Condenados a voar
8 Capítulo 06: Insônia Perigosa
"Suas melodias são mais verdadeiras do que a máscara dos seus sorrisos."
A frase ecoava nos sonhos de Fendrel, teimosa e penetrante. As palavras da deusa desenhavam o tapa metafórico perfeito: ardido, dolorido. Uma premonição de que, por mais que tentasse se distanciar de Verbena, esquecê-la, conformar-se com a falta de reciprocidade... sua devoção era grande demais para aceitar qualquer outro destino.
Não podia forçá-la a amá-lo, mas a ideia de ser o responsável por impedir o desabrochar de suas asas era um fardo que seu peito não suportava.
Nem dormindo o rapaz tinha descanço. De qualquer forma, seu estado entre sono e vigília durou pouco, pois uma pontada áspera invadiu sua bochecha esquerda. Ele abriu um olho pesado, observando o galho tímido que cutucava sua face.
Irritado, Fendrel ergueu a mão carregada de cansaço para afastá-lo, mas seu braço mal conseguiu se levantar. Algo o puxava para baixo, agarrando-o firmemente.
Verbena?!
No décimo sono, a moça o abraçava como quem se agarra a um enorme ursinho de pelúcia. Um dos braços tentava rodear a cintura dele, e suas pernas estavam entrelaçadas.
O bardo encheu os pulmões, tentando domar o coração que martelava frenético contra as costelas. Uma infinidade de exercícios de respiração —aprendidos com afinco naqueles anos como trovador — vieram a mente. Precisava, com urgência, trazer oxigênio ao cérebro que ainda não acreditava naquela situação.
Espiou a muralha de travesseiros demolida sem dó, provavelmente pelos movimentos sonâmbulos da própria Verbena. E começou a duvidar: aquela barreira havia sido erguida para protegê-la dele... ou para protegê-lo dela?
— Você... — murmurou, apontando para um dos galhos próximos. — Não era pra ter impedido isso aqui?
A planta não respondeu; os cipós apenas ergueram um lençol sobre os dois, fingindo completa ignorância, antes de retornarem para junto da janela.
— De qual lado você...
Foi interrompido pela movimentação da moça. Ela roçou a cabeça em seu peito, buscando mais aconchego, e uma de suas mãos, inquieta no sonho, escorregou sob a blusa que ele vestia. Havia nela a tranquilidade de um gato, ronronando satisfeito ao encontrar calor na almofada humana que, sem querer, escolhera.
Fendrel buscou todo o autocontrole possível nos meandros de sua mente em pânico. Pôneis, gremlins, duendes... qualquer coisa que o distraísse daquela situação proibida.
Mas a cada inspiração em busca de sanidade, tudo o que conseguia era inundar seus sentidos com aquele cheiro enlouquecedor de jasmim que emanava dos cabelos dela tão próximos de seu nariz. Os fios azuis espalhados atrevidamente sobre seus ombros. A respiração tranquila fazendo cócegas mornas em sua pele.
E como se já não bastassem as complicações do momento....sua busca desvairada por uma distração trouxe pensamentos que o arrastaram para uma tempestade de raiva.
Quantos já não estiveram naquela mesma situação? Com quantos a moça se aninhara à noite em busca de calor?
Não que pudesse dizer algo sobre isso... como a própria Verbena comentara mais cedo, ele também não era nenhum santo.
Mas antes que a insegurança o fizesse arder em ciúmes, a donzela adormecida se mexeu de novo. E desta vez soltou um murmúrio que o rapaz jurou ter imaginado:
— Fen...drel...
Agora só podia ser sacanagem!
Logo ele, Fendrel — conhecido pela tranquilidade, pela parcimônia — estava prestes a sucumbir a um ataque de nervos.
Mas que ótima noite de núpcias, não é mesmo?
Ainda assim, há algo curioso em quem já sofreu por amor: cada migalha conta. E foi por isso que o trovador deslizou a palma até a cintura de Verbena, um instante depois de ela ameaçar se virar para o outro lado.
Não queria se afastar...
Talvez, de manhã, ela o estapeasse. Talvez tivesse um surto de fúria. Ou mandasse a samambaia jogá-lo pela janela.
Mas aceitaria aquele calor inconsciente de bom grado, mesmo que custasse uma noite inteira de insônia ou um soco bem dado ao raiar do dia.
Porque aquela loucura... era deliciosa demais para desperdiçar.
Fale com o autor