-se em um beco sem saída. Por que isso é tão difícil?

A verdade é que não sabia como seria ao abrir o jogo com Foster. A simples ideia de contar a ela o que sentia o aterrorizava, embora não soubesse bem o porquê. O grande Cal Lightman, especialista em microexpressões de renome, não tinha a menor pista de qual poderia ser a reação de Gillian. Tudo em que pensava era em um possível desfecho negativo e consequente afastamento dela de sua vida. Não, não posso. Não posso arriscar tudo.

— Pai? – Uma voz fina soou por suas costas.

Cal virou-se, assombrado.

— Emily? O que está fazendo aqui? Você deveria estar na escola! – Não fez questão de esconder o descontentamento em seu rosto. Emily em pessoa? Mais essa agora...

— Desculpa, pai. Má hora? – Disse ela ao ver a expressão no rosto de seu pai – Não tenho aula hoje, lembra? Contei a você noite passada – Explicou-se, tornando a voz o mais doce possível.

De descontentamento, a expressão de Lightman foi à ternura. Como ela consegue?

— Não, querida. Não é má hora – Puxou-a para si, deixando um beijo paternal em sua testa.

— Você está fugindo da Gillian, não é? – Perguntou Emily, olhando-o com um ar inquisidor.

Cal serrou os olhos, analisando cada movimento do rosto de Emily. Ela, como em gesto de desafio, não baixou o olhar de seus olhos. Lightman suspirou. Emily vencera, ele nem sequer tentaria contra argumentar. Passou o braço ao redor de seus ombros e a guiou pelo corredor em direção ao seu escritório. Gillian já deve ter saído de lá.

***

Três pessoas conseguiam mexer com Cal Lightman: Emily, Gillian e Zoe. Apesar de Emily ser uma menina doce, ela herdara a habilidade de seu pai de extrair dele próprio a verdade. Gillian, quando achava prudente passar da linha tênue que separavam suas vidas pessoais das profissionais, também conseguia, sem muito esforço esforço, tirá-lo de sua zona de conforto. E Zoe, com toda a carga de conhecimento de uma ex-mulher, sabia de seus pontos fracos e como deles fazer bom uso. Era a vez de Emily.

Eles adentraram ao escritório. Assim que Lightman fechou a porta, Emily partiu para a ofensiva.

— Pai, de que você tem medo?

Mais um suspiro de derrota saiu de Lightman.

— Em’, eu não tenho essa resposta, já te disse – respondeu ele, gesticulando no ar.

— Você precisa tentar. Precisa contar a ela.

— Olha, é muito mais complicado do que parece, ok? Há muita coisa em jogo, Em’ – Disse ele, segurando-a pelos ombros.

— Você prefere passar a vida imaginando como seria

— Em’, se eu tentar, posso perder tudo. Posso afastá-la, perder sua amizade, perder a sociedade, perder tudo.

Foi a vez de Emily soltar um longo suspiro. Seu pai sabia ser muito teimoso às vezes.

— Pois eu te digo que ela não vai esperar para sempre...

Lightman deu meia volta e foi em direção a sua mesa. Emily, ao ver que ele não havia entendido plenamente o que ela dissera, tentou novamente.

— Pai, a Gillian não vai esperar para sempre – Repetiu, usando um tom mais enfático agora.

O detalhe na voz de Emily chamou a atenção de Cal, que parou para estuda-la.

— O que eu quero dizer é que eu vejo como ela olha para você – Continuou ela – Vejo como ela encontra argumentos para te defender ou para aceitar alguma besteira sua. Ao longo de anos você certamente cometeu muitos erros, inclusive com ela, mas ela continua aqui, do seu lado. Pai, ela gosta de você.

— Gostar não é a questão aqui, Em’...

— Acredite em mim, pai. Até porque eu consigo lê-la melhor que você, então... – Emily não continuou a frase, brincando propositalmente distraída com um detalhe em renda de sua roupa.

Lightman não pode deixar de rir. Emily, Emily... Ele voltou-se novamente para ela, um olhar divertido em seu rosto. Ele agarrou-a e levantou-a como um bebê, quase deixando-a de cabeça para baixo. A brincadeira fez Emily soltar uma gostosa gargalhada, não sem antes um gritinho de surpresa, o qual saiu alto o suficiente para ser escutado de fora do escritório.

No momento seguinte, Gillian entrava na sala, seguindo o que escutara. Cal baixou Emily ao chão e ajeitou suas roupas, ainda rindo. Emily aproveitou a deixa.

— Oh, esqueci que tenho um trabalho da escola para amanhã para terminar. Tenho que ir! – Tomando a direção da porta de saída, continuou em tom casual – Que bom que chegou, Gil. Meu pai tem um assunto para tratar com você – E chegando bem perto de Foster, de modo que apenas ela pudesse escutá-la, deixou o aviso – E não saia daqui sem ele te contar...

— Contar o quê? – Foi o que Gillian conseguiu proferir antes de Emily sumir de sua visão, porta afora.

Ao voltar seu olhar para Cal, viu um Lightman pálido a sua frente.

— Emily! Em casa conversamos, mocinha! – Gritou Lightman, o mais alto que pode.

***

— O que tem para me contar? – Perguntou Gillian, a curiosidade brilhando em seus olhos.

Lightman gesticulava nervoso no ar, sem dizer nada, como se tentando encontrar as palavras certas.

— Deve ser alguma brincadeira de adolescente. Esqueça isso – Disse por fim, andando apressado em direção à saída.

Ao passar por Foster, ela agarrou seu braço, fazendo-o parar de frente a ela. “Não saia daqui sem ele te contar”, fora o que Emily dissera.

— Cal...? – Gillian fitava-o com o mesmo olhar inquisidor que Emily fizera momentos antes, no corredor – Eu sei que está escondendo alguma coisa.

— O quê? Não, não estou. De onde tirou isso? – Tentou escapar Lightman, falhando miseravelmente mais uma vez.

Foster continuava a pressioná-lo com o olhar. Era a vez dela de mexer com ele, o que conseguia sem precisar dizer muitas palavras.

— Eu... – Lightman paralisou, uma mão espalmada a sua frente, no ar.

A situação se tornara desesperadora para ele. Queria sumir. Queria correr para a janela e pular. Cada vez que pensava em finalmente desabafar, a ideia de afastá-la irrompia em sua cabeça. Mas não via mais saída. Beco novamente. Como vou fazer isso?

— Gil, eu não consigo... – A voz de Lightman saiu fraca.

— Cal, está tudo bem. Você pode me contar tudo – Tentou Gillian, percebendo a seriedade da situação.

— Não, não. Você não entenderia.

— E como eu poderia? Se não me contar, nunca saberemos.

Lightman levantou seus olhos aos dela, pensando nas palavras que poderia usar. Ela aguardava pacientemente, com um olhar quase de compaixão pelo conflito interno pelo qual ele passava naquele momento.

Vou perder tudo. Era o que ele conseguia pensar ao contemplá-la. Não posso.

— Não posso, Gil – disse ele, dando as costas e indo para o outro lado da sala – Sim, estou escondendo uma coisa, mas não posso te contar. Desculpe. Isso é tudo.

O fim da frase soou como um argumento definitivo, como se a conversa tivesse sido arquivada definitivamente. Gillian de repente sentiu raiva. Isso é tudo? Simples assim? Ela segurava as pontas para Lightman sempre que podia. Entendia que comunicação não era a melhor das habilidades dele, mas o fato dele deliberadamente esconder segredos dela a deixava consternada. Haviam jurado não mais segredos meses antes, o que ela tomou como estilo de vida. Ao que parece, ele não se importa tanto quanto eu.

— Ok – Disse Gillian, visivelmente magoada, desistindo de argumentar.

Lightman notou imediatamente a decepção em seu rosto.

— Oh, não querida...

Gillian se virou rumo à saída com uma expressão determinada. Percebendo como a havia magoado, Lightman rapidamente posicionou-se em frente à porta, impedindo sua saída.

— Não, Gil. Olha, escuta...

— Tudo bem, Cal. Tenho trabalho a fazer, com licença.

Lightman mais uma vez deu um passo de modo a impedir sua saída. Gillian olhou-o com raiva. Afinal, o que vai ser?

— É incrível como você me faz sentir frustração às vezes, sabia? – Disse ela com uma voz dura – Sem mais segredos, lembra? Mas você parece não se importar comigo, não é?

— Não me importar? Gil...

Novamente ela tentou uma investida em direção à saída, sem sucesso.

— Cal, estou realmente zangada agora! Façamos o seguinte: esqueça que tivemos essa quase conversa ou que temos qualquer acordo. Fique com seus segredos.

— Gillian, é claro que eu me importo, é só que...

— Ah, é? Você se importa? Prove!

Lightman estava definitivamente impaciente agora. Um mix de sentimentos o atormentava. Frustração por não poder abrir o jogo, remorso por claramente não cumprir o trato que tinham e claro, tristeza por fazê-la infeliz naquele momento.

Gillian, não vendo menção de resposta, passou por ele em direção à porta.

Lightman não acreditava no que estava acontecendo. Um dia atrás estava tudo em perfeita sintonia. E, literalmente da noite para o dia, seu mundo virou de ponta cabeça. Emily o colocara contra a parede, Gillian finalmente perdera a paciência e ele, vendo seu mundo desabar, perdia a noção do certo e do errado, do que devia ou não devia fazer.

Em um ímpeto de desespero, Lightman segurou o braço de Gillian enquanto ela passava, fazendo-a parar e virar para ele. A raiva tomou conta dela, o que a fez bater forte com o punho em seu peito. Por mais estranho que tenha sido, Cal não ficou surpreso e continuou segurando o braço de Gillian. Outra batida veio. E outra, e outra. Lightman, com a mão livre, segurou o punho que avançava contra ele, mas Gillian continuava suas investidas. Ele surpreendeu-se com a força de sua parceira. Inclinou a corpo para a frente, fazendo com que ela tivesse que recuar para não perder o equilíbrio. Continuou avançando, de modo que conseguiu encurralar Gillian na parede mais próxima, segurando seus punhos apoiados no material frio.

A luta do mais forte persistia. Lightman usou de seu corpo para prendê-la mais ainda, fazendo com que seus rostos ficassem a centímetros de distância. Sentiu novamente seu coração dançar no peito. Gillian resistia, mas Lightman já estava perdendo suas forças. Ok, já que as coisas já estão bem feias...

E tomou coragem. Lightman pressionou seus lábios contra os dela, selando-a completamente na parede. O gesto a tomou de surpresa, fazendo-a congelar por um momento. Momento esse que Lightman agradeceu profundamente. Sentiu que ela fez menção novamente de agredi-lo. Soltou seus punhos e esperou os golpes, mas não separando seus lábios nem por um segundo. Os golpes não vieram. Ao invés disso, sentiu que Gillian relaxara o corpo. Será que...? Moveu seus lábios e, para sua surpresa, sentiu-a retribuir. Era um beijo urgente, ao mesmo tempo macio. Levou uma mão ao rosto dela, a outra na base das costas, puxando-a para si. Deixou escapar um baixo suspiro de satisfação ao senti-la passando as mãos nos seus cabelos, sedenta pela necessidade do contato. Outro suspiro veio dela quando ele explorou sua boca com a língua. A sincronia era perfeita. Por fim, deixaram-se deliciar apenas do leve contato dos lábios.

No fundo, adiavam o momento de se olharem nos olhos, de se explicarem. Queriam apenas se entregar ao desejo, sem a responsabilidade dos porquês. Sem a reponsabilidade de admitir os porquês. Mas inevitavelmente tal momento chegou. Com os corpos ainda encaixados, quentes, separaram os rostos, procurando os olhos um do outro.

— Eu me importo sim, querida. Talvez até demais – disse Lightman, baixinho.

Ainda inebriada pelo que acabara de acontecer, Gillian não tinha palavras. Permaneceram ali, ofegantes, não querendo que o momento terminasse nunca. Até que...

— É o que eu estou pensando? – Uma Emily maravilhada perguntou da porta.

Como duas crianças arteiras que foram pegas em flagrante, Cal e Gillian imediatamente se puseram quase em posição de sentido, virados para Emily. Era difícil não ver o sorriso bobo em seus rostos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!