Confia em mim?
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Eliza
É noite, e eu já estou jantando, mas ainda me sinto exausta da briga que tivemos de tarde.
Minha prima e eu estamos numa boa agora, mas isso não quer dizer que estaremos na próxima hora. Percebi que, com Julia, nada é uma constante.
Hoje mais cedo enquanto estávamos no meu quarto Julia me pediu perdão e me disse que é meio ciumenta quando se trata dos amigos. Meio? Eu nem soube o que dizer em resposta. Eu odeio situações de conflito porque elas me deixam paralisada, então eu só assenti e deixei que ela me abraçasse enquanto continuava se justificando.
— Tu és linda e simpática – ela suspirou como se tivesse dito coisas negativas sobre mim. – E tu chamas tanta atenção.
Isso é completamente oposto ao que eu imagino sobre mim mesma. Se Julia prestasse mais atenção, saberia que o tempo inteiro eu tento passar despercebida e eu queria ter pensado em um jeito delicado de dizer que ela não tinha nada com que se preocupar. Eu não tenho nenhuma de intenção de tomar o lugar dela no grupo de amigos do qual eu agora faço parte.
Pelas cidades em que passei, eu sempre procurei influenciar o ambiente mínimo possível, porque sei que minha participação na vida das pessoas é temporária. Desde modo, quando chega a minha hora de partir, penso que posso fazer isso sem causar grandes danos – tanto para quem fica, quanto em mim. Aqui pretendo fazer o mesmo.
— É tão fácil gostar de ti e querer tua amizade – disse como um lamento. – Desculpa pelo que aconteceu hoje. Fiquei preocupada porque ele podia ter tomado um caminho perigoso e mais ainda de, no fim, tu preferir aos meus amigos do que a mim.
De tudo o que ela disse, eu entendi que o que ela quis dizer de verdade foi “e mais ainda de, no fim, meus amigos preferirem você”, mas nós sabemos que isso não vai acontecer e, novamente fugindo do conflito, deixei passar.
— Eu sempre vou preferir você, Ju. Você é minha família – eu disse.
— Eu sempre vou preferir a ti também, prima – ela disse e eu duvido que isso seja verdade, mas ela encerrou o assunto como se as coisas entre nós já tivessem resolvidas. – Vou dar uma ajeitada nas minhas coisas antes do jantar.
— Quer ajuda?
— Não, fica aí tranquila – ela disse e bateu no meu livro de química aberto.
Julia aparentemente não precisa estudar para se dar bem na escola e a lembrança disso faz com que eu revire os olhos enquanto coloco mais uma garfada na boca. Pensando bem, as coisas podem estar bem para ela, mas para mim não estão.
Meu celular vibra sobre a mesa. Viro a tela para cima para ler pelo visor a mensagem que imagino que será de minha mãe, mas viro de volta rapidamente porque eu estava enganada.
20:19 – Luan: Liz?
Minha prima está sentada de frente para mim e, de onde está, sei que não conseguiu ler. Prefiro assim porque imagino que, depois do drama sobre minha relação com os amigos dela, se Julia soubesse que Luan e eu estamos trocando mensagens, nossa noite de paz seria destruída.
O telefone vibra mais uma vez e meu sangue gela.
Eu francamente não entendo o que ele quer comigo agora, sendo que nossa última conversa terminou faz horas. Além do mais, minhas conversas com Luan não parecem levar a lugar nenhum. Hoje quando ele me chamou, esperava que ele dissesse algo sobre nossa conversa muito esquisita que tivemos durante o desvio do caminho, mas isso não aconteceu.
Eu empurro o resto da comida goela abaixo. Coloco o celular no bolso antes de caminhar até a cozinha para lavar a louça que eu utilizei.
O celular vibra mais uma vez. O que esse garoto quer?
Tenho certeza de que não vai ser agora que ele vai se explicar. E pensando bem, ele me deve explicações? Hoje mais cedo eu pensei que ele fosse me beijar e foi isso que fez com que a conversa fosse por agua a baixo. Não consigo acreditar que ele tenha me levado por outro caminho e gerado todo aquele alvoroço só para me dizer que queria me ensinar a andar de bicicleta.
ALÔ, UNIVERSO? ME AJUDA! Está rolando um clima entre nós ou ele está apenas mandando sinais confusos? Será que eu estou mandando sinais confusos e isso está confundindo o garoto? Mas se eu tiver, como poderia ser diferente? Eu estou confusa!
Cheguei nessa cidade há pouco mais de dois meses e, de todos os garotos da escola, fui me interessar logo por um dos amigos de Julia? Me parece realmente uma péssima ideia.
Enxaguo o prato que estou segurando.
— Pode aproveitar e lavar o meu também? – Julia surge atrás de mim me dando um susto.
— Claro – pego sua louça e recomeço o processo, imersa de volta em meus devaneios.
Para a situação em que me encontro há três possibilidades óbvias: Primeira – o interesse não ser mútuo e eu acabar chateada com a situação. Segunda – o interesse ser mútuo, nós acabarmos nos envolvendo e tudo dar errado, fazendo com que o clima entre o grupo fique péssimo. Terceira e, para mim, a pior de todas – o interesse ser mútuo, nós acabarmos nos envolvendo e tudo dar certo, mas terminar com a minha inevitável partida ao final do contrato da minha mãe.
Termino a louça ao mesmo tempo em que meus tios entram na cozinha. Eles sempre ficam por aqui no final da noite, sentam-se na pequena mesinha, passam um café depois do jantar, conversam sobre a vida, resolvem os passatempos de uma revista.
Acho muito legal o relacionamento dos dois e espero que um dia eu possa viver algo assim. Como já diria o poeta, “eu quero a sorte de um amor tranquilo”[1] e gosto de pensar que, se meu pai não tivesse falecido, minha mãe e ele estariam juntos até hoje.
Quem sabe, eles ainda compartilhassem do mesmo amor que tia Lara e tio João vivem aqui. Seria ótimo, eu tenho certeza, mas talvez, se fosse caso, eu não seria capaz de valorizar isso tanto quanto eu faço agora – e digo isso porque Julia não parece entender quão especiais são esses momentos.
Enquanto estou aqui colocando a chaleira de agua no fogo para ajudar no processo do café, Julia já está novamente fechada. Minha ti sorri para mim pegando as canecas no armário enquanto meu tio lava os pratos que eles usaram e me ocorre que, finalmente, minha prima não está mais na cozinha e que posso checar minhas mensagens tranquilamente.
Apoiando o quadril no batente da porta, desbloqueio meu celular.
20:21 – Luan: Estás ocupada?
20:25 – Luan: Será q a gnt pode conversar?
Depende, eu penso, você quer falar sobre o quê?
Embora eu saiba que não posso exigir nada desse garoto, não consigo deixar de pensar que eu merecia pelo menos que ele inventasse para minha uma boa desculpa sobre a mentira que contou dizendo. Nós não estávamos vendo outro bairro coisa nenhuma!
Revirando os olhos, digito uma resposta simples.
20:36 – Eu: Oi, Luan
20:36 – Eu: Não tô ocupada não, pode falar
20:36 – Luan: Legal J
20:36 – Luan: Tu achas que podes sair da casa?
Luan sempre me responde rápido, como se estivesse com o celular na mão – isso é algo que gosto bastante sobre ele – mas sair da casa? Que história é essa?
20:37 – Eu: Eu não acho que isso será necessário
20:37 – Eu: Não tem ninguém por perto
20:37 – Eu: Nossas mensagens ficam só entre nós
20:37 – Eu: Prometo
20:38 – Luan: Não...
20:38 – Luan: Eu quis dizer sair para conversar comigo
20:38 – Eu: ???
20:39 – Luan: Estou aqui fora
O QUE??? Corro para a sala e abro ligeiramente ama fresta da cortina.
Meu queixo cai ao vê-lo ao lado de fora da casa. Ele está apoiado em sua bicicleta, de perfil e encara a calçada, alheio à minha desconfiança.
Isso não pode ser real, pode? Luan está plantado na calçada da frente, esperando para falar comigo, provavelmente desde sua primeira mensagem há quase vinte minutos atrás. Não me lembro de nada assim ter acontecido comigo antes e, à exceção de filmes, quando o clima pesa entre duas pessoas, elas não simplesmente aparecem na porta uma da outra.
Fecho a cortina e, ainda um pouco incrédula, volto para a cozinha.
— Tia Lara?
— Sim, Liz? – Ela responde sem levantar os olhos das palavras-cruzadas que está resolvendo com meu tio.
— Será que eu posso dar uma voltinha?
Como se tivessem ensaiado, meus tios levantam suas cabeças em um movimento sincronizado e me olham fixamente. Suas feições parecem alarmadas embora eles tentem disfarçar e imagino que, de todas as coisas que eles imaginaram que eu pudesse dizer, essa não era uma delas.
Tia Lara checa as horas em seu relógio de pulso mas é meu tio que responde.
— Onde você gostaria de ir, querida? – Tio João indaga.
— Só dar uma voltinha no quarteirão – digo apressadamente. – Talvez um pulinho na praia já que estamos a só dois quarteirões....
Eles trocam um olhar, ponderando se devem ou não conceder o meu desejo.
— Aconteceu alguma coisa? – Tia Lara quer saber.
— Não – minto. Não quero que saibam sobre minha briga com Julia e muito menos que há um garoto me esperando do lado de fora da casa. – Eu só quero tomar um arzinho.
— Um arzinho – tia Lara repete e eu assinto.
Eles se olham mais uma vez e, ao mesmo tempo, meu celular vibra na minha mão. As borboletas no meu estômago se agitam porque, desta vez, tenho certeza de que é Luan, e sei também que ele está esperando por mim logo ali, mas eu não tenho coragem de olhar a mensagem.
Preciso pensar numa desculpa melhor para conseguir meu ticket de saída.
— É que eu passei a tarde inteira trancada do quarto estudando... Quero colocar meus próprios pensamentos no lugar, tirar o foco da matemática e da química – tento dar uma risadinha para preencher o silêncio.
— Promete não ir longe? – A sobrancelha da minha tia se ergue.
— E ficar atenta ao celular? – Acrescenta meu tio.
— E não demorar? – Minha tia pede.
— Claro – eu digo respondendo às três perguntas de uma só vez.
— Então tudo bem – ela assente.
— Muito obrigada – eu digo e contenho um sorriso.
O jantar se agita em meu estômago e pensando bem, talvez eu devesse ficar em casa – mais precisamente no banheiro, caso eu precise vomitar. Mas Sem ler a mensagem anterior de Luan eu digito “estou indo” para ele e aperto enviar.
Peço licença aos meus tios e entro no lavabo para me analisar através do espelho. Passo os dedos pelos cabelos soltos para ajeita-los, abro o armarinho e pego a minha escova de dentes e a pasta – obviamente não quero falar com o garoto com cheiro de macarrão na boca. Enquanto escovo os dentes, percebo que as palmas das minhas mãos estão úmidas. Espero que ele não perceba.
Me pergunto se devo subir para trocar de roupa antes de deixar a casa. Um segundo mais tarde me ocorre que, por enquanto, Julia não sabe que eu vou sair e que, ouvir barulhos de portas de abrindo e fechando no andar de cima, pode mudar essa situação. Espero que isso não faça de mim uma pessoa ruim, mas eu não quero que ela saiba que estou indo encontrar Luan.
Respiro fundo e saio do banheiro. Sinto como se estivesse me preparando para uma missão super-secreta: em silêncio absoluto, olho atentamente para todas as direções. Nem sinal da minha prima, nenhum barulho vindo do andar de cima.
Caminho quase que na ponta dos pés até a porta de entrada e prendo a respiração antes de abri-la e sair para a noite.
[1] Música “Todo amor que houver nessa vida” – Cazuza (1988)
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