Confia em mim?
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Eliza
Faz um mês.
Um mês desde a sexta-feira em que Luan e eu nos beijamos na praia.
Um mês desde que todas as coisas mudaram.
Antes eu dizia que os únicos amigos de Julia que haviam se tornado meus, tinham sido Luan e Renata, mas hoje percebo que este garoto não queria nada mais do que brincar comigo e, que sua irmã, ou está completamente alheia a esse fato ou prefere simplesmente ignora-lo.
Não contei a ninguém sobre os beijos que Luan e eu trocamos porque acredito que eles pertençam somente a nós, mas acho estranho que eu seja a única a perceber que, do dia para a noite, o garoto com quem eu mais conversava, pareceu não me suportar.
Quando nós nos conhecemos, Luan e eu aproveitávamos os trajetos da escola para conversar. Falávamos sobre o mundo e sobre música, sobre TV e família e cinema e praia. Sobre tudo e sobre nada em perfeita harmonia. Ele contava as aventuras que tinha tido enquanto surfava e eu dizia sobre as milhões de vezes em que mudei. Ele me contava sobre rap e rima enquanto eu falava sobre séries e livros loucos. Agora ninguém fala nada.
À exceção da música que sai dos meus fones, o percurso para escola e de volta para casa é, para mim, silencioso. Outros integrantes do grupo sempre conversam entre si e comigo, mas Luan só participa de assuntos em que eu não esteja envolvida, como se quisesse deixar claro que o problema é comigo. Ainda assim, para o resto de nós, é como se tudo estivesse em sua mais perfeita ordem
Imagine subir em uma bicicleta e ser carregada por uma pessoa que mal consegue olhar para você? É assim que tem sido! Luan parece que não quer me ver nem pintada de ouro e, se antes eu já achava horrível essa história de carona na bicicleta, o desconforto piorou cem vezes nessas últimas semanas – e mais ruim ainda porque não me sinto confortável para discutir o assunto com ninguém.
No dia seguinte ao nosso beijo, eu mandei uma mensagem para Luan dizendo que tinha gostado do nosso encontro na noite anterior, ao que ele me respondeu com “é, foi legal” e depois disso, nós nunca mais escrevemos um para o outro.
Por outro lado, ainda que inconscientemente, alguns dos outros aproveitaram a deixa para se aproximarem de mim e eu descobri que todos são mesmo legais.
Foram Douglas com sua irmã e Julia que começaram e me ensinar a andar de bicicleta, sabe? Porque embora tenha sido uma das primeiras a sugerir que eu aprendesse a pedalar, Renata abandonou a missão, sempre dando desculpas para não participar dos nossos encontros. Foi ela quem me disse que eu deveria tentar com a bicicleta de Vanessa, já que eu e ela temos a mesma altura, os ajustes seriam com certeza ideias para mim.
Estávamos indo bem, eu acho. Eu sou uma garota forte e enfrentei os joelhos ralados com bravura, mas infelizmente eu não progredi muito porque pouco depois tivemos que suspender as práticas por tempo indeterminado para que pudéssemos nos concentrar nas coisas do colégio. O problema é que na empolgação de aprender algo novo eu acabei pedindo que minha mãe comprasse uma bicicleta de presente para mim e agora, além de eu continuar dependente de Luan, temos uma bike roxa e reluzente pegando pó na garagem.
De qualquer forma, fico feliz em anunciar o fim das provas do primeiro bimestre, e acredito que muito em breve voltarei a praticar. Não vejo a hora de pegar o jeito para trazer a Luan a liberdade que – com seu silêncio – ele me pede aos gritos. Tenho certeza de que, se eu conseguir parar de cair, já será meio caminho andado. Tudo uma questão de equilíbrio, certo?
Por falar em equilíbrio, Julia está diferente também. Se antes eu estava convencida de que minha prima sofria de algum grau leve de transtorno bipolar, agora penso era apenas uma fase e que ela finalmente se conformou com minha presença aqui. Mesmo agora que estou mais enturmada do que antes, não acho que ela se sinta ameaçada como me disse daquela vez, acho que ela finalmente percebeu que há espaço para nós duas sem que o lugar dela seja tomado jamais.
Acabaram-se as mudanças de humor repentinas e as grosserias, conseguimos conversar normalmente na escola e em casa e, eu sinto que somos amigas como éramos antes, quando tudo era virtual. Além do mais, embora ela não tenha mencionado nada sobre o garoto em quem ela tem um crush, nossa aproximação me deu bastante tempo para observá-la e checar se minhas teorias eram verdadeiras ou falsas.
Veja bem: nós nunca mais fizemos um luau ou grande encontro fora da escola por causa da grade curricular, mas eu pude observar como a postura dela muda quando Flávio se aproxima com os outros garotos, e como fica incomodada se os meninos começam a conversar sobre garotas. As expressões em seu rosto não mentem!
Imagino que eu fiz a mesma cara quando percebi pela primeira vez que Luan não dava a mínima para mim. Uma cara que não se pode disfarçar porque ela é reflexo de sensações que correm por dentro do corpo. Sensação de vazio, de buraco no peito, de nó no estômago. Sensação que eu tenho engolido com a ajuda de um copo de leite, todos os dias antes de ir para a escola.
Engulo como se fosse um comprimido grande que desce desajeitado.
Enquanto ela desce por minha garganta, faço de conta que não estive com Luan em uma praia, da noite escura, dos nossos pés descalços na areia e banhados pelo mar, beijando-nos como nossas vidas dependessem disso. Finjo que não passei os dias seguintes a esse encontro imaginando que minha vida como um dos livros românticos que leio – nós nos apaixonaríamos pouco a pouco a partir daquele encontro e antes que nos déssemos conta, pertenceríamos um ao outro.
Meu conto de fadas, no entanto, começou numa sexta de noite e terminou na próxima segunda, logo pela manhã, porque os olhos de Luan agora fugiam dos meus quando nós nos encontrávamos. Naquela manhã eu percebi com estranheza que nós não conseguíamos encontrar palavras para nos comunicar, e tudo se resumia a frases feitas de uma palavra só.
Nesse ritmo, já tinha se passado uma semana e nenhum de nós tinha se manifestado – nem sobre os beijos e nem sobre a nossa amizade que descia pelo cano tão rápido quanto meu romance de verão – e quando me dei conta já era tarde demais para entrar no assunto.
No final, acabei entendendo que era melhor assim. Tudo o que aconteceu aquele dia deixou claro para mim que Julia não estava pronta para ver eu me relacionando com um de seus amigos, essa maturidade que vejo nela agora, mais de dois meses depois da minha chegada.
Tenho certeza de que, se há um mês atrás, Luan e eu tivéssemos decido continuar nos encontrando, eu não teria coragem de dizer a ela, e por isso, teríamos de fazer às escondidas. Como ela não é nenhuma idiota, cedo ou tarde teria percebido nossa movimentação, gerando uma briga enorme que faria com que eu, a essas horas, estivesse morando com minha mãe e meu padrasto.
Será que, no final das contas devo agradecer a Luan por ser um idiota? Engolir mais um pouco de angustia? Fingir que não desejei todos os dias, pelas últimas três semanas que houvesse uma maneira de não encontrar com ele todas as manhãs? Fazer de conta que não odeio montar em sua bicicleta e sentir seu hálito fresco de hortelã em minha nuca de casa até o colégio? Até quando vou ter que fingir que estou prestando atenção nas conversas dos nossos amigos, para tentar evita-lo tanto quanto ele faz comigo?
Luan não merece agradecimento nenhum.
Acho na verdade que ele me deve um pedido de desculpas.
Antes éramos tão amigos, mas no último mês todos os dias são iguais e nenhum deles é bom: Ele chega e não me diz bom dia. Eu também não digo. Ele estica o braço para que eu suba em sua bicicleta e quando eu agradeço ele pergunta “vamos?”. Sinalizo que sim com a cabeça e, quando todo o grupo começa a se mover, nós vamos na mesma onda. E essa é toda a comunicação que temos um com o outro.
Às vezes Renata pedala ao nosso lado, e esses dias são bons. Enquanto nós conversamos, eu quase me esqueço de que os dois são irmãos. Tem outros dias que ela está entretida com outros do grupo, e esses são os dias em que eu me obrigo a preencher o desconforto com minhas músicas preferidas, que me invadem através dos fones.
Quando chegamos na escola, da mesma maneira que antes, seguro a mochila de Luan para que ele prenda a bike no bicicletário com a corrente. Quando ele termina, ele assente com a cabeça como se agradecesse e pega sua mochila de volta, um instante antes de me dar as costas para iniciar conversas quaisquer com os outros garotos. Aprendi rapidamente a fazer o mesmo, me virando para me concentrar no que quer que as garotas estejam falando.
De manhã, enquanto me arrumo para ir para escola, sei exatamente o que esperar. Todos os dias são o mesmo e hoje será igual.
Agarro minha mochila e então Julia e eu saímos para a manhã fresca de Florianópolis. Estamos alguns minutos atrasadas e, por isso, Vanessa, Douglas, Ana e Flávio já nos esperam ao lado de fora da casa. Nós nos cumprimentamos e minha prima apressa o passo em direção a garagem onde pega sua bicicleta desajeitadamente – uma mão no guidão e a outra segurando o sanduíche que ela ainda não terminou de comer. Eu aproveito para refazer o rabo em meus cabelos.
Fale com o autor