Notas iniciais
Hey pessoal, sejam bem-vindos à nova postagem de Conexão de Liberdade. Bem, atualmente, conto com um beta maravilhoso que está me ajudando demais com a reescrita e estamos satisfeitos com o rumo novo que a história está levando. Lívia está um pouco mais solta, ainda mais sincera, e há algumas participações especiais de personagens secundários, bem como um trechos que se passam na escola. Em todos os capítulos há música e recadinhos no rodapé que podem ser facilmente ignorados, se quiserem, ou e até mesmo aproveitados. Inicialmente, pretendo postar um capítulo por semana, em respeito aos fãs viciados em ficção adolescente, como eu. Ps: Fiquem à vontade para comentar. Venham, venham, exatamente como são, encontrem o seu lugar e sejam vocês, sempre! MM.Simão

Dia 14 de fevereiro de 2001

08h

Acordei mais cedo do que de costume, sem a menor vontade de sair da cama, ainda assim, comi pão quente com margarina e chá mate que milagrosamente já estavam à mesa, como nas novelas em que ninguém vai à padaria ou ao mercado, mas a comida está posta.

Coloquei a roupa que tinha deixado na cabeceira no dia anterior, meu jeans surrado e uma camiseta do Nirvana, prendi meus cabelos em um rabo de cavalo e fui para a rodoviária no mesmo estado de torpor.

Nunca fui boa com despedidas, mas adiar o momento seria prolongar a dor e, por isso, dirigi o mais rápido que meu gol ano 88 permitia, pelas ruas ladrilhadas da cidade. Durante o trajeto, abaixei totalmente a janela para que o vento forçasse o ar para os meus pulmões e me impedisse de chorar. O céu estava no mesmo tom acolhedor azul de sempre, sem nuvens para encobrir o meu carro dos excessivos 32°C, não fosse pelas copa das árvores a cada cinco metros de calçadas eu estaria mais tostada do que o meu café da manhã e nem notaria.

Pensei em coisas não relacionadas, como a lembrança de minha mãe, Cléo Maura, aceitando que eu comprasse um carro aos meus dezesseis anos. Ela tinha sido muito gentil.

Eu me chamo Lívia Maura Touretto e aqui em nossa cidade de 58 mil habitantes, quase todos os adolescentes do Colegial dirigem sem habilitação. Ao que parece, a polícia não estava preocupada com a idade mínima legal de dezoito anos. Eu era apaixonada por Penápolis. Amava o sol e amava ter o verão como uma estação anual. Era em Penápolis que agora eu abafaria a fumaça dos bons sonhos e me tornaria uma pessoa, de certa forma solitária.

Cerca de cinco minutos depois eu estava lá e não foi difícil encontrar quem eu procurava no pequeno quarteirão que compõe a rodoviária, que devia ter no máximo umas vinte pessoas naquele momento.

Ela estava de costas, cabelos negros sob a brisa dançando em sua cintura, segurava uma enorme mala pink e olhava sem expressão para a tranquilidade do lugar, possivelmente, visualizando a sua nova vida com a mãe, como imaginava quando criança, as histórias que ouviria antes de dormir, o calor dos abraços e o cheiro da comida.

Lana Abner tinha puxado os olhos curiosos e interrogativos da mãe, contudo sua paixão por animais, natureza e sua capacidade de gravar fotos mentais vieram do seu pai, Marco Antonio Abner.

Nossa amizade teve início no berçário, passamos por todos os marcos juntas. Na infância vestíamos roupas iguais por dois motivos: um, nossas mães adoravam, dois, sonhávamos em ser gêmeas e já que a vida assim não quis, demos um jeitinho.

As recordações dessa época de cumplicidade vagavam em minha mente com a ponta fina de uma flecha, por esse motivo e a contragosto, era capaz apenas de imaginar como ficaria aqui sozinha, sem minha melhor amiga, sem minha irmã.

— Hey girl! — Cumprimentei-a com o nosso olá particular, ou pelo menos era no que acreditávamos.

— Hey girl! — Respondeu animada. Se eu acreditava que ela estaria considerando desistir da mudança, era mais saudável descartar a hipótese com um pouco de dignidade.

— Você está linda — comentei um tópico superficial, na tentativa vã de calar um discurso suplicante para que ficasse. Ela havia ganhado a blusa da mãe no aniversário de catorze anos e, desde então, a repetira inúmeras vezes. A Vovó Luísa e eu até brincávamos com ela, perguntando se não iria colocar esse uniforme para lavar -. Tenho pena de quem sentar ao seu lado no ônibus, serão nove horas de pura tortura!

— Sim, estou ma-ra-vi-lho-sa! Escolhi especialmente para que a minha mãe goste! — Concordou tão radiante quanto o sol daquela manhã de verão, em uma ansiedade notável.

— Aham, ela irá — aquiesci, absorta na sua indiferença em relação a mim, e procurando desfazer o emaranhado que estavam meus pensamentos para formular uma pergunta que teimava em martelar partes obscuras do meu cérebro:

— Ah, Boneca... Não quer esperar, pelo menos, até seu papai voltar?

Marco Antonio era um tio para mim, seu estilo hippie aliado à natureza bondosa que possuía, cativava a mais tímida das pessoas, o que era de muita ajuda durante as suas viagens sem fim, como caronista e também na venda de artesanatos de fabricação própria. Retornaria à cidade dali a dois ou três dias.

— De novo esse assunto, Lívia? — Pelo tom áspero de sua voz pude perceber que estava bem magoada com a minha cobrança, e reparei também porque nós costumávamos nos chamar pelos apelidos de infância: ela a Boneca, linda e delicada e eu o Pássaro, por ser amante de qualquer forma de liberdade. — Eu já esperava que ninguém fosse me apoiar, mas você?

— Ah Lana... — Foi só o que consegui dizer. Se ela soubesse o esforço desmedido que era somente estar ali naquele momento.

Se pudesse a impediria de ir embora com sua mãe, Janaína Fratello, que a deixou aos cuidados da Vovó Luísa, sua avó paterna, e fora trabalhar como babá nos Estados Unidos em busca de uma vida diferente da que teria como mãe durante a faculdade.

Entretanto, se tentasse impedi-la, essa não seria eu. Acreditava que as pessoas não nos pertenciam e mesmo que as obrigássemos, de alguma maneira, a ficar ao nosso lado, seria apenas um corpo presente.

Nos despedimos com um longo abraço e prometemos manter a amizade como sempre foi unha e carne, chave e chaveiro e, naquele momento, banhada em lágrimas, eu quis acreditar com todo o meu coração.

Dia 14 de fevereiro de 2001

15h

Desanimada para a competição de natação, decidi que não iria participar. Eu precisava nadar, com certeza, para dissipar a tristeza e a mágoa em relação à partida de minha melhor amiga, mas, infelizmente, não teria forças para competir. Teria de estar em sintonia comigo mesma, então passei.

Lana costumava falar em como se sentia abandonada pela mãe e eu a consolava dizendo que a tia Jana fora em busca de uma vida melhor para as duas. Agora, era ela quem desistira de toda sua vida aqui em Penápolis, para ir em atrás de um sonho, de uma família com sua mãe, um recomeço em um lugar distante, longe de nossa amizade. Parte de mim a odiava pelo abandono. Parte a amava e desejava sua felicidade.

Engoli em pequenas doses a minha autopiedade para assistir ao campeonato e, logo depois, participaria do encontro das equipes em um quiosque no no único Clube adequado que a cidade possuía.

Como Lana poderia me deixar sozinha, com meus profundos problemas de relacionamento interpessoal?

Eu nem tive a chance de aprender a me cuidar sozinha... Claro, aos quinze anos eu já sabia ligar a cobrar para o mototáxi caso ficasse perdida, também já me virava na cozinha e tinha um carro, mas assim mesmo...

O céu estava completamente limpo, sem nuvens para a imaginação fluir em sonhos acordados sobre os mais variados formatos e o sol tornava necessário um esforço hercúleo para ler as páginas claras do livro Feliz Ano Velho. Minha companheira no revezamento e também colega de classe, Fisher, tinha acabado uma das provas e veio se recostar na grade ao redor da piscina, me tirando do transe em que me encontrava, no universo leitor.

— Miou hoje, não? — Comentou acerca do desempenho da equipe na prova. Nadadores de toda região estavam presentes e a piscina era nossa, o que me faria ficar ainda mais vermelha pela a humilhação. Bem, se eu fosse esse tipo de pessoa.

— Tecnicamente eu não estava participando — argui, permitindo que minha boca formasse um leve sorriso de lado-, logo, poderei zoar vocês até o fim do ano.

— Poderia — afirmou, com os olhos estreitos, cheios de desdém. Usando o uniforme da equipe não dava para acreditar que aquela baixinha de longos cabelos fosse, geralmente, tão risonha. O seu mau humor transformava seu rosto arredondado em uma carranca. — Poderia, se a sua ausência não fosse o motivo da derrota.

— Ah e mais essa agora! — Explodi um pouquinho para não me sentir culpada.

— Relaxa, Passarinha, a equipe de Auriflama é boa demais — admitiu entre suspiros — nem em sonho a sua participação faria coceguinhas na vitória.

— Hum — ponderei por breves instantes e continuei — isso não me deixa nenhum pouco contente. Precisamos de um plano.

— Já era, minha filha. Aqueles caras afogaram toda a esperança de nossa equipe a dois metros da superfície — anunciou derrotada, apontando para uns caras que pareciam bem satisfeitos com o próprio desempenho — se é que havia restado alguma.

— Quem é aquele garoto com problemas para colocar a touca? — Perguntei, forçando a visão para olhar para ele, e ele me encarava de volta, mas não como os outros nadadores geralmente faziam em relação às novatas. A sua expressão era diferente. Distante. De mim, do clube, da turma, de todos nós.

— Quem? Aquele projeto de playmobil? — Fiz que sim com a cabeça, tentando não rir em voz alta. Apelidos maldosos me incomodavam muito, via de regra, além do mais ele não era nada baixinho. — Eduardo, ele acabou de se mudar com a família e esse jeito esnobe dele está me irritando desde o início das provas — comentou, franzindo o cenho. Essa versão de Fisher nervosa era algo novo para mim, em geral ela mantinha um semblante de paz eterna.- Ele parece nem se importar, porém tirou as medalhas de todos nós. O cara é um peixe, ou melhor, um tubarão — concluiu, fazendo beicinho.

Eduardo tinha a minha altura ou um pouco mais, seu corpo revelava a prática constante de esportes complementares, contudo o que o diferenciava das outras pessoas era o seu olhar altivo, ainda que observador, parecendo não perder nenhum detalhe.

Natação é meu esporte favorito, completo, exercita vários músculos do corpo, possui fundamentos para trabalho em equipe e, por ser um esporte solitário, preenche a mente de força e paz. Apesar desse fato, a parte que mais amava era a superação.

Você pode tentar ultrapassar o tempo de outro esportista, entretanto a verdadeira competição é consigo mesmo. Todos as tardes eu estava no Clube, com a nossa equipe categoria juvenil ou sozinha. Era o meu momento. Conexão. Mente. Corpo. Vida.

E a mesma energia que experimentava durante a prática senti emanar de Eduardo ao observá-lo durante as provas. A transmissão direta daquela tranquilidade a todo o público era uma experiência única. Parecia que a piscina fora feita exclusivamente para ele, que participava da competição com a agilidade de um tubarão-mako e a graciosidade de um jovem golfinho.

Desde o instante em que o vi e por toda aquela intensidade a fluir de uma só vez, tive a certeza de que precisava conhecê-lo.

Um pouco mais tarde, no quiosque do Clube todos o parabenizavam pelos excelentes tempos e ele meramente assentia. Era evidente aquela festa não ser a praia dele, ainda que fosse "o" centro das atenções naquele dia, não se mostrava nem um pouco interessado. O seu desconforto era quase palpável, independentemente de estar rodeado de amigos.

E eu estava sentada com Fisher e outras colegas da natação, adorando assisti-lo sofrer com a aparente timidez frente a tantas congratulações e fotos. Certamente que se dependesse somente dele, a nossa amizade jamais aconteceria. O sol estava se pondo e eu sabia que logo todos iriam embora, se eu quisesse conhecê-lo teria de ser naquela hora. Então, eu fui.

— Você foi bem lá, hum, Eduardo, certo? — observei com uma sinceridade genuína, aparentemente percebida por ele, que correspondeu em um breve e encantador sorriso — Muito maneiro. Bem, Eu sou Lívia Maura, amo natação e qualquer coisa relacionada. Pode parecer bobo mas sinto como se pudesse voar dentro da água, me libertar, tocar o céu. — Persisti com o tema, sem parar para tomar fôlego e desenhando no ar para me expressar. Fisher nos olhava de longe, com uma expressão curiosa.

Nossa, será estou parecendo uma completa idiota?

— Exato.

Ok. Ele não parecia precisar preencher o silêncio com palavras, dono de um expressivo olhar e observador ao mesmo tempo. Eu, por outro lado, pertencia ao time das falantes...

Eu falava demais, muito mais do que as pessoas da minha idade. Pelos cotovelos, como diria a minha mãe, o tempo todo e até mesmo sem pensar, quer dizer, sempre sem pensar. Nem mesmo Lana, que era a minha alma gêmea nesta vida, compreendia esse meu jeito de ser.

Deveria mesmo haver algo de errado comigo.

— Er, bem, parece que a festa acabou — anunciei desanimada. Sem Lana em casa eu teria de ficar em silêncio por, no mínimo doze horas a fio. É certo que teria a companhia de Mario de Andrade, Clarice ou Rubens Paiva e eu era capaz de jurar que eles respondiam aos meus comentários. Apenas era o meu medo de frio humano tomando conta. — Você está a pé? Porque eu não e, se você quiser companhia pelo caminho de volta te dou uma carona. Isso se for o mesmo percurso, claro — esperei a resposta, aproveitando para tomar um pouco de ar.

Ele riu. Entendi como um sim.

E foi assim que descobrimos que éramos vizinhos, quer dizer, não morávamos ao lado, e sim a mais ou menos um quarteirão um do outro.

Eduardo pediu para que eu estacionasse em frente ao portão verde de minha casa, perguntei o motivo e ele alegou ser tão perto que seria besteira deixá-lo na porta. Acrescentei não ser incômodo algum, contudo fiz como pediu.

Descemos do carro, deixando meu livro no pára-brisas, no mesmo tempo em que eu me distraí com o incômodo silêncio dele, enquanto observava meu pequeno jardim muito bem cuidado: algumas primaveras rosas e lilás serpenteavam sobre o muro lateral, rosas vermelhas, cor favorita de minha mãe e minha, cobriam toda a extensão do gramado, rodeadas por pequenas margaridas brancas ao redor. Rosinhas em cores diversas alegravam os espaços entre as flores e o muro ajardinado com orquídeas amarelas em alguns pontos preenchia com vida aquele lugar.

— É de minha mãe, ela adora estar em contato com a natureza. Nem posso imaginar que tipo de simpatia meu pai deve ter feito para conseguir que ela morasse na cidade! — Na verdade eles haviam se mudado de um rancho, que ficava há meia hora da cidade, assim que nasci, pela necessidade médica e farmacêutica de que os bebês demandam.

— Hã. — Ele não conseguiu sair de seu transe, nem mesmo havia percebido a péssima piada que tentei contar. Parecia gostar muito das flores ou algo assim e, sem dúvida teria muito o que conversar com mamãe, se ela tivesse tempo para isso.

— Hum, vamos entrar? — Convidei, recebendo como resposta um olhar intrigado, como se a minha casa fosse de chocolate e estivesse escondendo uma bruxa, se bem que... — Assim poderei lhe mostrar o pomar que estamos criando nos fundos — continuei e sua postura se alterou de incredulidade à curiosidade em menos tempo do que um pulo na raia. Não pude constatar se o seu interesse era pelas frutas que mencionei ou se por alguma outra razão subliminar.

Independente do motivo, ele esperava ao pé do portão, um pouco mais próximo do que a minha noção de espaço pôde calcular e eu acabei tocando em seu abdômen de nadador com o meu braço direito. À medida em que abria o portão antigo e sempre destrancado, pensei se ele havia enrijecido ao nosso contato ou se eu teria imaginado aquilo. Certamente imaginei, concluí.

Notas finais
Hey pessoal! Vocês passaram por mudanças como a de Lana? Tiveram um amigo que teve de ir embora? Como foi a experiência? Dirigir acalma e é muita sorte a Lívia poder fazê-lo quando está tão triste pela partida da melhor amiga. Vamos entrar no clima com esta música:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.