Concreto Armado
1 Dolorido
Notas iniciais
Poucos conselhos são tão efetivos quanto o que te sugere que estando no fundo do poço, apenas pare de cavar.
Os amores da juventude carregam angústias que para alguns praticamente são o combustível para a experiência. Aquilo que motiva seu tesão, que carrega seu corpo para outras dimensões da percepção dentro de um abraço, ou algum outro toque menos grandioso.
Para outros são uma gama de referências mais ou menos distorcidas para seguir ou negar.
Acontece que quando mergulhado, imerso, dificilmente um indivíduo terá condições de analisar ou sequer ver onde se encontra. É uma ilha de si mesmo, isolado em seus sentimentos. Cercado por certezas e incertezas.
Ter voz não quer dizer conseguir falar. Se encontrar não significa controlar o ritmo. Crescer machuca.
E essa é uma parte interessante, é na dor que muitas vezes nasce o mais precioso. O trauma do nascimento. O amor que às vezes nos come vivos.
A vida a qual nos agarramos entre goles e tragadas. Desviando de carros, buracos ou de outros indivíduos tão ou mais perdidos no fluxo sufocante da Cidade.
O encontro é raro e precioso, e aqueles que tendo-o a seu alcance conseguem segurá-lo tem a chance de bonança e realização. Não importa quão efêmera seja, a intensidade do encontro, o amor e o prazer sempre serão maiores que a decepção.
E mesmo sabendo que entregar seu coração é seguir cavando a própria cova, os corajosos, os doloridos reconhecerão que sim… Vale a pena.
O movimento desumano das agulhas na pele e o controle frente à dor.
Tatuando mais que a pele, a alma. Era simbólico, processo e ritual. Religioso no sentido mais raso da palavra, religando, tornando momentaneamente importante e divino cada toque.
Respirava fundo, controlando todos os impulsos ancestrais de afastar de seu corpo a fonte do suplício, aguentando muito mais por si do que por qualquer outro.
Cedo ou tarde aconteceria, mas era ali, deitado na maca enquanto o peito pálido era destroçado pelas mãos firmes do tatuador que ele compreendia.
Kanon havia lhe contado que periodicamente doava sangue. E se sentia um tanto egoísta nestes momentos. Sua explicação era um intrincado pensamento que consistia em imaginar tudo que tinha de ruim em seu organismo sendo tirado de si junto com o quente sangue bombeado para fora do corpo.
Isaak era fascinado por esta perspectiva e, a subvertia naquele exato momento.
A máquina cantando enquanto respirava fundo, Kanon ao seu lado em silêncio, a mão na sua, mas não a apertava. Ele era um sobrevivente, aquele processo era mais um de tantos outros de morte e recomeço… A dor escolhida arde diferente da infligida, da inescapável. O alívio… Ensina e enobrece, em um nível quase incompreensível para aqueles que não reconhecem a beleza na miséria do viver.
Por vezes, era como se a tinta estivesse sendo gravada diretamente em seus ossos.
Conter o instinto mais abstrato de escapar da dor, quem são aqueles que se propõe a algo assim? Quem são aqueles que entremeiam significado em uma ato ritual de selvageria controlada? De técnica e entrega. De arte.
Kanon via o corpo de Isaak como uma obra de arte e Isaak enxergava a si mesmo como um sobrevivente.
As marcas e a dor escolhida. Como viviam as pessoas com a pele marcada simbólica e literalmente? Ele sempre se perguntou. E agora era por vontade própria, sua vez de cruzar aquela linha.
Acima da máscara podia apenas ver os olhos grandes e puxados do tatuador. Um homem agradável, de mãos precisas e leves, percebeu o movimento que denunciava o leve e simpático sorriso. A voz de Dohko lhe transmitia segurança e conforto. De certa forma era um momento íntimo.
— Falta pouco Isaak. Quer beber água? Vou ajeitar as coisas aqui para a gente sombrear e acabamos. — Informou em sua voz tranquila.
— Obrigado Dohko… — Aceitou a garrafa que o namorado lhe endereçava e ergueu-se bebendo um longo gole da água gelada antes de atento observar o desenho que lhe cobria o lado esquerdo do peito se insinuando em direção do ombro e das costelas.
Sentia suor em suas costas que há pouco estavam coladas no filme plástico que recobria a maca. O corpo dolorido reclamava do tempo e da energia em manter-se inerte.
Logo Kanon estava atrás de si. Por sua estatura avantajada olhando sem dificuldades por sobre seu ombro a imagem que agora estava gravada para sempre em sua pele.
Um enorme ser marinho. Tentáculos detalhados como uma gravura antiga.
Obviamente o Kraken, Isaak havia explicado anteriormente. Ele se sentia representado.
Analisou o desenho e o corpo esguio e forte. Os músculos retesados pelo esforço de suportar aquele processo.
— Tremendamente erótico — Kanon sussurrou quase inaudivel em sua orelha e Isaak sorriu para ele pelo reflexo.
Para o mais velho estar com ele era uma eterna aventura. Incomoda e deliciosa.
Conhecia cada centímetro daquela pele. Cada sarda pálida, pinta ou cicatriz e agora o novo desenho o encantava. Sentiu o coração batendo mais forte.
Acompanhar aquela jornada tinha lhe provado que estava realmente velho, a cada movimento preciso da agulha sobre a pele cálida sentia uma punhalada em sua alma. A dor de Isaak, ainda que desejada e quase auto infligida lhe feria profundamente. Percebeu ali, que faria qualquer coisa para que o outro jamais sofresse qualquer que fosse a perda ou a angústia.
Estava literalmente fodido. Encontrou mais uma vez o olhar agudo pelo reflexo.
— Você gostou? — Perguntou Isaak ansioso com a resposta.
— Você é lindo… E sim, está ótimo. — Sustentou o olhar caloroso por alguns segundos e recebeu a garrafa quando Isaak se voltou, dando as costas para seu próprio reflexo.
Na ponta dos pés falou no seu ouvido, Kanon teve um relance do mamilo turgido e sentiu-se um completo idiota por precisar se controlar como se fosse ele aquele que mal deixou a adolescencia. Estavam juntos há quase um ano. Se viam com frequência cada vez maior agora que Isaak estava morando com um amigo na Barra Funda.
O moleque realmente o enfeitiçava como no primeiro olhar, o verdadeiro, quando o enxergou em essência.
— Adoro ver desejo nos seus olhos… — Um sorriso de indescritível sacanagem acompanhou aquelas palavras — Eu te amo.
Sim, Isaak dizia essas palavras de tempos em tempos, sempre lhe arrancando o chão.
A forma como aquele rapaz devorava sua razão era equivalente a perdição encontrada somente nos mais profundos recônditos do corpo dele.
Kanon: um homem entregue. Ensaiou uma resposta que não realizou-se.
Tentava demonstrar em gestos. Não que ele fosse uma pessoa preocupada com o que outros pensavam, de quando em quando era mais fácil falar. Em outras ocasiões permanecia apenas inebriado pela desenvoltura de Isaak, um certa pureza selvagem que acompanhava toda ação e interação do mais novo.
Sorriu de lado fixando mais uma vez o olhar sobre o desenho permanente. Minúsculas gotas de sangue brotavam e a pele estava avermelhada no entorno.
Foi a vez de Kanon observar as costas de Dohko que trabalhava no equipamento. Não pode evitar o pensamento de que existia um "Q" de erótico em todo aquele processo e que o tatuador era um tipo bastante impressionante. Gestos precisos e leves, dedos grossos, braços fortes e um olhar caloroso, quase de sabedoria anciã, por sobre a máscara.
Mesmo vendo a beleza de outras pessoas não conseguia se interessar por mais ninguém. Tiveram juntos um momento com Sorento, seu vizinho, foi intenso e arrebatador; mas passou. Desvendar cotidianamente Isaak era uma jornada cheia de reviravoltas e recompensas sutis.
Desavergonhadamente enlaçado e domado por um molecote que havia adentrado sua loja, pegado o que queria literal e metaforicamente e lhe fodido todas as referências e paradigmas.
E agora marcado na pele alva e firme o desenho que ele tinha escolhido. Algo que o lembrava de Isaak, preso na pele do próprio eternamente para se lembrar dele.
Entre ambos não cabiam arrependimentos, afinal.
O tatuador chamou para finalizar os sombreados e Isaak na ponta dos pés depositou uma lambida ligeira em sua boca. Kanon sentiu por todo seu corpo uma descarga elétrica.
O aviso sublime do quanto era afetado por qualquer atenção endereçada a ele por Isaak.
A respiração pesada dos envolvidos naquele momento. O som da máquina e algo mais que ele não sabia.
Mesmo sem perceber construíram um relacionamento sobre bases sólidas. Entre eles era concreto.
Um amor nascido e cultivado no cinza da Cidade.
— Kanon, as vezes me vem a vontade de tatuar o seu nome… — A voz de Isaak chegou aos seus ouvidos um tom mais grave pela dor — Sabe? Marcar você em mim.
Dohko riu suavemente pelo comentário apaixonado. Preferiu não se intrometer. Quase diariamente ele tatuava esse tipo de homenagem, pela primeira vez ou para cobrí-las.
Kanon pensou um pouco apertando a mão do namorado de leve.
— Você sabe que não precisa fazer isso, Isaak.
Gostaria de dizer mais. E certamente o faria depois. Isaak preenchia um espaço em sua vida que nem sabia previamente existir.
Como um membro fantasma, amputado, mas ao contrário. Só com o rapaz em sua vida percebeu o quanto antes se contentava com uma ausência, quando podia viver a presença.
Se apaixonar era assustador. Não deixava de ser um aspecto de crescer, também.
Kanon aprendeu que amor é sempre correspondido. Firme e estável. Ao contrário das paixões que tinham infinitas facetas.
Ele amava, e se apaixonava novamente quase diariamente.
Qualquer possibilidade de viver plenamente valia o esforço. A maior das aventuras.
A Cidade era colorida, viva e profunda ao lado de Isaak.
E a vida… Bem… Observou um fio de minúsculas lâmpadas piscando na vitrine da loja. Já era fevereiro e o pisca pisca ainda estava por lá. Sorriu sentindo mão estranhamente sempre fria de Isaak na sua, a vida nunca tinha sido tão boa.
O namorado parecia sonolento. Dohko já tinha alertado que uma tatuagem tão grande poderia ser cansativa. Kanon inclinou-se e sussurrou na orelha de Isaak:
— Feliz aniversário, Isaak.
O rapaz sorriu e o mundo iluminou-se. Nada era mais violento e concreto que o bem estar que aquele sorriso lhe causava.
Talvez, ele devesse fazer também uma tatuagem, ocorreu-lhe enquanto afastava da testa suada de Isaak uma mecha de cabelo.
Dohko concentrado perdeu o olhar entre eles que era a uma gritante jura de amor.
Notas finais
Ai ai... Ele merecia muito mais.
A linda capa foi feita por minha Amazona preferida @LeChevalier - Obrigada, tá tudo no seu nome! ♥
Mais uma fic que integra o Universo Marinas no Asfalto.
Feita com carinho e enxaqueca.
Espero que estejam todos bem.
Nos vemos! ^*
♥
Fale com o autor