Concrete Heart
2 Capítulo 1 - Within The Heart itself
Notas iniciais
Algumas pessoas acreditam que existe uma ordem cômica presidindo a vida humana. Talvez seja apenas uma história. Quem sabe se é verdade? Enfim, segundo essa concepção, o destino conduz a vida de acordo com uma ordem natural, da qual nada que existe pode escapar. Os vampiros se incluem nisso. Assim como humanos e vampiros juntos. Ou mais precisamente um humano e vampira. É, estou enrolando de novo. Mas como é que se explica isso? Não existe um manual de instruções. Os acontecimentos recentes estão cada vez piores. Mas não é o fim do mundo. Eu sei que não. Já passei por ele algumas vezes e no outro dia estava tudo bem. O negócio é que isso é... diferente. Mais uma das muitas coisas estranhas que acontecem comigo. E Victor estava tornando as coisas mais difíceis.
— Se você for para a faculdade, Charlie vai amar — eu disse, encarando-o enquanto ele colocava o casaco.
— Não. Eu sei o que você está tentando fazer — ele disse, irritado.
— E o que eu estou tentando fazer? — perguntei, totalmente inocente.
Eu ainda não havia me acostumado com o fato de não conseguir ler a mente dele. Isso era algo extremamente delicado para mim. E Victor consegue esconder as emoções tão bem que é quase impossível arrancar alguma coisa dele.
— Não vou continuar sendo humano — ele disse.
— Victor... Nós já tivemos essa conversa.
Ele se sentou na cama, ao meu lado mas não fez nenhum movimento para me tocar.
— Não, não tivemos. Você falou e eu escutei. Foi isso o que aconteceu. Você decidiu por conta própria e nem se importou com mais nada. E continua do mesmo jeito — ele disse, olhando nos meus olhos.
Eu sabia que ele estava irritado, mas também estava chateado. O que era uma droga! Eu prefeito mil vezes ele com raiva.
— Você parece que não pensa, Victor. Tem noção do que está me pedindo? Eu acho que não.
— E você tem noção do oque vai acontecer? Eu acho que não.
Odiava quando ele colocava as coisas desse ponto de vista. Sim, é claro que eu tinha noção do oque aconteceria. Mas isso era algo muito distante. Algo tão distante que parecia abstrato até certo ponto. Eu tentava não pensar nisso. Manter a mente aberta. "Isso é o natural..." e "É assim que deve ser..." Eu tentava porque condená-lo a ser como eu, para sempre, era egoísmo demais apenas para não ter que perdê-lo.
— Você realmente pensa em mim? — ele perguntou e eu sabia bem o sentido dessa pergunta.
Acho que no fundo o problema era esse: eu não pensava em como ele se sentiria enquanto eu continuasse com 16 anos e ele fazendo 20, 30... A superfície era mais importante pra mim. E eu não me importava com o problema, apenas com a solução. E eu só pensava em: ele não vai ter que me perder, quem vai perdê-lo sou eu. Eu tentava não ir muito além nestes pensamentos. Em tese, tudo parecia certo e com sentido. Mas na prática eu sabia que seria quase impossível. Mas algum dia iria acontecer. O futuro era um grande abismo escuro que eu só poderia ver quando um dos dois chegasse a uma escolha coerente e igual. E eu não sei bem o que faria com isso. A morte não era algo opcional. Durante toda a minha existência eu soube que era impossível. Que o suicídio era um luxo dos mortais e isso não era compartilhado com os vampiros.
— Não, eu não penso. Porque eu também importo, sabia? É comigo que eu vou ter lidar se fizer isso com você. Mas e você, Victor, pensa em mim? — minha voz saiu um pouco brusca demais e eu percebi que ele estava surpreso com o que eu disse, tanto que nem se preocupou em esconder as emoções.
Não, ele não pensava em mim. Isso era claro. Mas quem poderia julgá-lo? Eu com certeza não.
— Melhor pararmos por aqui — eu disse, me levantando. — Nós temos que ir — acrescentei.
Eu sentia todo o ar se esvair para fora de mim, mas não conseguia sentir ele voltando. Talvez porque eu não estivesse respirando. Era exaustivo demais me preocupar com isso também.
Os olhos de Aro estavam em cada movimento meu. Ele sorria enquanto estendia a mão para mim.
E mesmo cansada de tudo, eu aguentei firme. Eu estava ali. Porque é isso que o amor faz. Faz você fazer coisas estúpidas e difíceis. Sempre. Por algo, ou por alguém.
Reprimi um suspiro de irritação enquanto ele pegava minha mão pela oitava vez no dia.
— Não há nada de novo — digo.
— Sim, estou vendo — ele suspira e sorri com afeto para mim, de um jeito muito estranho. — Vire-se, querida — ele diz.
Me viro e me encaro no enorme espelho do salão. Meus olhos vermelhos me assustam mais uma vez.
Como isso foi acontecer? Eu tinha tudo sob controle e de repente...
— Você é a mais nova membro de nossa família — Aro diz, sem tirar o sorriso macabro do rosto. — Bem vinda aos Volturi — seu sorriso se amplia.
— Angel! Angel! — ouço a voz de Victor e me viro para ele.
— O que? — pergunto, ainda confusa.
— Você ficou... Imóvel, de repente — ele diz, franzindo as sobrancelhas. — Está tudo bem?
Ele estava na minha frente, suas mãos seguravam as minhas.
— Sim. Só mais uma daquelas visões chatas — tento distraí-lo.
— Tem certeza?
— Sim, é sério está tudo bem — minto.
Ele suspira e me puxa em direção a porta.
À três meses atrás, quando uma vampira lunática tentou matar o Victor, tudo ficou meio estranho. As visões começaram a ser... Mais distintas. Eu mal podia fazer sentido do o que estava vendo. Só Deus sabia das coisas que me deixam confusa, mas as visões não me atacavam mais da mesma forma agora. Agora faziam um tsunami em mim.
Eu estou uma verdadeira bagunça.
— Sabe, você está muito estranha ultimamente — Victor disse, enquanto dirigia rumo à escola.
— Você está paranoico — digo.
— Você sabe que é verdade.
Eu suspirei, ele revirou olhos e ligou o rádio.
— Você deveria estar de bom humor — ele disse depois de uns 15 minutos.
— Ah, é?
— Sim, é o último dia de aula. Sabe, vamos ter um verão inteiro juntos.
Eu ri com a empolgação dele.
Victor parou o carro no estacionamento da escola, mas nenhum de nós dois saiu.
— É sério, fala o que está acontecendo — ele insisti, se inclinando na minha direção.
— Não é nada.
— É claro que é alguma coisa. Você fica desligada, não presta atenção no que as pessoas falam e quase não fala comigo.
— Eu falo com você o tempo todo.
— Não, Angel, você só responde minhas perguntas com "hum" ou "ok".
— Eu... Olha, é que... Eu estou com sede — isso é verdade, eu estou mesmo com sede.
Ele volta para o lugar e morde o lábio.
— Foi mal.
— Está se desculpando pelo o quê?
— Hã...
— Victor, vamos. Nós vamos nos atrasar para a aula — digo e abro a porta do carro.
Na aula de Literatura Inglesa, o Sr. Cannun resolveu que nós veríamos Romeu e Julieta.
Eu não aguento mais esse filme!
Respiro fundo e repito para mim mesma que esse é o último dia de aula.
— Ah, que legal! Vamos ver os Capuleto e os Montéquio se dislacerando de novo — suspiro e Victor ri. — Sabe, eu nunca tive muita paciência com ela. É tão patética a forma com ela sofre por ele — digo num tom baixo.
— O que você vê de errado na Julieta?
— Primeiro, ela não quer se casar e aí daqui a pouco ela encontra um cara, beija ele e de repente está... Noiva dele. E isso tudo aconteceu em uma noite. E para não ser o suficiente, Shakespeare resolveu que Romeu iria matar Theobaldo. E aí Julieta está chorando porque Romeu vai ser banido. Ela prefere a morte do que isso. Sabe, é uma idiotice atrás de outra. Tudo estava conspirando contra eles.
— Você não pode julgar Julieta — ele diz, me surpreendendo.
— Ah, não?
— Olha, o mundo conspira contra a gente. Você também não me conhecia direito, fala sério, não tinha nem uma semana e você arriscou a sua vida para me salvar. Não é diferente do oque ela fez. Ela arriscou a vida dela, tomando o veneno, só para poder ficar com Romeu.
— Eu tinha te colocado em perigo.
— Eu decidi que ficaria com você. Não vamos voltar a discutir isso. Enfim, você preferiria ficar longe de mim?
— É diferente. Você não matou ninguém e bem, eu não sou comprometida... — paro de falar e olha para frente.
— Pode nos dizer as últimas palavras de Romeu, Srta. Cullen? — o professor Cannun pede.
— Hã... Claro — digo. — "Aqui, fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vê-de mais uma vez. Braços, permiti-vos o último abraço. E lábios, vós que sois a porta do hálito com um beijo legítimo selai este contrato com a morte exorbitante.
Eu ouço um coro de "own" em todas as mentes da sala.
— Muito bem, Srta. Cullen — o professor diz, meio atrapalhado e volta a apetar o play no filme.
Depois das aulas, Victor insistiu para que eu fosse para casa dele, e quando eu disse que precisava ir para casa, ele disse que não iria me ver por 4 dias seguidos.
— Ok — eu cedi e ele sorriu.
Agora ele estava deitado no sofá, com a cabeça no meu, irritantemente mudando de canal toda vez dava comercial.
— Que tal você decidir oque quer ver — digo.
— Eu já decidi oque eu quero ver, e não é comercial — ele disse e hesitou. — Eu tenho que falar uma coisa com você.
— O quê?
— Minha mãe... Ela quer que eu passe as férias com ela.
— Hum — isso não está indo bem.
— E eu disse que ia pensar.
— Hum — eu repeti.
— Não quero passar três meses sem você.
— Hum.
— Você está fazendo aquilo de novo.
— Victor, são só três meses e bom, você nem precisa passar esse tempo todo. Sabe, ela é a sua mãe. Ela sente sua falta.
— Eu sei, é só que...
— É só que...?
— Seria bem melhor se você fosse comigo.
— Carlisle nunca iria deixar.
— Por que não? Fala sério, você já tem idade suficiente para tomar sua próprias decisões.
— Victor, você realmente... — mudo de rumo. — Olha, eu sei que as vezes você se esquece, mas eu sou uma vampira. Uma coisa é eu passar tempo demais com você. É uma coisa completamente diferente eu passar três meses morando com humanos. Seria... Uma tortura. Mesmo que eu consiga me controlar, a vontade não vai passar. Carlisle ficaria preocupado demais. E eu não posso arriscar.
Ele me encara por alguns segundos.
— Ok, eu vou dizer para ela que só vou ficar uma semana.
— Você é impossível!
— Sou mesmo.
Sorri e ele voltou sua atenção para a TV. Depois de um tempo, Victor acabou dormindo, eu levantei com cuidado para não acordá-lo e fui embora.
— Olha, se não é a nossa turista — Emmett diz, assim que eu entro em casa.
Revirei os olhos.
Rose e Japer riram.
Vou para o escritório de Carlisle e fecho a porta depois de entrar.
— Preciso falar com você sobre uma coisa — digo e me sento na cadeira de frente para ele.
— O que houve? — ele pergunta, colocando o livro que estava lendo em cima da mesa.
— Desde de... Victoria, eu venho tendo visões estranhas.
— Que tipo de visões?
— Ah, algumas estão borradas. Como se alguma coisa estivesse prendendo, ou na frente. Algo que eu não posso ver. Mas algumas são bem claras. Como os Volturi.
— Os Volturi? — eu posso ouvir o tom de preocupação em sua voz.
— Sim, eu me vejo sendo uma deles. Eu me vejo com os olhos vermelhos e com aquele manto preto...
— Sendo da família?
— Sim, como se de repente não fosse apenas Aro, Caius e Marcus. Nas minha visões é concreto: Aro, Caius, Marcus e... Eu.
— Querida, talvez não seja oque você está pensando...
— Eu faço ideia do que estou pensando. Está tudo tão confuso. Mas isso não é o que mais me assusta.
— E oque te assusta?
— As visões borradas. Estão tampadas como se um véu estivesse em cima. Eu posso ouvi-las, mas não posso vê-las.
— Talvez seja porque é um futuro muito distante. Ou porque alguém não tomou uma decisão ainda.
— Não, eu não acho seja algo assim, Carlisle. Eu não sei oque está acontecendo, mas alguma coisa me diz que isso é só o começo.
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