Condenados ao Inferno e a Tábua dos Anjos
10 10. Marcada
Alice acordou com a luz do sol forte entrando por uma grande janela de vidro em uma das paredes do grande quarto. Era um quarto com as paredes revestidas de madeira, era tudo tão lindo. E de certa forma, aconchegante. Alice levantou metade do corpo e viu que o espaço da cama ao seu lado estava vazio. Primeiro ela quis gritar o nome dele, mas achou melhor não. Ela se levantou da cama e começou a andar pelo quarto.
Tudo estava tão lindo. E arrumado. Quando vira aqui da última vez — quando Enzo tivera contado seu segredo — tudo estava bagunçado por causa da briga que Enzo teve para beber o sangue de um Arimân — um tipo de anjo expulso do céu que vaga pela terra e seu sangue é muito poderoso para querubins.
Mas agora, tudo estava arrumado. Os livros de história dos anos antigos estavam posicionados na prateleira, as roupas todas empilhadas no guarda-roupa e os lençóis colocados num pequeno baú ao lado da cômoda. Alice tocava cada objeto vagarosamente. Só então percebeu que estava nua, e que só o que cobria seu corpo branco era uma camiseta xadrez que chegava quase na metade da coxa.
Alice parou de relance. Ela ouviu passos na escada. Ela voltou para a cama. Depois de alguns segundos a porta se abriu. Era ele. Enzo Fanning estava somente de cueca, expondo seus músculos cruéis e excitantes. O cabelo louro espalhado ao redor da cabeça, ele deitou-se ao lado de Alice, apertando-a contra ele, os braços fortes ao redor dos seios, amassando-os.
Alice bufou, virou-se para ele espreguiçando-se e então ele a beijou. Um beijo quente, os lábios estavam irresistíveis, nada poderia atrapalhar aquele momento. Ela o queria para sempre. Queria pertencer a ele. As mãos dela tocaram gentilmente a nuca de Enzo e o puxou para mais próxima de si.
— Bom dia — ele falou, quando se desfez do beijo, sua voz era suave, tranquilizante e de certa forma, apaixonante. Alice respondeu o bom dia com outro beijo. Eles estavam felizes juntos, qualquer um poderia notar.
— Que horas são? — ela perguntou estupidamente, como se não soubesse. Mas a verdade era que ela não sabia e estava de certa forma atormentada. Quando estava com Enzo, nada ruim parecia lhe acontecer. Ela não tivera tido mais pesadelos com o Príncipe-Negro e Steven ainda não tivera traçado seu ataque.
Ele estava olhando nos bolsos da calça jogado ao lado da cama. Dentro dele tinha um relógio de bolso, revestido com o que parecia ouro, com os ponteiros do relógio feitos de diamante. O relógio marcava “05h30” e antes que ele pudesse dizer, ela acenou com a cabeça para mostrar que já sabia.
Alice se levantou, se desfazendo do abraço, do beijo e do membro enorme que estava entre suas pernas. Ela se ergueu e caminhou em direção ao alto espelho vitoriano. Era um espelho luxuoso, laqueado na cor preta cadilac, tinha a moldura em resina laqueada, com uma pintura em alto brilho. Alice vestiu um short branco que estava em sua bolsa ela não fazia ideia desde quando, colocou um top rosa bebê e amarrou o longo cabelo negro numa fitinha amarelada.
Alice olhou para trás e lá estava ele, de jeans e camiseta. Ela nem ao menos o viu se vestir, estava tão preocupada com o bilhete do restaurante, do que ela acabara de fazer: criar uma guerra entre os seres sobrenaturais e ela. Ela caminhou até ele, deu mais um beijo e os dois saíram. Ela estava numa mansão. Saiu e de frente se deparou com o Camaro. Ela não se lembra do camaro, e isso foi surpreendente. A cada minuto ao lado de Enzo, ela se surpreendia mais.
— Vamos aproveitar — ele disse com um sorriso abrindo a porta do camaro e fazendo Alice entrar, e depois terminou dizendo: — Enquanto ainda temos paz.
Alice entendeu, ele estava falando de Steven. E de todos os outros.
Ela engoliu em seco enquanto entrava no grande carro reluzente. Enzo deu a volta e entrou no carro, torcendo a chave na ignição.
Depois de um momento, Alice perguntou:
— Enzo, como... Steven, é?
Enzo suspirou, como se não quisesse responder. Mas depois de um longo tempo em silêncio, ele disse:
— Ele tem uma imensa cabeleira negra. Tem ombros largos, os olhos azuis, uma boca... Que me assusta, e é bonito. Isso não se pode negar. E suas asas são negras.
Alice sentiu seu coração parar. Seus olhos se arregalaram e ela se jogou contra a frente do carro. Ela quase desmaiou. Steven era... era... Alice não conseguia acreditar. Ela quase sentiu seu corpo se desfalecer. Ele era... Steven era o Príncipe-Negro. Ela não sabia como... Mas ele era.
— Enzo, anjos podem entrar na mente de humanos e fazê-los sonhar consigo?
— Sim. Mas nenhum anjo faz isso, eles não iriam se expor. Eles sabem que podem por em risco nossos segredos. — depois de ver a expressão no rosto de Alice, ele acrescentou: — Por quê?
— Porque acho que Steven estava nos meus sonhos.
Enzo deu uma gargalhada, como se isso fosse a maior idiotice que Alice pudesse dizer sobre Steven.
— Alice, Steven nunca poderia estar fazendo isso.
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque eu o conheço. Há mais de mil séculos. Eu sei como ele pensa, eu sei como ele age, e isso não é coisa que Steven faça.
— Mas eu o tenho visto em meus sonhos. Ou em meus pesadelos. Como você me explicaria isso?
— Não sei — ele disse —, talvez um tipo de contato que você tem com os seres sobrenaturais.
— Isso é possível?
— Sim. Não é só possível, como pode estar acontecendo com você. Sabe, algumas pessoas quando ficam muito próximas de coisas sobrenaturais, acabam sugando aquelas energias e isso faz com que elas possam ver e presenciar coisas que humanos normais e longe dessas energias não consiga.
Alice não disse nada.
— Agora, me explique sobre seus sonhos.
Alice contou a ele sobre o sonho que tivera tido no primeiro dia de aula, há algumas semanas, contou também como ele a segurava, disse suas características físicas, como as asas negras. E como ele a jogou do alto.
Depois de um minuto, Enzo assentiu.
Quando pararam na frente da escola, ele se inclinou para pegar o rosto de Alice com as duas mãos. Ele a segurou cuidadosamente, pressionando só a ponta dos dedos levemente em suas têmporas, enquanto todos a sua volta olhavam para eles. Ninguém parecia ter se acostumado com o novo casal do Joaquim Moreira Bernardes. Todos exceto Tinker.
Ela parecia não ver graça. Como se os dois a enojassem. Ela fez um sinal de quem ia vomitar quando Alice saiu do carro. Ela a ignorou.
Ele a segurou pela cintura, deixando-a mais próxima dele. Ela sentiu o doce hálito dele quando ele sussurrou:
— Tenho algo para te mostrar.
— Então mostre.
Ele tirou de um dos bolsos de sua mochila, um livro. Parecia velho, com uma capa marrom de couro. Estava caindo aos pedaços. E Alice mal pode segurá-lo com medo de que ele se desfizesse em suas mãos.
— O que é isso? — ela perguntou.
— Abra-o e você verá.
Alice abriu as páginas delicadamente, na primeira folha em branco tinha o nome em negrito e destacado no meio da folha: “Necronomicon – O livro dos Mortos”. Alice olhou incrédula para Enzo.
— Continuo sem entender.
— Leia o primeiro capítulo, irá entender. Se mesmo depois de ler, não entender, eu explicarei. — Alice abriu a folha que dizia ser o começo do livro.
I — Dos Antigos e sua descendência.
“Os Antigos foram, são e serão.
Assim que ler esse livro, você perderá algo, algo que vai além da compreensão, e quando perdê-la não terá volta, estará marcada...
Das estrelas obscuras vieram até onde o Homem teria nascido, invisíveis e repugnantes. Desceram sobre a Terra primitiva.
Sob os oceanos permaneceram em latência durante as eras, até que os mares se retiraram. Reproduziram-se rapidamente depois e nesta multidão começaram a reinar sobre a Terra.
Sobre os pólos gelados edificaram poderosas cidades e nas altura os templos daqueles que a natureza não reconhece e os deuses amaldiçoaram.
E sua descendência invadiu a Terra e seus filhos sofreram durante as eras. Construíram com suas mãos os colmados (shantaks) de Leng; e as entidades aterradoras que permaneciam nas abóbadas primitivas de Zin os reconheciam como seus deuses. Engendraram o Ha-hag e as Entidades Lúgubres que reinam sobre a Noite. O Grande Cthulhu é seu irmão, os shaggoths hirsutos, seus escravos. Os dholes prestaram-lhes homenagem à noite no vale Pnoth e Gugs entoa-lhes suas loas sob os cimos da antiga Throk. Caminharam no meio das estrelas e percorreram a terra. A cidade de Irem no
grande deserto conheceu-os; Leng viu-os passar no Deserto Gelado e a Cidadela sem idade construída sobre as alturas coroadas pelas nuvens de Kadath. O desconhecido traz sua marca. Os Antigos avidamente oprimiram os caminhos das trevas e suas blasfêmias inundaram a terra, a criação inteira inclinou-se diante de sua potência e reconheceu sua perversidade. E os deuses mais antigos abriram os olhos e constataram as abominações daqueles que assolavam a Terra. Em sua cólera, voltaram-se contra os Antigos, que permaneceram em sua injustiça, e os expulsaram da terra para o vazio dos espaços onde reina o caos e que não abrigam qualquer forma. E os deuses mais antigos apuseram seu emblema sobre o Grande Pórtico e os Antigos foram impotentes contra sua potência.
Então, o apavorante Cthulhu surgiu das profundezas e enfureceu-se contra os Guardiães da Terra. Eles ataram suas garras venenosas por meio de poderosas imprecações e o encerraram na cidade de R´lyeh onde, oculto, sob as ondas, dormirá e sonhará com a morte até o fim dos tempos.
E atrás desse Pórtico vivem atualmente os Antigos, não em espaços conhecidos pelos homens, mas os espaços que os separam. Vagueiam além das esferas celestes e esperam, sempre, o momento do retorno. Pois a Terra conheceu-os e os conhece para sempre. Esses antigos têm Azathoth como seu senhor, o louco informe, e permanecem com ele na caverna negra situada no centro do infinito. É ali que ele devora vorazmente, num caos total, em meio ao rufar demente de tambores ocultos, o som dissonante de hórridas flautas e o uivar incessante de deuses cegos e idiotas que subsistem e gesticulam sem objetivo pela eternidade. A alma de Azathoth se encontra em Yog-Sothoth e assinalará aos Antigos quando as estrelas indicarem que chegou o momento do retorno. Pois Yog-Sothoth é o pórtico pelo qual passarão aqueles que povoam o vazio quando retornarem. Yog-Sothoth conhece os meandros do tempo, pois o Tempo é Um para ele. Sabe de onde os Antigos provêm, em tempos recuados; sabe de onde sairão quando o ciclo recomeçar.
Depois do dia vem a noite. O tempo dos homens passará e os Antigos retornarão de onde vieram. Saber-se-á, então, que nada mais eram que impureza e, malditos, terão conspurcado a terra. ”
Depois que parou, ela olhou para Enzo.
— O que tudo isso significa?
— É a história dos Sangues-Impuros. Eles eram e são conhecidos como os Antigos. Decore bem esses nomes, Alice. Eles são os mais perigosos. Claro, que, Kadath já foi derrotado.
Imediatamente, Alice sentiu os lábios gelados dele tocar os dela. E fixar nele por um longo tempo. Depois, com as mãos gentis, mas de uma forma irresistível, ele afastou o rosto dela. Alice sentiu seu corpo se demolir.
— Ooooops — ela disse.
— Isso é uma forma de se declarar?
Seus olhos estavam selvagens, sua mandíbula estava fechada com uma força aguda, mas nem isso modificou suas feições perfeitas. Ele segurou seu rosto a apenas alguns centímetros do seu. Ele a fascinou com seus olhos.
— Será que eu posso...? — Alice tentou se soltar, pra dar um pouco de espaço pra ele.
As mãos dele não permitiram que ela se movesse nem um centímetro.
— Não. Isso é intolerável. Espere um momento, por favor. — Sua voz estava educada, controlada.
Alice manteve seus olhos nos dele, observava enquanto a excitação neles se esvaia e eles ficavam gentis.
Então ele deu um sorriso surpreendentemente travesso.
— Pronto — ele disse, obviamente satisfeito consigo mesmo.
— Tolerável? — ela perguntou.
Ele riu alto.
— Eu sou mais forte do que pensava. É bom saber.
— Eu queria poder dizer o mesmo. Me desculpe.
— Você é apenas humana, no final das contas.
— Muito obrigada. Mas como você disse, uma que tem poderes como entrar na mente de um anjo. — ela disse.
Com um dos seus movimentos leves, quase invisíveis, ele ficou de pé. Ele segurou sua mão para Alice, um gesto inesperado.
Ela estava muito acostumada ao tratamento cuidadoso do não-toque.
Ela segurou sua mão gelada, precisando mais de apoio do que ela esperava.
Seu equilíbrio ainda não havia voltado.
— Você ainda está tonta pela corrida? Ou foi minha habilidade com beijos? Ou o livro?
Como ele pareceu frívolo, humano quando riu agora. Seu rosto angelical estava sem preocupações. Era um Enzo diferente do que ela conhecera. E Alice se sentia muito mais atraída a ele.
Se separar dele agora teria causado-a dor física.
— Eu não tenho certeza, eu ainda estou lerda — ela coseguiu responder.
— Porém, eu acho que é um pouco dos dois.
— Talvez você devesse faltar hoje.
— Você está louco? — Alice protestou.
— Você não pareceu muito bem.
— Eu vou melhorar. Confie em mim. Foi apenas uma tontura passageira.
— Um pouco de verdade, Alice, por favor.
A mão de Alice estava no bolso dele, apertando a chave da mansão, e sentindo a tensão nos olhos dele. Depois ela disse:
— Não. Sem chance.
Ele ergueu as sobrancelhas sem acreditar.
Ela começou a andar, passando por ele, indo em direção a escola, o prédio azul que era o Joaquim, depois de um tempo, ele começou a acompanhá-la, e pôs suas mãos em volta da cintura dela.
— Alice, eu já gastei um bocado de esforço até esse ponto, pra manter você viva. Eu não vou deixar você ficar passando mal na escola, sem nem se aguentar em pé direito. Além do mais, amigos não deixam amigos dirigir quando estão bêbados. — Ele citou com uma gargalhada.
Ela podia sentir a doçura do perfume que exalava do peito dele.
— Bêbada? — Alice perguntou.
— Você está intoxicada com a minha presença. — Ele estava dando aquele sorriso zombeteiro de novo.
— Eu não posso discutir com isso — ela suspirou. Não havia volta; ela não conseguia resistir a ele de forma nenhuma. Ela entrou e se sentou em um dos bancos de cimento no Caixote.
— Pegue, me leve nos braços para a sala como uma velha.
— Muito sensível — ele aprovou.
— E você não está nem um pouco afetado? — ela perguntou, aborrecida. — Pela minha presença?
De novo as suas feições se transformaram, sua expressão ficou suave, aconchegante. Ele não respondeu de primeira; ele simplesmente aproximou seu rosto do de Alice e passou os lábios lentamente pela sua mandíbula, da sua orelha até o queixo, pra frente e pra trás.
Alice tremeu.
— Sem dúvida — ele finalmente disse. — Eu tenho reflexos melhores.
A inspetora nova chegou ao Caixote, colocando todos os alunos para dentro das salas. Alice e Enzo começaram a caminhar antes que ela os fizesse irem para a sala na base do grito.
Enquanto davam a volta na escada circulatória, Alice olhou para Enzo.
— Enzo — ela disse calma —, existe coisas como... Vampiros?
Ele fez uma pausa, como se estivesse pensando.
— Sim — ele disse — não que eu já tenha visto. Mas já ouvi boatos.
— E como eles são?
— Horríveis. Não é como nas histórias de amor, Alice. Eles são assustadores. Criaturas horrendas, vindas dos lugares mais sombrios do inferno. Bebedores de sangue, só isso.
— Mas eles não têm aquelas presas para furar pescoço...?
— Sim, só que em todos os dentes. São afiados como uma navalha, e o sangue que bebem levam como oferenda para os Sangues-Impuros.
Alice sentiu sua carne se arrepiar.
Eles chegaram à sala, e o professor Ed, estava na sala. Ele era o professor de Educação Física. Tinha acabado de mandar os alunos descerem para a quadra, pois todos estavam descendo. Alice só teve tempo de colocar a mochila na mesa e voltou a descer as escadas com a mão de Enzo entrelaçada na sua.
A quadra era uma área plana, com uma quadra enorme de um lado, e bancos como se fossem feitos para uma platéia ver um jogo de futebol. Ela sentou-se e ficou com a cabeça repousada no ombro de Enzo. Era macio de certa forma.
— O que você acha do tempo? — ela perguntou.
Enzo suspirou.
— Vejo essas passagens de tempo, há séculos. Não vejo nada mudar. É um ciclo sem fim. Sempre acaba voltando para o mesmo lugar: o começo. E isso cansa, de certa forma.
— Enzo, você já foi humano?
— Sim.
— E como virou um... O que você é hoje.
— Bem, eu não fui um humano de verdade. Mas quase cheguei a ser. Tudo começa assim: A mulher designada para ser minha mãe já estava grávida. Era um milagre, ela e o que iria ser o meu pai, queriam um filho há muitos anos. Ela ficou feliz quando percebeu que estava grávida, avisou a todos da aldeia, se divertiu contando aos familiares. Mas a sua vizinha era estérea e quando soube da noticia se enraiveceu e se virou contra a minha — ou que ia ser — família. Ela era uma bruxa. Fez um tipo de sacrifício ao deus Lúcifer e seu braço direito, Kadath veio para receber a oferta. Minha mãe perdeu o filho, mas Lúcifer não conseguiu a alma da criança, pois meus pais eram devotos a Deus, sendo assim, quando morri virei um querubim.
— Mas o que aconteceu? Para... você cair?
— Eu estava andando pelo céu, por ser um querubim tinha acesso a um local onde só os querubins poderiam ir: A visão Celestial, que é o local onde podemos ver o que os humanos fazem na terra. Afinal somos querubins, e querubins, são designados por Deus para guardar o caminho para a Árvore da Vida, ao oriente do Jardim do Éden, armados com espadas flamejantes. Então Deus nos deu uma missão: A Tábua dos Anjos, tínhamos que consegui-la ou seria o fim de tudo. E Kab a achou. E eu a achei. E tudo mudou. — Alice ficou encarando ele, enquanto ele estava em silêncio. — Eu a amei — ele sussurrou e o rosto de Alice se toldou. — Eu te amo Alice. Mas se quer ficar comigo terá que ir além das suas expectativas. Terá que viver fugindo, para sempre... ao meu lado.
— E jamais pararíamos?
— Não. Esse é o assombro, Alice — ele a olhou com uma tristeza infantil. — Um amor entre um anjo e uma humana é impossível. Eles nunca aprovariam. Eles nunca permitiriam tais coisas. Tais atos. E eles não iriam deixar-nos juntos. Nunca. Será que pode imaginar?
Ela não conseguia imaginar. Mas também não conseguia imaginar alguém como Enzo em apenas um lugar, sentando para sempre, envelhecendo e tendo filhos, e sendo paternal, ela não conseguia ver esse lado. Porque afinal, não existia.
— Mas no inicio, quando não conhecia Kab e não era apaixonado por ela, o que pretendia fazer?
— No inicio, teríamos que matar a pessoa que estava com a Tábua dos Anjos, pois se esse segredo caísse em mãos erradas, acredite, poderia ser o fim da humanidade. — ele soprava as palavras de certa forma, assustadora.
Alice estremeceu com a resposta.
— E Kadath? O que houve com ele?
Enzo bufou.
— Kadath quis vingança, quando não conseguiu a minha alma, Lúcifer ficou furioso, a bruxa os enganara de uma forma infantil, Kadath matou a bruxa e sacrificou sua alma num dos altares do inferno, no templo da Meia-Noite, a arrastou para a Terra Vermelha, e ela sofre por sua brincadeira com o Rei do Inferno até hoje. — Enzo parou por um minuto, se concentrou em algo. — Eu ainda posso ouvi-la gritando. Ela implora por ajuda. Ela implora por perdão... Claro que não posso ajudá-la mesmo querendo. Minha mãe morreu de depressão após a perda do filho. Meu pai acabou preso depois de se vingar da bruxa matando seus filhos, e Kadath — ele parou, baixou a cabeça até que os cílios repousassem na bochecha — Eu mesmo cuidei de destruí-lo, sendo assim, sendo odiado pelos seus fiéis.
O sinal tocou. O professor Ed saiu de sua cabine e começou a mandar os alunos de volta para suas salas. Enzo se levantou, mas Alice não queria subir agora.
— Eu preciso falar com o professor sobre as minhas notas — ela mentiu. Estava pedindo que Enzo não lesse sua mente. Ela não queria deixá-lo sozinho com Tinker, mas precisava respirar um pouco. Sozinha.
— Tudo bem — Enzo disse desconfiado. Ele parecia querer ler a mente de Alice, então ela começou a pensar nas notas e ele começou a andar junto com a multidão de alunos para fora da sala.
Depois que o professor tivera ido embora da quadra, Alice saiu de seu esconderijo. Ela estava sozinha. Pronta para descansar. Ela deitou no grande ginásio e sentiu o sol tocar seu corpo. Era prazeroso.
Mas algo estranho aconteceu. Alice se levantou, um vento gelado começou a encher o ginásio. Fazendo Alice se arrepiar. Era uma ventania forte, o sol se escondeu nas nuvens e Alice viu o tempo fechar. Agora, Alice se levantava vagarosamente do chão e seu plano era sair da quadra.
Ao redor da escola, as plantas soltavam folhas secas que se espalhavam com a ventania. Alice estava com medo. Um pedaço de pano voou até seu pé, parecendo um pedaço de pele. Alice estava com medo agora.
Ela se virou e congelou.
Ele estava logo atrás dela, tão perto que ela conseguia ver o brilho de seus dentes. A boca estava aberta num sorriso. Ela sentiu o seu calor. O que era estranho, pessoas como ele, não tinha calor. Eram frios. Ela não tinha certeza, mas sabia quem ele era.
Sua boca se abriu com as palavras:
— Steven.
Uma linha apareceu entre as sobrancelhas dele.
— Não é tão burra quanto eu achei. — Ele falou ironicamente. Ele era mais lindo do que na descrição de Enzo. Forte. Mas Alice não estava gostando dele. Ela deu um passo atrás.
Ele estava vestido como no seu sonho, com roupas pretas. Ele parecia mais feliz hoje. Alice estava com medo. O que era estranho, ele não faria nada para ela ali. Não agora. Estava vestindo roupas pretas. Suaves botas pretas, com uma calça jeans preta e uma jaqueta de couro preta. Seus olhos azuis eram cruéis.
— O que você quer aqui?
Ele deu uma gargalhada assustadora.
— Não sabia que te devia explicações — Alice sentiu seu rosto corar. — Por enquanto — continuou ele — nada. Vim apenas dar os parabéns por ter assinado sua sentença de morte, dormindo com o meu ex-irmão.
Ele abriu um sorriso.
Alice ficou em silêncio. Ela sentiu sua alma gritar dento dela. Ele sabia, ele estava observando os dois em sua noite de amor. Onde um se entregava ao outro.
— Tenho que admirar sua coragem. Enfrentar as forças do Céu não é para todos. Nem eu tenho tanta coragem.
Agora, tudo ficou silencioso por um longo momento. Parecia que tudo tinha passado, as folhas pararam de voar e o vento se acalmara. O sol surgia novamente de dentro das nuvens.
— O que você quer?
— Acabei de dizer que vim dar os parabéns.
Ele deu uma risada aguda.
Alice caminhou até ele e lhe deu uma tapa.
Ela não tivera pensado até aquele momento, mas a tapa foi forte. Ele virou o rosto para o lado com a força. Ela caminhou para trás, assustada. Ela agora irritara não somente o céu, mas um anjo maligno-caído.
Ele sorriu.
— Acha que vou te machucar?
Alice ficou em silêncio. Mas tudo pareceu piorar. Alice cambaleou para trás, tropeçando, assustada. Tudo estava girando. Sua mente dava solavancos e ela caiu no chão. A grama era bem verde.
Gradualmente, contudo, seu sorriso dissipou, e a queda dela ficou lenta. Por fim ela ficou sem se mover no círculo dos braços dele. Os olhos escuros dele não estavam mais divertidos, mas ferozes e esquentados. Ela olhou para ele sobriamente, sem medo. E então pela primeira vez ela sentiu como se estivesse sonhando; era como estar em um lugar só seu. Que só eles sentissem, sem que ninguém pudesse atrapalhar.
Os dedos dela estavam descansando na grama, prendendo os cotovelos no chão. Preguiçosamente, ela moveu-os pelos suaves fios verdes. O chão era como veludo, quente e vivo debaixo dos dedos dela. Quando ela abriu seus olhos um pouquinho, ela viu que ele refletia arco-íris na luz de vela. Vermelho e azul e roxo, bem como ― bem como penas… Então tudo se desmoronou...
Houve uma dor repentina em sua garganta, como se sua alma estivesse sendo arrancada dela. Ela estava empurrando Steven, arranhando-o, tentando forçá-lo a se afastar. Gritos ecoaram nos ouvidos dela. Steven estava lutando com ela, mas não era Steven; era uma multidão. Muitos alunos estavam tentando segurar Alice e fazê-la parar de se contorcer.
E agora enquanto seus olhos se fechavam ela via asas negras atrás da cabeça de alguém que pareceia... Enzo... Ela viu pessoas e viu Tinker com um sorriso nos lábios abraçando um garoto de cabelos longos e negros com asas negras aveludadas...
Príncipe-negro...
E seus olhinhos começaram a se fechar.
Os olhos dela estavam abertos.
Ela estava acordada e gritando. O ginásio se fora, e ela estava em um quarto escurecido. Mas o pesadelo tinha seguido-a. Mesmo quando ela alcançava a luz, vinha até ela novamente, asas batendo em seu rosto, unhas afiadas mergulhando até ela.
Alice golpeou-o, uma mão lançando-se para proteger seus olhos. Ela ainda estava gritando. Ela não conseguia fugir disso, aquelas asas terríveis continuavam batendo freneticamente, com um som como o de mil maços de cartas sendo embaralhados ao mesmo tempo.
A porta abriu de supetão, e ela ouviu gritos. O corpo quente e pesado de um demônio golpeou-a e seus gritos ficaram mais altos. Então alguém estava puxando-a, agitando-a e ela não sabia quem. Agora ela podia sentir algo quente escorrer sobre seu rosto e percebeu que era saliva. Ela estava babando. Não. Ela estava espumando como um cão raivoso. E ela nem conseguia
— Alice! Alice! — ela ouvia gritos ao seu lado, mas não conseguia responder.
Ela viu Steven se aproximar, como um fantasma. Suas mãos tocaram os seios de Alice, mas não como um toque sensual, era como uma marca. Ela gritou de dor, ela sentiu uma picada causticante e sentiu seu peito se estourar e seus pulmões queimarem. Isso mesmo, Alice estava queimando. Ela sentiu o fogo encher seu corpo de chamas.
Ela viu Tinker novamente. Estava dando altas gargalhadas. E mesmo não saindo voz de sua boca naquele momento o que ela queria dizer era “O que vocês estão fazendo que não veem ela zombando de mim?”. Nesse momento a mão de Tinker deslizou pelo corpo do Príncipe-Negro — Steven — que estava com um sorriso cruel no rosto. Sua mão desceu pela barriga que estava aberta, descendo até a borda da calça, onde ela enfiou a mão para dentro, em direção onde estava o membro dele.
E ele gemeu.
Tinker sorriu novamente, enquanto Alice gritava sem sair nenhum som. Depois disso, Alice viu Tinker se ajoelhar enquanto o Príncipe-Negro — Steven — abria a calça e a multidão os cobria.
O que vocês estão fazendo que não a veem?, Ela gritou sem som. Estava gritando em sua mente. E Enzo como se estivesse lido seus pensamentos olhou para os lados, espantados, mas pareceu não a ver.
— Alice — ele disse, preocupado, segurando o corpo dela em seu colo. — Alice! Não tem ninguém aqui. — ele terminou e todos o olhavam sem entender. — Ninguém vai ter fazer mal meu amor.
Alice agora sentia lábios gelados tocarem sua testa.
Mas em sua mente ela ainda ouvia as risadas de Tinker, e com a visão um pouco embaçada ela viu a boca de Tinker tocar o membro do Príncipe-Negro enquanto ele arfava de prazer.
Ela viu Steven abrir grandes asas negras e sair voando. Depois ela não viu mais Tinker.
Uma lágrima caiu de seus olhos e Alice desmaiou.
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