Confiar

1 Capítulo 1 — Meu Conceito de Família


Notas iniciais
Essa é uma shortfic de 4 capítulos contada do ponto de vista do Yato, e obviamente é Yatori. Kasjkajs Espero que gostem ❤

Confiar

Por: Archie-sama

Capítulo 1 — Meu Conceito de Família

Desde que eu conseguia lembrar
Tudo que há dentro de mim
Só queria se encaixar
Eu nunca fui um desses que fingem
Tudo o que eu tentei ser
Só não combinava comigo

Monster — Imagine Dragons

Eu era destemido. Um perfeito deus da Calamidade, forte e impiedoso. Não havia ninguém que pudesse entrar em meu caminho, nada que pudesse abalar os muros reforçados que construí em torno de mim. Pelo menos era nisso que eu acreditava, até ser atingido pelas lembranças dolorosas da minha infância.

Eu simplesmente não possuía nada, foi o que percebi anos mais tarde. Não tinha um santuário ou pessoas que orassem a mim — o que era meu maior sonho —, muito menos memórias as quais me apegar. Era só um garotinho assustado e solitário, de vestes puídas e mãos empapadas de sangue. Minha irmã, Mizuchi, a menina a quem eu havia corrompido — transformando-a numa Nora ao conferir-lhe o nome Hiiro —, era minha melhor amiga. Não que eu soubesse o significado disso antes. Mas ela era incrível aos meus olhos.

Com Hiiro, que se transformava numa espada cuja lâmina era feita de água, matei inúmeras vezes. Não importava se humanos ou animais, essa era a única forma de diversão que nos havia sido apresentada, e eu simplesmente adorava brincar com ela. Nós levávamos as orelhas das pessoas para o nosso pai como prova das nossas brincadeiras; em troca, recebíamos diversos elogios. Tudo que fazíamos era para agradar o papai.

Certo dia ele estava fora de casa e eu, como o irmão mais novo que era a pedra no sapato de Mizuchi, insisti que ela arranjasse algo para comer.

— Hiiro, Hiiro! — Puxei a manga da yukata dela. Ela estava sentada no canto da parede e, com um galho em mãos, desenhava kanjis no chão de terra batida.

— O que você quer? — ela questionou, meio ríspida, olhando-me com seu semblante inexpressivo.

— Eu estou com fome! — choraminguei, mirando-a com os olhos de um gato de rua.

Ainda lembro que ela torceu o nariz para as minhas reclamações, mas saiu mesmo assim. Ela se levantou, bateu as roupas sujas de areia e seguiu para fora sem me dirigir o olhar. Ainda que a contragosto, Mizuchi sempre fazia o que eu pedia. Muitas vezes por pura insistência minha... E naquele dia não foi diferente.

Contudo, ela demorou demais para voltar.E eu estava pronto para ir atrás dela quando meu pai chegou, me fazendo recuar alguns passos com medo. Mizuchi estava no colo dele, chorando silenciosamente. Estava suja e tinha várias escoriações pelo corpo.

— H-Hiiro... — Engoli em seco, paralisado. — O que...?

Fui interrompido pelo olhar frio do papai. Um olhar carregado de severidade e desprezo. Ele nos mostrava essa expressão sempre que desobedecíamos suas ordens.

— Pensei ter dito para me esperarem aqui — ele disse, num tom sombrio. — Yaboku, sem um mestre a quem servir, regalias não passam de um estorvo. — Encolhi os ombros. Não entendia o motivo ou o significado de tais palavras, mas sabia que estava sendo duramente repreendido. Segundos depois, no entanto, papai já estava sorrindo de novo, com os olhos escondidos como se nada tivesse acontecido. — Bem, é uma pena que sua irmã tenha que ficar de castigo. Mas confiem no papai, isso é para o bem de vocês…

E, como uma forma de nos punir, papai jogou fora toda a comida que havia trazido para nós. Ele deu um banho em Mizuchi e tratou seus ferimentos, repetindo o quanto “meninas más não eram merecedoras de elogios” até que ela pegasse no sono. Eu fui completamente ignorado. E não dormi, apenas abracei os joelhos e fiquei me culpando, mesmo sem saber exatamente o porquê.

Só descobri o que havia acontecido muito tempo depois. Mizuchi havia tentado roubar comida de uma tenda, mas um humano sensível ao mundo espiritual a viu. Ele a arrastou para fora da tenda e chamou outras pessoas para que pudessem pisoteá-la como castigo. Ela ainda era nova, não fazia ideia de como se defender sozinha… Eu, como mestre dela, não estava lá para ajudá-la. A situação só não havia sido pior porque o papai tinha chegado a tempo. Não que ele se preocupasse sinceramente com sua mais leal serva. Ele apenas não queria perder sua regalia mais forte.

As coisas foram assim por muitos anos. Recebíamos elogios quando obedecíamos suas ordens e éramos punidos quando saíamos da linha. E eu jamais poderia dizer que odiava aquilo… Porque, até então, era o único conceito de “família” que eu conhecia. Porém, eu nunca senti que realmente pertencia àquele lugar; a sensação de vazio estava sempre lá, embora não soubesse identificá-la. Havia algo faltando.

Mas, por ter um pai, a pessoa que supostamente deveria suprir toda a minha carência, nunca me queixei. Aquele homem de cabelos escuros era o motivo da minha existência, o marco do meu nascimento. O desejo mais intenso dele se tornara realidade materializando-se na representação da Calamidade — que era eu. Eu existia unicamente para cumprir seus objetivos, enquanto Mizuchi servia para me auxiliar no cumprimento deles.

Eu era uma criança tola. Acreditava em coisas que via e ouvia, mas não confiava no meu próprio coração. Um coração que dizia querer apenas um lugar no mundo para chamar de seu. Pelo fato de meu pai aparentemente se preocupar comigo, eu nunca via problemas em obedecê-lo. Ele me ensinava tudo que, segundo sua lógica, eu precisava saber, e indicava o caminho pelo qual eu deveria trilhar; por onde eu deveria acompanhá-lo juntamente de Mizuchi. Ele me protegia à sua maneira. Com minha mente imatura, considerava aquilo o suficiente.

Mas não era.

E eu só me dei conta disso quando, finalmente, encontrei alguém que se importava comigo de verdade.