Condenados a voar

6 Capítulo 04: O lamento de Seryin


Seryin respirou fundo. O peito ainda arfava com a intensidade da apresentação. Ela e Fendrel haviam dado um verdadeiro espetáculo.

E seria assim pelo resto da vida.

Virou-se para o rapaz ao seu lado. Sua palma subiu pelo braço dele, deslizando devagar até alcançar o ombro, num carinho cheio de ternura.

Mas ele não reagiu.

— Fen, você está bem? O que a deusa lhe disse?

— N-nada... — ele levou a mão à nuca, massageando os ombros tensos. — Só...nos parabenizou...

A resposta não a convenceu, mas decidiu aceitá-la de bom grado. Questionaria depois. Na cama, talvez? Ali teria Fendrel em suas mãos, como sempre acontecia, e arrancaria dele o que quisesse.

Para quê discutir com o futuro marido logo agora?

Aquele que seria pai de seus filhos...

O rubor subiu às faces ao imaginar pequeninos de cabelos chamuscados correndo pelos corredores da casa, cantarolando e dançando. Mini trovadores, prontos para um espetáculo familiar.

E quando o véu da noite caísse, Fendrel a despiria até da alma com aqueles dedos ágeis e gentis. Então, ela se deixaria embalar pelo calor dele até o amanhecer.

Seus devaneios sonhadores tiveram um fim assim que, sem querer, seu braço esbarrou nas pétalas pontudas da rosa de dragão guardada despretensiosamente em um dos bolsos do colete do bardo.

Um nó duro se formou em sua garganta. Fechou a mão com força, mantendo a máscara de serenidade, mas era difícil lutar contra a vontade inexplicável de arrancar aquela flor e pisoteá-la até virar pó.

Seus olhos esmeralda recaíram sobre Verbena, a poucos metros dali. Um grunhido baixo escapou antes que pudesse contê-lo.

A amiga esquisita de Fendrel...

Um deus trovador ofertando gentileza a uma plebeia rabugenta. Até um elefante tinha mais delicadeza em seus movimentos que aquela mulher. Verbena não tinha qualquer senso.

Como podia estar vestida daquela maneira em uma cerimônia tão importante?

Seryin, por outro lado, colhera paciente cada pétala de lótus negra que adornava seus cabelos. Tecera, uma a uma, as escamas de sereia que brilhavam em seu vestido. Infundira com ervas e calêndula o perfume que Fendrel amava.

Tudo, absolutamente tudo, pensado para agradá-lo.

Para ser vista por ele e apenas por ele.

De qualquer modo, seria sincera consigo mesma: aturaria de bom grado a existência daquela desleixada, se assim o marido quisesse. Não negaria nada a ele, caso isso fosse o bastante para deixá-lo verdadeiramente feliz.

— Chegou a hora, meus amados filhos... De pé, por favor. — A voz de Freya ecoou suave e completamente irresistível. Bastou um aceno de suas mãos para que o público se erguesse de forma obediente. — Mas antes, e como sempre, um alerta...

As orbes de ametista se estreitaram, varrendo cada uma das fadas. E, por um instante, pousaram sobre Seryin, demorando-se ali o suficiente para que um calor esmagador se espalhasse pelo peito da fada. Talvez um prenúncio ou alerta que ela só entenderia tempos depois.

A trovadora apertou a mão de Fendrel com toda a força.

Mais uma vez, ele não reagiu. Permaneceu imóvel, distante, submerso em pensamentos que não a incluíam.

— Nossos desejos nem sempre brotam do coração...

Assim que Freya completou o pensamento, uma rajada súbita percorreu o salão. As fadas foram afastadas, os cabelos chicoteando ao vento.

Seryin cambaleou dois passos para trás, erguendo os braços sobre os olhos na tentativa de se proteger da ventania.

E então começou.

Fios brotaram no ar, laços violeta estendendo-se de uma fada até alcançar outra.

A primeira a ser tocada foi Mareen. O brilho a envolveu, traçando uma linha até uma das cantoras do grupo de trovadores que aplaudia com fervor.

As sombrancelhas de Seryin arquearam em sincronia.

Aquela baixinha desgrenhada? Par daquele rouxinol?

Mas ela logo deu de ombros ao observar a forma como Mareen correu para os braços da escolhida e, juntas, se fundiram num abraço radiante.

A deusa sempre tinha razão.

Mais e mais fios surgiram, cruzando o espaço como teias coloridas. O salão se encheu de júbilo e protestos, risos e lágrimas. Para todas as reclamações, diante do olhar inflexível de Freya, até os mais resistentes se calavam.

Os que ainda não haviam sido unidos se encolhiam na ansiedade, os estômagos retorcidos pela espera. Compartilhando aquele frenesi, Seryin não tirava os olhos de Fendrel. A cada nova união, ela prendia a respiração, rezando para que, enfim, fosse a vez deles dois.

Porém ... algo errado latejou em seu pulso. Um formigamento cruel, ardendo para sinalizar um destino recheado de enganos. Um sonho que viraria um grande pesadelo.

Ela baixou os olhos para a própria pele. O sangue bombeava, martelando nos ouvidos no ritmo de seu desespero.

Não... não podia ser.

Um fio a unia a outra pessoa. A pessoa errada.

Viu que Kollin avançava em sua direção, arrastado pela mesma luz. O pânico tomou conta, e roubou o que restava do ar que nunca havia faltado para aquela exímia cantora.

— Não... — o sussurro escapou de seus lábios, frágil, quebrado. — Não, não, não...

Chegou a vez de Fendrel.

Diferente dos outros, algo nele se destacou: a rosa guardada em seu bolso flutuou até sua mão. O caule alongou como uma serpente viva, enrolando-se possesivamente em torno de seu pulso. Do miolo da flor, irrompeu uma luz cortante, avançando em direção à alma destinada.

Foi nesse instante que um grito familiar dilacerou a praça.

Seryin se virou.

Seus olhos se arregalaram tanto quanto os da jovem diante dela, branca feito um fantasma, os lábios abertos em choque.

A escolhida de Fendrel. Aquela que a deusa acabara de unir a ele para sempre.

Era Verbena.

Kollin tocou o ombro da esposa predestinada com a naturalidade de quem acredita ter direito ao que toma. Mas o contato não aquecia; sufocava. Foi como gelo derretendo sobre a pele: frio, pesado, sem alma.

Seryin sentiu-se invadida, seu coração arrancado à força, corrompido.

E pior... o homem que amava agora pertencia a outra. Uma mulher que não oferecia sequer um gesto de entrega, nem uma micro centelha de devoção.

Afastou a mão de Kollin com rispidez, os olhos cravados em Fendrel, que correu até a amiga de infância. Verbena escondia o rosto, e quando ele tentou acalmá-la, a ingrata gritou mais uma vez, rejeitando-o antes de fugir da comemoração.

Não era justo!

Não era pra ser assim!

Pela primeira vez, Seryin perdeu o chão. Restaram apenas fragmentos do pedestal de marfim onde, por tanto tempo, sustentara o sonho de um futuro brilhante. Um zumbido tomou conta de seus ouvidos. A festa, a música, as vozes, os fios dourados...

Pro inferno com tudo aquilo!

Pensamentos confusos, somadas a palavras quebradas e um mantra obsessivo ecoando dentro dela:

A deusa se enganou.



Notas finais
Infelizmente senhorita Seryin levou um tapa ardido da vida....E aí…o que acharam dela?