Confiar
3 Capítulo 3 — Meus Verdadeiros Sentimentos
Confiar
Por: Archie-sama
Capítulo 3 — Meus Verdadeiros Sentimentos
Estamos todos vivendo em um sonho
Mas a vida não é o que parece ser
Oh, tudo está uma bagunça
E todas essas tristezas que tenho visto
Elas me levam a acreditar
Que isso tudo está uma bagunça
Mas eu quero sonhar
Eu quero sonhar
Deixe-me sonhar
Dream — Imagine Dragons
Eu cresci como Yaboku, um deus que carregava a morte. Tanto que consegui o ódio mortal de Bishamonten, a deusa da guerra. Por um pedido de um dos servos dela, eu massacrei o clã Ma dentro de sua própria casa. E, embora eu apenas houvesse arrancado pela raiz a corrupção de suas shinkis, fiz aquilo sem qualquer relutância, sem pensar na enorme dor que Bishamon sentiria. Mesmo com seus gritos de desespero às minhas costas, eu não parei. Tornei-me seu inimigo.
Conforme o tempo passava, eu me tornava mais e mais cego pelas mentiras que inibiam minhas inseguranças, obedecendo a tudo que me era imposto. Continue assim, Yaboku. Você não possui falhas. Faça o papai feliz, eram frases que eu ouvia constantemente. Eu podia ser um deus feroz e incomparável, mas no fundo, no fundo, não era tão valente quanto pensava, por isso agia daquela forma, matando indiscriminadamente para realizar os desejos de outrem. Simplesmente havia um medo profundo instalado no meu íntimo. Medo de ser esquecido. E, apesar da crença do meu pai me manter a salvo, minha vontade de ser lembrado se estendia a algo muito além disso.
Eu não queria meramente existir… Queria ser importante. Almejava ser adorado.
Talvez fosse algo inerente aos deuses a avidez por reconhecimento, mas eu me recordava muito bem de quando meu pai dissera "Yaboku, você não pode se deixar esquecer, você é um deus. Faça com que se lembrem".E eu guardei aquelas palavras tão fundo emmim que não encontrava maneiras de lidar com elas além da morte. Eu estava sendo alimentado pela dor e pelo rancor das pessoas. Tudo por medo. Não posso me deixar esquecer, era o que eu repetia em pensamentos todos os dias, como um mantra. Assim, enquanto minha aura se tornava mórbida, exalando pecado — e isso era prontamente ignorado por todos, pois deuses jamais poderiam errar —, meu sangue se tornava frio em minhas veias; meu coração, duro como pedra. Indiferença era tudo que eu conhecia.
Eu também não fazia ideia do que meu pai estava pensando, pois ele constantemente escondia os olhos por debaixo da franja lisa, nunca permitindo que eu ou Mizuchi o lêssemos. Suas emoções permaneciam ocultas em todos os momentos, mesmo quando trazia aqueles trabalhos para mim, que os realizava sem hesitar, por mais perversos que fossem. Tudo numa tentativa desesperada de que se lembrassem de mim, Yaboku, o deus da calamidade. Minha função? Levar juízo aos condenados pela sociedade. Havia sido criado para isso, afinal. Para decidir o destino da humanidade. Aquela altura, eu era o deus que distribuía maldição àqueles que quebravam as regras.
Mas, mesmo assim, ninguém lembrava. E aquilo não me levou a lugar nenhum. As pessoas se lembravam apenas da bondade que recebiam de deuses como Ebisu, Bishamon e Ookuninushi. Não se recordavam da maldade que desejavam aos outros, que era eu quem realizava. E não era como se pudesse julgá-las por tal coisa, afinal, eu era a maldade encarnada. O pesadelo de muitos.
Eu continuava a ser esquecido, dia após dia, e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso. Então, os ensinamentos de Sakura finalmente emergiram do fundo do meu coração, clareando meus sentidos e me dando um novo objetivo de vida.
Era um dia de primavera. Eu havia prometido a Mizuchi que assistiria ao Hanami Matsuri com ela. Claro, faríamos isso sem que o papai soubesse — quando mais nova, ela gostava de fazer coisas do tipo, antes de começar a acreditar que era inútil para pessoas mortas querer viver como os vivos. Era uma época na qual eu inevitavelmente me lembrava de minha primeira shinki; naquele dia, eu queria apenas sentar e pensar. De cabelos presos e vestido com meu kimono preto, fui na frente e disse a minha irmã que a aguardaria no templo mais próximo de onde morávamos.
Era um enorme santuário rodeado de cerejeiras, pertencente ao deus Fukurokuju. Ele era um dos setes deuses da fortuna; o deus da saúde, felicidade e longevidade. Várias pessoas, de dentro e de fora do país, se reuniam em derredor do templo a fim de comemorar o festival e agradecer à Fukurokuju por suas bênçãos.
Eu me negava a enxergar, mas o invejava muito. Invejava a todos os deuses da sorte, porque eu queria ser como eles... Mas não podia. Já tinha meu destino traçado.
O sol estava forte, contudo, ainda assim, os humanos pareciam felizes, todos acompanhados de suas famílias e trajados à rigor enquanto observavam o florescer das árvores.
Eu sentei ao lado do sino de Fukurokuju, o cotovelo apoiado em um dos joelhos. A multidão de humanos se apertava para chegar até o sino e conseguir reverenciar o deus, que deveria estar muito ocupado distante dali. Como era um deus muito famoso, Fukurokuju constantemente viajava pelo país com o propósito de atender aos inúmeros desejos de seus súditos.
E, quanto mais as pessoas chegavam, agradeciam e faziam pedidos — eu podia ouvir todos eles —, mais meu coração parecia diminuir de tamanho. Eu estava ali, mas era como se não existisse. Além de ninguém me enxergar, também não me conheciam.
Até que, em meio à multidão, uma garotinha parou e olhou diretamente para mim. Ela tinha cabelos e olhos escuros e abriu um enorme sorriso. Naquele primeiro momento, não imaginei que ela pudesse estar sorrindo para mim.
— Olha, olha, mamãe! — ela exclamou, puxando a manga da yukata da mulher ao seu lado. A adulta a olhou gentilmente.
— O que foi, meu amor?
— Ali tem um moço muito lindo! Os olhos dele brilham! — a menina afirmou, apontando em minha direção. Meu coração deu um solavanco. Minhas bochechas esquentaram. Ela estava mesmo me vendo? Falando de mim?
— Eu não estou vendo nada, querida — a mãe retrucou, me procurando com os olhos.
— Ele está ali! — a garota insistiu.
— É mesmo? — A mulher pareceu pensativa. — E quem você acha que ele é? — questionou, sorrindo de canto. Parecia querer estimular a imaginação da garotinha.
A menina se aproximou um pouco mais e me fez uma mesura, juntando as mãos e fazendo um pedido em sua mente. Eu desejo que a minha família fique unida e feliz para sempre. Engoli em seco, sem conseguir tirar os olhos dela.
Quando terminou, ela se virou para a mãe e abriu os braços. Eu não estava vendo, mas pude imaginar que ela estava dando outro enorme sorriso.
— Ele é, com certeza, um deus da sorte!!
E todas as minhas defesas caíram por terra. Meu coração, que parecia diminuto, se inflamou de felicidade. Uma lágrima irritante escorreu pelo canto do meu olho. Olhei para as flores ao vento e me recordei do sorriso de Sakura e de todas as coisas boas que ela havia me ensinado.
Eu não era um deus da sorte, claro que não. Mas também não precisava me conformar em ser quem eu era. Estava cansado. Realmente farto de me resignar a um destino tão atroz. Eu podia, sim, lutar contra isso. E eu iria.
Não esperei Mizuchi chegar. Ali, decidi me desvencilhar do que me prendia ao meu pai. Se eu fazia tudo que ele mandava, mesmo sabendo o quanto era errado, e não obtinha nenhum resultado, por que continuar a obedecê-lo? Por que continuar a me afogar em culpa e solidão se nada daquilo valia a pena? Eu estava fazendo tudo errado.
Então, ao me dar conta disso, eu finalmente parti… E nunca mais voltei.
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