Condenados ao Inferno e a Tábua dos Anjos
1 1. Sonhos Terríveis
Notas iniciais
Este livro é dedicado a Andrew Feltrin; obrigado por me manter longe do abismo e a Gaby, que ouviu à história primeiro. E obrigado também a minha banda favorita Life House por fazerem músicas tão inspiradoras.
Alice Curie pisou em uma vastidão de grama lisa, as lâminas esponjosas entrando em colapso sob seus pés. Aglomerados de rosas vermelhas cresciam a partir do chão, enquanto um dossel gigante pendurava-se acima dela, com cintilantes lanternas brilhantes. No terraço à sua frente estavam duas fontes de mármore que disparavam jatos de água para o alto. Tudo era bonito, elegante e, de certa forma, familiar.
Claro, era o Cemitério Land of Rest. O cemitério da cidade. As plantas verdes bem cultivadas iluminava a terra. Alice caminhou por entre as lápides cinzentas chegando a uma pequena fonte de água com estátuas escuras e manchadas.
Ao lado do cemitério, existia uma casa. Era velha. Os habitantes de Magic Fells continuavam a chamá-la de "Cemitério dos Fall", ainda que já fizesse muitos anos desde que a família Fall morrera naquele terreno. O cemitério ficava em um morro com vista para o povoado, algumas janelas pregadas, telhas faltando e a relva se espalhando livremente pela fachada.
Outrora uma bela casa senhorial, e, sem favor algum, a construção maior e mais imponente de toda a redondeza, a Casa que hoje se chama o Cemitério dos Fall agora estava úmida, em ruínas, e desocupada.
As pessoas do local concordavam que a velha casa dava arrepios. Há quase um século antes uma coisa estranha e terrível acontecera ali, uma coisa que os antigos habitantes do povoado ainda gostavam de discutir quando faltava assunto para fofocas. A história fora reinventada tantas vezes e aumentada em tantos pontos, que ninguém mais sabia onde estava a verdade. Todas as versões, porém, começavam no mesmo ponto: sessenta anos antes, ao amanhecer de uma bela manhã de verão, quando a casa dos Fall ainda era bem cuidada e imponente, e ainda era a Casa dos Fall, uma empregada entrou na sala de estar e encontrou os cinco Fall mortos.
A empregada saiu correndo morro abaixo, aos berros, até o povoado, e acordou o maior número possível de pessoas. Ela gritava: “Mortos! Todos mortos”. Acordou os vizinhos, e na cidade tudo que se falavam era nisso. Mas Alice não entendia o que ela estava fazendo ali, até onde lembrava tinha se deitado para dormir e... Acreditava que tivera conseguido.
Mas é claro, ela pensou quase gritando. Isso é um sonho.
Um sonho pensou ela novamente. Em que se é perseguida por pesadelos pessoais. Ela olhou para trás, e viu botas pretas, botas monstruosamente pretas — que chegavam a brilhar, e uma sombra — a mesma sombra familiar que lhe lembrava de alguém... Alguém que se encontrava distante de sua memória, mas que ela conhecia muito bem...
Alice tentou não olhar para trás, lágrimas caindo em seu casaco de pele branco. O vento soprava selvagemente e lançava fortes chicotadas de vento contra seu rosto. Alice passou a mão no rosto. Era agora. O momento que ela tivera esperado. O momento que ela tivera guardado durante tanto tempo. Há algumas semanas, Alice tivera tido esse mesmo sonho, alguém invadia seus sonhos — geralmente quando ela corria no cemitério — e a perseguia. Mas isso não deveria estar acontecendo, ela nunca tivera percebido que estava realmente no sonho, ela só se lembrara de estar com bastante medo e...
E... Acordar...
Alice deu dois passos a frente. Ainda covarde. Ainda se sentindo amedrontada ao olhar para a pessoa que tanto a persegue. Era o momento. Ela ainda tinha medo, sim, afinal, sempre que tentava olhar acaba acordando de seus pesadelos. Porque isso ainda não aconteceu? Queria ele que ela finalmente o visse? Queria a coisa mostrar sua face?
Se for isso que ele queria, Alice o faria.
Seus pés amassaram-se contra a lama fria jogada sobre a grama verdinha, seus punhos cerraram e o vento soprou mais uma vez contra seu rosto. Os olhos azuis jorraram mais uma lágrima, as folhas de carvalhos soltaram-se dos galhos e caíram entre as lápides.
Era a hora.
Quem seria a coisa que a assombrava, que a queria tanto que era capaz de entrar em todos os seus sonhos como uma espécie de ser sobrenatural?
Alice girou e os cabelos a açoitaram, o casaco voou para fora do corpo, para bem distante, seus olhos se arregalaram. As pupilas soltaram imensa quantidade de água, suas mãos enrijeceram e ela abafou um grito.
Assim que virou, Alice foi invadida por uma escuridão repentina e devastadora. A escuridão a cercou para todos os lados e ela não conseguiu mais ver nada. Ela sentiu uma mão tampar sua boca e era agora que ela queria gritar mais do nunca. Ela precisava disso.
Ela precisava de alguém para salvá-la...
Mas infelizmente o socorro nunca chegou. A escuridão a puxava cada vez mais. A cada segundo ela sentira seu corpo amolecer na escuridão. Sentira seu corpo desfalecer e sentiu seus braços adormecerem. Era isso mesmo? Ela estava se entregando de uma vez ao monstro? Sem nem ao menos tentar escapar? Dessa vez ela iria realmente morrer no sonho e todos que fossem visitar seu velório iriam ouvir que ela teve uma parada cardíaca durante a noite?
Não.
Ela sentiu a cabeleira espessa e lisa do monstro e sabia ela naquele momento que ali era o rosto dele. Enquanto a mão dele estava ocupada segurando a boca dela, Alice deslizou uma das mãos por debaixo do braço forte da escuridão e com toda a força e com todo o ódio que poderia sentir no momento ela cerrou o punho e o acertou no maxilar.
A dor foi repentina, às mãos a soltaram e ela caiu na grama verde do cemitério. Foi prazeroso poder ver novamente uma cor que não fosse à cor preta que a cegava. A cor verde do gramado era tão linda que ela quase desejou ficar ali para sempre. Mas a visão dela se perdeu tão facilmente como foi recuperada.
As mãos dele novamente a prendiam e ela agora viu algo mais. Algo que a fez gritar mais ainda. Uma plumagem negra e cintilante escorregava pelas costas da quase-sombra e se ergueram no céu. Ela pode ver agora que eram asas. Asas aveludadas e tocadas por um preto luminoso. Eram asas negras mortais. Na ponta de cada pena existia uma pequena gota vermelho rubi. Sangue. Um sangue poderoso, capaz de matar alguém com uma simples gota. A última pena era revestida por uma capa de metal e espetou Alice no voo.
Exatamente. Voo.
Ele a puxara para cima, e a estava levando para junto de si. Para junto das nuvens, ele a estava carregando pendurada pelos pés. Alice gritava horrorizada. Para onde ele a estava levando? O que ele queria dessa vez? Vingança por ela tê-lo socado no maxilar? E agora ela sentia sangue escorrer da boca dele.
De onde estavam ela conseguia ver o todo o cemitério, as paredes de mármore que o cercavam e o portão de ferro com imagens dos santos da cidade. Tinha um velho com uma grande barba branca e um sobre-tudo vermelho com leves penas amarelas — o Sábio de Magic Fell’s. Diz as lendas da cidade que ele é responsável pela inteligência de todos os moradores de Magic Fell’s.
E tudo o que Alice queria nesse momento era receber inteligência do Sábio. Alice viu que o monstro tivera parado no alto, e agora o sol estava nascendo e iluminando tudo. Era por isso, ela pensou. O sol, ele não quer mostrar seu rosto, mas a escuridão só reina enquanto o sol não aparece. Nenhuma escuridão prevalece na luz. E ele não iria prevalecer.
Uma fina luz de sol iluminou o cemitério, a luz subiu e conseguiu iluminar toda a escuridão. Alice o ouviu gemer, nada estava oculto agora. Ela viu as roupas dele. Roupas escuras e jeans, totalmente apertadas no corpo. Uma boca cruel e olhos azuis apaixonantes. O cabelo liso e negro levemente úmido cobrindo boa parte da sobrancelha e na mão, uma pedra vermelha.
Alice gemeu mais preferiu não ter feito isso, uma fina linha de luz dourada salpicou o cenário e iluminou o rosto dele. Alice arregalou os olhos. Ele percebeu a luz dourada em seu rosto e notou também que Alice o vira. Foi só o que ele precisou. Alice sentiu a mão apertada contra ela se soltar lentamente, e ela estava caindo. Caindo de uma altura assustadora, e seu corpo iria se chocar com o chão, enquanto iria se partir em pequenos pedaços ensanguentados.
Ela sentiu o vento bagunçar seu cabelo enquanto caia, lentamente, e depois mais rápida. E ele continuava ali, parado, com as asas negras levemente se movimentando para cima e para baixo, Alice viu a grama verde. Depois disso ela não viu mais nada.
Alguns minutos depois, Alice pulou na cama, assustada.
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