Confia em Mim?
1 Chuva
Era uma situação estranha ficar no mesmo ambiente que ele, nunca sabia se deveria ou não me importar com sua presença, ele não parecia me ver como uma antiga inimiga, na verdade eu diria que conseguia me ver como uma velha amiga, o que de certa forma eu era. Sentei-me na beira do precipício e apoiei os braços ao lado do corpo, decidi que passaria a noite ali, mesmo que ele ficasse comigo e insistisse em conversar. Eu gostava da voz nele... Não, eu gostava dele, mas não queria que fosse verdade. Ele se aproximou de mim, mas continuou de pé. Senti seu olhar passando por mim e indo direto para o nada, para onde eu deveria estar olhando nervosamente.
- Vai chover – disse eu, simplesmente – levemente, eu acho.
- Pelo jeito você vai ficar a noite toda aqui, então – concluiu ele – Gosta da chuva... Quer que eu lhe faça companhia?
Joguei o corpo para trás e olhei para ele, parecia estar falando sério, o que era bom. Queria que ele ficasse lá, seria no mínimo engraçado conversar com ele aquela noite.
- Você não tem planos para essa noite? – perguntei.
- Eu nunca tenho planos – respondeu enquanto passava a mão no cabelo – não sou esse tipo de homem, se é que você tem dúvidas sobre isso. Mas digamos que eu esteja dando um tempo, não quero ter problemas por enquanto.
- Então é bem-vindo – puxei a barra de seu sobretudo fazendo-o chegar mais perto – Fique tranquilo, depois eu dou um jeito no seu cabelo!
- Você é louca por ele, não é? – sentou-se e deitou a cabeça sobre o meu colo sem permissão – fique a vontade.
Não sabia como reagir, ele nunca tinha feito aquilo antes. Minha vontade de rir aumentava sempre que olhava em seus olhos, mas eu não cederia. Fiz o que ele não esperava, afaguei seu cabelo prateado e descansei meu braço direito sobre o seu peitoral.
- Então... – perguntou ele – vai tentar me matar de novo amanhã?
- Sephiroth, eu não tentei matar você – disse sem olhar para ele.
- Quer dizer que você acidentalmente quase fincou sua Muramasa na minha barriga? Ah minha querida, eu te julguei mal.
- Eu pensei que você estava indo atrás do Cloud, entendeu? – fechei a cara – eu só queria evitar que você se ferisse, jamais tentaria matá-lo. O que queria que eu pensasse?
Ele se levantou lentamente, sentou-se de costas para o precipício e tomou minha visão do horizonte. Seus olhos eram inacreditáveis... Sim, os meus não eram tão diferentes, mas tinha alguma coisa nele que me deixava meio zonza, foi assim desde que o conheci durante o treinamento SOLDIER, desde o dia em que minha vida foi arruinada e a dele transformada em uma mentira. Eu o amava demais para deixar que se ferisse novamente, queria tomar o vazio que ele sentia na alma, queria ser o que ele nunca teve, queria ser a sua paz.
Abracei sua cintura e voltei a mexer em seu cabelo.
- Ho... que surpresa – comentou exibindo um pequeno sorriso – posso saber o que te adoçou tanto hoje?
- Diga-me – ignorei sua pergunta – você confia em mim?
Senti-o respirar fundo, seus olhos continuavam focados em mim de um jeito diferente. Eu sentia muito frio quando ele me olhava, tinha medo que ele resolvesse me tratar como uma inimiga de novo, tinha medo de ser obrigada a lutar contra ele. O que eu estava pensando? Eu não podia garantir que estaria do lado dele, não podia abandonar Denzel, ele era como o meu irmão mais novo...
- Confio – disse ele, interrompendo meus pensamentos confusos – desde o dia em que você se aproximou de mim sem temer o que eu tinha me tornado.
- Não vou dizer que sinto sua dor – soltei-o devagar – nós nunca sabemos como é a dor dos outros por mais que tenhamos passado pelo mesmo. A única coisa que posso dizer, é que sei que você sofre.
- Eu não sofro – disse rapidamente – não diga besteiras, a onde você quer chegar?
Desviei o olhar, tinha conseguido irritá-lo. Sephiroth segurou meu queixo e fez-me olhar novamente para ele, parecia estar meio atordoado.
- Olhe para mim – disse ele, calmamente – e fale.
- Você não precisa dizer isso pra ninguém, nem mesmo pra mim. Por mais que você negue, falando a verdade ou não, eu estou aqui. Se tem uma coisa que me perturba é saber os motivos da sua revolta e não poder fazê-los sumir, então pelo menos... Pelo menos prove que não vai colocar para trás a pessoa que destruiu o próprio orgulho e voltou a sentir tanta angustia só para ter você agora, certo?
Ele não sorriu, não respondeu, não foi embora, não me odiou em silêncio, ele fez muito pior. Chegando mais perto, Sephiroth envolveu minha cintura com a mão esquerda e com a direita segurou meu rosto. Aproximando-se lentamente, ele me beijou delicadamente, como se nada tivesse acontecido, como se nunca mais fossemos repetir aquilo. Meu corpo tremeu e eu perdi minhas forças, meu peito ficou gelado e meu coração batia muito rápido. Por quê? Já o tinha beijado antes, mas daquela vez eu senti algo completamente diferente. Aquele beijo me passou toda a segurança que ele tinha, todas as lágrimas que ele reprimiu, toda a falta que as pessoas poderiam ter feito a ele, todos os ferimentos que lhe causaram... Todo o abandono que sofreu, e todo o ódio que acolheu.
Eu queria ficar ali para sempre, repetir aquilo várias e várias vezes, dizer para ele que não me importava com seus pecados e que eu queria tê-lo comigo para sempre, somente para que ele tivesse certeza de que foi amado. Mas ele me soltou com cuidado, baixou a cabeça e olhou para o lado.
- Não jogue todas essas palavras fora – disse ele – o homem que você vê aqui, agora, preparado para lhe beijar novamente é bem diferente do homem que você viu durante aquela batalha. É o homem que só você conhece e que só você vai conhecer.
Ele se levantou e estendeu a mão para que eu pudesse fazer o mesmo, e foi o que fiz.
- Eu não mudei de idéia, entretanto – finalmente, sorriu – e é claro, se for para acabar com o mundo, não quero fazer isso sozinho – ele me olhou de cima a baixo.
- Sem chance – mostrei-lhe um pequeno sorriso.
- Veremos!
Ele segurou minha cintura e puxou-me para ele, beijou-me novamente enquanto eu retribuía sem preocupações. Ele sabia que eu estaria lá para ele, e de alguma forma... Eu sabia que ele estaria lá para mim também, mesmo que de vez em quando nós tivéssemos que nos digladiar e ficar bem próximos de matar um ao outro. Era bom beijá-lo novamente, era bom poder confiar em um ser “perigoso”
Afinal, ele confiava em mim, não?
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