Conde Erick

3 A pretendente inconveniente, a pretendente formidável


Lucy viu o sol nascer no horizonte, enquanto acariciava a crina do cavalo que montava. Ela acordou cedo e não conseguiu voltar a dormir. Decidiu sair para cavalgar durante o raiar da manhã, para aproveitar o tempo fresco e ver o sol nascer. Ela adorava sair de manhã cedo, quando criança acordava antes dos irmãos e brincava com os cães de caça do pai na casa de campo da família. Ela deu um chute leve no cavalo e ele saiu em disparada. Adorava a sensação do vento nos cabelos e da liberdade da corrida.

A jovem cavalgou sem um destino definido, passando por roseiras com lindas flores e acabou chegando em uma clareira com algumas estátuas ao fundo. De longe não identificou, mas quando chegou perto pode ver que eram, na verdade, lápides com estatuas de anjos. Aparentemente, era os antigos conde e condessa de Stuart, pais de Erick. Ela voltou a uma das roseiras, colheu uma rosa e deixou em frente ao túmulo. Fez uma prece e seguiu seu caminho, voltando a mansão para o café da manhã. Erick havia estado ali a pouco e observou toda a movimentação de Lucy de longe. Mesmo sem saber o que motivou a jovem a tal ato, ficou comovido com a consideração dela.

Voltando para a casa, Lucy viu que todos já haviam levantado e foi para o café. A refeição seguiu animada como a noite anterior. Conde Erick chamou sua pretendente para passarem o dia juntos e, claro, Ambre arrastou Charlotte para ir com ela, afinal era esse seu plano, não ficar a sós com o Conde, tendo sempre alguém a tira colo. Imaginou que a mãe chamaria sua irmã Lucy para fazer companhia a ela, obrigando Ambre a ficar sozinha com o Conde. Já com Charlotte, não teria como a mãe força-la a acompanha-la, já que elas eram amigas e podia usar a amizade como pretexto a para tê-la sempre consigo.

— A sua propriedade é belíssima. Desde quanto ela está em sua família? — Ambre tentava manter uma conversa amigável com o Conde, fingindo demonstrar interesse em sua vida, enquanto caminhavam a beira do lago. Charlotte estava logo atrás deles, mas não participava da conversa.

— Acredito que esteja na minha família desde meu bisavô. Ele se tornou amigo do Rei Jorge II, quando ainda era príncipe. Entrou no exército real e quando o Rei foi para guerra, meu bisavô acabou salvando sua vida. Em gratidão, o Rei lhe deu o título de nobreza e as terras que possuímos, incluindo esta. — Erick contava com orgulho a histórias de sua família.

— Sua família e a família real tem muita amizade, não é verdade? Tanto que o senhor até mesmo é padrinho do príncipe. Como é o príncipe? Ele parece ser uma pessoa muito interessante. — Ambre quis parecer casual, mas era obvio para qualquer um seu interesse pelo príncipe. Conde Erick deu respostas vagas, tentando desconversar do assunto “príncipe”.

A mãe passou o dia com seu filho e a nora, contando as novidades da vida de casal e Lucy passou o dia na biblioteca da mansão. O Conde tinha diversos livros interessante sobre assuntos que quase não conhecia. A jovem quase lamentou que ficariam apenas uma semana. Além dos livros, o piano também lhe atraía, mas não se atrevia a toca-lo ainda. Estava pensando em tocar quando o Conde estivesse em algum passeio com Ambre ou sua mãe para que não se chateasse novamente com a música.

Dois dias passaram do mesmo jeito, o Conde tentando se aproximar de Ambre e ela tentando desencorajar Erick com essa ideia de casamento. Lucy fazia companhia ora a mãe, ora a irmã, ora ao irmão e a cunhada e ora a si mesma.

Na manhã do quarto dia, todos estavam fora de casa, o Conde chamou Vitória, Ambre e Charlotte para um passeio de carruagem pelo vilarejo próximo. Lucy havia escolhido ficar. Ela preferia ficar sozinha com seus pensamentos, do que ser dama de companhia da irmã, já havia cumprido esse papel por 19 anos, e Charlotte estava aí pra isso, ela pensou.

Aproveitou a oportunidade para finalmente tocar o maravilhoso piano. Tocou suas composições favoritas, além de algumas que ela mesma fez. Descansou alguns minutos e começou a dedilhar uma melodia doce. Nesse momento, Conde Erick entra pela porta principal, visivelmente nervoso. Assim que ele pôs os pés na casa, ouviu a melodia suave do piano. Ele seguiu o som e viu a jovem Lucy tocando lindamente, a luz do sol que entrava pela janela e refletia no instrumento parecia iluminar a jovem moça e lhe dava um ar angelical. Ele ficou hipnotizado pela jovem pianista que até tinha esquecido que estava a com raiva. Após a última nota, Lucy, satisfeita por saciar sua vontade de tocar, se levantou para sair da sala e deu de cara com o Conde a observando com os olhos assustadores, mas agora também pareciam ter admiração. Toda vês que via Erick, conseguia distingui uma nuance nova em seu olhar. Lucy travou quando o viu e ele se aproximou.

— Toque para mim. – disse Erick.

— O que? – Lucy parecia confusa.

— Toque algo para mim ao piano.

— Tu..tudo bem. Do que o senhor gosta? – a jovem estava nervosa.

— Toque algo intenso. — Erick se sentou na poltrona em frente ao piano.

Lucy assentiu e se sentou novamente, tocando mais uma vez. A melodia começou calma, Lucy olho para Erick que estava sentado à sua frente e sentiu seu olhar de desaprovação, afinal tinha pedido algo diferente do que ela estava tocando. A jovem devolveu com um olhar desafiador, o piano lhe deu uma confiança que não possuía normalmente. Logo depois dos primeiros acordes suaves, a música teve uma virada e ficou forte e intensa, como o homem queira. Aquilo pegou o Conde de surpresa e ao mesmo tempo que tocava, Lucy olhava desafiadoramente para o homem. Eles não desviaram o olhar um do outro até o fim daquela composição. Ao final, Conde Erick deu um suspiro de alívio, como quem teve uma catarse emocional.

— Obrigado por tocar.

— Não há de que, mas o senhor não parece bem, algo o perturba, estou certa?

— De fato, estou um pouco frustrado na verdade. Tenho feito o que posso para conquistar a simpatia de sua irmã, mas nada parece suficiente. Estou ficando sem forças.

— Ambre é bem difícil, realmente, e é muito teimosa. Quando põe uma ideia na cabeça não tira por nada...- Lucy se calou, percebeu que estava colocando a irmã em um problema.

— O que quer dizer com isso?

— Não deveria dizer isso ao senhor. Por favor, mantenha isso em segredo, somente entre nós. Mas o senhor tem sido tão bom conosco essa semana que me comove vê-lo sofre assim. Como o senhor já deve ter percebido, Ambre é muito geniosa e quase autoritária. Na verdade, ela sempre foi mimada, desde que nasceu. Era a primeira filha, meus pais estavam emocionados, a encheram de mimos. Ela foi crescendo e nunca foi contrariada, quando meus pais viram como ela crescia, trataram de não deixar meus irmãos e eu do mesmo jeito, mas o estrago dela já estava feito. Ela acredita que é boa demais para qualquer homem que não seja um príncipe. Ela vai tentar conquistar o príncipe Castiel no baile que o senhor dará no fim dessa semana.

— Isso explica porque ela perguntou tanto sobre ele esses dias. Mas ela já o viu? Ela o conhece de algum lugar?

— Ela nunca o viu, mas está com essa ideia de príncipe tão fixa na cabeça que não vai aceitar investidas de ninguém. E não faltaram pretendentes.

Erick se jogou para traz na poltrona, coçando os olhos com a mão, se dando por vencido.

— Sinto muito que tenha perdido seu tempo, Conde Erick. Minha mãe não deveria ter aceitado seu convite.

— Não se preocupe, mesmo que não dê em nada com a senhorita Ambre, ter vocês aqui essa semana foi uma mudança agradável na minha rotina. Fico feliz que tenham vindo. — Erick olhou para Lucy e lembrou de algo que queria lhe perguntar

— Senhorita Lucy, a alguns dias atrás, a senhorita estava andando a cavalo de manhã, bem cedo, quando passou pelo tumulo dos meus pais e depositou uma rosa. Por quê fez isso? — a jovem estava acanhada com a pergunta.

— Eu... eu não sei porque exatamente. Só me pareceu certo. Pus a rosa e fiz uma oração.

— Pelo que você rezou?

— Para que eles estivessem juntos e felizes, onde quer que estivessem. Fiz errado? O senhor ficou chateado? — Lucy parecia aflita.

— Não senhorita, – Conde Erick foi até ela e disse, pegando sua mão — não me ofendeu, pelo contrário, achei muito atencioso. Até mesmo eu, sendo filho, não lembro a última vez que pus flores para meus falecidos pais. Você é realmente uma moça diferenciada. — Disse, beijando a mão de Lucy. Ela ficou ruborizada e desviou o olha.

— Assim o senhor me deixa sem jeito. — Erick riu, achando graça da franqueza inocente e charmosa da jovem.

— Vamos, o jantar já será servido em breve. — Erick se retirou da sala, sendo seguido por Lucy que cruzou com a mãe, a irmã e Charlotte.

— Minha filha, não sabe a vergonha que sua irmã me fez passar com o Conde. Ele nos acolheu em sua casa, nos deu sua hospitalidade e ela não tem nem a decência de dar atenção ao senhor. — A mãe se lamentava a filha mais nova.

— Ora, mamãe, sabe que eu não consigo mentir por muito tempo. Não posso fingir estar interessada em alguém que visivelmente não me interessa. Mas acho que dessa vez ele entendeu que não terá chances comigo. — Ambre parecia contrariada pela bronca da mãe e Lucy não se atreveu a perguntar sobre o que havia acontecido com eles durante o passeio a cidade, apenas imaginando qual desfeita a irmã teria feito ao Conde.

— O jantar está servido, madame, senhoritas. — Robert avisou às visitantes.

O jantar correu bem, Kentin e Celestes estavam ausentes, pois Celeste havia passado o dia de cama. Nessa noite, Conde Erick pediu para que servissem o melhor vinho da adega, uma última tentativa de impressionar Ambre. As mulheres tomaram pouco vinho, mas Ambre acabou exagerando e bebendo além da conta.

— Então, Conde Erick, — olhou para ele com um olhar ébrio e um sorriso maldoso. — É verdade mesmo que suas esposas fugiram ou elas traíram o senhor e você as matou? Falam-se muitas coisas na província, mas eu queria ouvir direto da fonte.

Aquela pergunta era um ultraje total para todos, tanto para as convidadas quanto para o anfitrião.

— Ambre! Como ousa insinuar algo tão desprezível sobre o Conde debaixo do teto que ele nos ofereceu?! Você passou de todos os limites! — Lucy estava transtornada por tamanha ofensa proferida pela irmã. Nem se quer esperou uma resposta. Tirou a taça a mão da irmã, pegou-a pelo braço com força e a arrastou até o quarto. Charlotte ajudou a carregar Ambre, enquanto Vitoria se desculpava com o Conde. Lucy e Charlotte a levaram para o quarto. Lucy a jogou na cama, completamente indignada.

— Vá se deitar e reflita sobre suas atitudes, Ambre. O Conde Erick provavelmente nos expulsará pela manhã. Nossa mãe deve estar tão decepcionada.

— Você sempre tem que ser a filhinha perfeita. Se achando melhor do que eu, mas você tem inveja de mim que eu sei, você jamais será tão bonita como eu.

— Você é egoísta, desagradável e patética. E não tem beleza no mundo que possa consertar isso. – Lucy se virou pra sair e pediu para Charlotte cuidar de Ambre até ela dormir. Ao sair do quarto da irmã, cruzou com a mãe.

— Como está o Conde? Muito irritado?

— Eu pedi mil perdões a ele, mas ele se reservou a dizer “tudo bem, ela bebeu demais” e se retirou da mesa. Acho que foi pra sala com o piano. Como chegamos a isso? Ambre sempre soube manter a compostura, o que farei com ela?

— Está mais do que na hora da senhora ser a MÃE dela e exercer sua autoridade. – A mãe ficou surpresa com a resposta da filha, mas sabia que era verdade. Lucy já estava cansada dos caprichos de Ambre ditando sua vida.

A jovem desceu as escadas e foi até a sala do piano. Conde Erick estava em uma janela mal iluminada, com um copo de whisky. Ele olhou para Lucy quando ela entrou e pode ver ódio nos olhos dele dessa vez. Antes que dissesse alguma coisa, Erick se pronunciou.

— Não se preocupe, não irei expulsa-las me minha casa. Chamei-as para passar a semana e assim farei, mas ficou claro para mim que a senhorita Ambre não é a mulher que eu pensei que fosse, se ela queria que eu desistisse dela, conseguiu. – Erick virou o líquido do copo que tinha em mãos e se serviu de mais um. Por algum motivo que Lucy não entendia, apesar do olhar de ódio que o Conde tinha, ela não sentia medo, mas sim pena. Queria consola-lo e tirar aquela amargura de seu coração.

Ela não pensou, apenas reagiu. Se sentou ao piano e começou a tocar uma melodia calma. Erick olhou a moça tocando e se aproximou, sentando-se ao seu lado no banco do piano, mas de costas para as teclas do instrumento. Ele apreciava a melodia, enquanto bebia e seu ódio se dissipava conforme a música progredia. Ao final, estava mais calmo e olhou para a jovem que parecia aliviada em ter acalmado seu anfitrião, mesmo que só um pouco.

— O que mais me irritou foi que sua irmã não estava de todo errada, — Erick começou a falar, para surpresa de Lucy. – minhas esposas me traíram, por isso elas não estão aqui. Depois que se perde a confiança em alguém e impossível tê-la de volta.

— Por isso elas não estão aqui, você as mandou embora.

— Não me orgulho do que fiz, mas foi o que achei certo.

— Não posso julga-lo, nunca passei por esta situação, mas eu o vi essa semana, o senhor é uma pessoa formidável, culto e dedicado. Qualquer uma que tenha lhe traído só poderia estar louca. – novamente a franqueza de Lucy a traiu e expôs seus sentimentos. O Conde olhou para ela. Até o momento a via como uma jovem franca e ingênua, mas a viu agora como a mulher que de fato era, culta, interessante e também bela. Ele acariciou o rosto de Lucy com as costas dos dedos da mão.

— Será que esse tempo todo eu estava observando a irmã errada? – A jovem moça ficou vermelha instantaneamente e olhou para baixo. Só naquele momento percebeu que, mesmo sem querer, o Conde Erick conquistou seu coração.

— Assim o senhor me deixa sem jeito. – Erick não conseguiu resistir aquela doçura tão inocente, mas ao mesmo tempo sedutora. Ele pôs a mão no rosto de Lucy e o virou para o seu, encarando seus olhos. Lucy não via mais nada de assustador no olhar do Conde, apenas via seu desejo. Com os lábios entre aberto ela aproximou seu rosto do dele. Ele seguiu ao seu encontro e os dois se uniram em um beijo apaixonado. Lucy sentiu o braço forte de Erick abraçar sua cintura e pôs sua mão no tórax dele, sentindo seus músculos. Após esse beijo, eles se afastaram um pouco.

— Quero que passe o resto do seu tempo aqui comigo. Quero conhecê-la ainda mais. Quero que toque piano para mim. Aceita estar comigo esses dias? – Erick ainda estava abraçando sua cintura.

— Ficarei feliz em está com o senhor. – Lucy sorriu, se sentindo desejada.

— Me chame de Erick.

— Ficarei feliz em estar com você, Erick.