Uma brisa agradável de verão soprava pelo jardim, trazendo a fragrância das flores da estação enquanto Lucy, Ambre e Vitória chegaram ao palácio de verão de Conde Erick.

— Ainda não acredito que a senhora aceitou o convite desse velhote, mamãe. – Ambre havia reclamado por todo caminho e ainda não estava satisfeita – pelo menos pude trazer a Charlotte, será mais fácil passar os dias aqui estando com ela. Se tiver sorte, o Conde se apaixona por ela e me esquece. Se bem que isso nunca irá acontecer, todos sabem que sou muito mais linda que ela.

— E a mais modesta de todas, irmã. – Lucy brincava com sua irmã.

— Não há motivos para modéstia se é a verdade. – Ambre retrucou e as duas riram alegremente.

— Não quero gracinhas essa semana. O Conde nos convidou em pessoa, não só para sua casa, mas como para o baile. Esse é o baile que ele dá todos os anos para comemorar o aniversário do príncipe Castiel, seu afilhado. Os convidados são seletíssimos. Não podia me dar ao luxo de recusar. Sabe como seremos vistos pelas outras famílias importantes da província depois dessa festa. – Dizia Vitória, enquanto se dirigiam a entrada da mansão. – Ambre, tente conhecer o Conde melhor, talvez mude sua ideia sobre ele.

— Agora que sei que o príncipe estará no baile, nem em sonho vou ficar com aquele velho.

— Pelo amor de Deus, Ambre. O Conde Erick não é tão velho. Pare de dizer isso antes que alguém escute esse desaforo. – a mãe repreendia a filha mais velha, enquanto a mais nova segurava para não cair na gargalhada, pois já se aproximavam do Conde que as esperava na porta de entrada da mansão.

— Sejam bem vindas, vocês e seus convidados. – cumprimentou o Conde, beijando a mão das damas, se demorando no cumprimento a Ambre, que reagiu dando um sorriso amarelo. — Imagino que queiram descansar após a viagem, seus quartos já estão prontos, este é o Senhor Robert, ele será o criado responsável por sua estadia, qualquer coisa que desejem pedir, podem pedir a ele. Onde estão seus convidados?

— Chegarão em breve, a roda na carruagem quebrou no caminho, então viemos na frente, para não deixar o senhor esperando. – Lucy tomou a frente na explicação.

— Pela mensagem que me enviou, foram poucas pessoas que trouxeram, Madame Lennox.

— Não podemos abusar da sua hospitalidade, Conde Erick. Minhas filhas puderam convidar uma amiga e, como meu marido está viajando a trabalho, eu chamei um dos meus filhos e a esposa que já vinham me visitar. Kentin, um ótimo rapaz. Ele e a esposa se casaram a um ano, são um casal fantástico, verá em breve. – Vitória sempre falava animadamente dos filhos.

— Compreendo, então venham, vamos aos seus aposentos. — O distinto homem dizia enquanto subiam pelas escadas até os quartos.

Lucy observava os corredores, a mobília e os adornos da mansão. Era tudo fino e de muito bom gosto, se perguntava se teria sido alguma das ex-esposas que havia decorado a casa, mas não ousava perguntar. Quando chegaram ao primeiro quarto, viram duas grandes camas e janelas que davam para o jardim da frente. Ambre nem sequer deu a chance para a irmã e a mãe apreciarem o quarto e já foi dizendo.

— Esse quarto é meu! Vou ficar aqui com a Charlote.

Vitoria suspirou, se conformando com a decisão da filha.

— Fico feliz que a acomodação seja de seu agrado, senhorita Ambre. — O Conde falou a irmã mais velha, que devolveu com um genuíno sorriso de felicidade.

— Sim, Conde Erick, é maravilhosa.

— Vou leva-las para os seus aposentos – Disse o Conde, se dirigindo a Vitória e Lucy. — A Madame Lennox ficará em um aposento próprio e a senhorita Lucy ficará em um aposento em frente ao da senhora, Madame. Minha ideia inicial era deixar as irmãs juntas.

— Mas acho que a Ambre teve uma ideia diferente. — Lucy disse sem pensar, apenas se dando conta do que disse após dize-lo. Acreditava que o Conde ficaria ofendido por terem debochado de sua pretendente, mesmo sendo sua irmã.

Ele olhou para traz, nos olhos de Lucy, de maneira intensa e a tensão durou um segundo, mas logo soltou uma sonora gargalhada. O que fez a tensão sumir e todos riram juntos, por motivos diferentes.

— A senhorita Lucy é muito espirituosa. De fato, a senhorita Ambre parece ser bem decidida, mas verá que seu quarto não deixa nada a desejar quanto aos outros, senhorita. – o Conde disse, abrindo a porta e mostrando-lhe o aposento.

De fato, o quarto era bem adornado, madeira e seda por toda parte e grandes janelas que davam para os estábulos na lateral da mansão e para o lago, que ficava na parte de trás.

— Cavalos! – Lucy exclamou, quase gritando. Ela adorava montar, mas morando na cidade, quase não tinha oportunidade.

— Vejo que também aprecia cavalos. Pode passear com eles o quanto quiser. Tudo que tenho é de vocês esta semana. Acomodem-se, a refeição será servida em breve. Vou ver como andam os preparativos.

— Obrigada, Conde Erick. – Vitória agradecia com uma reverência que foi imitada por Lucy.

— Mamãe, posso dar uma volta?

— Mas não cause problemas. Já basta sua irmã me dando preocupações.

Lucy saiu do quarto para explorar o novo ambiente. Cruzou com servos que levavam suas bagagens. A casa era enorme, com dezenas de cômodos. No primeiro andar, ela chegou a uma sala de estar com um grande sofá e poltronas numa ponta e um piano de calda na outra. O piano a hipnotizou de imediato, era lindo, e quando tocou suas teclas, viu que o som também era maravilhoso. As palavras do Conde vieram a sua mente ‘tudo que tenho é de vocês esta semana’. Ela se sentou no banco e começou a tocar uma melodia suave.

Atraídos pelo som, alguns empregados olhavam a visitante tocar e pareciam maravilhados e apreensivos ao mesmo tempo. Logo o Conde Erick adentrou o recinto, sem fazer barulho. Os empregados ficaram ainda mais tensos. Lucy não sabia o que se passava, pois estava de costas para porta totalmente concentrada na melodia que tocava. Ao perceber o final da melodia, o Conde apenas se afastou com uma expressão séria, deixando os empregados para trás.

Ao terminar, Lucy ouviu algumas palmas atrás de si. Levantou-se, um pouco sem graça, mas fez uma reverencia para agradecer a sua plateia inesperada. Senhor Robert tratou de dispersar os outros empregados e se aproximou de Lucy, como quem conta uma confidencia.

— Senhorita, o Mestre Erick também a estava escutando, mas saiu antes que a senhorita terminasse.

— Será que ele não gostou? Ele não gosta de música? — Lucy parecia confusa pois sabia que havia tocado bem. Essa era uma das poucas vaidades que tinha, certeza que era boa no piano.

— Acredito que não tenha sido a música, mas sim o instrumento. O Mestre Erick aprendeu a tocar piano com a Condessa Madalene, sua mãe. Mas ela faleceu quando ele ainda era jovem. Desde então ele nunca mais tocou piano e ninguém também ousou toca-lo, ele o mantém impecável, pedindo para um afinador consertar ele de tempos em tempos. Você foi a primeira a tocar o piano depois da morte da Condessa Madalene, acho que isso deve ter mexido com o Mestre.

— E agora, o que faço? Será que eu o ofendi? Mamãe vai me matar se formos expulsas por minha causa. Preciso me desculpar. Para onde o Conde foi??? — Lucy parecia atordoada.

— Se conheço bem o Mestre, e eu conheço, ele deve ter ido aos estábulos. Os cavalos lhe fazem boa companhia quando está com o humor alterado.

— Irei agora para me desculpar, não posso deixa-lo se indispor conosco, não posso estragar as chances de Ambre.

Lucy correu pelos corredores e pelo jardim em direção ao estábulo e lá estava Conde Erick, como o senhor Robert havia dito. O Conde parecia surpreso em ver a jovem ali. Ele olhava a jovem de um jeito indecifrável que Lucy julgou ser raiva.

— Por favor, Conde, me perdoe. Não conhecia a história daquele piano, não queria ofende-lo. Não voltarei a encostar um dedo nele. Por favor, eu sinto muito. Se quiser que eu me vá, irei. Mas deixe minha mãe e Ambre continuarem aqui.– a jovem fez uma reverência e permaneceu com a cabeça baixa, tal qual uma criança pega em uma travessura.

— Aquele piano tem sim uma história – Erick se aproximou da jovem – ele era de minha mãe, eu tocava nele para ela. Quando morreu, minha vontade de tocar foi com ela, mas o mantive apenas como uma lembrança dela. – Ele estava de frente para Lucy, ela ainda de cabeça baixa. – Te ouvir toca-lo novamente despertou sentimentos antigos que achei que tinha deixado de lado. Precisei me afastar para acalma-los – Ele colocou as mãos nos ombros da jovem para endireita-la. Ela observou seus olhos assustadores, mas ao mesmo tempo piedosos. – A senhorita não me ofende tocando, pelo contrário, eu gostei de ter ouvido alguém tão talentosa tocar a coisa que minha mãe mais amava depois da família. Pode toca-lo sempre que quiser.

Lucy podia sentir suas orelhas queimando. Ela sabia que era boa pianista, sempre recebera elogios sobre isso e lidava bem com eles. Mas aquele elogio, daquele homem e naquela circunstancia a fez ficar completamente desestabilizada.

— Não é pra tanto. — A jovem disse, desviando o olhar e dando um passo para traz por instinto. Conde Erick sorriu da franqueza de Lucy.

— Vamos entrar, o jantar já deve estar servido e acredito que seus convidados já devem ter chegado. — Erick e Lucy começaram a seguir para casa quando o Conde perguntou – A propósito, na carta de sua mãe ela mencionou que seus convidados seriam seu irmão e a esposa e uma moça chamada Charlotte, que pelo que percebi, era amiga da senhorita Ambre. Você não quis chamar ninguém?

— Na verdade não tenho muitas amigas. Nenhuma que pudesse chamar para viajar. Eu meio que vivo em função de ser dama de companhia da minha irmã.

— Deve ser solitário.

— Nem tanto, posso não ter amigos físicos, mas os pensadores gregos e as escalas musicais são meus amigos. Sempre posso me refugiar numa composição ao piano ou numa página de um livro de aventura, mistério ou filosofia.

— Incrível que uma senhorita tão jovem tenha interesses tão profundos. E sua irmã, compartilha desses interesses?

— Ambre tem seus próprios interesses, gosta de luxos e coisas finas, mas não sei se gosta de livros, na verdade nunca a vi lendo nada que não tenha sido mandado pelo nosso professor. — Lucy se deu conta do como aquilo soava negativo para a irmã e tentou concertar – Mas ela é ótima com números, consegue fazer contas de cabeça muito bem, não pense que ela não tem cultura, nós estudamos com os melhores tutores.

— Essa sua franqueza é muito fofa, nunca perca isso.

— Assim o senhor me deixa sem jeito.

— Senhor, o restante dos convidados chegou, podemos servir o jantar. — disse senhor Robert, vindo de encontro ao Conde, na entrada da mansão. Erick concordou e todos seguiram para o grande salão de jantar onde havia uma grande mesa posta para 7 pessoas.

O jantar seguiu perfeitamente, Vitoria apresentou o filho Kentin e a nora Celeste, além de Charlotte, amiga de Ambre. Foi uma conversa animada, bem diferente das vezes que o Conde havia ido a casa das jovens para fazer a corte a Ambre. Lucy podia ver a irmã quase se divertindo. Não sabia se era por causa da atmosfera de luxo, pela companhia da amiga ou se ela estava começando a se encantar pelo Conde, mas ficou feliz pela mãe, que já devia estar planejando as bodas do futuro casal. Por alguma razão, pensar sobre isso deixou Lucy aflita. Será que temia que a irmã sofresse o mesmo destino das outras esposas do Conde, mesmo não sabendo ao certo o que acontecera? A jovem se apegou a essa ideia e seguiu a noite, a aflição passou e todos foram dormir cedo, pois estavam cansados da viagem. O dia seguinte seria cheio de novas surpresas para todos.