Concurso Apocalipse 2012- 24 Hours
1 24 Hours- Ready, Aim, Fire
Notas iniciais
Ready, Aim, Fire
Caminho em meio aos destroços. Dói a mão, dói o pé, mas nada dói mais que a cena vista a poucos dias, antes de tudo acabar em desgraça, antes da carnificina começar.
Era como se ele já soubesse o que viria acontecer, me privando assim de um sofrimento maior.
Antes caminhando, agora correndo. O desespero quer pegar a minha alma, assim como de minha mãe.
Paro. Mãe. Mamãe, como você deve estar agora?
Lembro-me de como ele chegou em nossa casa, de como corri para tentar chegar a porta antes dele entrar, e de como você gritou quando viu que eu não consegui. Sinto muito.
Mas hoje agradeço . Ele, nos fez ficar trancados dentro da própria casa, dizia que se saíssemos iriamos morrer, claro que pensamos que fosse ele que iria nos matar, mal sabíamos que na verdade era pra ser o salvador.
O mais engraçado era a mesma pergunta que eu o fazia "como eu nunca vi seu rosto aqui?" , e ele somente ria, saindo do quarto onde nos escondia Não gostaria de admitir isso para alguém que eu temia, mas eu amava aquele sorriso.
Continuei correndo, podia sentir o cheiro de carne podre perto de mim, sozinho eu não teria chance alguma. Mas como a sorte não está comigo, logo aparece um daqueles mordedores malditos, somente me lembro das seguintes palavras "Preparar, apontar, fogo" . Meus olhos estão cheios de lágrimas mas não o suficiente para fazer disparar a arma enquanto repito.
–Preparar, apontar, fogo.- BUM.
Continuo correndo a procura de algum lugar para passar a minha noite, a primeira desde tudo começar.
Encontro uma pequena loja de conveniências.
Entro devagar com meu rifle em punho, qualquer erro da minha parte pode ser fatal .Como era pequena, poucas prateleiras estavam em volta, facilitando assim o meu trabalho. Fechei toda loja depois da revista por algo ou alguém.
Me sentei no chão, com as costas viradas para a parede gelada, teria menos chance de algo acontecer mesmo estando sozinho ali.
Como a única coisa que me restou, comecei a pensar enquanto comia um pacote de biscoitos fechado que peguei em uma das prateleira .
–Me pergunto o por que de tudo isso estar acontecendo. Seria por nós seres humanos estarmos acabando com tudo de bom neste planeta? Ou talvez a nossa crueldade com seres da nossa mesma espécie, e de várias outras. Poderia ser então um castigo divino? Mas então por que com todos? Por que os bons não foram poupados? por que ainda estou aqui? E porque minha mãe se foi? E Kevin que tentou nos ajudar, por que uma pessoa tão boa como ele se foi? E meu choro está tão sofrido por quê? ME RESPONDA, por favor- sussurrei a última parte para mim mesmo enquanto caia lentamente pelo sono que me dominava.
Mal sabia que mais além alguém me ouvia e infelizmente não posso dizer que era coisa boa.
A única coisa que pude ver antes da morte foi a porta sendo arrebentada e Kevin passando por ela, seu olhar faminto dizia que neste momento o destino já estava traçado .
Lá em cima
–Satisfeito agora meu filho?- Perguntou o grande homem de branco sentado.
–Oi? Eu não entendi o que aconteceu.
–Você morreu.
–E POR QUE EU ESTARIA SASTISFEITO?
–Não era o que queria jovem?
–Não, eu somente queria poder ter Kevin de volta, nem que fosse por um último dia.- Disse segurando as lágrimas.
–Nem que isso fizesse você ir no lugar dele?
–Sim. -Falei em um sussurro baixo enquanto encarava meus pés.
–Ok então, você terá um dia, nada mais que isso, quando as 24 horas acabarem você deverá voltar e no lugar dele ficar, espero que não se arrependa depois.
Senti um pequeno choque em meus pés, que logo foi–se espalhando pelo corpo, a claridade já começava a tomar conta de mim quando dei a minha última resposta.
–Nunca irei me arrepender.
Lá embaixo
Acordei com alguém me sacudindo de leve. Abri os olhos e vi o rosto dele bem próximo, seu grande sorriso fazia com que seus olhos se fechassem levemente. Não aguentei e o abracei fortemente, senti o seu braço aos poucos retribuir o meu forte aperto.
Minutos se passaram e o soltei, abrindo um grande sorriso pela cara confusa que ele fazia, logo ele retribuiu , ajudando-me a levantar.
–Está tudo bem? Eu pensei ter ouvido você chamar meu nome enquanto dormia.
Então tudo foi um sonho? Logo esse pensamento dissipou no ar. No meu braço tinha um conjunto de números que ia diminuindo como um cronômetro, não era sonho, era somente a realidade maldita.
–Sim.- Abri um pequeno sorriso, se tenho somente vinte quatro, opa, vinte três horas, tenho de aproveitar e fazer o que não tinha tido coragem.- O que vamos comer hoje?
–Só sobraram duas barras de cereais, acho que está na hora de sair para encontrar comida.- Exatamente como na última vez, não vou cometer o mesmo erro ...
–Ah, eu quero ir junto com você.
–Não, você fica, lá fora está muito perigoso.
–Não eu vou, e nada vai me fazer mudar de ideia.- Disse batendo o pé como uma criança mimada
–Ah, tá bom.- E seguiu andando para porta, o segui antes que ele me trancasse do lado de dentro.
As casas em volta pareciam normais, se não fossem pelos corpos mortos jogados ao chão, seus órgãos internos queimando no asfalto, deixando o cheiro cada vez mais desagradável, senti o meu corpo arrepiando e corri para alcançar Kevin que ia mais a frente, senti uma enorme vontade de pular nele e dizer tudo que queria, mas decidi somente ficar ao seu lado o observando de canto do olho, enquanto o próprio observava pra ver se não havia perigo por perto.
Passamos por inúmeras casas, e tudo que tinha de comestível já havia sido pego, passamos por poucos mordedores que logo Kevin matou com a sua faca que tinha em punho, a arma carregada estava em seu braço, amarrada por uma corda, me pergunto como ele a conseguiu .
Quando chegávamos em outra casa pude perceber onde estava, era naquele lugar que ele morreria, mas ainda tínhamos tempo, seria eu no lugar dele.Oh não, só nos restava quinze horas tinha de ser rápido.
–Kevin?
–O quê?- Perguntou parando perto da porta de onde tudo aconteceria.
–Não é uma boa ideia revistar esta casa, estamos exaustos, acho que é melhor descansar.- Eu disse o segurando chegando próximo a ele.
–Ok, só vamos ver esta e descansamos.- Ele sorriu e antes que eu pudesse dar conta, abriu a porta, um mordedor pulou nele, fazendo assim com que ele caísse no chão tentando evitar que o mordesse. Fiquei desesperado, a cena se repetia e novamente ele falou com pressa:
–Criança, pegue o rifle, e lembre-se "preparar, apontar, fogo".- E assim fiz, não como na última vez que eu simplesmente hesitei fazendo assim ele morrer. Logo o mordedor estava no chão, com um tiro no meio da testa, mas não acabou como na última vez, simplesmente vieram mais dois de dentro da casa, Kevin correu e os matou com a arma em punho. Entrei na casa ainda preparado para o caso de ter que usar a arma mas ela já estava vazia, fazendo eu suspirar aliviado, sentando no sofá, enquanto Kevin fechava a porta a trancando logo indo em direção da cozinha a procura de alguma alimento. O que por sorte achou ,vindo se sentar ao meu lado, me estendeu um pacote de algo que rapidamente comi, somente ouvindo o barulho de sua leve risada, o que me fez lembrar que deveria ser rápido.
–Por que você me chama de criança mesmo tendo praticamente a minha idade?- Perguntei o olhando, ele deu uma risada baixa e com um leve suspiro se dispôs a responder.
–Simplesmente porque você me lembra uma.
–Hunf, não gosto de parecer uma criança.- Disse cruzando os braços, virando para frente enquanto encostava minhas costas no sofá, ouvindo novamente uma risada, logo adormecendo pelo cansaço.
Não deveria ter feito isso .
Acordei me espreguiçando, olhei pela janela que já estava escuro, me lembrei do meu tempo contado, olhei para meu pulso e pude ver que só tínhamos três horas, não pude evitar e comecei a chorar desesperadamente o que fez com que Kevin, antes adormecido, levantasse abruptamente sacando a sua arma, quando me viu , rapidamente me envolveu em um abraço passando levemente a mão pelo meu cabelo, isso fez com que eu chorasse ainda mais, o apertando.
Parei de chorar quando percebi que não tinha tempo para isso, eu iria contar para ele agora mas como sempre tem algo para estragar senti uma enorme vontade de ir ao banheiro, pedi licença a ele e corri até o banheiro, enquanto o deixava para trás com uma cara confusa. Como eu amava essa cara.
Logo me livrei daquele aperto indo em direção da pia para ver se ao menos tinha água, e por algum acaso qualquer havia sim. Lavei minhas mãos e olhei para o espelho e vi meu reflexo com o rosto pouco inchado, contrastando com a minha pele suja e cabelos desgrenhados. Tratei de limpar a sujeira e com os dedos pentear os cabelos. Como Kevin conseguia ser tão perfeito neste mundo tão caótico de agora, seus cabelos castanhos dando a combinação perfeita com seus olhos da mesma cor.
Parei de pensar e rapidamente sequei meu rosto enquanto corria ao encontro de Kevin, não tinha tempo para besteira.
–Kevin!- O chamei, me olhou abrindo um sorriso, que logo foi substituído por um rosto de espantado pela porta aberta com violência por um grande mordedor, atrás dele se podia ver muitos outros. — CORRE — Gritei enquanto ele pegava o rifle e vinha em minha direção. Corremos até um dos quartos , logo atrás vinha o grande mordedor com dificuldades por causa da escada.
Era um antigo quarto de casal no qual havia uma grande janela que dava para uma árvore, corremos até lá e com certa dificuldade a abri, a porta já era forçada mas como colocamos a cama na frente teríamos mais tempo para a fuga. Subi no galho da árvore logo olhando ao chão para ver se havia algum mordedor, nada.
Pulei para o tronco logo descendo com facilidade, Kevin ainda estava na janela acendendo um fosforo e jogando para dentro do quarto, quando estava descendo o grande mordedor arrebentou a porta, tentando o segurar, mas ele foi mais rápido logo descendo e vindo ao meu lado. O grande mordedor começou a pegar fogo assim como a casa.
Corremos dali, desviando de alguns que foram atraídos pelo fogo. Tinha de achar algum lugar para Kevin ficar, sem muito mais tempo restando avistei ao longe uma grande construção.
–Hey, ali parece ser seguro.
–Onde? Ah sim vamos lá. — Ele puxou a minha mão entrelaçando os dedos fazendo meu rosto levemente esquentar enquanto corria.
Seu idiota, por que não fez isso antes de tudo?
Chegamos no grande construção, não havia nada nos primeiros andares o que me deixou realmente aliviado. Não tinha mais tempo para enrolação, cheguei perto de Kevin, logo o beijando, pude ver seus olhos arregalarem enquanto eu lentamente fechava os meus , senti seus braços me envolverem ainda mais enquanto retribuía. Apertei com força meus olhos, segurando assim as lágrimas que tentavam sair.
Meu coração palpitava fortemente, meu rosto estava queimando e meu ar acabando quando nos soltamos.
–Eu-eu-eu.- Gaguejava olhando para os meus pés. — Eu me sinto perdido quando você vai a procura de comida, o medo de lhe perder virou algo inexplicável. Aquele dia que você quase morreu ao tentar salvar a minha mãe, eu soube que estava perdidamente apaixonado. Quando olhei em seus olhos que estavam em lágrimas assim como os meus, eu sabia, que não conseguiria não lhe amar. Então por favor sobreviva a isto. — Meu choro já havia começado quando eu o ouvi falar com a voz levemente trêmula.
–Sabe, desde o dia que lhe o conheci eu senti algo diferente, éramos vizinhos mas você nunca me notou.- Arregalei os olhos, é verdade, eu nunca o tinha visto.- Mas sabe, eu sempre soube que você era especial. Então quando meu pai no exército me disse que o apocalipse estava tendo início, não pude deixar você e sua mãe sair de casa, tentei avisar os outros mas eles somente fecharam a porta em minha cara, me chamando de louco, sabia que você faria o mesmo, por isso corri e assim consegui trancá-los. Me desculpe por não ter conseguido fazer o mesmo com sua mãe.- Já não enxergava muito pelo choro.
Logo atrás de Kevin tinha um mordedor, o empurrei, e quando fui sacar a faca para acertá-lo, mas o maldito me mordeu bem na marca do cronômetro, que por último marcava cinco minutos.Não, agora que descobri tudo, não.
Kevin veio correndo e com um movimento rápido matou o mordedor, colocando um pano em meu pulso, seus olhos começaram a encher de lágrimas enquanto sentava no chão com a minha cabeça em suas pernas, segurava meu braço sangrando tentando amenizar a dor mas sabia que estava morrendo.
Fui surpreendido pelo seu beijo, era salgado pelas lágrimas que nós tínhamos.
–Ke-kevin- Disse com dificuldade. — Eu g-o-ostaria que você me matasse antes que e-eu virasse um deles, algo que já vai acontecer.
–Está bem, mas antes.- Me deu mais um beijo logo pegando sua arma.
–Kevin, não se esqueça "preparar, apontar, fogo".- Disse sorrindo.- Eu te amo.
Preparar, apontar... — Disse sorrindo com os olhos banhados.- eu também te amo . — E só o que senti foi o branco me preenchendo.
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