Condottieri
1 Capítulo I
Notas iniciais
Grazie: Obrigado
“(…) Mas você acha que há só um tipo de pessoas más neste mundo? É claro que não existe um modelo de pessoas más. Normalmente são pessoas boas. Pelo menos, são todas pessoas normais. Mas, numa dada circunstância, tornam-se más, o que é apavorante.” Kokoro (こころ)
No vasto oceano, perto da costa de um reino qualquer, um navio pirata navegava entre as ondas, indo em direção ao porto daquele reino. O capitão observava o destino do navio com um olhar curioso, um sorriso de canto em seu belo rosto. O homem usava as vestes de um pirata, como todos os homens daquele navio, porém com o típico chapéu de capitão e roupas mais detalhadas e visivelmente mais belas, que deixavam o homem ainda mais galanteador. Seus cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo por uma fita azul com um delicado laço, mas mesmo assim eles voavam com a brisa do mar. Seus belos olhos azuis apenas o deixavam ainda mais belo, o que o tornava irresistível para as mulheres e até para alguns homens. A barba por fazer e o sotaque apenas davam mais charme ao homem, que exalava autoconfiança.
Logo o navio ancorou, os murmúrios ansiosos da tripulação sendo ouvidos pelo convés. O capitão, Francis Bonnefoy, e sua tripulação de piratas mercenários estava no reino, com seu enorme navio ancorado no porto e esperanças de um lucro esperado. A notícia se espalharia rapidamente, então choveriam pessoas precisando dos serviços dos homens. E quando estes ficassem entediados do local, eles apenas juntariam suas coisas e partiriam, como faziam em todas as cidades de todos os reinos que visitavam. Eles pegavam tudo que podiam pegar e depois sumiam como se nunca tivessem estado ali. Uma tripulação fantasma, que deixava para atrás apenas memórias de seus feitos. O capitão caminhou em direção aos homens e disse:
-Senhores, hoje chegamos a um novo local de trabalho. Qualquer um de vocês pode falar com os clientes que surgirem, mas como sempre o cliente deve ser direcionado ao homem mais qualificado para fazer o trabalho. Não trabalhamos com falhas, e eu espero sinceramente que neste novo local as coisas corram bem como tem acontecido nos últimos anos da nossa próspera tripulação. Trabalhem e ganhem todo dinheiro que puderem, mas também sintam-se livres para aproveitar as bebidas e mulheres. Afinal, no mar não temos esse tipo de coisa disponível, não é? — os homens riram, inclusive o próprio Francis. — Enfim. Continuem com o bom trabalho pessoal!
Gritos de concordância foram ouvidos pelo convés, e após o capitão tirar os olhos dos homens estes voltaram ao que faziam antes. Alguns ficaram no navio, enquanto outros, incluindo Francis, desceram no navio para explorar a cidade. O capitão sorriu e caminhou em direção à cidade, ansioso para ver o tipo de trabalho e perigos eles enfrentariam naquele novo e desconhecido lugar.
*
Já haviam se passado três dias desde a chegada dos mercenários à cidade, e poucos serviços foram pedidos a eles, como costumava acontecer quando chegavam a um local novo onde eles não eram conhecidos. O povo tinha razão em não ter muita confiança nos homens, então geralmente os mais desesperados vinham primeiro. E isso foi o suficiente para espalhar a fama de que por algum dinheiro eles fariam trabalhos difíceis demais para camponeses comuns sem falhas e sem hesitação. O que atrairia mais pessoas desesperadas dispostas a pagar qualquer preço pelo que desejavam.
Francis estava sentado em algumas caixas no porto, observando o mar distraidamente naquela tarde ensolarada e irritantemente quente. O chapéu repousava em seu colo, deixando seus cabelos loiros livres, alguns fios escapando do rabo de cavalo caindo ao lado de seu rosto dando um toque natural e um pouco relaxado ao pirata. Ele não dava atenção às outras pessoas no porto, muito menos ao que elas faziam, pelo menos não até aquela pessoa estranha em particular chegar.
Francis não conseguia dizer se era um homem ou uma mulher aquela estranha figura que caminhava lentamente em sua direção. A figura usava roupas masculinas e cobria parcialmente seu rosto e corpo com uma capa com capuz que não o permitia saber muito sobre a figura. Mesmo as roupas sendo masculinas, o corpo era pequeno e franzino pelo que Francis via. Se fosse mesmo um homem deveria ser bem jovem e/ou muito fraco. O que o capitão mais queria saber era o que aquela figura queria ali. Que tipo de trabalho aquela estranha figura encapuzada pediria?
Logo a figura parou a sua frente e tirou o capuz, revelando feições masculinas. O homem não era velho, parecia ser mais jovem que Francis pelo menos. Ele tinha cabelos loiros, como Francis, mas eram curtos e pareciam meio mal cuidados, diferente do de Francis, que recebia bastante atenção e cuidados do mesmo. Os olhos dele eram de um profundo verde, com um brilho diferente de tudo que Francis já havia visto, cobertos por grossas sobrancelhas que aparentemente não eram aparadas há algum tempo. Ele era um tanto despreocupado com aparência, um desleixo evidente, pelo que Francis supôs, mas ele jamais havia visto olhos belos como aqueles, então decidiu julgar aquele rapaz depois de ouvir suas palavras.
-Hã... Olá. — disse o rapaz, fazendo Francis piscar algumas vezes para voltar a realidade e prestar atenção ao que ele dizia, e não naqueles belos olhos do rapaz. — Você... É o capitão da tripulação de mercenários piratas, certo?
-Sim. Francis Bonnefoy ao seu dispor, mon cher. — apresentou-se Francis, curvando a cabeça rapidamente, logo voltando a olhá-lo. — O que deseja de minha tripulação?
-Preciso dos seus serviços, é claro. — respondeu o rapaz. — Eu preciso de proteção.
-Por quanto tempo? — perguntou Francis.
-Eu não sei. Mas provavelmente bastante, eu não posso garantir nada. — respondeu o rapaz. Em que tipo de confusão ele teria se metido?
-Isso vai custar caro, sabe? — disse Francis, curioso sobre aquele rapaz. O que ele teria aprontado para ter que contratar a proteção de um mercenário?
-Eu imaginei. E não se preocupe, eu tenho bastante para te pagar. Preço não é problema. O que me preocupa é se algum de seus homens vai aguentar o trabalho. — disse o rapaz.
-Do que exatamente estamos precisando protegê-lo, senhor...?
-Arthur. Arthur Kirkland. — respondeu o rapaz, estendendo sua mão para Francis apertar. Quando este uniu sua mão à de Arthur, este o puxou para mais perto de si e sussurrou em seu ouvido: — Eu preciso que um de seus homens me proteja da ira do reino das fadas. — Francis arregalou os olhos enquanto o jovem se afastava, incrédulo com o que este acabara de lhe dizer.
-O reino das fadas? Inteirinho? — Arthur assentiu e Francis riu, surpreso. — O que você fez para irritar um reino pacífico porém extremamente perigoso como esse?
-Isso não importa, senhor Bonnefoy. Eu só preciso de proteção e nada mais. Eu quero seu serviço. Você quer o meu dinheiro. Não há motivo para não manter as coisas estritamente profissionais aqui. Eu não preciso te conhecer e você não precisa me conhecer. São apenas negócios. — respondeu Arthur, sério, o tom e a expressão indicando que ele não planejava contar nada mais do que o necessário para Francis.
-Certo. Respeitamos os motivos ocultos de nossos clientes. Nenhum de nós quer se meter nos problemas de ninguém. Mas na minha tripulação só existem três homens que aguentariam um serviço como este. E com muito orgulho eu digo que um desses homens sou eu. — disse Francis, sorrindo orgulhoso. — Eu mesmo lhe servirei, senhor Kirkland. Meu pagamento será diário, até que o serviço seja concluído, e como precisa de proteção eu suponho que eu precise ficar na sua moradia durante este tempo.
-Não. Eu estarei me instalando em seu navio, senhor Bonnefoy. — disse Arthur. — Não tenho moradia fixa.
-Oh. Então vai pagar extra por um lugar para dormir e pela comida eu suponho, certo senhor Kirkland? — perguntou Francis, num tom desafiador, quase flertando com o rapaz.
-Claro. Como eu disse, pagamento não é problema. — respondeu Arthur, com um tom tão indiferente que realmente expressava que dinheiro não era problema.
-Pois muito bem. — disse Francis, se levantando. — Bem vindo ao meu navio, Arthur Kirkland.
*
Enquanto isso, outro membro da tripulação estava prestes a receber um serviço. Seu nome era Antônio Fernández Carriedo, um homem de cabelos castanho escuros e olhos verdes brilhantes e invejáveis. Ele já estava há algum tempo na tripulação, sendo um antigo e próximo amigo do capitão. Ele estava conversando distraidamente com outros homens da tripulação quando um garoto chegou correndo no porto. O jovem tinha cabelos castanhos com um fio rebelde pro lado, e o mais notável em seu rosto delicado eram as lágrimas correndo por ele. Ao perceber o quão perdido e desesperado o garoto estava ali, Antônio pediu desculpas e se afastou dos homens, indo até ele.
-Olá. — ele disse, em um tom doce para não assustá-lo. — Eu sou Antônio, da tripulação de mercenários. O que houve?
-O-O meu irmão! Ve~ Vão matá-lo Antônio, vão matá-lo! Ivan vai matá-lo! Aiutateme, signore! Me ajude! — dizia o rapaz, em desespero, chorando, implorando por ajuda.
-O que? Espere, primeiro se acalme e depois me explique que tipo de serviço você precisa que eu faça. — instruiu Antônio. Aos poucos o garoto normalizava sua respiração e continha as lágrimas, até que se acalmou o suficiente para falar direito e então disse:
-Eu sou Feliciano. O meu irmão e eu somos fugitivos do rei, Ivan Braginsky. Nunca estivemos em uma boa relação com o reino, pelo menos não nos últimos anos, e como somos pobres nós roubamos para viver e fugimos o tempo todo. Mas desta vez eu não fui ágil o suficiente e iriam me pegar se não fosse pelo meu irmão. Ele me salvou, mas os guardas pegaram ele no meu lugar! Vão enforcá-lo em praça pública amanhã, no vilarejo perto do castelo no topo da montanha! Você precisa salvá-lo, por favor! — implorava o garoto. Ele tirou algumas moedas de ouro do bolso do casaco e disse: — Ve~ Isso é tudo que eu tenho. Pegue tudo, mas salve o meu irmão! Por favor, eu imploro! — Antônio olhou para o dinheiro nas mãos do garoto. Geralmente ele cobraria o dobro por um serviço daqueles, mas o garoto parecia tão desesperado... Antônio olhou para aqueles olhos infantis cheios de lágrimas e não pôde dizer não. Ele pegou as moedas e disse:
-Eu vou salvar o seu irmão, Feliciano. Não se preocupe. — o garoto sorriu, e o abraçou, para surpresa do mercenário.
-Ve~ Grazie! Muito, muito obrigado! — Antônio abraçou o garoto de volta e observou a montanha um tanto longe do porto onde ele estava. Seria uma longa e árdua viagem. Mas uma voz no fundo da sua cabeça dizia que ele deveria proteger aquele garoto que o abraçava e principalmente, que ele deveria salvar o irmão dele, que o esperava no topo daquela montanha. Pois muito bem. Ele era um mercenário da tripulação de Francis Bonnefoy. E ele jamais falhava em um trabalho.
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