Notas iniciais
Lhes apresento a menor fanfic que já criei! Aceitei do desafio do Concurso de Halloween e espero ter alcançado o objetivo do tema: deixá-los, pelo menos, pensativos quanto ao final deste singelo conto. Aguardo ansiosa pelos seus comentários! Beijos, Van Vet!

Há muitos anos, quando eu era pequeno e morava com meus pais, algo habitava o quarto em que dormia.

A primeira vez que a coisa se revelou era final da tarde e eu tirava um cochilo após a escola. Foi a sensação de estar sendo incessantemente chamado pelo nome que me fez acordar. Ao abrir os olhos, deparei-me com algo singular, de inédita forma geométrica, escorado à porta. A forma balançava-se sobre suas distorcidas arestas, causando suaves batidas na madeira. Mais curioso do que assustado, levantei-me para inspecionar, acreditando se tratar de algum brinquedo novo, uma surpresa do papai. Minha mãe abriu a porta no exato instante que me aproximava, perguntando por que estava irritando a ela e à vovó com aquelas batidinhas constantes. Tentei mostrar a ela que não era eu quem reproduzia o ruído mas, ao olhar para trás da porta, a forma havia sumido.

Ao longo da minha infância e início da adolescência, ela fazia suas aparições: embaixo da cama, dentro do armário, em cima da prateleira, sobre o parapeito da janela e, uma vez, bem próximo, tão próximo que quase cheguei a tocá-la, no meu criado-mudo.

Quando papai faleceu e o orçamento de casa diminuiu drasticamente, eu, mamãe, meu irmão e a vovó tivemos de vender a propriedade e ir procurar um meio mais econômico de viver.

Nunca mais a vi. A forma, porém, sempre povoou meus sonhos e meus anseios, e não houve um dia sequer que não pensasse no que aconteceria se chegasse a senti-la nas mãos.

Estudei, cresci e virei uma pessoa bem sucedida. Semana passada finalizei negócio com o atual proprietário da minha antiga casa. Hoje peguei as chaves da porta principal, da qual já volta a me pertencer no papel. Agora passo minha primeira noite nela, na esperança indômita de reencontrar uma velha conhecida.

São duas e quinze da madrugada quando ouço vozes a me chamar. Elas começam baixinho, como uma canção de ninar, até se tornarem impacientes e explodirem num berro gutural, ecoando pela casa vazia. Abro os olhos. O quarto está absolutamente escuro. Minhas pupilas vão se acostumando na ausência de luminosidade e os oscilantes postes de luz da rua são suficientes para as primeiras silhuetas saltarem sobre meus olhos.

O aposento está vazio. Mudei-me hoje e não tive tempo de mobiliá-lo. Apenas o colchão em que deito e minha mochila com pertences essenciais me fazem companhia no cômodo. Isso e um vulto pequeno, invólucro, retumbando na porta de madeira.

Batendo, batendo, batendo.

Querendo falar comigo sobre coisas imemoráveis, inimagináveis, intangíveis.

Eu engatinho para a forma, ávido de contentamento. Ela bate mais freneticamente, para lá e para cá, parecendo entusiasmada com meu retorno.

Para não perdê-la de vista, faço um movimento brusco e rapto-a com a mão direita. Ineditamente sinto sua aderência insalubre, sua plenitude oca, sua falta de forma... é como se estivesse disponível ao toque, mas também não existisse. De repente me dou conta e, desesperado, descubro, que estou parando de existir também.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!