Notas iniciais
Bem vindas, digníssimas concorrentes!
Well, passei a semana inteira lendo os comentários, revisando textos, degustando e apreciando a valorização de Concorrência no mercado de fanfics (risos), em todos os momentos a ansiedade me matando. Eu fiquei em casa todo o feriado, obrigada por perguntar, lendo meus livros de banca e relutando em concluir a leitura de O Mágico de Oz; também fiquei pensando muito em postar este capítulo cinco (que é o meu preferido, tsc tsc), dá-lo de presente as minhas concorrentes fabulosas, devoradoras de mistério e adoradoras de bestas multicoloridas... Mas sabe o que é? Decidi matá-las mais um pouquinho. Não faz mal! Ou será que faz? Bem, agradeço às muito fofas, comentadoras de carteirinha, Mayara Lima, Amando, Tumn Cipriano (hey, Tumn, você já leu Finale?), Carolina Romeny, Emma Ricce, aku_chan, e a comedora de pizza, alokpoynter (garota, da próxima vez traga um pedaço para a autora.). A esta última, principalmente, por fazer aquele procedimento legal quem vem se tornando um ritual em Concorrência de favoritar e recomendar. NÃO QUE EU ESTEJA RECLAMANDO, rs. Adoro quando me adulam com adjetivos tão belos quanto o próprio amanhecer.
Em contraproposta, venho responder alguns questionamentos para lá de compreensíveis, ao longo dos comentários, que vinha ignorando indeliberadamente:
1. Yep, Rehvenge aparecerá mais vezes. É como um spoiler, porque continua sendo patrão da Mary, e eu nem deveria estar falando isto aqui. Respondida, Tumn?
2. Fritz já possuiu uma companheira vinculada. Este último veio de alokpoynter, muito curiosa para uma concorrente caloura (risos).
3. As respostas que vocês exigem desde o CAPÍTULO DOIS, quanto a alimentação de Rhage (mano, eu estaria me descabelando até agora), serão respondidas durante o capítulo cinco e o capítulo sete.
4. Senhorita Mayara Lima, sim, o Rhage está fazendo algo mais! Mas não conte para ninguém que lhe disse isto.
5. E gostaria de fazer uma objeção, rápida, sobre o assunto POSTAGENS: eu sou lerda demais para escrever. Quando não gosto de um detalhe, vou lá e reescrevo. Os capítulos estão demorando para sair, porque demoro para entremear os fios que fazem Concorrência encaixar-se na categoria Mistério. E agora, no capítulo que estou escrevendo, aparece uns mil personagens, e eu tenho que procurar um lugar para que nenhum deles fique ocioso e seja só de enfeite. Podem contar com isto: todos os personagens terão uma participação no mistério de fundo da história. Minha lerdeza acaba influenciando nas postagens, e apenas por este motivo, posto uma vez por semana. Que eu me lembre, foi assim desde o inicio e não planejo mudar, porque se eu postar todos os capítulos que tenho, fico sem um para casos de emergência (risos).
6. Por último, minha opinião sobre A Viagem do Tigre: Mano, mata a Kelsey! Já havia lido a crítica do livro - uma crítica ofensiva devo dizer -, mas achei que não seria tão forte! Meu Deus. E estou achando que o filho que ela terá será do Lokesh, para salvar os tigres, mas é apenas uma suposição. E o Dhiren? Gente, que filho duma égua, se me permitem a palavra. Sem falar do Kishan, que é um verdadeiro troglodita idiota. Kelsey sabe que ama o Ren, mas dá ouvido pro Pet, e fica com o Kishan. Isto está mais Crepúsculo que não sei o que, na parte em que Bella tem uma visão de si mesma com a pança na goela, em Eclipse. Em suma: odiei. Só continuarei a ler para rir da cara dos babacas do Dhiren e o do Kishan. Besitos.
Sem mais, Blackxx
Boa Leitura!
Músicas do capítulo (na ordem):
Battery (Metallica)
"Slightly Amped" [Live in Lehigh Valley] (Black Label Society)

CAPÍTULO 5

“O sábio disse: apenas siga este caminho/ Até o alvorecer da luz.” — Scorpions, Send Me an Angel.

~~~∞~~~

Havia mais ou menos duas horas em que estavam ela, Rhage e um pequeno senhor calvo sentados em volta da mesa de centro da biblioteca da mansão. Mary gostaria de ter degustado algumas horas dedilhando os livros, lendo as lombadas, deliciando-se com o cheiro de couro e papel, porém nem mesmo seu pé — agora um incômodo trinta e oito nada feminino — pisou no tapete persa lindamente desenhado, Rhage puxou seu cotovelo, apresentando-a ao senhor, aparentemente humano, forçando-a a sentar-se como uma anfitriã.

Ela não tinha certeza, após a noite turbulenta e a madrugada insone, de que realmente parecia-se como uma anfitriã. Contudo, Rhage mandou um belo terninho preto, — composto por uma saia lápis e blazer de corte moderno e uma blusa manga longa de seda — com ordens expressas de deixar o cabelo solto e manter uma maquiagem suave. As meias de renda e a Mary Jane preta em seu pé eram de responsabilidade dela. Logo quando desceu as escadas, ela preveniu-se de não esticar muito as pernas, ou o macho de olhos quentes e expressão dura abaixo iria visualizar não somente as suas lindas meias de nylon com final rendado, mas também as ligas e as calcinhas cor pêssego.

Ele também estava comestível. Com uma camisa social bem engomada, calças de brim pendendo nos quadris, comparada a ele, Mary avaliou-se como uma advogada de porta de cadeia. Mas tudo bem: ninguém poderia ser a abelha rainha sempre. Sem mencionar, oh sim, o cabelo loiro derramado em suas feições duras, rebeldemente desalinhadas, a antítese completa de seu dono. Rhage possuía traços mais bem conservados naquela manhã, mais suavizados. Além da barba bem feita, seus olhos perderam a ansiedade, o desespero e a fome. Procurando pela conexão que mantinha com Rhage, encontrou-a, mas enfraquecida. Porém, pelo que pôde sentir, ele estava mais calmo. Seu sentimento nostálgico quase que... Apagado.

Seu peito afundou-se com a constatação.

Ele estendeu uma mão grossa para ela, quando alcançou o último degrau. Rhage a examinou, avaliando seu corpo de uma maneira boa, como se gostasse do que visse; ele dedilhou o caminho de botões de o blazer que terminavam no baixo ventre. Sua mão continuou firme sobre a dela, prendendo-a, enquanto girava trezentos e sessenta graus, levitando como um satélite. O olhar quente, perscrutador, continuou fixo em sua imagem enquanto segurava seu queixo, erguendo-o, inexorável.

— Ouça-me, e ouça-me bem — disse ele, tão próximo que Mary sentia o calor que exsudava de sua pele. — O homem que vem aqui é importante para os negócios. Não para os meus ou os da Irmandade, mas exclusivamente para os seus. Estamos o recebendo em pleno dia, com a fachada humana. Então vem a parte importante: você não rirá, ou abrirá estes belos lábios para mais uma coisa senão falar. Falar o mínimo possível. Estas lindas presas não possuem um bojo para guardá-las, e consequentemente, escondê-las. Evite as gracinhas hoje, Marilyn. Do contrário, teremos de fazer as coisas não muito limpas, o que afetará a sua integridade, e já não tenho muita paciência pro seu lado mártir.

Ainda segurando seu braço, puxou-a em direção à sala escura e sem detalhes; se Mary tivesse de vir sozinha, acabaria por se perdendo e passaria pela sala sem nem ao menos notar. Totalmente discreta, diferente do resto da casa que gritava o poder esdrúxulo de quem vivia, a biblioteca parecia ser o recanto intelectual. O pequeno casulo neural que contrastava com a futilidade luxuosa que transpassava pelos cantos e arestas. O tom marrom, quente, complementado por uma lareira à lenha antiquada, como nos tempos medievais, deram um conforto amável a aparência rústica e primitiva do ambiente. Mary passou as vistas pelas estantes que cobriam as paredes com tijolos expostos, do chão ao teto, com exceção de pequenos espaços com poltronas aparentemente confortáveis e uma amoreira plantada em um jardim de inverno, protegida por vidro temperado, como um ensaio. Ela lembrou-se da rosa de Fera, aquela que Bela achou, e imaginou qual seria a atitude de Rhage se por um acaso colhesse uma das amoras amadurecidamente roxas.

Em frente à lareira, um homem baixo e calvo, com os cabelos negros complementados por um bigode farto, aguardava-os. Ele mantinha uma postura relaxada, quase convincente demais para um humano, mas seu cheiro revelava o bastante: ele estava com medo. Muito medo mesmo. Ela não soube se apenas da inusitada biblioteca neandertal, da presença de Rhage, ou dos biscoitos de leite condensado descansando na mesa de centro; provavelmente eram todas as coisas juntas, ou qualquer coisa psicológica que o alertava do perigo da situação. Claro!, aja naturalmente na presença de dois vampiros — um que provavelmente comeria seu fígado e moeria seus ossos com você ainda vivo e outro que era aparentemente inofensivo mas com um desagradavel apetite por sangue fresco. Ele estava tão bem vestido quanto qualquer homem classe média, um empresário ou diplomata, com seu terno risca de giz perfeitamente engomado, exalando um discreto aroma de madeira e laranjeira.

Da lareira, quase imperceptivelmente, dissipava um perfume de lavanda. O clima estava quente, agradável, confortável, deliciosamente rico.

— Bom dia, Sr. James — falou Rhage, estendendo uma de suas mãos enquanto com o outro braço enrolava a cintura de Mary.

O homem miúdo, talvez um texano, levantou-se com toda a graça de um camelo, estendendo uma mão gorducha. Mary imaginou o homem com um chapéu de caubói, falando de carne e montado em um corcel, talvez resgatando uma bela morena de um bando de ladrões no Velho Oeste.

— Bom dia, Sr. Tohrtureson — disse ele, com um carregado sotaque do sul, bem como Mary imaginava. — E a senhorita deve ser Marylin Lucevaille Ahgonyson.

De esguelha, com a sua minuciosa e mil vezes mais sagaz visão periférica, Mary percebeu uma careta por parte de Rhage.

— Oh, sim, sou Marilyn Lucevaille — ela apertou a mão estendida. — Quanto a outra parte... Desculpe-me — ela fez uma careta, olhando Rhage, duvidosa.

Rhage pigarreou, apontando as poltronas em volta da mesa servida de café, chá e biscoitinhos; ela soube que tinha dedo de Fritz naquela recepção.

— Vamos no acomodar, por favor. Precisamos estar confortáveis para esta conversa.

Após Mary ser servida por Rhage com uma xícara de alça alta com chá de limão e uma porção de creme, biscoitinhos e estarem confortavelmente acomodados nas poltronas de respaldo alto e assento de couro acolchoado, aquecidos pelo magnífico fogo azul e verde da lareira de pedra, o advogado Philip Auguste James começou a desfiar o seu terço.

Phury Ahgonyson, pai de Mary, deixou-a uma generosa herança de mais de dez dígitos. Isto fora tudo o que Mary compreendeu do palavreado redundante e cansativo do texano; isto e que era uma milionária, com suas propriedades divididas em imóveis, ações de multinacionais e contas espalhadas por vários países. O homem parecia contido, mas suas palavras não mascaravam a intensidade da inveja que exalava de todos os seus poros. James não parecia intimidado ou sensibilizado com o fato de Phury ter morrido, de fato, havia um pouco menos de três meses. Apesar de Mary não conhecer o seu pai, deveria pensar, ela estava rica, não só rica, mas muito rica.

Os dez primeiros minutos foram passados com um palavreado burocrático, algo de que Phury havia requerido o reconhecimento de Mary legitimamente havia algum tempo, e mesmo com um detetive contratado procurando a ela e a sua mãe, sempre que seu endereço era oficializado, elas retiravam-se antes que Phury — oh, o pai arrependido — entrasse em contato. E um outro assunto que uma dita cuja pensão que começaria a ser dada a ela após os seus vinte e três anos, sendo retirada dos juros que suas contas suíças rendessem. Depois, uns bons trinta minutos foram investidos em suas propriedades, começando pelas mais próximas, depois as mais caras, continuando aleatoriamente (James reclamou que Rhage havia exigido sua presença, não dando-o tempo de organizar-se); ela perdeu-se em tédio e cansaço após a descrição irritantemente detalhada de um apartamento qualquer na Irlanda.

O advogado, aquele gorducho anão, ainda falou-a dos automóveis e motos, todos guardados na garagem da mansão. Uma minuciosa descrição, assim como todos os documentos designados à sua pessoa para declarar a autenticidade de sua fortuna, foram empilhados na mesinha. O advogado parecia relutante em declará-la filha e afortunada órfã de Phury Ahgonyson. Ela imaginou que sua resignada relutância tinha haver com o fato de abandonar aqueles papeis a uma pessoa que já tinha muito, ou talvez, fosse apenas egoísta e não quisesse ver aqueles números com uma pessoa que não fosse ele.

Por todo o falatório, Rhage esteve ao seu lado, enchendo a sua xícara ou dando os biscoitinhos em sua boca — o advogado parava bruscamente o que estava dizendo, avaliando. Em alguns momentos, Rhage retirava os fios multicoloridos de seu rosto, puxando-os para a sua orelha, ou apenas jogando para trás; ele parecia estranhamente atento às suas necessidades, não parecia deliberar estar satisfazendo o que fosse necessário para torná-la confortável: apenas fazia. Como um antigo instinto.

Ao fim, com um suspiro acovardado, voltando a exalar o cheiro fétido da inveja, Philip Auguste James, entregou-a um último documento.

— Este é o primeiro documento requerido pelo Sr. Ahgonyson, Srta. Lucevaille. De acordo com as justiça americana, você não é a filha dele e, portanto, herdeira de sua fortuna. Para tornar-se receptora majoritária da fortuna de seu pai, tudo o que tem de fazer é assinar este documento, tornando-se assim, a partir de hoje, Marylin Lucevaille Ahgonyson.

Por um longo momento, Mary ponderou.

— Não sou a única beneficiária?

Ele tossiu um pouco.

— Seu pai possuía um segundo herdeiro, Srta. Lucevaille. Sinto muito.

Ele olhou-a como se ela fosse uma sanguessuga, uma caça-fortunas, considerando-a um bebê de Rosemary, quando ela era a que menos se interessava por esses milhões de dólares.

— Não lamente. Não há nada o que lamentar, exceto que você gostaria de um bocado do meu dinheiro — disse ela, a voz cheia de ácido.

O homem olhou-a ofendido, recusando-se a revelar seus verdadeiros sentimentos quanto a foturna. Ambição e raiva relampejaram em seus olhos de fuinha

— Desculpe-me?

Mary levantou-se, passando as mãos para desamassar a saia. Satisfeita, levou a mão ao cabelo, retirando a franja dos olhos.

— Posso não ter conhecido ao senhor meu pai, mas é bom que fique sabendo que nunca necessitei deste dinheiro em toda a minha vida, e não é agora que vou matar por ele. Não sei o porquê de estar me explicando a um advogado mequetrefe como o senhor, nem mesmo imagino como um homem como o meu pai pode ter pensado em você para defende-lo em causas jurídicas, mas já que estamos aqui, gostaria de esclarecer que está demitido de seus encargos, começando por agora. O outro beneficiário ficará sabendo pela boca de um outro advogado. De preferência um que esteja desinteressado nas verdinhas que entrarão em seu bolso. E agora faça-me um último favor: suma. Imagino que o senhor já deve ter descontado o seus honorários das contas suíças de meu pai, então não há necessidade de mais um cheque gordo em seu traseiro igualmente gordo. Se quiser me processar, processe. Mas não ficarei calada enquanto me difama.

O homenzinho, agora mais zinho do que nunca, encarava-a com os lábios entreabertos, tentando processar a verborragia que Mary acabara de sofrer. Os olhos ansiosos e medrosos, possivelmente por Mary ter descoberto o seu método mais sujo de arrecadar fundos que a aposentadoria não pagaria, a sua mascara de advogado honesto que cobria as probabilidades de um golpe, mas muito visíveis para uma filha com poderes oniscientes, esquadrinharam toda a sala, buscando auxilio. Auxilio justamente com Rhage.

— Deveria conter a sua esposa.

Impassível, com uma voz deformada, Mary grunhiu.

— Saia. I-me-di-a-ta-men-te.

Sem pensar duas vezes, o homem levantou de sua cadeira. Olhou mais uma vez para Mary, desta vez com a cobiça e a ira cobertas por uma camada de aversão, enquanto falou:

— Todo este dinheiro atrairá mercenários como moscas a um pote de mel. Cuidado.

O que não contava, este infeliz advogado, que sussurrar estas palavras de nada adiantaria. Seus receios estavam prestes a se realizar, aqueles instintos íntimos que apitavam a sirene de alerta de forma discreta, o perigo de cutucar uma besta. Cutucar uma besta vinculada.

Preso em uma sala com dois vampiros de audição potencializada, que ouviriam este sussurro a quilômetros de distancia, o pobre, infeliz e patife advogado só pôde gemer quando Rhage pulou de sua poltrona, onde esteve quieto e calado, contido pela fachada humana, agarrando-o pela lapela do terno, sacudindo-o, enquanto rosnava.

Mary viu-se voando, batendo no respaldo de seu antigo assento, enquanto assistia a cena aonde os olhos de Rhage brilhavam intensamente, em um branco puro e limpo, um ameaçador rosnar rasgando seus dentes, os seus punhos como garras no rosto do advogado, os dentes, as preciosas adagas minúsculas saindo de seus bojos, alojando-se em seu lábio inferior por pouco tempo, brilhando belamente em um tom perolado antes de ajustar-se na jugular do homem... Bebendo. Ele rosnava ininterruptamente, zangado e insatisfeito, enquanto rasgava a garganta do homem paralisado pelo choque — Mary já havia verificado os batimentos cardíacos de James. O advogado permaneceu com uma careta de dor, movendo-se apenas por reflexo aos movimentos de Rhage, seu rosto ficando pálido como leite, seus olhos ganhando uma aparência doentia. Mary nunca em sua vida humana havia testemunhado tamanha cena, esta dor que não poderia conter, tão intensa que paralisava, tão aterrorizante que chocava, tão doída que matava. Nos filmes de terror e carnificina que assistira em sua infância nunca aparecera algo que a chocara de maneira tão intrigante; ela sentia pesar, mas o arrependimento ou a dor apenas... Não vinha. Como se fosse insensibilizada pela dor sentida por aquele ser humano.

Aparentemente satisfeito, Rhage ergueu sua cabeça, retirando as presas da carne morena do homem, que gemeu em protesto. Um chorinho tão triste quanto o ganido de um cachorro atropelado.

Mary sentiu um forte instinto de déjà vu quando Rhage falou com a voz inexorável e retumbante, ainda rouca da alimentação e da raiva.

— Ouça-me e ouça-me bem — rosnou ele, os nódulos dos dedos brancos da força exprimida em segurar o advogado. — Você, homenzinho desprezível, ratazana nojenta, criatura medíocre: não ouse ameaçar o que é meu novamente, está entendendo? Não se aproxime nem um centímetro dela, não respire o mesmo ar, não se dirija a ela, esqueça que ela está no mesmo recinto que você. Esqueça de Marilyn Lucevaille, de Phury Ahgonyson e de mim. Esqueça desta casa, e quando sair daqui, volte para o inferno de onde veio e tenha a vida mais infeliz possível. Vá e siga minhas orientações, pois estou sendo benevolente. Caso contrário morrerá: porque não vive quem ameaça o que é meu.

Rhage continuou rosnando como uma fera, incontrolavelmente, seus olhos brilhando tão intensamente que refletiam no vidro que protegia a pequena amoreira. Relutante, soltou o advogado, que desviou de Mary, caminhando como se simplesmente não houvesse ninguém no espaço de três metros que os separava. Ele encostou-se na estante, de maneira rente, causando alguns machucados em seu rosto, respingando o sangue de seu pescoço em sua camisa alva e não tão bem engomada quanto antes; sua gravata em desalinho, sua barba com falhas, o terno rasgado soltando o preenchimento. Aquele homem não parecia distinto e honesto como há duas horas. Ele parecia desafortunado, acabado e um sobrevivente após ser atropelado por duas carretas consecutivamente.

Ofegando, esgotada, mas não temerosa, Mary assistiu a partida do formado em direito com honrarias, o advogado Philip Auguste James. Ela levantou-se sobre os saltos quinze centímetros da Mary Jane preta de tiras, seu reflexo perfeito, suas pernas estáveis, nada medrosa ou trêmula como deveria estar. Ela não se encontrava no estado espiritual em que deveria estar um ser humano comum após presenciar a cena.

Então se lembrou, esporadicamente — como todas as vezes —, de que esta definição já não lhe cabia. Ser humano, na opinião preconceituosa de Rhage, é ser fraco e frágil, não ter auto-estima ou visão analítica. Talvez ele confundisse ‘humano’ com ‘esponja’.

Seus pensamentos voaram para Rhage, avaliando o seu pequeno discurso e sua reivindicação, decidindo que a conversa que tiveram havia apenas dois dias não valeu de nada. Pelo visto, pensou ela, gastei saliva a toa.

E pelo incrível que pareça, ela não se incomodou.

Rhage continuava impossível, andando de um lado para o outro, com o sangue do advogado espalhado por seu queixo e seus lábios, as presas ainda compridas o bastante para machucá-lo; talvez a necessidade de sangue ainda o pusesse louco. Apenas o aviso não parecia ser o bastante, nem a marca que duraria semanas ou um mês na carne do homem. Demorou um tempo para estabilizar-se emocionalmente, os sentimentos suficientemente conflitantes para deixá-la paralisada por meses, o seu olfato extremamente aguçado, assim como sua audição; quando finalmente conseguiu acalmar-se, Mary moveu-se, pela visão periférica observando o modo como Rhage quase caminhou em sua direção, retrocedendo por poucos segundos de distância. Ela digitou o número de Fritz, sendo atendida no terceiro toque.

— Fritz? — perguntou Mary, aflita.

— Sim, ama — respondeu Fritz, solene.

Ela batucou os dedos na mesa de mogno onde ficava o telefone, o único traço de modernidade na sala.

— Ouça-me, Fritz — Mary ficou tentada em usar o bordão de Rhage. — Saiu daqui um convidado nosso. As coisas não ficaram muito boas, e é dia. Gostaria que limpasse a nossa bagunça.

Mary estava sendo demasiada e excepcionalmente evasiva, mas contava de que Fritz fosse um funcionário para lá de excepcional, do tipo que chega a ser perseguidor quando o assunto é o patrão. Um verdadeiro cão guia.

— Ama, se do que fala é o sr. Philip Auguste James, já cuidei dele. Dei-lhe um comprimido de paracetamol e um pedaço da torta de morango, embora necessitei de mais dois funcionários para retirar-lhe as roupas rasgadas — Fritz riu um pouco. — O senhor Rhage fora bastante imprudente desta vez, com a compulsão do homem de ser infeliz, mas não devo discutir com o amo, não é mesmo? Se bem que este homem merece.

Fritz continuaria a falar se Mary não houvesse interferido.

— Não havia possibilidade de ser trabalho meu? — ela sentia-se quase que ofendida.

— Ama, minhas sinceras desculpas, mas és tão má quanto uma gatinha desfiando um novelo.

Mary quase bateu o fone na cara do mordomo, de tão irritada que ele lhe pôs.

— Traga uma blusa de seda para Rhage, junto com toalhas frias — sem mais, desligou o telefone.

Ela respirou fundo duas vezes, necessitando relaxar para conseguir pensar claramente; o comentário de Fritz sobre a sua possível passividade a afetou mais do que devia. O que aquilo significava? Não era uma vampira de verdade? Isto não é possível! Consumiu sangue três vezes, como as normas vampirescas exigiam, de um macho forte. Por um acaso ser vampiro significa sair atacando meio mundo de gente, ao léu, ao bel prazer assassino e sanguinário? Se o ato de beber sangue não mataria sua sede, ou o de matar não cessaria sua fome, por que então teria de debandar-se para o lado bélico do vampirismo? Mary não poderia aproveitar a eternidade em shoppings ou shows, deliciando-se com sua fortuna de dez dígitos? Teria de mostrar suas presas e atacar? Fazer o que Rhage acabara de forçá-la a testemunhar?

Pensando em Rhage, ela apoiou o queixo no ombro, observando o vampiro loiro descabelar-se, tenso; seu rosto refletia a confusão que sentia profundamente na alma, e mais uma vez, no intimo de Mary, veio aquela vontade aflita de confortá-lo. Cantar, colocá-lo no colo e dizer que o mundo não poderia engoli-lo e que tudo daria certo, que os dois, unidos, dariam um jeito. Aquela sede primitiva de tê-lo dentro de si estava ali, resguardada, apenas esperando para atacar. Ela não poderia aproximar-se de esguelha, senão, de uma hora para outra, Rhage obteria o controle de sua vida. Suspirando, retirou a franja da testa e aproximou-se dele.

Ao ver sua aproximação, Rhage estancou. Mary notou que um mínimo tremor passar por seu corpo, arrepiando os pêlos mínimos espalhados por todo o corpo dela. Ela ofereceu-lhe uma mão, o seu braço sendo o único obstáculo entre os dois, as suas unhas roçando na camisa dele, sentindo a suavidade e o calor que sua pele emprestava ao tecido. O pomo de adão dele moveu-se, nervoso, enquanto os olhos com pupilas negras fitavam os dedos terminados em unhas rosa choque. Ela viu as linhas de tensão suavizando-se, sumindo de seu belo rosto bronzeado, tornando-se transparente e desaparecendo em alguns instantes — a linha que havia ao lado de sua boca também sumiu, assim como o vinco na testa e ao redor dos olhos. Rhage suspirou, acalmando o que quer que houvesse dentro dele, a tempestade que mais parecia um tufão, oferecendo-lhe olhos cálidos e sensíveis. Ambas as mãos quentes e grandes seguraram a sua, como um bote salva vidas para um naufrago.

Aquele gesto, as três mãos sustentando-se, fora mais que um ato confortador; fora o perdão que Rhage necessitava, e Mary estava disposta a dar. Fora a desculpa pelo desafio imposto, pela discórdia, pelos xingamentos e insolência velados, pelas dores, pela culpa. Fora o reinicio, uma reapresentação, uma nova iniciativa para duas pessoas desgastadas, os olhos conhecedores das estradas da vida olhando-se pela primeira vez sem o ódio, o rancor, a tristeza, a amargura ou o que é mais triste — a esperança. São duas pessoas que viveram o que a vida impôs, sem titubear, sem refrear os acontecimentos posteriores, um mais infausto que o outro, roubando-lhes o horizonte azul diversas vezes seguidas, deixando-os em cacos, o resto, uma sombra do que um dia foram. Contudo, a mesma entidade aparentemente maléfica os uniu, juntando metade com metade que dá um.

Mas, o que tal entidade não esperava era a negação, a resignada, tenaz e egoísta negação de Mary.

Não esperava que a humana fosse amargurada, ainda com as feridas abertas e sangrando, disposta a tudo, desde que seu coração não se magoasse. A tal da entidade não sabia no que estava se enredando quando cruzou os caminhos de almas sofridas e opostas: uma com centenas de anos, mas ingênua quanto uma criança, e outra tão velha quanto o próprio mundo. Todavia, estava disposta a corrigir seu enredo distorcido e sorumbático, unindo-as e enlaçando-as de maneira distinta e eficaz.

Duas metades, apolares, unindo-se como se tudo o que pudessem fazer para evitar um homicídio duplo era amar-se.

— Rhage — chamou Mary, usando sua mão livre para afagar o rosto suave e esperançoso dele.

Rhage sorriu, soltando sua mão tempo o suficiente para passar os braços por sua cintura, aonde voltou a segurá-la, prendendo-a contra seu corpo. Ele suspirou, aliviado e estranhamente satisfeito, a briga com o advogado bem distante em sua mente, sua própria raiva controlada, apenas por Mary estar próxima... Em seus braços. Rhage parecia uma criança, contente por um show circense, ou uma bala muito doce, respirando o seu perfume favorito, sentindo a textura de um abraço verdadeiramente terno. Mesmo que Mary recusasse-se em admitir, ela mesma desfrutava da sensação de estar agarrada a Rhage, confortando-o. Dando o que ele necessitava. Submissamente.

A bolha fora bruscamente irrompida quando duas batidinhas delicadas ressoaram na sala. Rhage enfiou o nariz em seus fios coloridos, beijou sua testa e soltou sua mão, dando-a a opção de ir ou não. De livrar-se do peso de estar ao seu lado, aguentar seus ataques irados, sustentar os seus medos e desafiar a vida, desfrutando-a de maneira intensa. Ele deu-a a escolha.

E Mary foi atender a porta.

Ela preferiu não assistir o rosto doce e onírico de Rhage desfazer-se, transformando-se em uma carranca trágica; contudo, sentiu a mudança drástica de clima, a temperatura arrefecendo pelo ódio de um macho que fora renegado amiúde. Mary poderia ver, com a sua nuca, os dedos de Rhage enrolando-se para dentro de sua mão, formando punhos mortais. Ela poderia ver as reações de seu corpo, sua mente funcionando a mil, e entendeu o significado de seus sentimentos. Não como uma epifania, que a faria parar do nada, respirar fundo e chorar. Mas entendeu que Rhage respeitou seu espaço, e engoliu a merda que lhe fora dada há alguns dias apenas por querê-la tanto que forçá-la e pressioná-la a aceitá-lo a fariam correr. Entendeu o sentido de toda aquela devoção, e que ele a respeitava antes de qualquer outra coisa. Ele a via como um igual.

Ao receber a camisa de seda branca alva que sob a iluminação do correr brilhou, doendo seus olhos, e as toalhas que pediu a Fritz, ela sorriu-lhe, pedindo que não incomodasse a menos que ligassem, apenas gesticulando com os lábios. O velho homem sorriu, anuindo.

Devagar, ela virou os calcanhares. Deparou-se com a cena imaginada em sua mente, aquele homem grande como um troll, mas temperamental e docemente emburrado como uma criança. Deixando o que lhe foi entregue em cima da mesinha, sobre o telefone, encostou-se na porta, encontrando a chave, virando-a lentamente, dando o gostinho de o som rolar pela sala, chegando aos ouvidos super desenvolvidos de um Rhage encantadoramente confuso. Suas sobrancelhas franziram-se, sua testa vincada, seus olhos questionadores encarando-a como se fosse louca. Talvez eu seja, pensou ela, caminhando em sua direção, determinada.

Mary olhou em seus olhos, pensando em seus questionamentos sobre o que é ou não ser vampira; de sua passividade e da confusão que caiu em sua vida logo após a transformação, sobre as dúvidas, sobre o medo, sobre a inveja, e sem querer escapulindo o nome de Raven Stoneword e seu assumido ciúme sobre os livros e quem os deu. Mary olhou, encarando as profundidades azuis, os doces encantos, a magia que havia ali dentro — talvez fossem as luzes fluorescentes, mas ali havia algo mais. Com certeza.

E ela estava disposta a aceitar tudo o que Rhage pretendesse dar a ela.

Então, o beijou.

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Notas finais
(silêncio fúnebre)
Como sempre, destaque para favoritações/recomendações, coisa mais que de praxe em Concorrência: Bem vinda, alokpoynter, ao time titular de concorrentes! Você é mais que bem vinda ao nosso mundo fantástico em desenvolvimento. Sem falar nos comentários mais que belos que recebi pelo capítulo quatro. Respostas das perguntas feitas postadas nas Notas Iniciais. Voltando a Concorrência: Olha, pessoal, fiquei realmente zangada com a Mary. Ela foi rejeitada no capítulo anterior. Hêllo-ou. Acorde, sim? But, o Rhage parecia vulnerável o bastante para ceder, vocês não acham? Ou foi apenas impressão minha? So... Odeio advogados meia tigela. Sério, rs. Esse James só queria meter a mãozona na grana da Mary. Desta vez, não farei um supertexto, porque o próximo capítulo não precisa nem de comentários adicionais. GRAÇAS A VIRGEM TEM ALGUÉM QUE OUVE AS MÚSICAS QUE EU INDICO! (alokpoynter, grazie!) Gostaria de dar dois avisos: o próximo capítulo vai ser um pouco menor e, é possível, que apareça mais um personagem. Bom, fantasminhas, venham para a festa conosco! Comentem! Expressem suas opiniões (sorri). Beijo da Blackxx
p.s.: Já havia prometido para mim mesma que nem ao menos comentaria sobre isto, mas, cara, eu fico MUITO triste pelo fato que relatarei agora: eu possuo 19 leitores regulares, de acordo com o Gerenciador de Histórias. Tenho 4 favoritações/recomendações. Ok. Isto é bom para uma autora novata. Mas tenho... 39 comentários, contados até o capítulo 4. Que é isso? Postei SEIS vezes, para dezenove pessoas, e cadê o reconhecimento? Acho isso injusto. Eu escrevo baseada com as reações de vocês. Apenas vocês farão a história ir mais rápido. Bom. Em prol do reinicio das aulas, e pelo tutorado da alokpoynter (risos), não há postagens previstas. Além do quê, o capítulo oito não está concluído, assim como nem comecei o capítulo nove. Beijos, e fiquem na paz!