Condenados
10 Capítulo 10 - Previa
Notas iniciais
Sete anos atràs, 18 de agosto
Annabeth estava tremendo. O frio penetrava pelos seus ossos, e fazia com que a menina tivesse uma sensação de formigamento. Ela sabia que em breve, perderia os movimentos temporariamente. Batendo os dentes, a garota correu pela pista sem carros, e entrou em um beco escuro e vazio. Ela avistou um latão de lixo, e ficou feliz por perceber que ele ficava próximo a parede. Seria uma proteção contra qualquer pessoa que pudesse vê-la. Não que a menina pensasse que alguém seria insano o suficiente para sair na rua naquele dia.
Dia 18 de agosto. O dia em que o dilúvio caiu sobre os Estados Unidos. Não exatamente um dilúvio, mas era similar a um. Ruas alagadas, falta de iluminação, raios e trovoes. E o mais intrigante de tudo, foi que as coisas aconteceram de uma hora para outra. Durante a madrugada, havia chuviscado, e as coisas começaram a piorar durante a manha. À tarde, a chuva atingiu o auge e virou uma tempestade violenta. Escolas foram fechadas, e as pessoas foram dispensadas do seu trabalho. O conselho dado para todo o país, na hora em que a energia ainda funcionava, era de que ninguém saísse de casa. Até mesmo os moradores de rua, haviam se protegido. Enquanto buscava um abrigo, durante a tarde, Annabeth percebeu que os mendigos haviam desaparecido, e buscado um teto firme em casas abandonadas. Ela podia ter se abrigado em algum lugar como esse, mas lhe faltou coragem para enfrentar as outras pessoas. E agora ela estava ali, sozinha, sujeita ao frio e as doenças que a água suja trazia.
Com raiva de si mesma, por ser tão fraca e não ter coragem para enfrentar os moradores de rua mais velhos, Annabeth tirou uma superfície de plástico de dentro do latão, e conseguiu encaixa-lo entre ele e a parede, formando um abrigo improvisado. Espremendo-se, ela se enfiou no espaço apertado, e rezou para a noite passar logo.
Então, mais ou menos cinco minutos depois de a garota ficar ali, ela ouviu um barulho. Alguém estava entrando no beco, e vindo exatamente para o lugar onde ela estava. Annabeth se colocou de pé, em um salto, e só depois de já ter feito isso, foi que percebeu que era uma ação idiota. Rapidamente a garota virou as costas para o beco, e encarou a parede, brigando com si mesma. Atrás dela, alguém se aproximava. Annabeth sentiu a tensão e o pavor tomar conta dela.
– Por que você está aqui? – A pessoa perguntou, e Annabeth percebeu que era um menino. Surpresa, mas ainda sem confiar totalmente no garoto, ela permaneceu de costas para ele, pensando e quais seriam as suas chances caso ele tentasse ataca-la. – Não está com frio?
Aquela era uma pergunta bastante idiota. É claro que Annabeth estava com frio, qualquer um perceberia isto. Annabeth começou a se irritar com o menino e permaneceu em silencio.
– Tudo bem então, você não quer falar. – Ele murmurou, sua voz estava estranha com o barulho da tempestade batendo no chão e nos telhados. E foi só quando notou esse fato, foi que a menina percebeu que o garoto estava à mercê da tempestade também, e que ela estava se molhando muito mais agora que havia derrubado sua proteção. – Mas eu gostei de você, parece ser uma pessoa legal. Tome, pode ficar com o meu casaco.
Annabeth sentiu quando uma espécie de tecido bateu em suas costas, e escorregou em direção ao chão, e em um reflexo a garota o impediu de cair, puxando-o para si. Tinha cheiro de mar. Era um cheiro incomum e encantador. Antes que ela pudesse agradecer, um raio cruzou o céu, e bateu em uma antena que estava no telhado acima do beco. O relâmpago clareou o beco, e vez os pelos de Annabeth se arrepiarem. Atrás dela, o menino resmungou alguma coisa indecifrável.
– Essa tempestade vai durar muito tempo. – Ele falou, e Annabeth notou certo tom de irritação incomum na voz dele. – Venha. Venha comigo, posso dar abrigo a você.
Aquelas palavras deixaram Annabeth indecisa. Não podia confiar naquele garoto, mas por outro lado, ele não parecia ser uma pessoa má, e poderia estar falando a verdade... Mas que bem faria em se abrigar em uma casa desconhecida? Quando teria de fugir, assim que a família dele notasse que ela era uma das garotas desaparecidas que surgia nas caixas de leite? Não, não valia a pena.
– Não posso. – Annabeth respondeu, sentindo-se mais derrotada do que nunca. – Não posso ir, me desculpe.
Ela não entendeu o porquê de ter pedido desculpas. Era ridículo. Mas as palavras saíram sem que ela tivesse como controla-las.
Mais um raio cruzou o céu, e dessa vez caiu assustadoramente perto de onde eles estavam. Era melhor sair dali.
– Hum, eu entendo. – O menino falou, sua voz saiu entrecortada. – Bem, boa sorte então. Espero que você fique bem.
Annabeth ouviu os passos dele indo embora. Espirrando água em todas as direções. Um pouco atônita pela conversa tão estranha e inesperada, ela esperou que alguns minutos se passassem entre a saída do menino e a dela, mais por habito do que por temer o garoto desconhecido. Na verdade, ele foi a primeira pessoa em quem ela confiou desde que tinha fugido de casa. Com os pensamentos presos a lembrança do menino sem rosto, Annabeth quase se deixou ser arrastada pela correnteza da água acumulada na rua. Xingando-se mentalmente, por quase ter se molhado por inteiro, a garota passou a prestar mais atenção para onde estava indo. Ela acabou se vendo bem mais cuidadosa do que durante à tarde do temporal, e mesmo não gostando de admitir, isso provinha do casaco que o menino havia dado para ela. Annabeth não queria de jeito nenhum danificar o casaco de qualquer maneira. O objeto tinha virado uma espécie de amuleto para ela.
Já era noite, e a tempestade conseguiu piorar. Annabeth estava começando a acha que aquela chuva jamais iria acabar. Relâmpagos clareavam o céu com uma frequência assustadora, e alguns focos de incêndio podiam ser vistos nos bosques e em algumas casas. O fogo não chegava a ser alto por culpa da tempestade, mas ainda servia como exemplo para a fúria daquela chuva repentina.
Pensando na tempestade, Annabeth conseguiu enfim achar um abrigo particularmente seguro, que ficava em um galpão abandonado. A garota não tinha muita certeza de onde ele ficava, por que na escuridão da noite e apenas com os relâmpagos como fonte de luz, era meio complicado reparar no nome das ruas ou avenidas.
Annabeth organizou o abrigo com as coisas que conseguiu encontrar, e no fim, enrolou-se no casaco do menino. O cheiro de maresia desaparecia pouco a pouco, um dano que ela não poderia evitar. Antes de dormir, ela repassou na cabeça a memória da conversa incomum que teve com ele, e se arrependeu profundamente por não ter olhado no rosto dele. Queria muito saber como ele era. Quando enfim coseguiu ignorar o barulho dos trovões, e dormir, Annabeth sonhou com um par de olhos verdes. Da cor do oceano, mais puro e limpo que já existira. Porém, quando ela despertou na manha seguinte, e toda a ação de encontrar um novo abrigo, comida e uma forma de se proteger tomou todo o seu tempo, a memória do sonho já havia desaparecido, assim como a conversa da manha passada. Apenas algumas frases ficaram na cabeça de Annabeth, e mesmo elas desapareciam à medida que o dia transcorria.
Venha. Venha comigo. Mas infelizmente, a resposta foi negativa.
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