Concrete Heart
8 Capítulo 7 - Fare thee well, honey
Notas iniciais
Fiquei tentando entender o que Ephrain quis dizer com “quando vê já não importa mais”. As coisas importam e sempre vão importar. Ele pode dizer que é normal um vampiro matar pessoas, mas não é. Talvez seja a nossa natureza. Mas isso não quer dizer que os humanos estão destinados a serem assassinados por nós.
Destinados...
Eu sempre pensei que tudo fosse destinado a ser. Talvez essa influência tenha vindo das visões, e isso me deixou mais relativa para coisas como lendas, histórias de terror ou mitos.
Em Roma, existiam as Parcas, que são chamadas de Moiras na mitologia grega. Quem sabe se elas existiram de verdade? Elas eram três deusas: Nona, Décima e Morta. As Parcas, filhas da noite, ou de Zeus, controlavam o destino dos mortais e determinam o curso da vida humana, decidindo questões como vida e morte, de maneira que nem Júpiter — Zeus — pôde contestar suas decisões. Em Roma se tinha a estrutura de calendário solar para os anos, e lunar para os atuais meses. A gravidez humana é de nove luas, não nove meses. Nona tece o fio da vida no útero materno, até a nona lua, Décima representa o nascimento, o corte do cordão umbilical, o início da vida terrena, a décima lua. Morta é a outra extremidade, o fim da vida terrena, que pode ocorrer a qualquer momento.
Essa mitologia sempre me chamou a atenção. Talvez a minha vida seja guiada pelas Parcas. Talvez Décima decidiu continuar tecendo, em vez de deixar Morta fazer tudo ficar mais fácil. Mas mesmo assim eu continuou numa forma de “pós-vida”. Enfim, talvez Morta tenha cortado o fio da vida de todos aqueles que eu matei e a culpa não seja necessariamente minha.
Sorri, sem humor.
Quem eu quero enganar? É claro que a culpa é minha. Erros, erros, às vezes parece que é tudo de que sou capaz!
Ephrain e eu andamos até a floresta, lá nos despedimos e ele, mesmo preocupado, foi embora.
Minhas roupas estavam manchadas e eu precisava preparar para as perguntas que se seguiriam assim que eu entrasse em casa. Decidi terminar logo com aquilo.
— Angel? – Rose me chamou e quando se virou para mim seus olhos se arregalaram de surpresa e horror.
Antes de entrar na casa, eu estava pronta. Iria responder as perguntas e estava tudo bem com isso. Porém, assim que vi Rose, fraquejei. Eu não queria ver Rosalie olhando para mim com incerteza, ou ver a cara de decepção e Carlisle. Ou pior, a reação de Emmett.
— A gente pode conversar depois? – perguntei.
— Me diz o que houve – ela insistiu.
— Eu realmente não quero falar sobre isso agora – eu disse, andando em direção a escada.
— Que cheiro estranho – ela comentou enquanto eu subia.
Só então percebi que ainda estava com o casaco de Eprhain e o cheiro de lobo fluía através de mim.
— Preciso de um banho – sussurrei.
Tomei um banho demorado. Não que eu precisasse, o sangue saiu do meu corpo no instante em que a água fez contato com a minha pele. Mas mesmo assim eu queria ficar lá o resto do... Ano! Com certeza seria ótimo não ter que ouvir os pensamentos de ninguém e me concentrar apenas na água. Não ter que pensar no que eu fiz ou no o que vai acontecer quando minha família souber. E em Victor... Quando ele souber.
Fechei os olhos e apenas senti a água escorrendo por meu corpo.
***
Agora eu estava na casa de Victor.
— Oi – eu disse, e ele se virou para mim, sorrindo.
— Oi – ele disse, me puxando pela cintura.
— A gente precisa conversar – fui direta.
— Sobre o quê? – ele perguntou, me apertando contra si.
— Sobre mim... – revirei os olhos e parei de falar.
O celular iria tocar.
— O que foi? – ele perguntou.
— Seu celular – eu disse e o celular tocou.
Esperei até que ele terminasse de falar com Ben.
— Parece que Ben vai para Dartmouth – ele disse, colocando o celular no bolso. Ele quer ir lá no fim de semana.
— Eu escutei. E você vai?
— Talvez.
Balancei a cabeça para cima e para baixo, lentamente.
— Vamos lá para fora – eu disse e sai da casa.
Ele me seguiu até a floresta, onde não tinha mais trilha.
— Então, vamos conversar – ele disse, sua voz estava rouca.
Eu sabia que ele estava nervoso. Parei de andar e me virei para ele.
Victor se sentou na pedra e eu me recostei na árvore.
Respirei fundo e comecei. Contei sobre caçar, sobre os montanhistas, sobre Ephrain... Tudo. E ele não me interrompeu em nenhum momento.
— Você falou com sua família? – ele perguntou, quando terminei de falar.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Por quê? Acho que seria bom se eles soubessem. Carlisle pode te ajudar.
— Eu posso pensar nisso depois.
Ele concordou e então estreitou os olhos para mim.
— Você me disse uma vez que o que sentia pelo Ephrian era só mágico – ele começou. — Que não era real. Então, quando você se transformou, ele não devia te odiar? Quer dizer, vocês são inimigos por natureza, não é? Por que ele ainda sente alguma coisa por você?
— É complicado – respondi.
— Estava demorando você dizer isso – ele suspirou, irritado.
— Victor, eu só... – eu não sabia o que eu dizer. — Eu não sei, okay? Vai ver ele nem sabe que não sente nada por mim.
— Ou você que não sabe que sente alguma coisa por ele – ele sussurrou.
— Não que ele ache que ele sinta. Ele é só... Alguém que estava lá. Ah, eu não vou discutir sobre isso com você – eu disse.
— Vai negar que não sente nada? – ele só irritou mais ainda. — Você...
— Eu o quê? – perguntei, agora eu também estava irritada.
Fiquei o dia inteiro tentando não sustar e agora já estava quase anoitecendo. Eram muitas horas tentando não pirar.
— Você sente atração por ele – ele afirmou.
— Você está delirando – revirei os olhos.
— É por isso que você não gosta da Jane. Por que ela faz você se lembrar dele.
— Não, eu não gosto dela por que ela é apaixonada por você – me irritei e cruzei os braços, o encarando. — Mas e você? Não pode ouvir falar o nome dela que esquece até que eu existo.
— Não se faça de vítima – ele disse, revirando os olhos.
— O problema aqui não sou eu. E você sabe disso.
— Não, não é você. O problema é nós dois – ele disse e se levantou, olhando para o nada. — Isso nunca daria certo mesmo – suspirou.
— Do que você está falando? – perguntei, descruzando os braços.
— De nós dois, Angel. Pra variar.
Ficamos em silêncio, enquanto eu analisava o que ele disse.
— Você está terminando comigo? – perguntei, quase sem acreditar.
— E nós começamos? – ele rebateu, o tom frio.
— Você não... – balancei a cabeça e comecei de novo. — Tudo bem! Eu me sinto atraída por ele. Talvez ele ter voltado tenha me feito sentir coisas que eu não sentia antes por ser recém criada e com o tempo eu esqueci, e agora que ele voltou isso também voltou.
— E eu tenho que ficar com uma garota que está apaixonada por outro? – ele perguntou, sem emoção.
— Eu não estou te obrigando a ficar comigo – eu disse, irritada.
Eu não estava apaixonada pelo Ephrain!
— Ótimo! – ele mordeu o lábio inferior e me encarou — Você conseguiu o que queria, Angel. Acabou.
O encarei sem reação. Ele estava muito irritado, eu sabia. O que eu fiz não foi errado, mas não iria gostar se ele fizesse o mesmo com a Jane. Também sabia disso. Porém, não era motivo para terminar comigo. Tinha mais alguma coisa. Da qual eu não queria saber. Afinal, o que isso mudaria?
— Que bom que eu não te transformei – eu disse.
— É, eu também acho. Teria sido uma droga você ter acabado ainda mais com a minha vida – ele disse, virando o rosto para o outro lado, sem querer me encarar.
— Você está com raiva, e está descontando em mim.
— Eu nem imagino o por quê – ele disse, com sarcasmo.
Mordi o lábio e passei a mão no cabelo.
— Tudo bem. Quer saber? Eu não tenho que aturar isso. Tchau – eu disse e fui embora, sem encará-lo.
***
Eu não estava com a menor vontade de escutar os pensamentos de ninguém. Minha cabeça parecia querer explodir. Mas eu sabia que ela não iria, eu era imortal. Infelizmente.
— Ei, Angel. Eu estava pensando... — Emmett começou, assim que passei pela sala de estar.
— Então, pare. Eu não quero ouvir — eu disse.
— O que houve? — Rose perguntou.
— Nada — respondi, indo direto para o quarto.
— Angel? — Rosalie insistiu, indo atrás de mim.
Me sentei no chão do quarto e encarei o carpete perfeitamente felpudo e macio. Fechei os olhos e tentei me esquecer das últimas 24h.
Não deu certo.
— Não quer me contar? — Rosalie perguntou.
— Achei que fosse óbvio — eu disse, friamente.
— Estou preocupada com você — ela disse, se sentando na minha frente. – Você chegou daquele jeito hoje, e agora está assim. Me diz o que está acontecendo, Angel. Eu só quero te ajudar.
— Não é nada. Só estou cansada... – sussurrei.
— Oi?
Suspirei.
— Eu e o Victor... Nós... – comecei.
— Vocês...? – ela tentou.
— Nós terminamos.
— Acho que não escutei direito. Sou uma vampira, tenho super audição. E mesmo assim, acho que ouvi errado.
Revirei os olhos.
— Não quero falar sobre isso — eu disse e encarei Rose.
Ela me encarou de volta e colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha.
Eu percebi que não importava o que eu queria, eu iria ter que contar e pronto.
— Me diz o que houve — ela pediu.
Respirei, mesmo sem precisar.
— Passei a noite com Eprhian...
— Como é que é? – ela perguntou, e a boca continuou aberta.
Seus pensamentos não eram nada legais.
— Meu Deus, não é nada disso! – eu disse, balançando a cabeça e revirei os olhos. – Nós só conversamos.
Eu contei a ela sobre o que conversamos, deixando de fora a parte em que eu fiz besteira.
— Não parece ser nada demais – ela disse, quando eu terminei de falar.
— Nós apenas estávamos conversando – eu disse.
— Eu imagino que o Victor não tenha gostado dessa conversa e muito menos de saber que vocês ficaram sozinhos a noite toda — ela disse, quase como reprimenda.
Ela também não gostou de saber.
— Então, o cheiro que eu senti hoje mais cedo era...
— Sim, de lobo.
— Uhuh! – ela fez uma careta.
— Mas enfim, não, o Victor não gostou. E aí eu e ele conversamos, ele ficou com raiva por que acha que eu estou apaixonada pelo Ephrain...
— E você está? – ela me interrompeu.
— Claro que não!
Ah, Deus! Sério?
— Mas eu me importo com ele. Não quero que ele sofra. Só isso – expliquei.
— E como Victor reagiu? – ela perguntou.
— Como você acha? Ele nem me deixou explicar. Eu nunca vi o Victor daquele jeito.
— Homens — ela suspirou e balançou a cabeça.
— Ele terminou comigo. Mas para mim estava tudo bem, sabe? Ele ia pensar com a cabeça fria e ia ficar tudo bem depois. Mas ai ele disse que...
— Ele disse o quê?
— Que era bom que eu não tenha acabado ainda mais com a vida dele.
Ela não disse nada, mas eu vi seus olhos ficarem vermelhos por meio segundo e voltarem ao lindo azul de sempre em outro meio.
— Ele estava com raiva. Os humanos dizem coisas que não querem quando estão com raiva.
— Mas ele não podia dizer aquilo. Não para mim. Eu me odeio pelo o que eu fiz com ele, mas eu nunca achei que havia acabado com a sua vida...
— Nem ele, Angel... Ele só está com raiva. Tenho certeza que já deve ter se arrependido do que disse.
Ergui uma sobrancelha e me levantei.
— Eu só quero que esse dia acabe logo — eu disse, me jogando na cama.
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