Confiança
1 Confiança
O entardecer encobria o céu de Ionia com cores alaranjadas. Os últimos raios do sol iluminavam o imenso terreno do templo da Ordem das Sombras. Nos fundos, no jardim de pedras, Zed treinava arduamente os seus discípulos, executando golpes perfeitos, levando todos ao chão, um por um, sem piedade de aplicar a rigidez da sua disciplina.
- Acho que alguém está precisando de um exército mais experiente. – soou uma voz calma, do outro lado do jardim.
Zed virou lentamente a cabeça, seus olhos âmbar encontrando Syndra encostada no tronco de uma árvore, com os braços cruzados e um sorriso nos lábios que revelava o prazer cruel de se divertir vendo os soldados serem humilhados.
- Ou será que está faltando um incentivo? – ela continuou a falar, de forma desdenhosa, estalando os dedos.
Arrancada pelo limiar do reino espiritual, uma esfera negra carregada de energia pairou acima da mão de Syndra, girando lentamente, distorcendo o ar ao seu redor.
Imediatamente, os ninjas empunharam as armas em direção a maga, assumindo uma postura defensiva. Até que Zed interferiu, fazendo um gesto para recuarem.
- Você sabe lutar sem seus poderes, Soberana? – ele perguntou, à procura de um novo desafio. – Vamos lutar de igual para igual. O que me diz?
Syndra ergueu uma sobrancelha. Intrigada com a proposta, deu um passo à frente, recolhendo os dedos dentro da palma da mão, desfazendo a esfera e restringindo a sua magia antes de se aproximar de Zed.
- Está me desafiando, Mestre das Sombras? – a voz dela saiu suave, mas a ameaça estava implícita em cada palavra.
- Só estou curioso – ele respondeu, grave, firme. – para ver até onde a sua confiança vai... sem as suas exímias habilidades.
Com um olhar atento e um sorriso insolente, Zed inclinou ligeiramente a cabeça, convidando Syndra a atacar diretamente. Sem hesitar, ela avançou, movendo os pés em uma sequência de chutes altos, mas ele desviou e bloqueou todos os golpes dela. A defesa dele era impecável! O seu corpo deslizava calmamente de um lado para o outro, deixando ela errar repetidamente enquanto permanecia incansável e focado, frio, como um predador, aguardando por uma oportunidade. E ao primeiro minucioso sinal de erro, ele reagiu, a imobilizando torcendo um dos braços atrás das costas.
- Fácil demais. – Zed assoprou no ouvido de Syndra, o sorriso convencido se alargando.
A expressão no rosto dela mudou, as sobrancelhas franzidas visivelmente irritada. Ainda assim, ela se concentrou em analisar cuidadosamente o corpo alto atrás de si. Então, teve uma ideia. Talvez selvagem, vil, mas funcional. Syndra abaixou o rosto e bateu a cabeça com força contra o queixo de Zed, o obrigando a recuar. Ele mal teve tempo de se defender quando ela se virou em uma acrobacia, tocando as mãos no chão ao mesmo tempo em que prendeu as pernas em torno do pescoço dele para, enfim, derrubá-lo no chão. Rapidamente, ela se posicionou, se sentando sobre o abdômen rígido dele, estabelecendo a sua presença imponente.
- Fácil demais. – ela proferiu as palavras com o mesmo tom de escárnio que as tinha escutado.
- Tsc! Não seja convencida. – resmungou, mal-humorado.
Zed apertou os dedos na coxa de Syndra, avisando para que se afastasse. Ela, levantou graciosamente enquanto ele, com um pulo, voltou a postura altiva.
Eles se encararam andando em círculos, em direções opostas. Os seus pés pisavam firmes sobre a grama, por entre as folhas secas espalhadas pelo vento. Seus olhos reluziam uma luz, fria, intensa. Uma áurea sombria crescia entre eles, como se o próprio espaço estivesse prestes a desmoronar.
Dessa vez, Zed atacou primeiro, tentando atingir Syndra com socos rápidos e chutes fortes. O seu estilo de luta agressivo forçava ela a reagir instantaneamente, desviando desajeitada das suas investidas silenciosas e imprevisíveis. Zed era ágil, habilidoso e astuto, constantemente mudando o padrão de seus movimentos, criando um ritmo difícil de acompanhar. Seus golpes excessivos, empurraram ela até o limite, a deixando paralisada, os olhos arregalados, assustados, completamente expostos aos seus punhos.
O som seco, abafado, do impacto dos ossos se chocando, ecoou por todo o jardim.
- Merda...! – ele praguejou, arrependido. – Ei, Syndra? – chamou preocupado, vendo a adversaria cabisbaixa. – Você está bem?
Os lábios de Syndra, que estavam entreabertos, respirando ofegante, se fecharam, identificando o gosto amargo do sangue escorrendo no canto da boca. Lentamente, ela levantou o rosto, transmitindo em seu olhar o perigo iminente.
Em um impulso, Syndra agarrou a camisa de Zed e o puxou, voltando a atacá-lo. A sua paciência tinha se esgotado. Ela não queria mais vencê-lo, demonstrar a capacidade das suas habilidades, queria dominá-lo, fazê-lo se arrepender por desafiá-la. Porém, cega pela raiva, percebeu tarde demais que tinha deixado espaço para ele revidar. E Zed, sempre atento, segurou o seu braço e passou o seu corpo por cima do ombro, a jogando no chão. No segundo seguinte, ele já estava dominando a luta outra vez, ajoelhado sobre ela, impondo o peso do próprio corpo nas mãos segurando firme os seus pulsos contra os seios.
Syndra tentou se libertar, só que Zed garantia que qualquer tentativa fosse inútil. Até que a sensação de impotência, de vulnerabilidade, começou a desesperá-la.
- Argh! Me solta! – ela vociferou, os olhos brilhando brevemente em tom roxo, profundo, quase enegrecido.
Zed permaneceu inabalável, observando ela por um tempo, sua cabeça ligeiramente inclinada, avaliando a situação com um sorriso sutil, enigmático, silenciosamente carregado de malícia. O sorriso de quem saboreava a vitória.
Finalmente, ele cansou de provocá-la e se afastou estendendo a mão para ajudá-la a se levantar. O gesto cordial foi dispensado grosseiramente por ela empurrando a sua mão, desinteressada na sua simpatia ou piedade.
- Você se saiu muito bem. – Zed admitiu, cruzando os braços. – Foi muito corajosa ao me enfrentar. Tem uma força impressionante, mas o controle... O controle é o que falta.
O peso da derrota manteve Syndra sentada no chão, pensando nas suas falhas. Se sentia humilhada por não ser capaz de conseguir controlar a situação. Os seus golpes mais potentes não deixaram uma marca na pele de Zed. Ela não era fraca, entretanto, ele a fazia parecer lenta, insignificante. Aquilo fervia a raiva dentro dela, se espalhando venenosamente por suas veias. Não estava acostumada a ser subestimada, principalmente, por alguém arrogante como Zed.
De repente, uma sombra se estendeu sobre ela.
- Estou impressionado... – comentou Kayn, a voz fria suavizando a tensão no ar. – Não imaginei que você fosse capaz de lutar assim. Os seus golpes são mais que o suficiente para nocautear qualquer pessoa. – ele fez uma breve pausa, encarando Syndra mais profundamente. – Você só precisa aprender urgente a controlar a sua impaciência, se quiser realmente sobreviver no campo de batalha. – o sorriso nos lábios dele apareceu carregado de sarcasmo.
Syndra não respondeu. O seu rosto se contorceu em uma expressão feroz de desdém ao se erguer rapidamente virando as costas, caminhando em direção a escadaria do templo.
- O que foi? O que eu fiz? – confuso, Kayn questionou Zed. – Eu disse algo errado?
Zed suspirou, impassível, já acostumado com as reações explosivas de Syndra.
- Não. Ela só está irritada porque perdeu. Dê um tempo para ela.
- Humpf! Garota mimada.
Discretamente, Zed abaixou os olhos, observando Kayn franzir a testa e cruzar os braços, claramente incomodado por ser ignorado.
- Você também faz a mesma coisa quando perde. – lembrou.
Kayn se virou para Zed, indignado pela acusação.
- Não, eu não! – negou rápido, quase ofendido. – Eu sou muito mais sofisticado quando fico irritado. – ele deslizou a mão pelo cabelo, afastando a mecha de sua franja caindo no olho.
- Sair quebrando tudo o que está no caminho não me parece ser algo muito sofisticado.
- Isso é porque eu preciso de espaço para respirar!
- Ah, sim, claro. – a ironia formou um sorriso sútil no canto da boca de Zed. – Me perdoe por não ter notado, caro aprendiz.
Por um instante, os murmúrios ao redor, embora abafado, se tornaram mais evidentes.
O sorriso de Zed se desfez ao percorrer os olhos por cada um dos seus soldados distraídos, cochichando animados sobre a beleza e o poder de Syndra.
- Certo. Já chega. – cansado daquela bagunça, ele elevou a voz, firme e autoritário. – Todos vocês descansaram o bastante. Voltem aos seus postos.
A conversa cessou imediatamente. Os soldados assumiram um comportamento mais rígido, logo retomando as suas tarefas.
Dentro do templo, Syndra caminhava pelos corredores, procurando um refúgio temporário. Ela entrou no primeiro cômodo que a porta estava aberta. Sem prestar atenção aos detalhes, se aproximou da cama, se sentando na beirada do colchão. Frustrada, um longo suspiro escapou de seus lábios, antes de esconder o rosto atrás das mãos, tentando disfarçar a dor e a vergonha de si mesma.
- Se esconder no meu quarto foi uma péssima ideia.
O corpo de Syndra estremeceu. Rapidamente, ela ajeitou a postura e levantou o rosto, encontrando Zed parado à sua frente, lhe entregando um pano com gelo.
- Desculpe. Eu sei que está doendo.
- Está tudo bem. Apenas faz tempo que eu não levo um soco. – ela confessou, pegando o gelo, pressionando no canto dos lábios. – Eu tinha esquecido como é... horrível sentir dor.
O silencio entre eles se tornou pesado, tão sólido quanto um muro.
A expressão vazia no rosto de Syndra deixava Zed cada vez mais desconfortável. Ele sabia que ela preferia ficar sozinha, por odiar admitir qualquer tipo de fraqueza. No entanto, não conseguia encontrar uma forma de dizer a ela que não estava ali para humilhá-la. O que era realmente estranho vindo dele, onde em outras circunstâncias, com toda a certeza teria feito sem pensar.
- Onde aprendeu a lutar? – perguntou curioso.
- Meu mestre ensinou junto com a magia. Disse que era necessário dominar o corpo antes de lidar com a mente porquê... – Syndra fez uma breve pausa, os olhos focados em algum ponto distante, tentando lembrar as palavras exatas.
- Porque devemos manter o equilíbrio em todas as coisas.
Zed completou a frase, de maneira amarga. Aquilo era uma lição que ele também escutava muitas vezes de seu mestre. Um ensinamento que se tornou vazio com o tempo. E dizer em voz alta, o fez sentir o peso do passado se arrastando como uma sombra atrás dele.
- Seu mestre deve ter muito orgulho de você. – ele acrescentou.
Syndra deixou escapar uma risada, áspera, curta e sem humor.
- Se ele realmente tivesse orgulho de mim, estaria vivo agora. – um brilho sombrio surgiu no olhar dela. – Pensei que você soubesse disso.
- Eu não costumo confiar em tudo o que as pessoas dizem por aí. – a resposta saiu com a frieza de uma longa experiência com mentiras e disfarces. Ele não podia arriscar afirmar o que sabia sobre Syndra.
A história dela já estava contada, e o capítulo final parecia não ter mais espaço para perdão ou redenção. As pessoas em Ionia faziam ela parecer a vilã, mas não mencionavam a raiz do problema.
- Eu costumava achar que meu mestre fosse alguém diferente. – comentou ela, tornando as palavras mais suaves. – No final, ele queria reprimir os meus poderes como todos os outros. – virou o rosto, observando através da janela a escuridão da noite engolir a luz do dia, junto com as últimas fagulhas do seu passado. – Então, eu o matei. E foi aí que tudo começou a desmoronar... – arfou, se levantando, devolvendo o pano com gelo. – Estou cansada. Vou para casa.
Zed observou Syndra partir. Ela não parecia esperar por consolo, nem mesmo uma resposta. Entretanto, um leve descontentamento alfinetou o coração dele. A ideia de ela sair dali carregando todo o peso da culpa e da solidão o deixava inquieto, de uma maneira que ele não estava acostumado a sentir.
- Se algum dia, você precisar de uma sombra para se esconder, eu estarei aqui. – ele avisou, sua voz grave cortando o silencio.
As palavras ficaram no ar, misturadas na brisa soprando ao redor deles.
Atônita, Syndra parou no meio do quarto, seus olhos brilhando igual a um cristal, encarando fixamente Zed. O seu coração batia mais rápido do que ela imaginava ser capaz. Jamais antes alguém tinha oferecido ajudá-la. Parte dela, queria recuar, antes que pudesse se tornar uma mentira. Porque ela sabia o preço que a confiança exigia, o quanto isso poderia enfraquecê-la, colocá-la em risco. Mas havia algo no semblante de Zed, na postura impenetrável, que desafiava ela a quebrar todas as suas próprias regras. Pensou que, talvez, um dia, ela realmente precisasse disso.
Cansada de se afastar daquilo que a desestabilizava, ela suspirou, movimentando os dedos graciosamente, despertando os seus poderes. Entre as suas mãos, surgiu uma esfera negra carregada de energia. Aos poucos, o tamanho da esfera diminuiu, se transformando em uma pequena pedra obsidiana, completamente escura, lisa, semelhante ao céu noturno sem estrelas.
- Fique com isso.
Syndra jogou a pedra na direção de Zed. Ágil, ele agarrou o artefato no ar, observando hipnotizado o poder contido ali pulsar na palma de sua mão.
- Quando não houver mais escuridão para você se refugiar, vai saber onde me encontrar.
Pela primeira vez, o corpo de Zed hesitou. Suspenso entre a certeza e a dúvida, um peso invisível se instalou no peito dele. As palavras de Syndra deixaram todas as suas escolhas ao longo da vida se tornarem turvas, distantes. A possibilidade de se desfazer das suas crenças, fazia com que ele quisesse afastar qualquer tipo de vínculo com ela. Porém, no fundo, ele sabia que, no final do dia, se as opções se esgotassem, e ele precisasse de um lugar para pendurar a cabeça, um ombro seria melhor do que um nó. Mesmo que aquilo fosse só um vislumbre fugaz, seria algo que ele precisaria mais do que gostaria de admitir.
Os olhos de Zed se ergueram, serenos e profundos, mas ainda afiados como uma lâmina, analisando o sorriso sútil de Syndra. Naquele momento, ele compreendeu o que a joia significava. Um acordo silencioso. Um jeito de selar a troca de confiança entre eles. O início de uma conexão.
- Não me decepcione. – ela finalizou, quase o desafiando antes de sair.
Zed assentiu balançando a cabeça, deixando escapar de seus lábios um riso, baixo, sonoro, uma mistura de desdém e admiração pela ousadia de Syndra subestimar o que ele mais prezava na vida, a sua honra.
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