Confesso

1 Parte I - Lisanna


Notas iniciais
Façam uma boa leitura. # Nessa primeira parte será a vez de Lisanna e Natsu conversarem.

Eram dez horas da manhã quando Natsu chegou à cantina da Guilda tão esfomeado quanto sempre, estava feliz por que concluíra mais uma missão junto aos seus amigos, exaltando ainda mais o nome da guilda mundo a fora, e claro reforçando a alcunha de ser integrante do “time mais forte da guilda”.

Porém, algo estava diferente, tudo estava tão quieto e silencioso. Cana não estava bebendo, Macao não estava fazendo suas jogatinas, nem mesmo Gajeel estava tentando ganhar a atenção no Karaokê, e o mais estranho de tudo é que tudo estava perfeitamente em ordem, sem Mirajane estar por perto.

– Cadê a Mira? – Perguntou Natsu tão surpreso que não notou que Happy estava sentado bem ao seu lado com as orelhas murchas e uma expressão de dar dó. Ao perceber isto Natsu finalmente percebeu que algo muito sério estava acontecendo:

– Happy... – Chamou Natsu.

– Lisana e Juvia estão indo embora da Guilda. – Falou Happy simplesmente. – Naquele instante foi como se o mundo girasse 360° e então tudo pareceu tão fora do lugar.

– Mas, por quê? – O dragon slayer perguntou inconformado.

Quando Happy ia abrir a boca pra responder Charlie interrompeu:

– Isto você só saberá se perguntar pra ela. – O rapaz não esperou ouvir a mesma ordem uma segunda vez.

Confesso acordei achando tudo indiferente
Verdade acabei sentindo cada dia igual
Quem sabe isso passa sendo eu tão inconstante
Quem sabe o amor tenha chegado ao final

– Você tem certeza disto? – Mirajane fazia a mesma pergunta pela vigésima segunda vez, somente naquela manhã.

Lisana fez um aceno positivo com a cabeça. Quando ela retornou para a Guilda estava ansiosa para retornar ao seu lar, as pessoas que tanto amava: sua família, seus amigos e para ele, porém tudo mudou, exceto pela convivência com seus irmãos que a mimavam e cercavam de cuidados, nada era como em sua infância.

“O que estou pensando?” – Perguntava-se ela em pensamento.

A única pessoa que não era mais a mesma era Natsu. Não que ele tenha deixado de ser cabeça quente, abobalhado, expert em enfiar os pés pelas mãos, mas a relação deles mudou. Eles já não passavam nenhum tempo juntos, não tinham mais nenhum assunto em comum, na verdade as poucas vezes que tinham algum contato, este era logo interrompido por Lucy.

“Talvez ela tenha sido a razão da mudança de Natsu”. – Concluiu Lisana com um sorriso triste. Apesar de tudo, ela não odiava a garota, nem lhe desejava mal pelo contrário, se ela pudesse fazer o que ela nunca não conseguiria, ela ficava tranquila por seu querido Natsu estar em tão boas mãos.

Ainda assim, ela não conseguia estar perto e testemunhar isto acontecer, não sem ser consumida pela dor de uma saudade que nunca poderia ser saciada, mesmo eles estando aparentemente no mesmo lugar, o fluxo de suas vidas corria em direções e ritmos muito diferentes. Ela nunca teve perfil de aventureira, seu estilo era como uma gueixa a espera de seu amo e ela não tinha a menor vergonha de ser desse jeito.

Isto não significa que continuaria parada ali, forçando-se a manter um sorriso que ela não tinha mais força para manter unicamente para ele.


Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas, mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero ou vaidade
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz

– Você é a melhor irmã do mundo, por isto você entende melhor do que ninguém que eu preciso fazer isto. – Disse Lisanna refugiando-se nos braços que aprendera a identificar como os de uma mãe.

Mirajane limitou-se em abraçar sua pequena, preferiu ficar em silencio, por que se abrisse a boca, iria usar de toda sua habilidade em argumentação para mantê-la ali, contudo ela sabia mais do que ninguém que Lisanna não poderia continuar na Guilda, não enquanto chorasse pelos cantos, tendo o brilho de seus brilhos ofuscados a cada minuto.

– Mas, você sabe que aconteça o que acontecer você sempre terá um lugar para retornar. – A mais jovem não perdeu a oportunidade de afundar-se naqueles braços protetores.

– Eu sei disso, mas agora eu preciso ir. – Falou Lisanna, tentando em vão enxugar as lágrimas. Isto que não avistou seu irmão Elfaman que deveria estar escondido nos cantos apenas para não vê-la partir.

– Não sem antes me explicar que história é esta de você estar indo embora. – Quem falou foi exatamente a pessoa de quem a jovem queria tanto fugir. Contudo, aquele olhar de determinação, significava que ele não a deixaria partir sem uma boa explicação. E o que ela tinha a perder então?

Não vou pedir a porta aberta é como olhar pra trás
Não vou mentir nem tudo que falei eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo eu já roubei demais

– Estou esperando uma resposta Lis. – Pediu Natsu chamando-a pela primeira vez, em muito tempo, pelo mesmo apelido carinhoso que ele lhe dera ainda na infância.

Ele já estava impaciente, ele não era bom com as palavras, mas também era péssimo em lidar com o silêncio absoluto.

– Natsu eu preciso ir. – Começou ela tentando ter coragem.

– Isto eu já ouvi, da boca de muita gente por sinal. – Ele aproximou-se dela, erguendo seu rosto delicadamente e fazendo-a encará-lo ainda com mais profundidade. – Eu quero saber por quê?

A jovem abriu e fechou a boca dezenas de vezes, porém as palavras nunca vinham até sua garganta.

– Lisanna me diz, por favor. – Ele perguntou pressionando um pouco mais forte seu queixo, ele não queria machuca-la, mas não suportava a ideia de uma amiga estar partindo sem motivo nem razão, apenas por capricho.

– Você pergunta como se tivesse algum direito sobre mim Natsu. – Falou ela desvencilhando-se da pressão que ele começava exercer em seu rosto.

Ele a olhou por um instante chocado, Lisanna nunca falou dessa maneira com ninguém muito menos com ele.

– Você é parte da Guilda o que acontece com você me interessa e muito. – Disse Natsu, porém ela virou o rosto, com as lágrimas correndo por suas bochechas vermelhas pela vergonha da inesperada proximidade entre os dois.

Aquilo o deixou irritado, teve ganas de sair dali, só pra não socar todas as paredes, porém se saísse nunca teria a resposta que tanto queria saber. E ele nem entendia por que queria tanto uma resposta. Por que a ideia de Lisanna partir o incomodava a ponto de ele perder todos os seus reflexos sempre tão apurados.

– Natsu vamos deixar as coisas como estão... – Falou ela em um tom conciliatório. – Eu não quero te machucar. – Disse ela duvidando que isto pudesse acontecer.

– Mas, você já esta machucando... – Ele tentou tocá-la, mas ela rechaçou seu toque com a mão. – Querendo ir embora sem dizer uma única palavra.

– Mentiroso. – Falou ela em um tremor.

– Nani? – Perguntou ele mais alto do que desejava.

– Mentiroso não é que você se importe, e sim por que você está acostumado a ter todos ao seu redor, como se fossem satélites girando em torno de um planeta.

– Lisana qual o seu problema?

– Nenhum Natsu. O único que parece ter algum problema aqui é você. – Ela sabia que estava sendo mordaz com as palavras, mas ela simplesmente cansou de ficar apenas nas meias palavras.

Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer

– Lis, por favor, já chega. – Disse o rapaz tentando ser o mais gentil possível, mas suas palavras estavam saindo mais ásperas do que ele imaginava. – Entenda você não pode fazer isto, não me faça passar duas vezes pela mesma coisa.

– O que você quer dizer com isto Natsu? – Perguntou ela tentando saber onde ele queria chegar.

– Não é óbvio nos seis anos em que você esteve fora... – Ele parou no meio do caminho, era constrangedor como o inferno admitir. – Lis, eu senti tanto a sua falta, tanto que você não faz ideia o quão difícil era levantar todas as manhãs sabendo que você não estaria por perto... – Ele sentia os olhos lacrimejar, justo ele que tinha fogo correndo nas veias, mas nem sua essência incandescente parecia ser capaz de impedir que as lágrimas tomassem o seu caminho.

– Então, me diga que você não vai embora... Que você vai ficar... Não me faça ir atrás de você nos quatro cantos do mundo se for preciso.

Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade, mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais

– Por favor, não faça isto. – Pediu ela em meio a um soluço.

– É exatamente isto que vai acontecer, se você for embora de novo, eu terei de ir atrás de você... – Disse ele aproximando-se mais e mais dela, até que ela estava ficando pouco a pouco contra a parede. Mirajane havia deixado o local, sabia que mesmo não querendo eles dois precisam ter aquela conversa.

– Não eu não quero que você venha atrás de mim... – Disse Lisanna já se sentindo desesperada diante da insistência dele.

– Você não precisa ir embora Lisanna. — Disse ele com a voz já embargada pelo desespero.

– É claro, que preciso... – Disse ela. – E você não vai atrás de mim. – Disse ela quase como se tivesse dando uma ordem para o Happy.

Natsu naquele momento segurou com força seus ombros e olhou no fundo de seus olhos.

– Você é quem tem de parar de dizer estas coisas, Lisanna... – Disse ele encostando sua testa na dela. – Amigos têm de estar sempre justo, não importa... – Então, Natsu sentiu seu corpo pender para trás.

– É esse o problema Natsu... – Disse a jovem com os lábios trêmulos, o mago a olhou por um momento chocado.

–Então é isto, Lisanna. – Disse ele como se tivesse descobrindo uma grande verdade. – Não me diga que...

Não vou pedir a porta aberta é como olhar pra trás
Não vou mentir nem tudo que falei eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo eu já roubei demais

Lisanna sentiu um rubor cobrir sua face inteira. Porém, este deu lugar a perplexidade quando ouviu as palavras que viria a seguir.

– Você não quer mais ser minha amiga, Lis. – Disse ele com os olhos muito semelhantes aos de Happy quando fica sem seu precioso peixe.

A jovem não sabia se agradecia aos céus pelo dragon slayer são tão burro, ou se lamentava sua sina de estar apaixonada por um cara assim. Talvez, um pouco dos dois.

–RESPONDE PRA MIM, LISANA... – Perguntou ele magoado por aquela súbita descoberta.

A moça levou as mãos no peito, juntou toda a coragem de que era capaz...

– É verdade? – Perguntou ele num sussurro.

– Sim é verdade. – Disse ela fechando os olhos para não ver tantas perguntas em seu rosto.

– É por isto que você quer embora então? – Enfim, ele virara as costas. Aquela era uma pergunta que não precisava de resposta, ele acreditava já saber a resposta.

Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade, mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais

– Natsu. – Lisanna chamou-o uma última vez, sentia que não devia deixar as coisas por isto mesmo.

Ele não se deu o trabalho de virar-se, manteve-se de costas. Até que sentiu os braços macios de Lisanna envolverem sua cintura, e então ela o abraçou. Ele queria repeli-la, queria manda-la para longe, mas seu corpo não reagia aquele toque, por que mesmo magoado, era tudo o que ele queria. Era como se pudesse fazê-la desistir daquela estupidez de ir embora e aceitasse...

Seus pensamentos foram interrompidos, pela voz que o chamava. Ele virou-se apenas um pouco tentando contemplar aquele rosto então, aconteceu, num movimento rápido quase brusco ela o beijou. Foi um selinho rápido no canto de seus lábios, porém ele sentia como se o contato tivesse deixado alguma marca ali.

Então mais do que depressa ela afastou-se, pegando sua mala, correu até a porta e então parou no meio do caminho vendo-o ali a olhando perplexo com as mãos no bolso, fitando-a ainda em choque por sua ousadia.

E apenas movimentando os lábios ela disse o que era tão óbvio e ainda assim ele não queria entender:

– Aishiteru, Natsu. – Nem um som saiu dos lábios dela, ainda assim ele compreendeu aquelas palavras, pode sentir o seu choque no fundo de seu coração. E pela primeira vez Natsu Dragnnel, acabou resignado ao silencio enquanto a garota que acabava de dizer que o amava ia embora sem dizer se iria voltar.

Notas finais
Obrigada pela leitura.