Condenados
14 Capítulo 13 - Parte Um
Notas iniciais
O ar estava estagnado. Outrora, Bianca se sentiria irritada com aquela sensação sufocadora, mas o clima combinava perfeitamente com seu humor.
Não era pra ser daquele jeito. Tantos anos de espera pelo momento que enfim estaria livre... E no fim foi uma verdadeira catástrofe.
Ela caminhou entre os destroços das avenidas e viu o medo e a dor estampada no rosto dos cidadãos. Crianças chorando, mães e pais desolados diante de um corpo. Triste demais, para ser o mundo que ela lembrava. Alias, ela nem sabia se aquele mundo em que viveu a tanto tempo ainda existia. Talvez ele sempre tivesse sido daquele jeito deplorável.
Bianca suspirou entristecida. Ela queria fortemente poder chorar, mas as lagrimas não vinham. Depois de chorar tanto, talvez ela tivesse perdido aquela capacidade de vez. Ela se sentia frágil como papel. Vidro. Qualquer coisa que se despedaçasse rápido.
Ela parou de caminhar quando viu o irmão. A dor atravessou seu peito como se ela tivesse levado um tiro. Mas ela não podia adiar eternamente aquela conversa. Tinha que ser naquele momento, ou nunca mais.
– Nico! – Ela chamou, o som saiu estrangulado da garganta. Ele olhou para ela, e pareceu desejar não ter feito isso. Como se fosse enfrentar algum tipo de inimigo, ele se aproximou.
– Bianca. – Ele murmurou. A aparência dele tinha piorado. Ele estava sem dormir a muito tempo, aquilo era obvio. Mas não era só isso. Alguma coisa nele, nos sentimentos dele, estava tornando o estado dele péssimo. – Como você está?
Horrível. Péssima. Triste. Acabada. Destruída.
– Bem. – Ela respondeu, e quase desistiu de falar o que queria. Sentia que as palavras a destruiriam quando fossem ditas. Mas ela precisava falar. – Nico... Você sabe por que estou aqui certo?
– Gostaria de não saber. – Ele murmurou. – Bianca, eu já deixei clara a minha opinião. Você sabe... Sabe o quanto está sendo complicado para mim.
– E você sabe que eu estarei ao seu lado. Estaria ao seu lado. – Bianca corrigiu-se. – Mas... Não enquanto estiver aqui. Não aqui, Nico. Não desse jeito.
– É a minha única chance de descobrir o porquê. A verdade. – Ele respondeu. – Eu preciso disso. Eu preciso mais do que qualquer coisa. Eu preciso saber quem foi.
– Você não precisa não! Isso... É perda de tempo. É... — Bianca não aguentou mais. As lágrimas começaram a cair lentamente. – Eu não quero perder você. Eu não quero ficar sozinha!
Nico olhou pra ela com a mesma expressão que ele fez quando eles chegaram ao reformatório. Desolado, buscando ajuda e uma resposta. Desejando fortemente que ela pudesse ajudar. A diferença era que naquela situação, ele sabia o que fazer. Só tinha medo de seguir esse caminho.
– Adeus, Bianca.
O menino de cabelo preto foi embora. O seu menino de cabelo preto foi embora. Virou as costas e saiu. Deixou-a pra trás. Do mesmo jeito que o pai deles fez, há tantos anos atrás. Em outro mundo. Quase outra vida.
– Nico... — Ela murmurou. – Nico... NICO!
– NICO! – O grito desesperado ecoou pelo quarto, e fez Bianca assusta-se consigo mesma. Ela sentiu o sangue gelar nas veias e a dor de cabeça aumentar em um grau desproporcional e irreal. A sensação de agonia era tão grande, que ela demorou a perceber onde estava. E quando o fez, entrou em pânico.
Estava na cela do reformatório. Uma memoria vaga, fez ela repassar os passos que fez, desde que saiu do pátio após o anuncio até chegar ali. Ela sentiu o colchão desconfortável e familiar a ela. E sentiu que estava acompanhada. Olhou para a outra cama da cela, e quase gritou de alivio. Era Percy, não Nico.
– Você me deu um baita susto, Bianca. – Ele falou, depois de um tempo em silencio. Bianca precisou de alguns segundos para lembrar que ele estava cego. – Por favor, tenta não fazer isso de novo. Achei que tinha alguma coisa aqui dentro ou então, Nico estava surtando de novo como fez ano passado. Lembra quando ele começou a gritar e revoltar-se aqui dentro e tivemos que calar a boca dele com o travesseiro?
– Claro. – Ela respondeu ainda se sentido meio estranha na decoração do lugar. – Desculpe pelo susto. Eu esqueci a sua condição. – com essa palavra, Percy contorceu o rosto numa careta – Céus, por quanto tempo eu dormi? E onde Nico está?
Ela esperou para ele não notar a urgência na voz dela, para a ultima pergunta. Mas achou difícil. Percy notava essas pequenas coisas.
– Bom... Considerando que estou aqui já faz um tempinho, e estava lá fora e você já estava aqui dentro... Vou supor umas três horas. Mas posso estar errado.
– Nico?
– Saiu quando o anuncio terminou. Não voltou ate agora, mas ninguém vai suporta-lo por mais de cinco minutos hoje, então ele volta logo.
Bianca não respondeu de imediato. Ela se levantou e se esticou, e caminhou em direção ao amigo, hesitante e com medo de assusta-lo. Ela sentou delicadamente ao lado dele, e Percy imediatamente abriu os braços, como se soubesse que ela estava ali. Os dois ficaram meio deitados, meio sentados. Bianca se sentiu muito melhor. Percy trazia segurança, e ela sabia que ele a protegeria de qualquer coisa, e que a conhecia. Eles costumavam ficar daquele jeito nos primeiros anos, antes de dormir, e geralmente Nico ficava por perto como se desejasse entrar no abraço, mas sem coragem para pedir. Depois de algum tempo, Bianca enfim, falou.
– Ninguém nunca suporta o Nico por mais de cinco minutos. – Ela falou, cansada. – Só você.
Percy riu, e Bianca se sentiu feliz por isso. Ela não queria pensar no sonho, nem na batalha. Tudo era ruim demais e a desgastava. O silencio reinou entre eles, e Bianca deixou que ele a dominasse. Era bom ficar sem fazer nada, sem se preocupar com nada, por alguns minutos. Mas ela não poderia fugir para sempre dos tópicos que a assustavam, e Percy quebrou o silencio, para abordar ela sobre o assunto.
– Bianca... – Percy começou claramente constrangido por quebrar aquele momento. – Tentei falar com Nico sobre isso, mas ele me ignora. Enquanto não faço aquele imbecil falar, vou tentar com você. Como está se sentindo quanto a isso?
Percy foi mais direto do que gentil, mas Bianca não se importou. Ela desejava muito que alguém perguntasse aquilo para ela, mas depois que os nomes foram anunciados a reação de todos foi desaparecer dentro de suas celas. Quando enfim, Percy o fez, ela se sentiu grata. Pelo menos alguém escutaria o que ela sentia, em relação a um de seus dramas atuais.
– Você não imagina? – Ela perguntou, e percebeu a própria angustia na voz. – Eu... Eu estou péssima. Oh, céus, o que eu vou fazer Percy? A batalha é obrigatória e alguém vai ter que perder e sofrer as consequências disso! Não quero ser castigada, mas não quero ver Nico sendo castigado. Eu... Eu estou...
Ela respirou fundo para continuar a falar, e Percy apertou mais o abraço, como se fosse protegê-la ali para sempre.
– Eu não posso acreditar que isso tenha sido uma coincidência! Foi escolhido antes, e com certeza não foi um sorteio! Qual a probabilidade de sermos chamados para o mesmo duelo? E se foi escolhido, por que a gente? Por quê? Sinto que algo muito maior do que posso imaginar está acontecendo, e não tenho ideia da magnitude disso! – Todo o desespero que ela sentia, estava sendo colocado em palavras, nas mãos de alguém em que ela confiava. Talvez não existisse nada mais tranquilizador do que um momento como esse. – Cada coisa estranha que venho sonhando, tenho a sensação de que o mundo está desabando lá fora... Mas será que ele já não desabou e nunca soubemos disso?
– Que tipo de coisa? Que sonhos? – Percy perguntou, preocupado com isso. Sonhos não eram bons de ter, nem pressentimentos. – Pode me contar, eu nunca vou falar para ninguém.
Ela já estava respondendo as questões antes de ele terminar de falar.
– Sonho com um céu vermelho, com pessoas sofrendo e com uma... Despedida. – Ela não conseguiu falar que era Nico e ela, nessa parte. – E sinto que já estivesse nesse mesmo cenário antes, mas em uma situação diferente. Faz sentido?
– Não, não faz. – Percy respondeu, fazendo carinho no cabelo dela. – Mas é importante para você, e isso já o torna a coisa com mais logica no mundo.
– Eu não sei o que fazer. – Ela lamentou. – Eu não sei o que pensar. Tenho medo de dormir e de ver isso outra vez. Tenho medo de acordar e enfrentar o fato de que terei que lutar contra Nico uma hora ou outra. Eu tenho medo de tudo. Ah, Percy, o que eu faço?
– Eu gostaria de ter uma solução. – Ele falou, com a voz triste. – Mas não tenho nada. Tudo o que posso dar é meu apoio agora. Meu estoque de ideias acabou, mas vou tentar achar alguma coisa. Eu por hora... Sinto muito. Vamos dar um jeito.
– Obrigada, Percy. – Ela sussurrou não feliz, mas conformada e esperançosa. – Talvez a gente deva ir procurar o louco do meu irmão?
Nessa mesma hora, a porta da cela se abriu, e Nico entrou por ela. Bianca teve a sensação de que ele tinha tentado escutar a conversa e pela primeira vez ficou feliz por isso não ser possível do lado de fora. Ele deu um sorriso sarcástico para ela. Percy a soltou e os dois se sentaram na cama, de algum modo o amigo parecia saber quem estava ali.
– Não precisam ir procurar por mim. – Nico falou sua voz transportando ironia. – Estou aqui. Vim dar um recado.
– E qual seria esse recado? – Percy perguntou, ignorando o tom de voz de Nico.
– Bom, na verdade, são três. – Ele falou. – O primeiro é que eu não sou louco, e sim vocês que são extremamente lunáticos. O segundo, é que Luke voltou e está te chamando. E o terceiro é que a primeira batalha de titãs temática vai ser dentro de uma hora.
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