Durante esses cinco anos de prisão, só havia três pessoas que a visitavam. A primeira era o seu advogado, a segunda era o capitão Redfield (que era desagradável e sempre a fazia se lembrar que Leon quase morreu por culpa dela). Chris não gostava da espiã, porém precisava de sua cooperação se quisesse pegar Wesker.

A terceira pessoa que tentava visitá-la era Leon, mas Ada se negava a vê-lo. A última vez que se viram foi há quatro anos quando os dois discutiram porque ela não contou que era a sua informante, a Senhorita Escarlate. Eles brigaram também porque ele quase morreu ao enfrentar o Wesker.


— Se eu não tivesse aparecido lá, você teria morrido!


— Se você não tivesse aparecido lá, eu nunca teria sido pega. Eu acabei presa por sua culpa.


— Então, você preferiria ter morrido? — ele grita no telefone enquanto a encara pela parede de vidro que os separava.


— É isso aí! — ela sibilou friamente. — Eu preferia morrer a estar presa nesse maldito lugar! E você ajudou Wesker a me colocar aqui.


— Você é uma puta de uma ingrata! — Havia magoa naqueles olhos azuis. — Eu pensei que você havia mudado. Mas, você continua a mesma vadia manipuladora de sempre. — Seu rosto está abatido e o seu corpo ainda carregava as marcas da batalha contra Wesker. Uma batalha que o agente de Elite do governo não conseguiu vencer.


Ada o encara cheia de culpa, principalmente, por vê-lo naquela cadeira de rodas. Ela sabia que estava sendo cruel e injusta. Todavia, o melhor para Leon era se afastar dela, assim, ele estaria seguro e pararia de se machucar. E poderia focar em fazer as suas fisioterapias para voltar a andar e seguir com a sua vida.


— Olha, eu... eu quero que pare de me visitar. Não venha mais aqui. Me esquece! — Há um silêncio pesado e melancólico quando eles se encaram pela última vez.


— Certo. Adeus, Ada Wong! — Ela o observa se afastar com seus olhos azuis agora cheios de raiva e decepção, sentindo o seu coração se apertar no peito com uma sensação estranha e incômoda.

Quando retornou para a sua cela, Ada percebeu que agora estava completamente sozinha, não tinha família, estava presa ali e a única pessoa que já se importou com ela, foi embora e nunca mais voltaria.


Leon era o completo oposto de Ada Wong, que por muito tempo viveu no submundo da espionagem fazendo o que tivesse que fazer para sobreviver, sem pensar sobre as suas consequências.


“Ele é um bom garoto.” E a verdade era que Leon Scott Kennedy era o típico herói clichê: bonzinho, honesto, corajoso que luta pela verdade e pela justiça. E isso era tão irritante quanto admirável.


Ela era uma criminosa enquanto ele era a luz, a esperança que surgiu para tentar resgatá-la. Mandar Leon embora tinha sido a coisa mais altruísta que já fez na sua maldita vida. Então, no silêncio da sua cela fria, a mulher se permitiu chorar longe de olhares julgadores, ou de pena.


Enquanto ela se punia tentando sobreviver dentro daquela prisão. Leon tentou seguir com a sua vida, por um ano passou por fisioterapia e um tratamento experimental que o ajudou a parar de depender da cadeira de rodas e voltar a andar. Ele foi esforçado e corajoso como sempre.


Nos anos seguintes, retornou para a Casa Branca, no entanto, ainda não podia fazer as missões de campo. Seus superiores diziam que ele estava fora de forma, e ele sabia que era mentira.


Depois que voltou a andar, o homem retornou animado com os treinos e, sobretudo, estava determinado a acertar as contas com Albert Wesker. Assim como Chris, ele também estava obcecado para pegar aquele psicopata.


Entretanto, seus superiores achavam que seria mais seguro mantê-lo bem longe desse tipo de confusão. Contudo, no fundo, o agente Kennedy sabia que havia uma outra questão pesando sobre os seus ombros. Havia uma hostilidade entre seus colegas de trabalho direcionada a si.


Essa hostilidade era porque Leon testemunhou no caso da espiã mais perigosa do mundo e ajudou a reduzir a pena dela. Muitos odiavam aquela mulher. Portanto, quem ousasse ajudá-la era considerado quase como um inimigo do Estado.


O mais irônico é que ele fez tantas coisas pelo governo, sempre agiu de forma honrosa, até salvou a filha do Presidente. Porém, bastou depor a favor daquela espiã chinesa, que a coisa mudou drasticamente.


Seus colegas fofocavam sobre ele ser amante de Ada Wong, o que explicaria Leon arriscar a vida e a sua reputação para protegê-la. Kennedy ficou furioso com isso. E o homem chegou a sair na porrada com um dos agentes que o provocaram. Isso causou uma suspensão para ambos.


Quando retornou para o seu apartamento recebeu uma ligação de Sullivan, o advogado daquela espiã ingrata que era pago pelo salário de Leon.


— Consegui entrar com um pedido de Redução de Pena. O juiz aceitou. E a senhora Wong também está apta para a liberdade condicional. No entanto, agora temos um outro problema para resolver.


— E qual é?


— Ela precisará de um lugar para ficar. E de um responsável.


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Leon sentia que aquela missão seria provavelmente a mais difícil. Mais difícil do que ser o guarda-costas da filha do Presidente, ou enfrentar uma horda de zumbis, ou qualquer outro vilão maluco.


Ele estaciona o seu Porsche na frente de uma das prisões federais mais famosas dos Estados Unidos, depois arruma o seu chapéu de cowboy sobre a cabeça e sai do carro para esperar a tal espiã que logo sai parecendo meio perdida e chocada ao vê-lo.


Certamente, Leon era a última pessoa que ela esperava encontrar ali.


— Mas... o que você está fazendo aqui? — Ada ainda está o encarando em choque por vê-lo ali bem, saudável, forte e mais bonito do que se lembrava.


— Vim para levá-la para a sua nova casa — ele sibila com sarcasmo, abrindo a porta do carro. — Uma linda casa de campo! Aliás, você gosta da vida na fazenda? — Leon continua a provocá-la.


— Não! — Ada exclama frustrada e não entra no carro. — Eu não vou a lugar algum com você. — Ela decide ir embora a pé, determinada a ficar o mais longe possível daquele agente secreto do governo.


— Você não tem escolha, Ada Wong! — Leon pronuncia o nome dela em tom desdenhoso. — Ou você vem comigo, ou volta para a cadeia.


Nessa hora, começou a aparecer um pessoal da imprensa querendo uma foto dela para colocar na manchete de jornal, ou jogar nas redes sociais, deixando-a encurralada. Ela era o assunto mais comentado do país, quiçá do mundo. Alguns policiais tiveram que intervir antes que a situação fugisse do controle.


Leon se sentia vitorioso ao ver que Ada Wong não podia fugir. Gostando ou não, ela teria que obedecer às suas ordens. É como diziam: “A vingança é um prato quente que se come frio.”


O agente americano entrou no carro e foi se sentar no banco do motorista, demorou uns dois minutos até que ela veio e se sentou do outro lado.


Quando o carro começou a se mover para longe daquela prisão, Ada se permitiu respirar aliviada. Minutos depois, abriu a janela e se distraiu com as paisagens, as casas passando sob seus pequenos olhos amendoados, ou com a movimentação das pessoas nas ruas e com o vento que soprava o seu rosto e bagunçava o seu cabelo. Era uma sensação maravilhosa se sentir livre.


— É bom se sentir livre, não é? — Leon resolveu quebrar o silêncio. — Isso é bom para você valorizar a liberdade e não cometer mais nenhum crime. — Ela continuou o ignorando. — É estranho ver você assim, de cabelos compridos e toda desleixada. Você tá horrível. — O homem estava curtindo provocá-la.


— Você... também mudou... — O tom dela não era sarcástico como ele esperava.


— O que você esperava? Me encontrar ainda definhando naquela cadeira de rodas e lambendo as minhas feridas? — Ele segurava o volante do carro com raiva.


— Eu só... achei estranho você... usando esse estilo fazendeiro — ela respondeu com hesitação, olhando de soslaio para o motorista. — Por que você tá aqui? — Seu coração martelava nervosamente do peito. — O governo poderia mandar qualquer outro agente para me buscar.


— Só que ninguém quis aceitar essa missão... Então, sobrou pra mim — explicou sem paciência. — Agora tenho que bancar a babá da espiã mais odiada dos Estados Unidos — o homem desabafou de mau humor. — Essa é a minha punição por ter testemunhado a seu favor — seu comentário fez ela se sentir culpada.


— Sinto muito... — Por um instante, seus olhos se cruzaram e Leon engoliu em seco.

A tensão era pesada dentro daquele carro. Ela respirou fundo já se sentindo esgotada. Dessa vez, Ada não tinha o controle sobre nada, nem mesmo sobre o destino que a esperava. Para complicar, não podia fugir, ou se manter longe do cara ao seu lado.


— Afinal, aonde você está me levando? — indagou com cautela.


— Para Blandville... no Kentucky — o cara respondeu sem tirar os olhos da estrada.


— Blandville?! Sério, Kennedy? — O sarcasmo estava na ponta da sua língua. — Eu vou passar os próximos três anos, presa em um lugar chamado "Cidade Sem Graça?"


— É melhor do que dividir uma cela com assassinas psicopatas que querem te matar. — Ele estava lhe dando um choque de realidade. — Agora aperte o cinto e aproveite para descansar, porque vai ser uma longa viagem.



Notas finais
No próximo capítulo Ada vai conhecer o seu novo lar onde vai passar os próximos três anos da sua liberdade condicional. Bom final de semana e bjus❤️