Conectados

2 Não passa vontade


Notas iniciais
A música tema deste capítulo é: Não passa vontade - Anavitória link para o vídeo do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=-pDlQ-KMXBU Volto a dizer que escutar a música torna a experiência de leitura mais interessante! Espero que gostem desse capítulo! Não deixem de comentar se gostarem, pliss!

Janeiro, 2018.

A primeira semana de janeiro passa em um piscar de olhos. As novas moradoras de Santa Mônica ficam tão ocupadas com compromissos relacionados a decoração e organização do novo apartamento, que só notam que o final de semana chegou quando Capitu movimenta o grupo em que todas estão:

Capitu:meu dia preferido da semana chegou, vou encher a cara em uma festa na casa do Gustavo, vou com a Eva, claro. Quem quiser ir, fique pronto até as 22:00, é isso.

Branca: Mana, não foi você que bebeu todos os dias da semana?

Capitu: durante a semana eu degusto, sábado e domingo eu encho a cara.

Eva: na vdd ela enche a cara todos os dias, é assim até a faculdade voltar

Capitu: prioridades.

Branca: KKKKKKK AMO! EU VOU COM TODA CERTEZA

América: Bem que estou precisando de umas cervejas, mas vou descontar todo o meu estresse do trabalho socando a cara de alguém. O porre fica para a próxima.

Capitu: isso aí, quebre o braço de alguém hoje. Não aceito menos do que isso.

Dora: quem dispensar o porre ou a luta, venha pra cá, garanto pizza e Netflix.

Capitu sai do apartamento só depois de ter as madeixas negras e volumosas presas em um coque pela irmã. Apesar de possuir cabelos que são constantemente elogiados por todos, não tem paciência para arrumá-los ou sequer lidar com eles. Desde pequena, opta por deixá-los presos; quem sempre cumpre a trabalhosa tarefa de penteá-los e organizá-los é Dora. É a testa dela que Capitu beija em forma de despedida antes de sair do apartamento e se encaminhar para o elevador.

Enquanto isso, no apartamento em frente ao das gêmeas, Branca passa pela porta do quarto completamente arrumada e Maitê e Manuela não poupam elogios. Quando se trata de Branca, ninguém poupa. Suas feições faciais são marcantes, fazendo jus ao seu temperamento. Os olhos grandes esbanjam um azul intenso e muita confiança como se dissessem "Eu posso te levar ao fundo do mar e te afogar enquanto você ri". A jovem sempre foi ciente da própria beleza e não demorou para aprender a como usá-la a seu favor. Ela convida as colegas de casa pela última vez antes de sair do apartamento, mas recebe um "não" de ambas. Por isso, quando encontra Capitu no corredor, está sozinha.

Capitu a cumprimenta com um aceno de cabeça e as duas entram juntas no elevador. O primeiro ato de Branca é se admirar em frente ao espelho. Capitu encara o reflexo da loira e não sabe dizer o que é mais impecável: o vestido de seda azul que desenha perfeitamente as curvas dela e que, provavelmente, deve ter custado os olhos da cara ou o sapato de salto nude fosco ou o par de brincos de ouro em formato de argolas grandes ou a perfeita maquiagem feita em um rosto que, claramente, não precisa dela para chamar a atenção. Capitu solta um riso fraco e discreto, baixando a cabeça depois de terminar sua pequena inspeção. Os olhos azuis se desviam do espelho. A pergunta vem depois que Branca finaliza o retoque do batom.

— O que foi?

Capitu levanta os olhos e encara Branca com mais profundidade pela primeira vez desde que se conheceram. Por um momento, perdida no olhar intenso da primeira, a segunda se esquece da pergunta que fez. Não havia percebido que os olhos de Capitu eram tão verdes assim. A maquiagem pesada (principalmente para o gosto de Branca), com muito lápis de olho, delineador e sombra preta em volta dos olhos só evidenciam ainda mais a cor deles.

— Seus olhos parecem duas esmeraldas.

Dessa vez, Capitu encara o espelho; Branca faz o mesmo.

— Nós não poderíamos ser mais diferentes.

Branca analisa o traje da colega: calça jeans rasgada, coturno preto, cropped da mesma cor e uma jaqueta de couro vinho.

— Pelo menos nós duas amamos álcool — a loira comenta após dar de ombros. Sim, elas são realmente bem diferentes. Se essa fosse uma história de romance colegial, as duas com certeza pertenceriam a opostas patotinhas. Ainda bem que não possuem mais 15 anos.

— É como eu sempre digo: você não pode fazer amigos bebendo leite.

Branca solta uma risada gostosa e enlaça um dos braços no de Capitu assim que o elevador abre. A loira sempre foi muito simpática e comunicativa; dificilmente tem problemas para fazer novas amizades, mesmo com pessoas mais fechadas e sérias como Capitu.

Elas fazem uma parada antes de irem para a casa de Gabriel, onde, de fato, a festa vai acontecer. Capitu desce do carro, dizendo que vai fumar um cigarro enquanto espera a amiga. Branca apenas assente com a cabeça e observa o local em que o carro está parado em frente. O local está em construção, mas ela imagina que seja um restaurante, já que é possível ver inúmeras mesinhas lá dentro pela imensa porta de vidro. A fachada ainda permanece tampada, mas, pela beleza das mesinhas e da pintura interna, depois de pronto, o ambiente ficará incrível.

Enquanto Capitu traga o cigarro e solta a fumaça com tamanha satisfação, Branca se distrai, mexendo em suas redes sociais, que são bem movimentadas. Tanto o Instagram como o Twitter possuem inúmeros seguidores e a loira já chegou a ser contratada por diversas marcas para divulgar certos produtos. Isso tudo começou depois que decidiu participar de eventos como modelo. Atualmente, ela posta o próprio dia a dia e banalidades que suas seguidoras amam ouvir.

— Ué, não viemos buscar sua amiga? — Branca pergunta após ver Capitu entrar no carro sozinha. O cheiro de cigarro mentolado preenchendo o ambiente. A morena coloca um halls de menta na boca antes de responder.

— Quer? — a loira aceita — Ela já está vindo. Pra primeira mulher do mundo, ela até que se atrasa muito.

Branca coloca a bala na boca, ignorando o fato de não ter entendido o comentário da colega. Capitu não parece o tipo de pessoa que gosta de explicar as próprias falas. Por isso, a única coisa que Branca faz é pedir permissão para colocar uma música.

— Não acredito que colocou Justin Bieber para tocar no meu carro!

— Qual o problema? Fala sério! What do you mean é incrível — a resposta chega animada, enquanto o corpo da loira balança no ritmo da batida.

— Não gosto!

— Ah, por favor! Vai dizer que você só escuta o quê? Green Day? My chemical romance?

— "Wake me up when september ends" e "Helena" são relíquias.

A careta de Branca esbanja aversão e ela até pensa em começar uma discussão, mas o som de alguém batendo no vidro do carro chama a atenção dela. A garota por trás do vidro tem os cabelos azuis, curtos e cortados de forma estilosa. É a primeira coisa que Branca nota; Depois, presta atenção na belíssima maquiagem que deixa evidentes os traços naturais da garota. Os olhos são cinzentos, cheios de cílios grandes e a boca é convidativa.

— Ela está pedindo para você passar para o banco de trás — Capitu explica, depois de Branca ficar minutos encarando (descaradamente) o rosto da melhor amiga da morena. Branca não diz nada. Apenas obedece e observa a recém-chegada entrar no carro, deixando o ambiente com um cheiro doce de cereja. E, agora que a loira pôde notar, com mais precisão, a garota, percebe o quanto a pele dela é branca, bem mais do que a sua.

— Trouxe meus bebês? — Capitu pergunta antes mesmo de dizer um "oi".

A resposta dada pela amiga são duas garrafas de vinho, agilmente tiradas da bolsa que ela carregava.

— Eu já disse o quanto prezo pela sua amizade? — Capitu pergunta após pegar uma das garrafas, tirar a tampa com os dentes, dar um gole e arrancar com o carro.

— Nós estamos ouvindo Justin Bieber? — Eva cerra os olhos, animada, porém desconfiada.

— Eu não tenho nada a ver com isso — Capitu responde, olhando pelo retrovisor. Ela passa a garrafa para Eva, que toma um gole antes de se virar e sorrir para Branca.

As devidas apresentações são feitas por Capitu. Só agora Branca entende o comentário feito mais cedo pela morena.

— Eu sou a culpada pelo Justin Bieber — a loira diz, puxando papo.

— Eu AMO!!! Mas sabe como é... Não é esse o tipo de música que você costuma escutar dentro do carro de Capitu Duarte.

Eva passa a garrafa de vinho para Branca, que, apesar de não ser muito fã, toma um gole apenas para não fazer desfeita. Ela entrega a garrafa a Capitu.

— Como estão as preparações? Finalmente decidiu por um nome? — a morena questiona depois de um grande gole de vinho.

— INCRÍVEIS! Eu não poderia estar mais feliz, e mais cansada também — ri. — Mas minha mãe tem me ajudado demais. Já finalizei o cardápio e minha cozinha está inteiramente pronta. Agora, só preciso terminar de comprar todos os utensílios para o salão, além dos últimos retoques de obra. Isso acaba demorando um tempinho. Apesar de tudo, acho que vou conseguir inaugurar até o final do mês! E não — ela pega o vinho mais uma vez — eu ainda não decidi o nome.

— Estou contente por tudo estar dando certo, Eva.

O sorriso que Capitu solta é extremamente sincero. Conhece Eva desde quando a amiga pensava em cursar gastronomia e possuía o sonho de ter um restaurante próprio. Vê-la realizando isso é extremamente animador e gratificante.

— Sei que vai descobrir um nome bom depois de vê-lo totalmente finalizado.

— Espero que sim, Cap.

— Então aquele local é seu? — Branca pergunta assim que liga os pontos.

— Sim! Sou formada em gastronomia e comecei a construir meu próprio restaurante, mas, como você notou, ainda não decidi o nome — ri, passando a garrafa para a loira. — Ah, quase me esqueci! Estou pensando seriamente em convidar uma banda fixa para tocar MPB durante a noite. Seria um sonho se a Dorinha tocasse na inauguração. Acha que ela toparia?

— Não!

Capitu conhece bem a irmã. Ela nunca aceitaria se apresentar para tantas pessoas assim.

— Poxa! Acha que não tenho chance alguma de a convencer?

A morena toma um gole demorado antes de responder.

— Só se você apelar para chantagem emocional, mas, mesmo assim, acho que a resposta seria não.

— A esperança é a última que morre.

O restante do caminho é preenchido por conversas banais e risadas. Branca simpatiza-se bem com Eva, percebendo que a moça é animada e descontraída, o que gera um contraste legal com a personalidade durona e humor negro de Capitu.

I turn the music up, I got my records on / Aumento o volume da música, coloco meus discos para tocar

I shut the world outside until the lights come on / Desligo do mundo lá fora até amanhecer

— Isso é coldplay? — Branca pergunta após fechar a porta do carro.

Capitu precisou estacionar bem longe da casa por causa dos inúmeros carros preenchendo a rua, apesar disso, é possível ouvir claramente a música que toca.

— Sim! Vamos logo, eu amo essa música! — Eva responde.

Capitu precisou estacionar bem longe da casa por causa dos inúmeros carros preenchendo a rua. Apesar disso, é possível ouvir claramente a música que toca.

— Sim! Vamos logo! Eu amo essa música! — Eva responde.

Elas precisam puxar Capitu que ficou para trás, distraída com a garrafa de vinho. Fazem isso rindo. Assim que chegam na porta da casa, são recepcionadas por duas meninas totalmente sorridentes. Elas lhes entregam copos e passam dedos gelados nas bochechas do trio. Branca arqueia a sobrancelha, fitando Eva, que também a encara com um semblante de "que porra é essa?!", para, só então, descobrirem que possuem as bochechas pintadas com tinta azul e rosa fluorescente. Ambas sorriem.

Maybe I'm in the black, maybe I'm on my knees / Talvez eu esteja no escuro, talvez eu esteja de joelhos

Maybe I'm in the gap between the two trapezes / Talvez eu esteja entre extremos

But my heart is beating and my pulses start / Mas meu coração está batendo e o meu pulso vibra

— EI! VAMOS DANÇAR!! — Capitu diz alto, chamando a atenção das duas. Ela continua segurando a garrafa de vinho — da qual se recusou a soltar para pegar o copo. Também tem a maçã do rosto brilhando. Eva passa os braços ao redor do pescoço das duas e elas começam a andar, juntas, pela casa, que se encontra totalmente lotada, mas, graças ao tamanho do ambiente, a locomoção não é difícil. Há pouca iluminação e o que prevalece é a luz negra fazendo a tinta no rosto de todos brilharem mais. A visão é incrível. As pessoas dançam, beijam e cantam por todos os lados, sentindo-se livres ao som de Every teardrop is a waterfall. Quando escolhem um lugar para ficar, Eva retira o braço das amigas e as três dançam juntas.

Um garoto alto e de porte atlético extremamente visível se aproxima do trio, carregando uma bandeja contendo vários shots de alguma bebida. Ele oferece para elas. Branca é a primeira a se interessar e perguntar o que é:

— Tequila — a resposta chega junto de um sorriso. O rosto do rapaz também está pintado com tinta fluorescente azul.

Branca vira dois shots. No primeiro, brinda com Eva. O rapaz sorri, satisfeito, e, antes de ir embora, explica onde a mesa de bebidas e petiscos está localizada. Capitu só para de dançar quando percebe que a garrafa de vinho está vazia.

— Meu vinho acabou.

— Te levo até a mesa de bebidas. Estou precisando de uma cerveja urgentemente! Você vem, Eva?

— Encontro vocês depois, ok?

O trio, então, separa-se, seguindo rumos opostos. Branca e Capitu chegam à mesa de bebidas rapidamente; ela está cheia dos mais diversos destilados, cervejas e energéticos. Além disso, há uma tábua de madeira recheada de frios, queijo, azeitona, salame e palmito. Para finalizar, há imensas vasilhas de vidros cheias até a borda com Doritos e outros tipos de salgadinhos. Enquanto Hymn for the weekend toca, Capitu prepara um copo com Ciroc e energético, sem deixar de balançar o corpo no ritmo da música. Branca prefere abrir uma Skol Beats, mas o salame as duas comem juntas. Elas só saem dali quando começa a tocar Sky full of stars.

— PUTA MERDA! EU AMO ESSA MÚSICA!

Capitu mal deixa Branca fazer um comentário em resposta. Apenas segura na mão da loira e a puxa para mais perto do som. Assim que encontra um local que julga espaçoso o suficiente para dançar, solta a mão de Branca, ficando de frente para ela e deixa, finalmente, a música vibrar em seu corpo. Fecha os olhos e levanta os braços, aproveitando o efeito que poucas bandas, como Coldplay, conseguem causar nela. Branca, assistindo de perto o entusiasmo da amiga, também fecha os olhos e elas cantam juntas, como se estivessem sozinhas no mundo.

Cause in a sky, 'cause in a sky full of stars, I want to die in your arms. Cause you get lighter the more it gets dark, I'm gonna give you my heart...

¥

Miguel dá um gole na cerveja, mantendo os olhos fechados. Consegue sentir a música alta atravessando todo o corpo e aguçando seus sentidos. Conversas e risadas misturam-se em seu ouvido. Já faz um tempo que ele não frequenta esse tipo de ambiente. Sabe que não estaria ali se não fossem os três marmanjos que, carinhosamente, chama de filhos.

— Que cara de defunto é essa, Miguel? Tá liberado sorrir. Estamos em uma festa.

Miguel não precisa abrir os olhos para saber quem é, mas o faz mesmo assim e encara Augusto com o rosto pintado e um sorriso animado, além de uma bandeja com poucos shots restando.

— Preciso ir embora — assume, pensando em que lugar estava com a cabeça quando se deixou ser convencido de ir até ali. Precisa ir para casa, revisar anotações de suas futuras aulas e atualizar fichas de pacientes. Seu lugar é em casa, não em uma festa universitária.

— Ir embora por quê? Tá louco? — Augusto faz uma pausa para virar um dos shots restantes. Depois da careta, ele continua. — Sei que não tem nada de interessante para fazer em casa.

— Tenho sim, muita coisa.

— Eu quis dizer "algo interessante", não trabalho, Miguel. Você não sai de casa desde que Verônica foi em...

Miguel levanta a mão impedindo que o amigo termine a frase.

— Prefiro que não toque no nome dela, por favor.

Escutar o nome Verônica é o suficiente para uma onda de tristeza invadir seu corpo. O vazio que sente pesa no estômago. O vazio que ele tanto teme. O que nunca vai desaparecer. Augusto assente com a cabeça. Sabe o quanto o amigo é sentimental, mesmo esbanjando a aparência de alguém forte. Ele só fala novamente quando reformula a frase.

— O que eu quero dizer é que precisa aproveitar! Você está de férias. O tempo passa voando! Daqui a algumas semanas, vai precisar voltar a dar suas aulas e a rotina recomeça tudo de novo. E, se isso não for motivo suficiente, aproveite por MIM. Acabei de me formar, paizão! Você me ajudou demais nesses 6 últimos anos loucos e infernais. Se esteve presente em todos os momentos ruins, não deve estar nos momentos bons também?

Miguel encara o garoto a sua frente e, finalmente, nota que Augusto não é mais um garoto; é um homem. Entrar em medicina com apenas 17 anos fez com que o garoto amadurecesse rapidamente, sem contar todos os problemas familiares que teve de aguentar durante a caótica e puxada grade da UFSM. Mas ele nunca desistiu. Miguel permaneceu ao lado dele do início ao fim. Nos momentos de crise, choros e falta de confiança, era o loiro que o motivava, abraçava e escutava os surtos. Seria injusto não aproveitar a festa feita para comemorar a formatura de seu "filho" de consideração.

— Posso fazer isso por você.

O sorriso de Augusto não poderia ser maior.

— Deixo para você os últimos três shots de tequila, então, paizão. Encare como uma forma de agradecimento.

Miguel não pensa; vira os três shots de tequila e sente o mundo girar. Pisca algumas vezes, ainda com a garganta queimando. Há quanto tempo, mesmo, ele não ingere uma gota de álcool? Não consegue lembrar. A única coisa que consegue fazer é desabotoar alguns dos botões da própria camiseta. Calor. Um calor como nunca sentiu toma conta de seu corpo. Ele sabe que Augusto está falando com ele, mas a música soa tão mais alto em seus ouvidos que ele mal escuta o que o rapaz sorridente está dizendo. Respira fundo, uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Fecha os olhos. Aos poucos, o estado de confusão mental vai passando. Apenas o calor permanece.

— Paizão, tá tudo bem? Você quer sentar?

Miguel volta a abrir os olhos. Augusto o encara com um semblante preocupado.

— Está sim! Eu só preciso de água.

— A cozinha é logo ali. Quer que eu pegue para você? Posso achar um quarto se preferir deitar um pouco.

— Não precisa, Guto. Estou bem. Vá curtir a sua festa. Só preciso de alguns copos d'água para melhorar. Te encontro depois.

Miguel começa a andar antes que Augusto possa protestar. Ele não sabe dizer ao certo em qual parte do caminho aconteceu; o fato é que, agora, o olhar de Miguel, e de outros rapazes perto dele, está fixo em um vestido de seda azul que desenha perfeitamente as curvas de sua dona. Ela é alta, os cabelos são longos, escorridos e loiros. Eles roçam os braços nus da moça, enquanto ela dança de olhos fechados, parecendo estar sozinha em seu quarto. Miguel fica hipnotizado e, por alguns segundos, consegue enxergar a garota dançando em câmera lenta; o único efeito positivo da bebida em seu corpo até agora. Quando a música acaba e a moça, enfim, abre os olhos, todos que, há poucos minutos, estavam despindo-a com olhares conseguem disfarçar, menos Miguel. É para ele que a garota olha e balança o corpo, sensualmente, no ritmo da nova música que toca.

electricity — dua lipa

You give me a feeling / você me dá uma sensação

Feeling so strong / sentindo-se tão forte

I know you been treating / eu sei que você está tratando

Treating yourself wrong / tratando-se errado

So let me care for you / então deixe-me cuidar de você

Ooh, baby / oh, querido

Ima love you differently / eu te amo de uma maneira diferente

I'll give you electricity / vou te dar eletricidade

Give it to you / vou te dar

Ela se aproxima sem parar de dançar e sem desviar os olhos de Miguel por um segundo sequer. O loiro permanece parado, mais uma vez hipnotizado pela energia da mulher a sua frente. Quer que ela se aproxime mais. Quer tocá-la. Mal pode controlar a vontade. De onde veio esse desejo? Miguel mal consegue raciocinar.

You feel electric, baby / você se sente elétrica, baby

So electric, baby / tão elétrica, baby

I wanna let you know / eu quero que você saiba

Let you know / que você saiba

I think I'm ready, baby / eu acho que estou pronto, baby

I think I'm ready now / eu acho que estou pronto agora

Electricity / eletricidade

I'm flowing into you / estou fluindo para você

Quando foi que ela chegou tão perto? Ele não consegue dizer. Não consegue pensar em nada além do cheiro doce que emana da mulher a sua frente, além da boca convidativa dela, carregada com um sorriso maroto, como se possuísse mil segredos dos quais Miguel nunca vai saber. O primeiro toque dela provoca uma descarga de energia pelo corpo inteiro de Miguel. Ela arranha a nuca dele, puxando-o para perto. Ele não se move. Apenas mantém o olhar nos olhos azuis e maliciosos da recém-conhecida. O corpo de Miguel esquenta. A loira desce as mãos pelos braços dele só para agarrar suas mãos e colocá-las na cintura dela. O movimento que faz com o quadril deixa Miguel ofegante. Ele pressiona as mãos, apertando, com certo fervor, a cintura dela. A garota gosta, sorri mais abertamente e morde o queixo dele.

I want it / eu quero isso

I need it / eu preciso disso

This current between us / essa corrente entre nós

Is flowing / está fluindo

This feeling / esse sentimento

Tonight / esta noite

Ela sobe os lábios e os roça nos de Miguel, que fecha os olhos, inebriado pela sensação. Chega a abrir a boca esperando pela língua dela, mas a garota apenas ri, satisfeita, e vira de costas, esfregando o corpo ainda no ritmo da música contra o de Miguel. O rapaz passeia as mãos pela lateral do corpo da mulher a sua frente, enquanto enterra o nariz no pescoço dela, ficando ainda mais energizado pelo perfume doce que ela emana.

So electric, baby / tão elétrica, baby

I wanna let you know / eu quero que você saiba

Let you know / que você saiba

I think I'm ready, baby / eu acho que estou pronto, baby

I think I'm ready now / eu acho que estou pronto agora

A garota se movimenta cada vez mais com mais avidez e sensualidade. Miguel não poderia estar mais hipnotizado, mais sedento. Não, ele não consegue mais. Precisa de mais, precisa beijá-la. Ele começa beijando-a pelo pescoço. Ela é pega de surpresa, se arrepia e vacila na dança. É nesse momento que Miguel a vira, sobe a mão para o pescoço dela e cola os lábios dos dois com total urgência. O beijo se inicia quente, intenso, sedento. As línguas traçam uma luta. É impossível dizer qual delas ganha. É impossível dizer quem está devorando quem. As mãos de Miguel não param um minuto sequer de passear e pressionar a mulher contra seu corpo. As dela? Já traçam linhas nas costas nuas de Miguel, por debaixo da blusa. Ele sabe que poderia ficar fazendo isso pelo resto da noite, pelo resto da própria vida, mas a garota vai diminuindo a intensidade do beijo até pará-lo com uma mordida no lábio inferior de Miguel. Os dois se encaram, ainda ofegantes. O sorriso maroto continua na boca dela.

— A gente se vê — é a única coisa que ela diz, antes de se virar e caminhar para longe de um Miguel, desconcertado e sem rumo.

¥

Eva se aproxima sorridente de Felipe. Apesar de serem grandes amigos, a correria da vida de ambos acaba fazendo com que passem vários dias sem sequer trocar uma palavra , mas, quando finalmente conseguem se encontrar, é como se o tempo não houvesse passado. De longe, ela consegue avistar o amigo com um arquinho de coração na cabeça e as bochechas brilhando com tinta rosa fluorescente. Solta um riso; é muito a cara de Felipe usar adereços chamativos. Ao lado dele, há uma garota que observa Eva com um olhar curioso. Também tem o rosto marcado por tinta fluorescente, só que de cor azul.

— Adorei o arquinho — Eva diz, cumprimentando os dois com um sorriso.

— Ai, mana, não é mesmo lindo? Fiquei tão feliz quando descobri que poderia usá-lo em uma festa.

— Como se você ligasse para um traje de festa, né, more? Já foi lá em casa com esse arquinho, às quatro horas da tarde! — A garota ao lado dele o acusa, arrancando uma risada baixa de Eva, que olha para a desconhecida com mais atenção. Ela é bonita. Tem traços fortes, olhos castanhos, boca carnuda, chamativa, pintada por um batom vermelho escuro. Agora que se encontra mais próxima, Eva consegue notar a cor alaranjada dos seus cabelos.

— Certas coisas é melhor a gente nem lembrar — as garotas riem. — Bom, deixem-me cumprir meu papel logo, pois tenho outros afazeres — a ruiva nega com a cabeça, enquanto Eva simplesmente arqueia a sobrancelha imaginando os outros afazeres. — Evinha, te apresento Zoé — aponta para a até então desconhecida. — Zoé, te apresento Eva. — Leva o dedo na direção da outra. — Meu trabalho está feito. Divirtam-se! — Dá as costas para as amigas e sai sem esperar por respostas. A única coisa que Eva consegue fazer é rir, enquanto observa o loiro se distanciar. Só tira o olhar dele quando escuta Zoé chamá-la pelo nome:

— Não sou muito fã de enrolações. Por isso, vou direto ao ponto. Descobri a sua existência através do Instagram do Felipe e, desde a primeira vez que bati os olhos em você, pensei "meu Deus, eu preciso muito beijar essa boca". Nunca fiquei com garotas, não por achar que eu não fosse gostar, e sim por nunca sentir atração por alguma. Isso durou até o dia em que vi a sua foto. E então, você topa trocar alguns beijos despretensiosamente?

Eva escuta tudo com muita atenção e sem desviar os olhos de Zoé, que gesticula bastante e, dificilmente, faz pausas. Quando, enfim, conclui tudo o que tinha para dizer, encara Eva com um olhar carregado de expectativa, mas sem perder a postura. Está preparada tanto para ouvir um sim quanto para receber um não.

Eva não demora a tomar uma decisão. Como diria "não" para uma mulher espetacular dessas? Ela segura na mão de Zoé, que entende o recado e começa a acompanhar a primeira com um sorriso no rosto. As duas rodam a casa à procura de um lugar mais privado e calmo, enquanto escutam Electricity, da Dua Lipa, tocar. Eva tenta abrir a terceira porta que encontraram e, finalmente, consegue; as outras já estavam trancadas. Elas entram. Zoé fecha a porta, fazendo questão de trancá-la também. Eva leva o olhar para os olhos negros da ruiva novamente; tem um sorriso nos lábios quando pergunta:

— Está nervosa?

— Não! Estou sedenta!

A resposta é o suficiente para fazer Eva dar passos largos e puxar Zoé para perto. Antes de beijá-la, roça os lábios das duas com firmeza e o beijo se inicia fervoroso. As mãos da ruiva migram direto para o pescoço de Eva, enquanto as dela exploram as curvas de Zoé, com vontade. Aproveitando o fato de ser alguns centímetros maior, Eva vai guiando a ruiva até a parede mais próxima, a pressiona nela, desce os lábios pelo queixo, deixando uma mordida ali. Depois, começa uma linha de beijos até o pescoço, onde se demora, beijando e dando leves chupões. Zoé respira fundo, pressionando a cabeça de Eva contra si. Gosta da sensação dos lábios da garota em sua pele. O beijo recomeça com mais fervor ainda, sendo muito melhor do que Zoé esperava. Se depender dela, não desgrudará do corpo de Eva até o sol raiar.

¥

Capitu finaliza o quarto copo de Ciroc, olhando ao redor à procura das amigas. Eva está desaparecida desde o início da festa, o que deve totalizar umas 3 horas; Capitu não tem certeza, já que o álcool prejudica sua noção de tempo. Branca sumiu durante a música Sky full of stars e também não retornou. Devem estar beijando na boca ou transando. Disso, Capitu não tem dúvida.

Como sabe que, provavelmente, ficará esperando por mais tempo e já chegou ao limite no quesito bebida, procura um lugar para se sentar e não demora a encontrar um sofá. Há um casal se beijando com fervor em uma de suas pontas, mas Capitu dá de ombros. Se for esperar achar um lugar onde não tem gente se pegando, não vai se sentar nunca. Ajeita-se na outra ponta e pende a cabeça para trás, fechando os olhos. Tudo ao seu redor gira. Ela permanece por alguns minutos assim, até alguém encostar em seu ombro.

— Moça, está tudo bem? — A voz sai mansa e bem próxima ao ouvido de Capitu. Ela rapidamente abre os olhos, odeia que pessoas desconhecidas se aproximem sem o consentimento dela.

— Está.

— Quer? — O garoto lhe oferece um copo após se sentar ao lado dela.

— Parei de beber — ela murmura, tentando focar no rosto dele, o que é difícil devido à baixa iluminação e ao seu nível de embriaguez.

— É água — o tom manso se mantém. Capitu arqueia a sobrancelha pensando "tá de brincadeira com a minha cara?"

— Não sou ingênua o suficiente para beber algo do copo de um estranho. Mesmo bêbada, não farei isso — o garoto ri e começa a tomar o líquido do copo. "É, talvez realmente seja água", Capitu pensa. No entanto, dá de ombros e volta a pender a cabeça para trás e fechar os olhos, esperando que o desconhecido saia, mas isso não acontece.

— Você veio sozinha? — pergunta, depois de um tempo.

— Tá querendo foder comigo? — a morena abre os olhos, inquieta, e o encara.

— Na verdade, ia perguntar se precisa de uma carona.

— Pra tentar me foder dentro do carro? —- ele engasga com a água:

— Não —- diz, depois de se recompor. — Para te levar em casa, na sua casa, ou para um hospital. Digamos que tenho certa experiência com pessoas alcoolizadas. Percebi que não está bem.

— É uma festa, cara — Capitu revira os olhos. — Quem, caralho, está bem?

— Realmente — ele assente, soltando um riso rápido. "Essa garota é difícil" — Mas tem pessoas piores.

— E eu sou uma delas?

— Sim.

— Pode ficar tranquilo, bom samaritano. Não vou embora sozinha. Estou esperando minhas amigas.

— Bom samaritano? — arqueia a sobrancelha.

— Sim. Achei o termo bem apropriado, já que não me disse o seu nome — Capitu retruca, fazendo o garoto rir novamente.

— Gael — ele diz — e você? Vai me dizer teu nome ou terei que achar um termo também?

— Valéria — responde o primeiro nome que vem na cabeça, que, por acaso, é o nome da melhor amiga de sua mãe, a qual odeia. Gael franze os olhos, sabe que é uma mentira.

— Você não tem cara de Valéria.

— Sério, o que é que tu quer? Beijo não vai rolar. Muito menos sexo. Até poderia, mas não tô no clima.

— Não! Relaxa! — Gael se apressa em dizer. Não quer que suas intenções sejam distorcidas. — Só estou tentando manter uma conversa enquanto suas amigas não chegam.

Capitu o analisa, pensando se acredita ou não nas palavras ditas. Acaba decidindo que sim, graças ao olhar cuidadoso estampado nos olhos dele, escondidos por um óculos de armação quadrada, preta e fosca.

— Capitu — diz, por fim.

— É um nome bonito — Gael sorri.

O mundo da morena volta a girar e ela é obrigada a pender a cabeça para trás e fechar os olhos.

— Tem certeza que não quer água?

— Relaxa, samaritano. Já passei por muitos porres — é a última coisa que diz.

Gael permanece ao lado da moça em silêncio, checando vez ou outra se ela realmente está respirando. A sua vontade é de segurar no pulso dela para aferir os batimentos, mas sabe que seria muito invasivo. Por isso, contém-se apenas em observar o peito dela subindo e descendo. Quando você é uma das únicas pessoas sóbrias em uma festa, cuidar de outras acaba se tornando automático, principalmente se o seu trabalho é esse. Gael já perdeu as contas de quantos amigos do irmão já levou para a emergência e de quantos comas alcoólicos presenciou. Ele só sai de perto da recém-conhecida quando duas garotas encontram e chamam Capitu. A de cabelos curtos ajuda a morena a se levantar e agradece Gael por ter ficado ao lado dela. A de cabelos longos o agradece com um abraço apertado e, logo em seguida, um aperto na bochecha.

— Você é realmente muito fofo!

Gael fica meio desconcertado com o gesto repentino e caloroso. Por isso, agradece com um sorriso sem graça.

— O que aconteceu?

Gael reconhece a voz do irmão mais velho e volta a atenção para ele.

— Acabei de ser calorosamente agradecido apenas por fazer o mínimo que todo ser humano deveria fazer.

— São tempos sombrios — Augusto comenta estendendo uma Skol Beats para o irmão.

Os dois brindam antes de virar a bebida.

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— Estou indo, Dorinha! — América avisa, após colocar a cabeça dentro do quarto da amiga de infância. — Não precisa me esperar acordada.

— Estarei torcendo por você, Mérica. Tente não se machucar muito e mande beijos ao Rafael por mim.

Dora espera o barulho da porta sendo fechada ressoar pelo ambiente para, só então, levantar-se da própria escrivaninha e alongar o corpo. Os finais de semana costumam ser sempre assim: Capitu sai com Eva e América aproveita o pouco tempo que tem para treinar. Dora, com frequência, é convidada por ambas, mas prefere ficar em casa assistindo séries, comendo porcarias, finalizando trabalhos da faculdade e dormindo. É extremamente caseira.

Paixão cruel, desenfreada

Te trago mil rosas roubadas

Pra desculpar minhas mentiras

Minhas mancadas!

A garota de cabelos castanhos canta com todo o entusiasmo que só a voz do Cazuza é capaz de lhe causar, enquanto dança pelo quarto e arruma sua escrivaninha bagunçada. Dora nunca deixa de estudar. Até mesmo em seus períodos de férias, está, constantemente, com a cara enfiada em livros que os professores recomendam. Por amar tanto o curso que faz, estudar deixa de ser uma obrigação e se torna um lazer.

Eu nunca mais vou respirar

Se você não me notar

Eu posso até morrer de fome

Se você não me amar

Ela canta junto de Cazuza com tanta vontade que sua pequena performance é quase teatral. Continua a organização do local sem parar de balançar o corpo no ritmo da música. Recolhe todas as roupas de Capitu espalhadas pela cama e as dobra, gentilmente, antes de guardá-las no guarda-roupas. As duas dividem o quarto desde que nasceram, mesmo depois de crescidas. Para a surpresa de todos, não quiseram a separação. Sentiam-se melhores juntas. Continuam assim até hoje.

Exagerado! Jogado aos seus pés

Eu sou mesmo exagerado

Dora está tão distraída com a canção e a organização que mal escuta Manuela adentrar no apartamento. A grávida não ousa incomodar a diversão da amiga. Fica encostada no batente da porta, assistindo a performance e só fala quando a música acaba.

— Sua voz é incrível, Dorinha.

A moça de cabelos curtos leva um susto tão grande que mal consegue dizer uma única palavra por vários minutos. Ela pensou que estava sozinha. Sempre se certifica de estar antes de cantar como estava fazendo. Seu rosto começa a esquentar e ela não sabe dizer se por vergonha ou susto. Manuela, percebendo o estado da amiga, apressa-se em tranquilizá-la e pede desculpas inúmeras vezes. Dora só volta a si após perceber os olhos inchados e vermelhos de Manuela.

— Você estava chorando? O que aconteceu?

A grávida se assusta com a pergunta repentina, mas se relaxa ao perceber o olhar preocupado de Dora. Foi ela quem mais ajudou Manuela nessa primeira semana de adaptação. A aproximação das duas foi natural. Dora soube acolher a mineira da maneira que ela mais necessitava. Escolheram juntas os móveis da bebê e as decorações do quarto. Foi muito gratificante para Manu perceber, pela primeira vez, que alguém, além dela, está feliz e animada com sua gravidez.

— Estou com saudades de casa.

A confissão vem depois que ela baixa os olhos castanhos, meio envergonhada.

— Não conseguiu mesmo falar com a sua mãe?

Ela nega com a cabeça, parecendo, realmente, chateada. Dora respira fundo e dá um abraço apertado na amiga. A primeira coisa que ela notou sobre a personalidade de Manuela foi exatamente o fato de a mineira mostrar ser extremamente apegada à família. Desde que chegou, aproximou-se mais de Dora do que do resto das meninas e apresentou para ela, por meio de fotos, todos os integrantes da família com quem ela possuía um vínculo maior, principalmente tios, primas e avós. Por essa razão, Dora compreende, como ninguém, a tristeza de Manuela.

— Estou feliz por você estar aqui — Dora fala, depois de se afastar, e começa a passar, gentilmente, os dedos pelo rosto da grávida, secando as lágrimas que caíram durante o abraço. — Vou preparar um chocolate quente para ti. É uma receita de família, então sei que vai gostar muito! Depois, vamos deitar no sofá da sala e assistir ao filme mais bobo e romântico que estiver disponível. Podemos pedir uma pizza e terminar a noite assistindo a alguns episódios de Naruto. E aí, o que me diz?

— Acho que vai ser incrível — Manuela solta um sorriso sincero.

Elas saem do quarto e vão direto para a cozinha. Dora volta a ligar o seu pequeno rádio, último presente que ganhou do pai. Coloca Dance monkeys para tocar e prepara o chocolate quente, dançando. Tudo isso para animar a vizinha. Quando finaliza a bebida, entrega a Manuela e fica esperando a reação com um sorriso no rosto.

— Que trem mais gostoso, Dorinha!! Eu amei!

O sorriso de Dora aumenta ainda mais e, antes das duas irem para a sala, a fim de seguirem o cronograma planejado, ela chama a atenção da grávida.

— Eu tenho certeza que sua mãe vai entrar em contato com você, Manu. E suas primas também. Minhas esperanças são para que isso aconteça o mais rápido possível, mas, se demorar, ou até mesmo não acontecer, saiba que eu sempre estarei aqui. E estou muito feliz por ser uma das pessoas que têm a chance de conhecer e conviver com a mulher incrível, forte e sonhadora que você é. Sei, como ninguém, que família não tem nada a ver com laços sanguíneos. Por isso, saiba que já te considero parte da minha. Falo por mim e pelas meninas. Nós sempre estaremos aqui, não importa o que aconteça.

Os olhos de Manuela marejam novamente, mas, dessa vez, de felicidade. Não encontra palavras para agradecer tanto cuidado e carinho. A única maneira que enxerga de ser grata é falar com o próprio corpo.

Quando Dora recebe o abraço apertado, é como se ouvisse em seu ouvido a gratidão eterna de Manuela.

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Notas finais
Espero que tenham gostado! Já gostaram de algum personagem em específico? me contem nos comentários! Beijos e até o próximo capítulo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.