Conde Erick
5 O Baile
Todos os presentes pararam para observar a entrada de Conde Erick e, agora sua noiva, Lucy. Ouviu-se um burburinho, não sabia se pela beleza da jovem ou se pela beleza da pedra que estava em seu dedo. O casal se dirigiu para a pista de dança, enquanto os músicos começaram a tocar uma valsa. Os dois dançaram perfeitamente, todos admiraram a leveza que os dois bailavam, mas Lucy parecia não ver mais ninguém em volta além de seu futuro marido e Erick a olhava intensamente, como se nada mais houvesse no mundo além deles. Essa sensação se passou ao final da dança e uma salva de palmas se fez presente, deixando Lucy acanhada.
Um empregado se aproximou do Conde cochichando em seu ouvido e se afastou e logo se ouviu um emissário na entrada do salão anunciar.
— Príncipe Castiel da casa Frederick! — Um rapaz jovem, de cabelos pretos e olhos cinzas, com trajes de festa elegantes e finos entrou no salão, todos fizeram uma reverencia respeitosa e ele se dirigiu diretamente ao Conde.
— Padrinho, obrigado mais uma vez por esse baile. — Se inclinou em direção de Erick. — De todas as festas que dão para comemorar meu aniversário, as suas são as que mais me divertem. — Lucy, que estava próxima a eles, não conseguiu segurar uma risada e o príncipe só percebeu sua presença após o riso. — E essa bela jovem? Não vai me dizer que é meu presente? — Castiel disse isso em tom de brincadeira, deixando Lucy completamente sem graça, mas o Conde não gostou muito. Ele conhecia o afilhado e sabia da fama de mulherengo dele e tratou de cortar qualquer esperança que ele poderia ter.
— Não, meu querido afilhado. Essa é Lucy Lennox, minha futura esposa. — Ele fez o anúncio em um tom de voz mais alto que o necessário, para ter certeza que todo o salão o ouvissem, não queria correr o risco de ter outros interessados em sua noiva. Lucy pensou que teria sido melhor ter contado para sua mãe antes desse anúncio, mas quando olhou pra ela, ela sorria e lhe fez um sinal de aprovação com a cabeça. Erick se inclinou para sua noiva e disse em seu ouvido. — Sua mãe já sabe, eu tive de pedir a benção dela antes de pedir a você. — A jovem sorriu para ele e o Conde anunciou para toda a festa.
— Agradeço a todos por virem, estamos aqui para comemorar o 25º ano de nascimento de meu afilhado, príncipe Castiel Frederick. Aproveitem a festa e divirtam-se. — Após o anúncio, a música recomeçou e o salão se encheu com casais dançando.
— A senhorita será minha futura tia, poderia me dar a honra dessa dança? — Castiel estendia a mão para Lucy e ela estava completamente paralisada, afinal um Príncipe lhe pedia uma dança. Ela olhou para o Conde, sem saber se devia aceitar e ele assentiu coma cabeça. Então ela pegou a mão do príncipe e começaram a dançar.
— Sempre admirei meu padrinho em como ele consegue conquistar as moças mais bonitas para casar com ele. — O príncipe falou de maneira despretensiosa, mas Lucy percebeu que ele queria provocá-la, lembrando-a que ela já seria a 6ª esposa. Lucy não caiu em sua armadilha e retrucou.
— Alguns homens nascem com atrativos naturais, o Conde é inteligente, bondoso e muito atencioso. É fácil se apaixonar por ele. — Ela sorria para o príncipe, que não esperava essa resposta tão direta.
— Quase tenho inveja por ele estar com a moça mais bonita da festa. — Disse o príncipe, parecendo sincero desta vez. Foi quando uma ideia veio na cabeça de Lucy.
— Se engana, vossa graça, não sou a moça mais bonita aqui. Deveria conhecer minha irmã, ela é a mais linda de todas aqui, certamente. Venha, vou mostrar. — Lucy não esperou uma resposta, levou o príncipe direto para sua irmã que estava no canto do salão, se remoendo de inveja por sua irmã estar com seu príncipe. Mas assim que Ambre viu a irmã trazendo Castiel para perto dela, quase a beijou com tamanha alegria.
— Vossa Graça, lhe apresento minha irmã Ambre Lennox. Como eu lhe prometi, a moça mais bonita do baile. — Lucy deu um passo para o lado, para deixar que eles se apresentassem devidamente.
— Muito prazer, vossa graça. — Ambre fez uma reverência.
— O prazer é todo meu. — O príncipe parecia cortês e formal. — A senhorita me daria a honra de uma dança?
— Eu adoraria. — Ambre pegou no braço do príncipe e seguiu para a pista de dança. As irmãs trocaram um olhar cúmplice e Lucy parecia satisfeita por ter ajudado sua irmã a finalmente conseguiu o seu tão sonhado príncipe. Logo sua mãe se juntou a ela.
— Estou tão feliz por você, minha filha. Encontrou alguém que te ama e quer construir uma vida com você. — Ela abraçou a filha e continuou. — Agora deixe-me ver esse anel, é lindíssimo. — Lucy mostrou o anel a sua mãe, mas demonstrou um pouco de preocupação. — O que foi, minha filha? O anel não lhe agrada?
— Não é isso, mamãe. O anel é maravilhoso, mas não posso deixar de pensar na possibilidade de ele ter sido usado no noivado das outras 5 esposas do Conde. — Nesse momento, Robert se aproximou, quase providencialmente, ouvindo a conversa das mulheres e respondeu.
— Não se preocupe, senhorita Lucy. O Conde nunca deu esse anel para nenhuma de suas antigas esposas. Ele pertencia a Condessa Madelene e ele pretendia dar esse anel para seu filho, quando este tivesse idade de se casar. Ele não achava que nenhuma de suas esposas fossem dignas do anel da Condessa, por mais que gostasse delas. O fato dele ter dado esse anel é prova de como a senhorita o encantou e do compromisso que ele tem com a senhorita. — As palavras de Robert fizeram o coração da jovem se derreter ainda mais por seu noivo. Ela o via de longe e suspirava.
Lucy deu uma olhada geral no baile, enquanto pegava uma taça de champanhe com um garçom, sua irmã e o príncipe dançavam no salão, a beleza do casal chamava bem a atenção, a jovem pensou que Ambre realmente seria uma boa princesa. Na pista de dança também viu Charlotte que dançava com um rapaz que ela não conhecia. Torceu para que a amiga de sua irmã também achasse alguém para ela no baile. A mãe se distanciou da filha para encontrar Kentin e Celeste, para saber como estava a nora, depois da semana que passou. A jovem via seu noivo de longe, recepcionando os convidados e achou melhor não o incomodar.
Lucy viu dois rapazes se aproximarem dela, um ruivo de olhos verde e sardas e um com aparência indiana, pareciam ter sua idade. Eles a cumprimentaram e ela cumprimentou de volta.
— Senhorita, somos Liam O’Neill e Indra Bhasin. Nossos pais tem negócios com o Conde Erick, o anfitrião, e vimos a senhorita aqui e não poderíamos deixar uma moça tão elegante sozinha numa festa como essa. — Era obvio para Lucy que esses rapazes deveriam ter chegado pouco tempo depois do príncipe, não tendo assim ouvido o Conde anunciar seu compromisso com ela. Lucy estava se sentindo confiante aquela noite, não sabia se era pelo noivado com Erick, sua aparência mais elegante, a bebida que tomou ou uma mistura dos três, mas resolveu brincar com aqueles garotos.
— Muito prazer, sou Lucy Lennox. É muito atencioso os senhores se preocuparem comigo, fico comovida.
— Do que gosta, senhorita Lennox? — O rapaz moreno perguntou.
— Particularmente, eu amo filosofia, principalmente os pensadores antigos.
— Eu também adoro, “ser ou não ser? eis a questão”. Foi Pitágoras que disse isso. — Disse o ruivo com convicção. Lucy teve que usar todas as suas forças para não dar uma risada bem na cara deles.
— Pois bem, eu sempre pergunto isso a todos os amantes de filosofia que conheço: Sócrates sustentava a ideia de que para conhecer a natureza e persuadir sobre os outros, era preciso conhecer a si mesmo. Além do autoconhecimento, suas teorias tinham como propósito levar às pessoas sabedoria e a prática do bem. Já para Platão as ideias pensadas por nós são formuladas a partir do que sentimos, vemos, ouvimos ou tocamos e estão “guardadas” em um mundo inteligível. Sendo assim, na sua concepção, por trás da realidade material existe uma realidade abstrata e por isso quanto mais pensada for a ideia, mais chances se tem de concretizá-la. Qual a corrente filosófica os senhores concordam, com Platão ou Sócrates?
Os rapazes estavam visivelmente desconcertados, eles não tinham noção nenhuma do que Lucy falava, filosofia não era exatamente a matéria preferida dos aristocratas. Nesse momento uma voz veio por de traz deles.
— Essas correntes filosóficas não são necessariamente antagônicas, sendo, portanto, possível concordar com ambas. — Erick falou colocando uma mão no ombro de cada um dos rapazes. Ele sorria para os garotos, mas havia algo de aterrorizante no sorriso dele. Lucy apenas achava graça. — Vejo que já conheceram minha noiva. Querida, esse são Liam O’Neill e Indra Bhasin, eles são filhos de meus parceiros comerciais na Índia. — O Conde não havia soltado o ombro dos rapazes, segurava ainda mais forte. — A propósito, “Ser ou não ser” é uma fala de Hamlet durante sua peça, Ato III, Cena I. Um clássico.
— Nos conhecemos agora, eles se apresentaram a mim. Esses rapazes atenciosos não quiseram deixar uma senhorita sozinha na festa. — O Conde apertava o ombro deles ainda mais, eles tentavam não se contorcer com a dor. — Mas já que meu acompanhante já está aqui, acredito que o senhor O’Neill e o senhor Bhasin devem tentar encontrar outra jovem senhorita solitária para que eles possam fazer companhia a ela.
— Sim, senhorita! — Disse o indiano.
— A senhorita está certa, já estamos indo, tenham uma boa noite. — Disse o rapaz ruivo saindo apressadamente da presença do casal.
— Esses rapazes abusados não podem ver uma mulher bonita sozinha que vão pra cima como cães na carniça. — Erick disse, soltando um suspiro de alivio e raiva.
— Quer dizer que eu sou uma carniça? — Lucy olhava com cara de desaprovação para o Conde, simulando raiva apenas para provocá-lo.
— Não é isso, querida, foi modo de dizer. Me expressei mal, você não é carniça. É uma jovem linda, inteligente, graciosa que eu amo e respeito muito.
Era a primeira vez que Lucy o ouvia dizer que a amava. Ela ficou emocionada. Ela se inclinou sobre ele e o beijou com ternura no rosto.
— Agora todos saberão que não terei olhos para mais ninguém, meu amor.
O casal foi novamente para o centro do salão e dançaram mais. Após algum tempo, decidiram dar uma volta ao ar livre, para descansarem. Do lado de fora, eles ouviram um grito de raiva. Lucy conhecia bem esse grito, era de Ambre. Eles foram em direção a voz da garota. E ela esbravejava com um senhor idoso que estava caído no chão.
— Viu o que fez, seu velho acabado. Arruinou meu vestido novo. Gente como você não deveria estar em um lugar como esse, só atrapalham os mais novos.
Lucy não quis saber o que havia acontecido antes de ajudar o senhor a se levantar, ela lhe deu seu braço e o puxou pra cima, com ajuda de Erick. Após se certificar que o senhor estava bem, ela quis saber.
— O que houve? Por que esta gritando com esse senhor?
— Esse velhote bêbado esbarrou em mim e derramou bebida no meu vestido, enquanto eu esperava o príncipe voltar com uma bebida para nós. Meu vestido está arruinado.
— Ambre, isso é só champanhe, ele não vai manchar. Secará daqui a pouco e nem se verá que caiu algo. E tenha mas respeito com o senhor, ele é idoso, poderia ser nosso avô.
— Mas é o meu. – Castiel apareceu por trás de Amdre com uma feição de indignação. Ele se aproximou do senhor. – Está tudo bem, vovô?
— Sim, meu filho, não sou mais tão jovem e acabei tropeçando e caindo, mas essa moça gentil e o Conde me ajudaram a levantar. Me desculpe pelo seu vestido, minha jovem. – o idoso deu um sorriso para Ambre que não sabia onde enfiar a cara.
— Esse é o Duque de Manchester, é pai de minha mãe. Não costuma sair muito, mas eu insisti para que viesse. Essa é Lucy Lennox, noiva do meu padrinho. E sua irmã, Ambre. – quando o príncipe se referiu a Ambre, pôde-se sentir o desprezo na voz dele.
— Prazer em conhecer, vossa graça. – Lucy fez uma reverência.
— O prazer é todo meu, minha jovem. Acho que já é hora desse velho se recolher – disse o Duque, se retirando. O príncipe fez um gesto para que um serviçal o acompanhasse, para evitar que caísse novamente. Quando já estava longe, ele se dirigiu a Ambre.
— A senhorita demonstrou um caráter desprezível, fútil e superficial durante toda a noite de hoje. Não falou sobre nada além de futilidades, não demonstrou nada que parecesse interessante. Estar com a senhorita essa noite foi uma grande perda de tempo. E o modo como tratou meu avô não se deve fazer com ninguém, sendo ele um Duque ou um serviçal. Mulheres como você acham que só a beleza vão lhe trazer o mundo de mão beijada, mas essas são as primeiras a serem esmagadas pelo mundo, afinal, essa beleza não durará pra sempre. E depois dela, o que terá para esse mundo? Vou tratar de aproveitar o resto da minha noite longe de alguém tão desinteressante. – voltou sua atenção para a irmã mais nova. — Senhorita Lucy, obrigado por ajudar meu avô, se não fosse noiva do meu padrinho, certamente tentaria conhecê-la melhor. – ele beijou delicadamente sua mão e saiu sem nem olhar para Ambre, que estava em choque após o que o príncipe disse. Lucy estava com um misto de sensações, estava lisonjeada pelo que o príncipe disse, mas estava de coração partido pela irmã, após tudo o que foi dito.
— Irmã, eu sinto muito. Como você está?
— Como eu estou? Minha única chance de me casar foi embora porque você apareceu e teve de ser a perfeitinha de sempre. – Ambre estava irada. – É TUDO CULPA SUA! – a irmã mais velha levantou a mão e ia dar um tapa no rosto de sua irmã, mas Erick segurou seu braço no ar firmemente, mas sem machucá-la.
— Não toque em minha noiva. – O olhar de Erick não deixava dúvidas, ele não aceitaria uma agressão a sua amada, mesmo que fosse da própria irmã. Ambre puxou seu braço de volta. A mãe das moças chegou e o Conde lhe disse.
— A senhorita Ambre parece estar indisposta, é melhor levá-la para o quarto. – Ambre não questionou, demonstrando medo perante a imponência do seu anfitrião.
Madame Lennox levou Ambre de volta ao quarto e Lucy ficou com o coração apertado.
— Acho que também devo me recolher. Fico chateada por Ambre.
— Não mesmo, essa noite é nossa, de mais ninguém. O que lhe disse ontem? Não tem problema ser egoísta de vez em quando. Agora você tem que pensar em você e no que você deseja. O que você deseja agora? – Lucy respondeu sem pensar.
— Você. – Disse com sinceridade e sem sentir vergonha. Ela estava revelando seus sentimentos a ele de forma clara. – Eu te amo, Erick.
O Conde não pôde segurar um sorriso de felicidade ao ouvir essa confissão. Ele a segurou pela cintura e a beijou ali mesmo na varanda da mansão, ignorando que qualquer pessoa poderia vê-los. Nada mais importava a naquela hora, nada mais existia além deles dois e daquele beijo trocado. A festa seguiu noite a dentro e todos pareciam se divertir. Pouco a pouco os convidados se foram, sobrando apenas o casal no salão de baile, dançando sem música alguma.
— Não consigo esperar mais tempo, case comigo amanhã. – O Conde suplicou.
— Eu casaria com você hoje, mas minha família ficaria magoada se não estivessem presentes. – Lucy dizia, acariciando o rosto do amado. – Vamos enviar os convites amanhã, acredito que em duas semanas todos já estarão presentes para o casamento.
— Ainda sim me parece tempo de mais. – Erick lamentava, mas sabia que esse era o correto. Ele contaria os dias até a data do casamento como uma criança conta os dias até a manhã de Natal.
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