Concurso Apocalipse 2012 - Bem Vindo à Nova Era
1 Radioactive - Imagine Dragons
"Estou viva."
É a primeira coisa que penso quando recupero os sentidos, e é um pensamento aterrorizante.
A última coisa de que me lembro é de quando eles chegaram em nossa casa. Mamãe havia gritado para que fôssemos para o abrigo no subsolo, onde eles não conseguiriam entrar, mas Maddy saiu correndo para pegar seu ursinho e eu, é claro, não podia deixá-la sozinha para trás.
Eles explodiram a porta de entrada com uma de suas armas de laser azul quando eu estava na metade da escada, deixando um enorme círculo na parede e inundando a sala de fumaça. Eu caí de joelhos com o impacto, e isso foi crucial para o que aconteceu depois.
– Maddy, corra! — eu gritei enquanto ela subia as escadas. Eu tentei correr também, é claro. Planejava pegá-la no colo e pular de alguma das janelas antes que eles nos alcançassem. Mas eles me pegaram. Um de seus chicotes entrelaçou-se em minha perna e eu logo senti as ondas de choque. Depois disso, tudo se tornou escuridão.
Agora eu estou deitada em algum lugar, mas não tenho coragem de abrir os olhos para descobrir onde. Sinto uma leve brisa em meu rosto e minhas costas doem pelo chão desnivelado, e posso ouvir barulhos e gritos ao longe.
Mas eu não posso me levantar. Não posso abrir os olhos para descobrir o que eles haviam feito comigo.
Eu já havia visto os resultados de seus experimentos diversas vezes na TV, quando uma das mutações perdia o controle ou era capturada pelo governo. Os cabelos mudavam de cor e era como se algo estivesse ardendo dentro de seus corpos, prestes a sair a qualquer momento. Os mutantes não sabiam o que estavam fazendo, mas eram máquinas de destruição em massa, com sua força e velocidade num nível que nós humanos jamais havíamos imaginado. E o pior de tudo: que era possível ver em seus olhos que eles preferiam estar mortos. Eu não quero me tornar uma daquelas mutações.
Nós devíamos ter sabido. Devíamos ter suspeitado quando eles chegaram do céu com suas enormes espaçonaves cheias de tecnologias desconhecidas, dizendo que "vinham em paz." Não havíamos aprendido nada com os filmes sobre alienígenas?
Eles se infiltraram em nossas vidas, tornaram-se parte de nosso cotidiano. Começamos a nos acostumar com suas peles coloridas, olhos de tamanho desproporcional ao rosto e inteligência acima da média.
Eles "estavam aqui para ajudar." Diziam que a sociedade havia chegado no seu ápice de desenvolvimento e para que continuasse a progredir, precisava da ajuda deles. "Bem-vindos à Nova Era", eles repetiam. Nós aceitamos, é claro. Um clássico fetiche humano, o progresso. Nos entregamos sem nenhuma resistência e nem sequer percebemos o que estava por vir.
Não foi difícil, portanto, para que eles tomassem o poder. Seu líder, Kratos, já era um frequentador diário da casa branca, e não teve a menor dificuldade para matar o presidente. Bem, matar não, algo pior: transformá-lo na primeira mutação da qual tivemos conhecimento. A partir daí, o mundo entrou em colapso.
A tecnologia deles era muito mais avançada que a nossa, e com os mutantes, eles eram invencíveis. Os alienígenas entravam na casa de pessoas inocentes de madrugada e raptavam alguns para seus experimentos antes de matar o restante. Exatamente como havia acontecido comigo.
Teriam eles matado Maddy e mamãe? Será que elas haviam conseguido fugir antes que o pior acontecesse? Só de imaginar Maddy ensaguentada no chão, ainda segurando seu precioso ursinho... Ou mamãe fria e eletrocutada ao lado da entrada do abrigo... Por que isso está acontecendo?
E o que havia acontecido comigo, afinal? Teriam eles feito experimentos em mim, me transformado em um dos mutantes para que logo a bomba-relógio dentro de mim explodisse e eu me tornasse outra de suas armas de destruição em massa?
Eu não quero isso, definitivamente não quero. Por que não haviam me matado, logo?
Eu não posso abrir os olhos e encarar a realidade. Não quero descobrir o que havia acontecido comigo. Quero ficar aqui, deitada, sem saber onde estou. Quem sabe não sou atingida por alguma coisa e acabo morrendo antes que algo pior aconteça?
Mas algo me dispersa de meus devaneios. Um grito.
É uma garotinha, deve ter a mesma idade de Maddy. Ainda com os olhos fechados, ouço enquanto ela foge, provavelmente de um dos alienígenas ou de um dos mutantes. Ela está chorando.
Isso desperta algo dentro de mim. Uma energia que eu nunca havia sentido.
Eu estou acordando, eu sinto em meus ossos, o suficiente para fazer meu sistema explodir. Abro meus olhos.
Acordo em meio a cinzas e poeira. Estou deitada no chão, no meio de uma cidade que não conheço, os destroços dos prédios me cercam. O grito da menina ecoa novamente e é o suficiente para me fazer levantar.
Meu corpo não parece ter sofrido alterações, mas ao me levantar percebo que meu cabelo está branco. Sem tempo para pensar sobre o que isso significa, procuro a garota.
Ela está caída no chão e um dos alienígenas aponta uma arma laser para ela. Ele vai matá-la.
Corro na direção da cena e a paisagem ao meu redor se move numa velocidade descomunal. Chego perto do alienígena antes que ele possa atirar e aplico-lhe um soco no queixo, derrubando-o no chão.
Não é o suficiente. Caio sentada em cima dele, um joelho de cada lado do seu corpo, e soco-o repetidamente. Por mamãe. Por Maddy. Pela garota. Pelo que eles fizeram comigo. Pelo que fizeram com o mundo.
Sua pele verde-acinzentada começa a se desfazer sobre minha mão, mas eu continuo socando-o. Seus ossos se quebram e o sangue negro começa a escorrer, manchando meu punho. Quando me afasto, sua cabeça não passa de uma massa nojenta e colorida de órgãos expostos e embaralhados.
– Bem-vindo à Nova Era. — eu digo.
Afasto-me dele e limpo seu sangue escuro em minha roupa antes de virar-me para a garota. Ela está assustada, não sabe como reagir. Ela sabe o que eu sou.
Mas o que eu sou? No que eu me tornei?
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