Condenados ao Inferno e a Tábua dos Anjos
3 3. Ignorada
Notas iniciais
A luz do amanhecer surgia no céu e Enzo estava vendo esse espetáculo de luz alaranjado do teto da mansão. Era quase cinco e vinte da manhã e ele nem ao menos estava vestido. Seu corpo nu sentiu a breve brisa gelada e ele se arrepiou. Não por causa do vento — o vento não fazia mais efeito em seu corpo, estivera ele vestido ou não. — Mas sim pelo o que ele lhe trazia. Seu tio de criação sempre dizia: “O vento traz as más lembranças”. E era verdade. Parado ali no teto da mansão e nu, Enzo começou a se lembrar de uma garota.
Não estava apenas se lembrando de uma garota, mas sim de sua vida quando... Quando fora expulso do seu cargo. Enzo estava mexendo em seu cabelo, tentando fugir das lembranças, mas elas pareciam apavorá-los e colocá-lo em um abismo. Agora ele caminhava silenciosamente para a cama e um vento frio passava pela janela refrescando todo o quarto.
Enzo já deveria estar vestido, e sabia disso. Mas a noite anterior estava tão quente que mesmo não dormindo, resolveu tirar a roupa. Mas Enzo não dormiu por estar quente. A verdade era que ele não dormia. Não dormia nunca. O seu tempo de ter boas noites de sono já se esgotara.
Ele caminhou vagarosamente e deitou-se na cama, rapidamente um lampejo de luz roxa invadiu seu cérebro e ele estava e ouvindo a voz de seu Soberano falar com Steven — seu irmão celestial.
— Como assim? Explique-me como deixou isso acontecer! — a voz de Kadath era fria e rude enquanto falava com Steven. Normalmente ele não era tão rude, mas as guerras o deixaram com o temperamento a flor da pele.
— Quer que eu lhe explique novamente como deixei que a maior arma que tínhamos contra os inimigos foi parar em algum lugar da terra? — A voz de Steven era irônica enquanto falava, o que deixava Kadath ainda mais furioso.
— Steven... — protestou Enzo, um pouco afastado, ele estivera calado até agora, apenas ouvindo a discussão. Mas como sempre, assim que começava a falar era interrompido por Kadath.
— Está me dizendo que eu, Kadath Supremo tenho que liderar um exército com uma criança impulsiva no controle? Dê-me essa espada — disse apontando para a espada dourada nas mãos de Steven —, não quero que caia em mãos erradas assim como a Tábua.
Steven nem ao menos piscou, parecia não dar importância.
— Inútil, já era ruim quando estava sendo treinado no exército dos Maiorais, e agora, não está me servindo para destruir nem sequer os Sier, e olha que são almas que vagam pela terra sem um pingo de dignidade.
Steven bufou.
As mãos grossas e duras de Kadath apertaram o queixo de Steven em fúria.
— Agora me diz o que eu faço com você?
Enzo não poderia deixar que humilhasse tanto o seu irmão. Ele sabia que Steven tivera pisado na bola, porém, teria que dar alguns créditos antes que Kadath o queimasse e ele tivesse que passar o resto da eternidade cantarolando em um grupo de rapazes louros e com roupas brancas. Steven não se mexia, apenas tirou indelicadamente as mãos de Kadath de seu queixo. Seus lábios estavam curvados em uma linha arrogante.
Você está mesmo ultrapassando os limites, pensou Enzo vendo como os dois homens a sua frente se encaravam. Mas da mesma forma que pedira, o socorro apareceu. Um barulho estrondou nas nuvens e uma espécie de carruagem voadora descia com uma mulher de longos cabelos loiros e olhos azuis, com uma pele serena e angelical. Era Lilith. A garota desceu da carruagem, quase desfilando enquanto caminhava, em uma das mãos estava segurando uma tocha de fogo resplandecente. Em sua cabeça tinha uma linda coroa de ouro, repleta de cristais. Ela separou os dois, coisa que Enzo estava querendo fazer a muito tempo.
— Parem — sua voz era doce, e sua mão repleta de pulseiras douradas afastaram os dois para lugares opostos. — Os dois? Brigando novamente? — ela parecia estar dando uma bronca.
Kadath fez uma reverência.
— Me perdoe minha alteza — a voz dele era macia e clara —, eu não queria irritá-la, nem os de cima. Eu estava apenas mostrando o quanto estava incomodado com o jeito infantil de Steven. — ele fuzilou o garoto com os olhos.
Steven deu de ombros.
— Não me chame de sua alteza — Lilith estava com um tom cruel —, você sabe muito bem a quem deve servir, e não é para mim que você deve lealdade.
— Eu sei... Mas... Mas...
— Mas nada — ela vociferou —, já estou cansada de descer e ter que resolver seus problemas com um adolescente impulsivo. Tenha ordem Kadath ou você será substituído, e você sabe muito bem para onde vão os Querubins substituíveis.
Um sorriso cruel se formou nos lábios de Steven.
Lilith olhou para trás — para Enzo. Seus olhos azuis estavam mergulhados em chamas. A tocha de fogo em mão que há pouco tempo tinha se apagado, voltou a soprar chamas de uma cor impecável.
Ela deu alguns passos para trás. Ela era linda — e perigosa. Uma junção que não era muito boa para Enzo. Ele não gostava de mulheres mandonas, e não iria correr o risco de ser morto por uma dos Querubins.
Mas algo que Enzo viu depois fez seus olhos arderem. Ódio. Lilith estava caminhando em passos lentos, e estava olhando fixamente para Steven, e ele continuava com os lábios torcidos num sorriso cruel e repugnante. Lilith pôs as mãos frias e brancas no rosto de Steven, e seus lábios se tocaram. Não foi muito rápido. Era um beijo rápido e calmo. Como fogo e gelo. Os lábios quase transparentes dela refletiam nos lábios vermelhos de Steven. As mãos dela envolviam os longos fios negros do cabelo de Steven.
Tudo estava tão confuso.
Enzo começou a se debater e ter pequenos vislumbres do que acontecera na cena seguinte. Primeiro ele viu seus passos irem para frente, depois ele viu que sua mão se fechara... No momento seguinte um clarão iluminou tudo e Enzo ouviu gemidos... Enzo viu claramente sua mão empurrar Lilith para longe de Steven. Enzo viu sua mão fechada bater no rosto de Steven...
Em seguida, Enzo pulou na cama.
Porque ele estava relembrando mágoas passadas? Ele não queria lembrar-se disso. E não iria. Ele ergueu seu corpo nu da cama e começou a vestir as roupas de sempre: uma jaqueta de couro preta, uma calça jeans azul e uma bota preta recentemente engraxada. Com os dedos arrepiou seus fios de cabelo dourado para cima.
E parou.
Olhou para o anel em sua mão esquerda. Era de ouro com uma pedra redonda vermelha em cima. Rubi. Sobre a pedra vermelha tinha uma estrela de prata, cobrindo todos os lados do anel. A estrela de Davi. Agora ele sentia um aperto no coração.
Ele nunca conseguiria realmente se livrar do passado? Será que nunca iria seguir a vida? Havia muitos séculos pela frente para se importar. Apesar de tudo que houvera acontecido naquele tempo ele preservara tudo o que tivera acontecido entre Steven, Lilith, Kadath ele — e Kab.
Ah, a doce Kab, o motivo por ele ser quem ele era hoje. A menina que fez seu sangue adormecido resurgir perante tudo. Perante todos. Ele nunca se sentira tão humano como na noite que a vira pela primeira vez. Mas de todas as lembranças sobre Kab, ele não queria relembrar apenas uma. Ele não queria reviver todo aquele... Pesadelo... Aquela abominação...
Enzo debruçou-se na janela, olhava a floresta a sua frente, e os tetos de algumas casas de Magic Fells. Ele estava impaciente. A mão tremia batendo levemente na madeira envelhecida da parede da mansão. Agora a frase que Kadath lhe disse no dia de sua expulsão vagou em sua mente: “Um monstro de verdade, nunca encontrará paz”. E era verdade. Mas será que ele, Enzo Fanning tinha esperanças de conseguir paz em Magic Fells?
Porque afinal ele tivera voltado para o Estado do Kansas?
Ele queria viver uma vida normal, queria ser um humano — coisa que ele não era havia muito tempo. Mas seria impossível. Ele nunca seria aceito. Nunca seria compreendido. Ele era um monstro, e assim como qualquer outro monstro ele deveria morrer.
Alice levantou-se mais cedo que o habitual, a dor em seu estômago do dia anterior havia passado. Ela conseguia ouvir sua tia preparando-se para um banho matinal, e sua irmã Julie continuava dormindo, enrolada como um hamster em sua serragem. Alice caminhou silenciosamente pelo turvo corredor e desceu as escadas, saindo de casa.
A brisa esta manhã estava ótima. Um vento gelado cobria o corpo de Alice, ela estava se sentindo bem. Estava ótima. Mas parou. A casa do Sr. Lyman estava à frente. E se ele a atacasse novamente? Ela se conteve.
Alice começou a caminhar vagarosamente. Uma perna na frente e a outra atrás. Caso o Sr. Lyman surgisse do nada ela conseguiria correr. Mas a velha casa estava silenciosa. E não tinha uma fina faísca de luz no interior. Alice começou a caminhar mais rápido, e mais rápido. Virou a rua, se distanciando de sua casa e da do Sr. Lyman também.
Alice deu uma última olhada para trás enquanto corria, quando se virou novamente, travou. Marcus estava a sua frente. Seu ex–namorado. Seus olhos azuis resplandecentes e seu cabelo preto jogado para frente com um sorriso assustado.
— Oh — ele sussurrou —, me desculpe eu não queria assustá-la.
Alice riu.
— Está tudo bem, Marcus. — o coração dela palpitou. Ele estava lindo. Não existiam dúvidas. Marcus era o menino mais querido do Ensino Médio. Seu cabelo preto era aparado em pontas iguais. Ele tinha uma franja que cobria boa parte de sua sobrancelha.
Marcus gaguejou.
— Você... Quer entrar?
Alice olhou para a hora no relógio.
— Não, vamos indo. — Eles começaram a caminhar, lado a lado sem se tocar ou se falar por um longo tempo. Andavam com o sol iluminando o rosto dos dois. De maneira estranha, os dedos deles se tocaram.
Marcus olhou para Alice.
— Não vai me contar como foram as suas férias?
— Oh, foram maravilhosas — disse Alice —, eu gostei muito de conhecer outro estado. Sabe, sair do Kansas foi realmente prazeroso. — Ela mentiu, tentando usar um tom convincente na voz. — As comidas da Itália são ótimas, as roupas de Paris são lindas. Tudo é perfeito...
Marcus assentiu com um aceno de cabeça.
Alice não iria suportar não perguntar.
— Marcus — ela sussurrou em tom confidencial —, você já viu o aluno novo?
Marcus olhou para ela.
— Enzo Fanning? — ele perguntou.
— Isso.
— Provavelmente. Por quê?
— Eu gostaria de saber, assim... Qual é o tipo de garota que ele prefere?
— Por quê está me perguntando isso? Está interessada nele também?
— Eu? Não! Talvez...
Marcus bufou.
— Marcus, eu estou apenas lhe pedindo um favor...
— Um favor? Estou cansado de seus favores, Alice.
— O que eu fiz?
— O que você fez? Não acha mais prudente perguntar o que você faz?
Alice estava surpresa.
— Marcus... eu não estou entendendo...
— EU É QUEM NÃO ESTOU ENTENDENDO, ALICE — vociferou Marcus —, o que você acha que eu sou? Um fantoche que você pode usar para ter o garoto que quer nas mãos?
Alice estava frustrada. Ela o beliscou no braço.
— Por quê está me tratando assim?
Marcus baixou a cabeça. Os olhos brilhavam de vergonha.
— Me desculpe. Eu não deveria... Eu não devia ter falado...
— Você me magoou.
— Eu sei, eu sinto muito. Mas eu te amo, Alice.
— Marcus, nós só podemos ser amigos, sabe disso.
— Eu sei — ele concordou triste. — Mas sabe que eu não quero te ver sofrer, sabe que mesmo como amigo, me preocupo com você.
— Oh, Marcus, eu não vou sofrer. Juro. Eu apenas estou interessada em saber se o Enzo irá para o Baile dos Recém-Chegados na semana que vem.
— Enzo? — interrompeu Marcus, calmo. — Oh, não, ele não gosta de bailes. Ele disse que não quer se enturmar no momento, que não está a fim de fazer novas amizades no momento.
Alice estava surpresa.
— Marcus, eu sei que você consegue algo quando quer, então, por favor, convença-o de ir ao Baile dos Recém-Chegados, ele precisa estar lá.
Eles estavam se aproximando do grande prédio que era o Joaquim, e ouviram o sinal assim que chegaram ao portão principal. Para a sorte de Alice, o portão estava aberto, o que significava que ela não tivera se atrasado.
Mas tinha outro problema com o portão do Joaquim, as inspetoras que ficavam no portão chamando os alunos para dentro eram impacientes. Quando o alarme toca são exatamente 07h00 da manhã, os alunos têm no máximo 10 minutos de tolerância por atraso. Mas elas não esperam. Quando é mais ou menos 07h05, elas já estão fechando o portão na cara dos alunos que estão entrando.
Elas estavam fazendo isso agora.
De um lado do portão estava uma inspetora de cabelos curtos loiros e cacheados, rechonchuda e com cara de esquilo, ela usava óculos de graus redondos, e os dentes levemente abertos para fora. Ela batia o pezinho — que estava dentro de uma sapatilha florida — impacientemente esperando os alunos entrarem.
— Mas Alice — continuou Marcus depois de um longo tempo em silêncio —, como vou fazer com que um garoto que mal conheço vá para o Baile dos Recém-Chegados?
— Você consegue tá?
Alice plantou um beijo em uma de suas bochechas.
Nesse momento, um motor ronronou no estacionamento da escola. Parecia um tigre caçando uma presa. Alice olhou assim como todos os outros alunos, tinha um carro amarelo parando, andando vagarosamente, procurando por uma parada disponível. Era ele. O coração de Alice palpitou. Saiu do carro vagarosamente, quase dançando enquanto andava. Seus lábios se moviam rapidamente, seus lábios eram perfeitos. Quase desejáveis.
Alice mordeu o lábio para esconder o desejo que acabara de sentir por ele, o portão do estacionamento que levava os alunos para o Pátio estava aberto, e Enzo passou por ele, seus músculos quase estourando em sua camiseta tocou o corpo de Alice e ela desmoronou.
— Marcus, eu tenho que entrar agora...
— Espera, eu vou com você...
— Não! — ela gritou — Olha, faz companhia para a Tinker, ela está vindo aí.
Alice correu, mas parou logo em seguida, atrás de Enzo.
Ele andava tão devagar que quase chegava a ser lento. Alice estava vendo o seu corpo. Ele era forte. Estava usando uma calça que deixava sua bunda levemente arrebitada.
Vai saber ela é assim mesmo, Alice pensou. Um sorriso formou-se em seus lábios com o pensamento. Deus, ele era lindo. E isso era difícil. Alice caminhava pensativa. Pegou o seu celular para disfarçar o porque de estar andando tão lentamente.
Na noite anterior, Alice quase não dormiu. Ela ficou bolando um plano para poder vir falar com Enzo. Mas acabou dormindo em uma de suas ideias. As suas ideias eram loucas. Ela não sabia o que fazer. E vir para a escola, ajudou e muito. Ela poderia pensar no que iria fazer. A escola poderia lhe dar ideias. Quem sabe melhor do que as da noite anterior. A escola não era um local inconveniente, afinal, todos só falavam de uma coisa: Enzo Fanning. As garotas de sua beleza, seu estilo, seu charme, sua sensualidade. Os garotos falavam de seu Camaro.
Quando Alice passou na frente de Enzo, pedindo a Deus que ele a visse, ela foi saudada na porta por um assobio do segundo portão. Dick Donovan e Tyler Fall Segundo estavam lá. Um belo clã de idiotas, Alice pensou, enfurecida. Ela não os suportava. Eles pensavam que por serem do time de futebol da escola, eram os maiores gostosões da escola. Bem, eles eram, até Enzo chegar.
O garoto de cabelo loiro, rostinho angelical e sorriso diabólico era o centro das atenções. Uma mistura repleta de sensualidade. Alice estava louca por ele, assim como todas as outras garotas, e ele teria que escolher entre uma delas.
Alice se agachou e passou seu pó compacto, vagarosamente no rosto. Ele passou novamente, parecendo não a ver e ela umedeceu os lábios, desejando chegar o mais rápido possível perto dele. Falar com ele. Ouvir ele. Sentir ele.
“Alice...” ela o imaginou falando, com a boca levemente curvada, soprando as palavras em seu ouvido. “Alice, eu te amo...”
Chega, ela disse para si mesma. Para de agir como se fosse idiota, pense positivo, idiota. Para quê ficar na imaginação se pode ter o verdadeiro?
Alice se levantou e começou a caminhar pelo Caixote, andando em direção ao corredor de salas, estava chegando à escada circulatória que a levava para o segundo piso, passando por um turvo corredor estreito Alice ouviu um “Olá, Alice” de alguns alunos, em cima de “Bom dia, Alice...”. ela não ligava para nenhum deles, ela queria apenas um. Enzo Fanning. E ele estava caminhando para dentro da sala, sentando-se na primeira fileira de cadeiras.
Alice seguiu para o fundo da sala.
Quando se sentou Alice viu Vanessa surgir na porta da sala. Estava usando um short jeans rasgado e uma camiseta preta com uma caveira bordada no meio. Seus cachos marrons estavam molhados. Ela estava com a boca torcida em reprovação.
Vanessa se aproximou de Alice, estendeu seu celular para cima e deu um close na mensagem:
Vanessa, sou eu, Alice, passa na minha casa para irmos juntas para a escola amanhã? Beijos ;*
Ela tivera mandado uma mensagem ontem para Vanessa e havia se esquecido completamente de esperá-la hoje de manhã. Alice estava vermelha. Ela pôs a mão no rosto, como quem estivesse se sentindo mal.
— Me desculpa, Vanessa — ela disse —, eu... eu... não sei nem o que dizer. Esqueci completamente.
Vanessa se sentou na cadeira da frente, com um sorriso.
— Tudo bem.
Alice sorriu, timidamente.
— E então — continuou Vanessa —, o que achou do aluno novo?
— Ele é um gato — Alice disse, mordendo o lábio e olhando para a cabeleira loura na primeira fila. — E eu vou tê-lo.
Vanessa arregalou os olhos.
— Uh-Uh — disse ela —, Alice está pronta para dar o bote.
Alice deu uma gargalhada.
— Mas e então, tem algo para, fisgar o garoto? — Vanessa perguntou enquanto fazia o movimento de uma cobra pegando a presa em cima da mesa.
— Estive bolando alguns na noite passada — disse Alice.
— E conseguiu pôr um em prática?
Alice arqueou a sobrancelha.
— Qual é? — disse Vanessa —, sou sua amiga. Afinal, nem teria chance. Ninguém gosta de uma africana roqueira.
— Feiticeira — disse uma voz, Alice olhou sorrindo para a menina a sua frente. Meredith. — Depois que apareceu com aquele livrinho sua reputação está manchada.
Alice abafou uma risadinha.
— O que faz aqui? — perguntou Vanessa.
— Eu consegui falar com a diretora, e ela permitiu que eu trocasse de sala. Acho que a Sra. Halpern terá que fazer melhor que isso, ou irá enfartar quando me vê aqui.
A professora Sophia entrou na sala, suas roupas de hoje eram roxas e não rosas. Tinha um cabelo dourado preso para cima num círculo de fios cabeludos. Um chapéu com um véu roxo cobrindo boa parte do rosto. Suas pernas gordas estavam tremendo e tinha algumas varizes ao redor da perna. Ela soltou seu típico sorriso infantil.
— Bom dia classe, queira me acompanhar, por favor.
Todos se levantaram das cadeiras e caminharam para fora, desceram a escada circulatória e entraram na sala de vídeo que ficava no corredor da secretaria. Tinha cadeiras por toda a sala. Era um local grande com uma grande TV de plasma na parede de frente as cadeiras.
A professora Sophia pôs para dentro do leitor de DVD’s um filme. Segurou o controle remoto e ligou a TV, um som começou a tocar, porém, não tinha imagem.
Ela pausou o filme.
Alguns garotos que estavam atrás, fazendo seus barulhinhos irritantes, pararam quando a professora os fuzilara com os olhos.
— Pois bem — ela disse com sua voz infantil e sua cara de hamster —, como prometido, hoje irei passar o filme Tempos Modernos do Charlie Chaplin.
Alguns garotos deram: vivas.
— Mas se alguém interromper eu paro o filme e terão que fazer um trabalho de 15 páginas sobre o filme que vocês NÃO VIRAM — ela bracejou, mas sua voz continuava infantil. Os alunos se aquietaram. — Ótimo.
Ela apertou o Play.
Uma hora depois o filme tivera acabado, e a professora Sophia estava dispensando todos os alunos de volta para a sala. Quando Alice se levantou para sair da sala de vídeo, notou que Enzo tivera ficado a apenas uma cadeira de distância.
Ela acabara de notar que seus olhos eram verdes.
Ela começou a caminhar, parecendo exaltada e confusa. O que ela queria realmente era falar com ele. Ver ele. Olhar nos olhos dele e dizer o que sentia. Ele estava de cabeça baixa, nem pareceu tê-la visto. Suas mãos se esticaram, pronta para tocar o braço forte dele.
Ela teria coragem? Alice olhou ao redor. Tinker estava olhando de longe, como se tivesse com ciúmes. Seus cabelos castanhos enrolados cobriam seu rosto. Ela viu um sorriso no rosto de Tinker que parecia dizer: “Covarde! Vai, toca no braço dele, você não é capaz?”.
Mesmo sendo na mente de Alice, Tinker tinha razão de certa forma.
Ela esticou o braço mais uma vez. Tremendo. E se ele a humilhasse? Tratasse mal? Ela não resistiria. Seus dedos estavam mais próximos. Levemente, seus dedos tocaram a pele dele e ela sentia que era gelada.
Mas tudo aconteceu muito rápido, ela sentiu algo quente queimar a ponta dos dedos, e depois, Alice jurara ter tomado um choque. Enzo ergueu a cabeça como quem estivera surpreso. Ele olhou para ela, e seus olhos verdes se arregalaram. O que tivera acontecido ali? Alice não fazia ideia.
Enzo se levantou como se tivesse assustado. Ela não sabia o que tivera feito. Ele parecia estar olhando além dela, para dentro dela. Como se pudesse ver o que tinha em seu interior. Em sua alma.
— Oi — ela sussurrou, o pânico tomando-a —, meu nome é Alice Curie e eu estou aqui para...
— Desculpe — ele disse —, não tenho tempo agora. — e saiu.
Alice sentiu seu corpo se desfalecer. Ela engoliu em seco. Ela não tivera entendido nada. Ela sentiu um fogo queimar em sua garganta, e ela queria gritar enquanto via-o passando pela porta e sumindo no aglomerado de alunos. Tinker estava sorrindo cruelmente. Ela não ficaria ali nem mais um minuto. Ela virou-se e começou a andar para fora da sala.
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