Notas iniciais
Espero que goste, mozão ♥

I love you

Don’t lie

Pecado

Naomi sentia como se o mundo estivesse desabando debaixo dos seus pés. Amanhecia, a cidade começava o seu ritual diário, as pessoas seguiam seu rumo, e Naomi estava ali. Parada. Sem qualquer reação a não ser derramar mais e mais lágrimas enquanto via toda sua vida ser destruída por um caderno. Um simples e fodido caderno.

Talvez, se ela fosse uma mulher melhor, assumisse logo que tudo não passava de sua culpa, de sua completa e falta de caráter. De sua falta de respeito por Emily. Mas ela não era essa pessoa e, naquele exato momento, enquanto as páginas eram folheadas, somente conseguia culpar a tudo e todos: Sophia, por ter escrito sobre o maldito open day; Matt, por forçar Ems a abrir a fodida caixa; a própria Emily, por não largar aquele assunto.

Suas lágrimas escorriam furiosamente enquanto assistia o caderno chegando próximo do fim; o entendimento surgindo nas feições de sua namorada, a dor, a traição... Naomi já devia saber que tudo levaria àquele momento. Devia ter imaginado desde o dia em que a polícia as procurou na escola para perguntar sobre a suposta amizade que possuíam com a falecida. Ou talvez até antes, quando Sophia cometeu suicídio e todos começaram a falar dela.

Entretanto, olhando para Emily, vendo como ela soluçava e se curvava em choro ao terminar de ler o caderno, Naomi pensou que, talvez, aquilo realmente estivesse marcado para acontecer desde o momento em que decidira beijar Sophia. E, talvez, aquilo não fosse culpa de mais ninguém a não ser dela mesma.

— Não acredito. — O sussurro veio baixo, carregado pelo vento que batia no terraço do prédio.

— Eu sinto muito. — Ela realmente sentia. Não sabia ainda se era por ter beijado Sophia ou se por nunca ter contado. Mas ela sentia tanto. — Eu realmente sinto muito.

Emily desviou o olhar, encarando Matt. Naomi soluçava, desesperada. Estava perdendo tudo. Era como se ela fosse a caixa que acabara de ser jogada do último andar daquele prédio. Todo o tempo entre o suicídio de Sophia até aquele instante era como se tudo passasse rápido demais, o ar quase impossível de ser respirado. E então o momento da descoberta, e ela era somente pedaços de madeira, espatifados na calçada. Sem valor.

— Você arruinou tudo — disse Emily, a voz quebrada e pequena. — Você não quer que ninguém se importe. — Ela se levantou, pondo-se de pé na beira do prédio. Naomi sentiu seu coração ir na garganta ao pensar que Ems faria a mesma coisa que Sophia. Ela não saberia lidar se isso acontecesse. — Poderia estar morta em um segundo. Tudo é tão frágil... Não se deu conta disso?

Naomi queria prestar atenção, ela queria beber cada palavra que Emily estava dizendo, porque era importante. Tinha que ser importante. Mas tudo que passava em sua cabeça era “por favor, Ems, por favor, não pule, por favor”. Quase como um mantra; uma oração.

— Nós éramos especiais — soluçou Emily, por fim.

Naomi fechou os olhos, queria dizer que ainda eram. Queria berrar dizendo que elas nunca deixariam de ser especiais. Que Emily nunca deixaria de ser especial. Queria abraçá-la, queria implorar por perdão. Queria pedir para que ela descesse e voltasse para a segurança.

E então, num piscar de olhos, Emily o fez sem que precisasse falar nada. Ela desceu da beirada e passou rápido por Naomi, procurando pela saída. Seus olhos não se desviaram do seu objetivo, quase como se evitasse ter que mirar Naomi. Raiva, decepção e tristeza borbulhavam conjuntamente no coração partido de Emily.

— Eu estava medo! — Naomi gritou, tentando fazê-la parar. Sentia como se não fosse somente Emily indo embora daquele lugar. Era como se ela estivesse indo embora do relacionamento que possuíam.

— Você sempre tem medo. — A resposta veio, a voz tão fria quanto aquele início de manhã.

Naomi sentiu o ar faltar. Sabia que tudo era real, sentia em sua pele, em seu coração. Ao mesmo tempo, era como se tudo estivesse se desenrolando em um filme e ela estivesse impotente para impedir que tudo acontecesse.

— Emily! — tentou chamar. As lágrimas escorriam furiosamente em seu rosto, e seu coração se quebrou um pouco mais ao ver que a namorada não se virou para olhá-la. — Emily!

A porta bateu, e Naomi sentiu como se, com Emily, todo o seu ar tivesse ido. Fechou os olhos e caiu de joelhos no chão frio e sujo. Segurava a si mesma, como se esse ato fosse impedir que se partisse. Tolice. Ela já estava completa e fodidamente quebrada.

E o pior era que, naquela confusão, também tinha conseguido quebrar Emily e destruir tudo de bom que havia entre elas. Assumia sua culpa, afinal não havia mais ninguém ali a quem pudesse culpar.

Enquanto sentia o vento frio soprar a sua volta, secando suas lágrimas caindo intermitentes, Naomi teve a certeza de que, por esse crime, nunca mais se perdoaria.

Penitência

Naomi sentia-se pequena. Como um inseto. Um inseto que nem barulhento era, porque Emily se recusava a lhe dirigir a palavra, ou o olhar. Mas Naomi tinha certeza de que não estava invisível. Ela conseguia ver como Emily agia de forma cada vez mais destrutiva, punindo-a pelo que acontecera. Pela traição; pela mentira. Era doloroso.

Mal conseguia dormir durante a noite, se não pela insônia, pela ausência de Emily. Sentia-se como um zumbi; vagava pela casa como se fosse menos que um fantasma. O relacionamento que ainda tinha era somente uma sombra do que já fora. Sobrevivia somente por um fio. E doía. Profundamente.

O silêncio diário só não era pior do que a palavras carregadas de rancor.

Emily a castigava constantemente, e Naomi reconhecia que era merecido. Ela havia fodido com tudo. Praticamente destruiu aquele lindo namoro que tinham. E tudo porque estava com medo.

O dia em que Katie bateu em sua porta buscando abrigo talvez tivesse sido o pior de todos. Sabia que Emily ficaria possessa ao saber que abrigara sua mãe homofóbica, mas Naomi não era do tipo que deixava as pessoas — ainda mais uma criança — na rua. Talvez fosse a sua criação... Talvez fosse o fato de ser, no fundo, uma “coração mole”.

A discussão somente não foi pior porque o churrasco estava marcado para começar. Naomi não tinha vontade de participar. De curtir. Sua vida estava uma merda e a última coisa que ela queria era sorrir ou ver os outros sorrindo. Não queria a felicidade alheia sendo esfregada na sua cara. Mas ela não tinha escolha. Aquela era a sua punição e ela teria que cumprir calada.

— Quem tem mais bala?

Naomi elevou os olhos do cigarro que tinha acabado de acender. A voz de Emily estava engrolada, e ela parecia sem equilíbrio também. Perguntava-se o quanto ela já não havia colocado para dentro.

Nenhuma das meninas respondeu.

— Effy? — Recebeu uma negativa silenciosa como resposta.

— Você já não acha que teve o suficiente? — Katie falou num rompante, e Naomi queria fechar os olhos para não ver, novamente, Emily ficando enfurecida ao ser desafiada.

— Não pense — respondeu, a voz tão calma que Naomi se perguntava que tipo de droga Emily havia tomado. — Faz a vida ser muito mais fácil.

Naomi queria rir da mentira daquela frase. Não pensar foi justamente o que a colocou naquela situação.

— Naomi, querida? — Emily continuou, o tom doce não escondia a raiva que havia por trás das palavras. — Você tem mais do seu pó especial? — Naomi começou a negar com a cabeça. — Não?

— Não faz isso, Em.

— Onde está Cook quando se precisa dele, né?

Naomi mordeu o lábio inferior, a pergunta a atingindo como um tapa.

Emily se foi da mesma forma que chegou: falando alto e tropeçando. Reclamou do som baixo, chamou as pessoas para dançar, esfregou na cara da mãe o quanto ela não se importava nem um pouco com o que a família estava passando. Mas nada foi pior do que vê-la beijando outra garota na frente de todos.

— Que porra você está fazendo, Emily? — alguém gritou. Naomi não sabia quem. Estava em choque demais para saber. — Emily! Para essa merda agora!

Ela parou, sorrindo. E então correu na direção de Naomi, jogando-a na piscina. Explodiu em gargalhadas enquanto todos a olhavam abismados.

— Naomi, querida, estou te deixando molhada? — tentou brincar entre as risadas. Ninguém, além dela, achou graça.

Foi então que Naomi teve o suficiente.

— Vai se foder! — gritou, empurrando-a. Levantou-se da piscina, as roupas encharcadas colavam ao seu corpo. — Isso é uma maldita farsa.

— Vai se foder você! — Emily gritou, empurrando-a.

— Ems, para... — Katie veio em auxílio, mas foi interrompida pela irmã.

— Fique fora disso.

Naomi encarou a namorada. Não sabia onde estava aquela Emily tímida e amorosa por quem havia se apaixonado. Parecia ter desaparecido, sufocada por aquela versão que, inconsequentemente, havia criado.

— O que? — soltou sem pensar. Já estava tudo fodido mesmo, não importava se Emily ficaria com mais raiva dela. — Quer fodê-la?

— Talvez eu queira. — A resposta veio rápida. — E daí?

Naomi tinha vontade de chorar. Sentia como se tudo estivesse tão ruim, mas tão ruim, que não havia forma de ser consertado.

— Já chega — a mãe de Emily finalmente se pronunciou após ter superado o choque inicial de ver como a filha vinha agindo nos últimos minutos. — Do que tudo isso se trata?

Emily olhou da mãe para a namorada.

— Não é da sua conta.

Naomi finalmente começou a chorar. Ela precisava acabar com isso, precisava por um fim...

— Eu transei com a garota morta — disse sem nem ao menos pensar. Já estava tão cheia de tudo o que estava acontecendo... Sua vida estava na merda, seu relacionamento, sua felicidade... Tudo na merda. — Eu transei com Sophia e dei as drogas pra ela. E agora Emily está me punindo por isso.

Não ficou surpresa ao perceber que admitir para todos não fez com que se sentisse aliviada.

Assistiu quieta enquanto Emily gritava com a mãe e com Katie. Não se moveu ao ver o tapa desferido contra a face de sua namorada. Mas, quando os olhos castanhos dela voltaram a lhe encarar, Naomi segurou o choro, os olhos suplicavam.

— Ems... — sussurrou.

Foi ignorada.

Martírio

Emily estava diferente. Desde que passara aquela tarde com os pais na antiga casa. Suas palavras eram menos venenosas; acusadoras. Não parecia tentar machucar Naomi a cada segundo, ou lhe esfregar na cara os erros que ela cometera. Mesmo que, por volta e meia, surgisse alguma frase dita de forma ácida e que atingia Naomi como se tivesse recebido um soco, a sensação que perpassava naquela casa era de que finalmente havia a pequena possibilidade de que tudo voltasse a ficar bem. Emily finalmente a estava perdoando por seus erros.

Foi por pensar dessa forma que Naomi acordou de bom humor. Mais do que bom humor, ela estava radiante. Queria festejar, dançar, beber, dropar... E queria fazer tudo com Emily.

Mal tinha se importado com a nova garota, Mandy. Ou com a falta de animação de seus amigos. Ou de, possivelmente, ter ofendido a nova namorada de Cook ao chamá-la de Effy. Ela só queria rir e se divertir, mas, aparentemente, se aquela cara fechada dizia alguma coisa, Emily não.

Thomas e JJ desapareceram num passe de mágica. Dançando e fumando, nem tinha notado a saída deles. Emily sentava-se próxima a janela, encarando o nada, ignorando a tudo e a todos, e Mandy aparentava estar aborrecida. A suposição de Naomi somente se confirmou quando a viu levantar, praticamente bufando.

— Hey, hey, hey! — Naomi se colocou a sua frente, impedindo que saísse. — Como é mesmo seu nome?

— Mandy — a garota respondeu, aparentando chateação.

— Isso, isso — retrucou, ainda animada. — Você pode dançar. Vamos!

— Eu tenho que ir.

Mandy tentou seguir seu caminho, mas Naomi novamente o bloqueou.

— Não! Não. Está todo mundo tão irritado — reclamou. — Vamos lá. Emsy está de ressaca, e eu quero dançar. É só o que temos que fazer.

Mandy se virou para olhar Emily e voltou sorrindo de lado.

— Ok. Por que não?

Naomi gritou em alegria. Finalmente alguém curtiria com ela aquele dia!

Aumentou o volume, puxou-a e voltou a dançar, feliz. Tão feliz que não percebeu o momento em que começara a falar mais do que deveria.

— Nós tivemos problemas. Eu e Emsy — disse ainda acompanhando a música com o corpo. — Porque... Bem, porque eu fui... Má. Não é Ems? — Emily lhe virou a cara, mas Naomi continuou. — Viu? Estou perdoada. — Ela sorria. — Tem sido o paraíso, esses últimos meses. A porra do paraíso!

E então Emily se levantou. Puta da vida. Naomi encarou-a enquanto sumia pelo corredor, provavelmente voltando para o quarto.

— Eu só estou dizendo... — começou tentando se explicar. — Eu só estou dizendo porque...

“Porque eu quero que você me perdoe de verdade”

“Porque eu me arrependo do que fiz”

“Porque eu te amo demais”

Ela não completou a frase.

— Naomi... — Mandy a chamou, e ela se virou, curiosa. O que menos esperava, no entanto, era ver e sentir a mão da garota descendo até seu peito e o apertando. — Se você não a quer, eu quero.

Chocada demais, Naomi não conseguiu impedir o beijo que Mandy lhe deu, mas se recuperou a tempo de se afastar e dar um belo tapa em sua cara.

Foi só conforme Mandy se afastava, indo embora pela porta da frente, que Naomi finalmente compreendeu o que estava acontecendo debaixo do seu nariz o tempo todo: Emily a havia traído.

Absolvição

O silêncio da casa era enlouquecedor. Naomi tentava acabar com ele colocando músicas altas, falando consigo mesma, mas não equivalia à sensação de ter outra pessoa na casa. Outro coração pulsante, passos nervosos ou risadas... Ela sentia falta de pessoas. De uma pessoa.

Mas não era como se tudo pudesse voltar a ficar bem. Emily não a havia perdoado e, naquele momento, parada no meio da sala quase completamente arrumada, Naomi também não tinha certeza de que a perdoaria. Ela queria. De verdade. Mas tudo estava tão fodido que ela se perguntava se esse amor que sentia iria realmente embora.

Em seus doces sonhos de adolescente, Naomi acreditava que aquele sentimento era para sempre, que seu relacionamento com Emily era real e palpável. Talvez ela não estivesse completamente a bordo daquele namoro, afinal todo o amor e paixão que tinha por ela traziam, ao mesmo tempo, conforto e... Bem, medo. Medo do desconhecido, de se magoar. Medo de perdê-la, de a felicidade ser passageira.

E o quão irônico isso não era?

Naomi pensou novamente em Sophia e no que havia feito. Pela primeira vez não sentiu culpa. Vergonha? Talvez. Arrependimento? Sim. Mas culpa... Não. Somente se culpava por ter quebrado Emily e, em momento nenhum, ter colado os cacos deixados para trás. Ela não era esse tipo de mulher. Nunca foi e nunca queria ser. Não tinha desejo de destruir tudo de bom a sua frente.

A mensagem de Effy fez com que saísse dos seus pensamentos e voltasse à sala. Bufou para a bagunça restante, amaldiçoando Cook e a polícia. Ela desistiu de arrumar e subiu para o seu quarto. Precisava de um banho e de um tempo para se recompor. Se havia uma festa no galpão do Freddie, Emily estaria lá, e Naomi precisava se decidir se iria ou não; se enfrentaria sua, agora, ex-namorada, ou se viajaria (fugiria) para Goa sozinha.

Naomi deixou o chuveiro sem ter tomado nenhuma decisão e deitou-se na cama, sentindo-se só. Com saudades do perfume de Emily. Com saudades de Emily. Sua cabeça estava cheia e, ao mesmo tempo, não conseguia se focar em nada. Mal percebeu quando pegou uma blusa amassada do chão e se abraçou a ela. Era sua blusa, mas Emily a adorava, a usava sempre. E ainda tinha o cheiro dela. Não o perfume, mas sim a mistura do sabonete, com o suor... Era desse aroma que Naomi sentia falta.

Era esse aroma que ela queria sentir pelo resto da sua vida.

Com a decisão tomada sobre o que faria, ela se vestiu, arrumou o cabelo e saiu da casa, deixando o silêncio perturbador pra trás.

A casa de Freddie não era muito longe, mas ela aproveitou a caminhada para preparar seu discurso, porque teria um discurso. Ela pediria perdão, de verdade. E perdoaria Emily. Inferno, ela já tinha perdoado Emily! Naomi faria tudo ficar bem. Se não hoje, amanhã, e o dia depois de amanhã e por quanto tempo fosse necessário. Porque ela nunca desistiria de Emily.

Mesmo caminhando vagarosamente, ela chegou antes do que esperava.

— Nunca estive aqui antes. — Escutou a voz Thomas por sobre a música abafada e, sem pensar, parou, no meio do corredor. — No galpão do Freddie.

— É. Nem nós. — Naomi quase sentiu seus joelhos falharem ao ouvir Emily falar. A coragem que sentia até então esvanesceu. — Tem uma primeira vez para tudo, não é?

— É — Thomas respondeu, aéreo.

— Ok. Vamos começar a festa — Katie disse, tentando soar animada.

Ninguém respondeu, mas Naomi escutou os passos se distanciando. Ela precisou respirar fundo duas vezes antes de continuar seu caminho, seguindo Emily, Katie e Thomas pelo caminho até o galpão.

—... demoraram a chegar. — As palavras de Cook foram clareando conforme ela aproximava da porta do galpão.

— Estamos jogando verdade ou consequência — JJ explicou. — E já descobrimos algumas coisas essa noite, não é, Karen?

— Você não disse que tinha que ser algo chocante? — ela retrucou. Naomi queria sorrir, mas o bolo de nervoso a impedia. Ela tinha que entrar. Ela precisava entrar.

— E quem vai começar? — JJ perguntou depois de um tempo.

Naomi interpretou aquilo como a sua deixa. Num ímpeto de coragem abriu a porta do galpão, encontrando Emily logo a sua frente.

— Eu começo — disse, a voz tão baixa que ficou com medo de não terem a escutado. Não importava. Ela já tinha a atenção de Emily e, apesar querer fugir e se esconder, permaneceu firme, encarando-a nos olhos. Respirou fundo uma vez. — Eu te amei desde a primeira vez que te vi. Acho que tinha doze anos — começou, tentando engolir aquela bola em sua garganta que somente parecia crescer mais e mais. — Precisei de três anos para ter coragem de falar com você, e eu estava não assustada por, você sabe, amar uma garota, que aprendi a ser uma vadia sarcástica, só pra me sentir normal. — Ela precisou parar para respirar fundo mais uma vez. O oxigênio parecia ter acabado ali dentro. — Eu transava com garotos para esquecer, mas não funcionou. Nunca funcionou.

“Quando ficamos juntas, eu fiquei apavorada, porque você era a única pessoa que podia arruinar a minha vida. — Seus olhos ardiam com as lágrimas que queriam cair, e ela teve que desviar o olhar por alguns instantes para não se desmanchar naquele exato momento. — Eu te afastei e a fiz pensar que a culpa era sua, mas a verdade era que eu estava com medo de me magoar. Eu transei com aquela garota para te magoar porque você me deixa assim. E eu sou uma covarde, porque... — Naomi fungou e se virou para sua bolsa, procurando pelas passagens de avião. — Eu comprei isso. Eu comprei essas passagens para Goa para nós duas há três meses. — As lágrimas que segurava até então já caiam facilmente pelo seu rosto. — Mas eu não conseguia... Eu não queria ser uma escrava dos sentimentos que eu tenho por você. Você entende? Você estava tentando me punir e isso foi horrível. Foi horrível demais, porque eu realmente morreria por você. Eu amo você. Eu amo tanto você que isso está me matando.

Naomi precisou parar. Não conseguia mais falar. Mal conseguia respirar para se manter em pé na frente de Emily. E quando Emily pareceu que falaria alguma coisa, ela decidiu que aquele era o fim do seu pedido de perdão. Não havia mais nada que ela pudesse falar naquele momento. Mas Emily não disse nada.

E Naomi esperou.

E esperou.

O desespero já crescia em seu estômago quando finalmente Emily se aproximou e a beijou. As lágrimas escorrendo por ambos os rostos enquanto o alívio percorria por todo o corpo de Naomi. Porque finalmente ali estava o seu perdão. Dessa vez ela tinha certeza: tudo ficaria bem. Porque ela amava Emily e Emily a amava.

Tudo estava bem.

Por enquanto.

Notas finais
É isso! :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!