Condenados a voar
2 Prólogo: Ironia do destino
Notas iniciais
Dois toques firmes vibraram no carvalho alaranjado. Fendrel esperava do lado de fora, braços cruzados, os sapatos de couro de dragão vermelho tamborilando no chão como se quisessem esmagar o destino.
Ela devia estar surtando.
Mais dois toques.
Nada.
Seus dedos percorreram as mechas avermelhadas, acompanhando um suspiro cansado.
Dentro da casebre, passos cortantes serravam o assoalho, e resmungos ecoavam em protesto pelas paredes. Pelo visto, o chão — e toda a casa — estavam pagando pela decisão da deusa.
O vento uivou, fazendo o brinco de jade em sua orelha pontuda balançar, enquanto o frio lhe arranhava até os ossos. Na vila de Alféria, luzes mansas cintilavam nos candelabros, ameaçando se apagar junto ao que restava da paciência do homem, prostrado havia longos minutos ali.
— Verbena! — bufou, ajustando o alaúde nas costas com um movimento brusco. — Me evitar não vai dar em nada! Se eu morrer de frio, juro que volto pra te assombrar!
Então a porta redonda se abriu, levando junto o ar dos pulmões de Fendrel ao revelar o rosto da amiga, vermelha dos pés à cabeça.
Que... fofa?
As palavras do trovador morreram na garganta quando foi puxado para dentro pelos braços finos da moça. O mundo girou e, de repente, ele estava no sofá, o veludo verde-musgo áspero contra sua pele. Verbena sentou-se próxima a ele e agarrou seu pulso com força.
— Não está certo isso, Fen... não está. A deusa... deve ter sido um engano.
Fendrel negou com a cabeça.
O calor da lareira aquecia seus músculos enrijecidos depois daquele dia caótico. A fragrância calmante das ervas emanava de um bule flutuante na cozinha. Bem apropriado...talvez Verbena fosse precisar de vários litros de chá de camomila para dormir naquela noite.
Porque, infelizmente, a deusa não cometia erros.
Ele se virou para ela e também segurou seu pulso, colocando-os lado a lado. Na pele de ambos uma marca surgiu, brilhando num tom carmesim, como uma queimadura incômoda que formigava, anunciante convicto da condenação. Seu formato lembrava uma flor, e cada um carregava metade do símbolo, que só se completava quando unido.
Ele riu, e o ar saiu de seus lábios num sinal claro de desespero.
Tomara que a deusa estivesse se divertindo com isso... até porque...
Encarou novamente a mulher prometida: as mechas azul-turquesa acariciando a clavícula desnuda, a franja presa por uma flor atrás da orelha. Linda, perfeita, a musa secreta de suas canções de amor que tantas vezes dedicara a outras moças
Mas aqueles olhos amendoados, que conhecia desde a infância e que sempre o levavam direto ao paraíso, nunca — nunca — se interessaram verdadeiramente por ele.
— Verbena... — Fendrel uniu os lábios secos, a garganta coçando à procura da melhor forma de dizer o óbvio — a palavra dela é lei, então, por mais complicado que isso seja...
Um silêncio desconcertante se instalou. O crepitar da madeira acompanhava o peso das palavras que viriam a seguir, baixas, praticamente mudas, emitidas com cautela absurda para esconder, quase sufocar sua felicidade solitária e claramente egoísta:
— Nós estamos casados.
As unhas dela apertaram com força a pele dele, quase uma recusa silenciosa. Com a palma da mão livre, ela esfregou a própria marca, como se pudesse apagá-la.
Fendrel entendia o desespero.
Então o vento bateu contra as janelas, um silvo irritante entrou pelas frestas chegando aos ouvidos na forma de um presságio incômodo. Talvez fosse a risada da deusa, zombando daquela brincadeira de mau gosto.
Pois, se não aprendessem a se amar...suas asas nunca apareceriam.
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