Concurso de Halloween - A Forma
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Há muitos anos, quando eu era pequeno e morava com meus pais, algo habitava o quarto em que dormia.
A primeira vez que a coisa se revelou era final da tarde e eu tirava um cochilo após a escola. Foi a sensação de estar sendo incessantemente chamado pelo nome que me fez acordar. Ao abrir os olhos, deparei-me com algo singular, de inédita forma geométrica, escorado à porta. A forma balançava-se sobre suas distorcidas arestas, causando suaves batidas na madeira. Mais curioso do que assustado, levantei-me para inspecionar, acreditando se tratar de algum brinquedo novo, uma surpresa do papai. Minha mãe abriu a porta no exato instante que me aproximava, perguntando por que estava irritando a ela e à vovó com aquelas batidinhas constantes. Tentei mostrar a ela que não era eu quem reproduzia o ruído mas, ao olhar para trás da porta, a forma havia sumido.
Ao longo da minha infância e início da adolescência, ela fazia suas aparições: embaixo da cama, dentro do armário, em cima da prateleira, sobre o parapeito da janela e, uma vez, bem próximo, tão próximo que quase cheguei a tocá-la, no meu criado-mudo.
Quando papai faleceu e o orçamento de casa diminuiu drasticamente, eu, mamãe, meu irmão e a vovó tivemos de vender a propriedade e ir procurar um meio mais econômico de viver.
Nunca mais a vi. A forma, porém, sempre povoou meus sonhos e meus anseios, e não houve um dia sequer que não pensasse no que aconteceria se chegasse a senti-la nas mãos.
Estudei, cresci e virei uma pessoa bem sucedida. Semana passada finalizei negócio com o atual proprietário da minha antiga casa. Hoje peguei as chaves da porta principal, da qual já volta a me pertencer no papel. Agora passo minha primeira noite nela, na esperança indômita de reencontrar uma velha conhecida.
São duas e quinze da madrugada quando ouço vozes a me chamar. Elas começam baixinho, como uma canção de ninar, até se tornarem impacientes e explodirem num berro gutural, ecoando pela casa vazia. Abro os olhos. O quarto está absolutamente escuro. Minhas pupilas vão se acostumando na ausência de luminosidade e os oscilantes postes de luz da rua são suficientes para as primeiras silhuetas saltarem sobre meus olhos.
O aposento está vazio. Mudei-me hoje e não tive tempo de mobiliá-lo. Apenas o colchão em que deito e minha mochila com pertences essenciais me fazem companhia no cômodo. Isso e um vulto pequeno, invólucro, retumbando na porta de madeira.
Batendo, batendo, batendo.
Querendo falar comigo sobre coisas imemoráveis, inimagináveis, intangíveis.
Eu engatinho para a forma, ávido de contentamento. Ela bate mais freneticamente, para lá e para cá, parecendo entusiasmada com meu retorno.
Para não perdê-la de vista, faço um movimento brusco e rapto-a com a mão direita. Ineditamente sinto sua aderência insalubre, sua plenitude oca, sua falta de forma... é como se estivesse disponível ao toque, mas também não existisse. De repente me dou conta e, desesperado, descubro, que estou parando de existir também.
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